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Protéger les ressources des collectivités territoriales

RAPPORT DE SYNTHÈSE

I. L’INDISPENSABLE AUTONOMIE DES COLLECTIVITÉS TERRITORIALES

3. Protéger les ressources des collectivités territoriales

Também Monteiro Lobato deu sua contribuição para a constituição desse personagem nacional - o popular improdutivo para a escola e nocivo ao país - em 1914, quando publica

Urupês71. A obra desenha seu personagem principal o paraibano Jeca Tatu, como o caboclo típico brasileiro. Jeca Tatu, pela obra de Monteiro Lobato, “é um Piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie72”. O Jeca é

o brasileiro descrito como preguiçoso, vadio e digno de pena; vive mal e é o oposto dos homens civilizados que tomam para si a tarefa de propaganda que interessa às elites dirigentes do país. O “caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive...” O caboclo, para Lobato, é a mistura infeliz de índio com branco. E como a espécie que empresta o nