Às terras a sul do Tejo correspondiam as grandes unidades administrativas. Segundo o Numeramento de 1527-1532 existiam a sul do Tejo cento e vinte e sete unidades administrativas com uma área média de trezentos quilómetros quadrados, enquanto a norte se contavam quinhentas e sete unidades com uma área média três
vezes mais reduzida.98
Escassamente povoadas, com baixa densidade populacional, mantinham as suas populações uma tradição urbana que remontava aos períodos romano e muçulmano, pelo que, no século XVI, das cidades ou vilas com populações de cerca de cinco mil habitantes, ou mais, à excepção de Lisboa e Porto, oito situavam-se a sul do Tejo:
95 Cit.Félix Caetano da Silva, “História das antiguidades da Cidade de Beja”, in Arquivo de Beja, Vol. V,
Fascs. I e II, 1948, pp. 199.
96
Machial, amexial ou amechial: terras – herdades, matos e montados – situadas fora dos coutos da cidade, em terras de “légua afora”, utilizadas para o pascigo dos gados (Cf. Manuel Lourenço Casteleiro de Goes, Beja xx séculos de História de uma Cidade, Tomo I, Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1988, p.305).
97 Esta renda, chamada “renda das galinhas”, ainda em 1824 rendia cerca de 160 bicos, pagos aos oficiais
camarários, tendo sido cobrada até 1837. (Cf. idem, ibidem, p. 305).
Évora, (11.252), Beja (4.820), Portalegre (4.896), Elvas (7.664), Setúbal (4.880), Tavira (6.268), Lagos (5.240) e Portimão (6.000). A norte do Tejo apenas Coimbra e Guimarães se lhes equiparavam em população. No século XVII, neste mesmo espaço transtagano, juntavam-se-lhes as povoações de Nisa (6.240), Estremoz (8.800), Vila Viçosa (8.000), Montemor-o-Novo (8.000), Alvito (8.000), Moura (8.000), Serpa
(7.200), Faro (8.800) e Olivença (7.200).99
Aquando da realização do Numeramento, albergariam as terras a sul do Tejo cerca de ¼ da população do País. Calcula-se que o Alentejo teria então cerca de 195.184 habitantes. Entre meados do século XVI e meados do século XVII esta população teria duplicado, tendo-se verificado os maiores acréscimos no território hoje adstrito aos distritos de Beja e Setúbal. Considerando esta possibilidade relativamente ao termo de Beja poder-se-á propor como hipótese explicativa para tal facto a fertilidade dos solos do termo de Beja, os denominados barros de Beja, as terras de melhor aptidão cerealífera de todo o Alentejo, suficientemente produtivas para suportarem uma
população em crescendo.100 Propomos, contudo, uma outra hipótese, complementar
desta, como possível explicação para o surto urbano então experienciado por Beja. Elevada a cidade em 1521 por graça régia que lhe foi concedida por D. Manuel I, ainda
que já tivesse tratamento de cidade desde 1518101, feita ducado ainda em tempo de seu
pai, o Infante D. Fernando, teria Beja beneficiado, então, do favor da casa real e conhecido o seu mais feliz período de crescimento urbano. Datam, aliás, deste período alguns dos mais notáveis edifícios citadinos: o Hospital da Misericórdia, a Igreja da
Misericórdia, o Convento de Santo António e a Ermida de São Pedro.102
Se na época moderna os dois grandes surtos urbanos correspondem a períodos de prosperidade baseada no comércio ultramarino, o período manuelino e o período
99 Cf. Maria Fernanda Alegria, “O Povoamento a sul do Tejo nos séculos XVI e XVII - Análise
comparativa entre dois mapas e outras fontes históricas”, in Revista da Faculdade de Letras-Geografia,
1.ª série, vol. 1, Porto, 1986, pp. 189-190. Disponível em
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/artigo7221.pdf. Consultado em 25/05/2011.
100 Cf. idem, ibidem, p. 190.
101
Cf. Manuel Lourenço Casteleiro de Goes, Beja xx séculos de História de uma Cidade, Tomo I, pp. 380-381.
102 Vd. descrição das igrejas e conventos pacenses in Manuel Lourenço Casteleiro de Goes, Beja xx
joanino103, a esta circunstância, favorecedora do todo nacional, acresce em Beja, no período manuelino, o particularismo local da sua estreita ligação à casa real, condição favorecedora da concessão de mercês e progresso material.
Em 1504, D. Manuel I acedeu ao pedido que lhe foi feito pelo senado bejense no sentido de permitir que a urbe se pudesse expandir para fora da cerca, de forma a acompanhar o crescimento da população, a qual também reivindicava terras para o plantio de vinha, a cultura que melhores rendas proporcionava ao Concelho e à fazenda real.104
Não é consensual, entre os historiadores, a evolução demográfica verificada no País ao longo dos séculos XVI e XVII. Ao momento excepcional que corresponde à realização do Numeramento escasseiam dados para o período posterior. Teresa Ferreira Rodrigues considera que entre o Numeramento e meados do século XVIII a população
portuguesa não chegou a duplicar.105
Maria Fernanda Alegria, contudo, se nos dá o número de quatro mil oitocentos e vinte habitantes para Beja, tomando como fonte o Numeramento de 1527-1532, afirma
que no século XVII a cidade teria doze mil habitantes.106 Semelhante quantitativo nos é
dado por Joaquim Veríssimo Serrão pois que, considerando a contagem feita pouco antes da Restauração, que terá tido como objectivo o recrutamento militar, indica-nos para Beja, em 1637, uma população de três mil vizinhos o que, utilizando o coeficiente
de multiplicação por quatro, nos dá aproximadamente doze mil habitantes.107
Félix Caetano da Silva na sua História das Antiguidades da Cidade de Beja, datada de 1792, diz-nos:
“(…) Dividesse em quatro Parrochias, que são a de Nossa Senhora com o titulo da Assumpção, por outro nome S. Maria da Feyra; a qual he a Matriz. A do Salvador: a de S. João Baptista; e a de Santiago. Nestas se contarão já em o nosso tempo 1664 fogos, com 6$318 almas.”108
103
Cf. Orlando Ribeiro, “Cidade” in Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, Vol. I, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1971, p. 577.
104 Cf. Manuel Lourenço Casteleiro de Goes, op. cit., p.349.
105 Cf. Teresa Ferreira Rodrigues, “População e Economia - As Estruturas Populacionais”, in História de
Portugal, dir. de José Mattoso, 3.º vol., No Alvorecer da Modernidade (1480-1620), coord. de Joaquim
Romero Magalhães, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, p. 212.
106
Cf. Maria Fernanda Alegria, art. cit., p. 204.
107 Cf. Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal [1580-1640], Vol. IV, 5.ª ed., Lisboa, Ed. Verbo,
1996, pp. 271-272.
As indicações que nos são dadas por Maria Fernanda Alegria e Joaquim Veríssimo Serrão de doze mil habitantes para a cidade de Beja, no século XVII, não explicitam se tal quantitativo se refere à cidade ou ao concelho. Pela informação colhida em Félix Caetano da Silva de seis mil trezentas e dezoito almas para as paróquias citadinas no final do século XVIII, cremos que o número apurado de doze mil habitantes remete para a cidade e espaço concelhio. Sendo a população citadina de quatro mil oitocentos e vinte habitantes na primeira metade do século XVI, segundo dados apurados por Alegria e conformes com o Numeramento, é aceitável que no final do século XVIII ela se cifrasse em seis mil trezentos e dezoito habitantes, a que Félix Silva faz menção, o que corresponde a um aumento de 31%, percentagem concordante com o o proposto por Teresa Ferreira Rodrigues de que entre o Numeramento e meados do século XVIII a população portuguesa não teria chegado a duplicar.
Segundo Orlando Ribeiro uma aglomeração urbana no período quinhentista, haveria de ter quinhentos ou mais fogos, isto é, entre dois mil e dois mil e quinhentos
habitantes.109 Já Magalhães Godinho considera tal quantitativo baixo e propõe que se
reserve tal qualificativo para as povoações com pelo menos quatro mil habitantes.110
Beja superaria pois, no segundo quartel do século XVII, o quantitativo de quatro mil habitantes e, no século seguinte, tê-lo-ia largamente excedido. Aglomerado urbano pois, mas profundamente marcado pela ruralidade, ínsula isolada, distante muitas léguas de um outro aglomerado urbano de dimensão semelhante e que, no caso, se lhe avantajava, Évora.
109 Cf. Orlando Ribeiro, art. cit., p. 576. 110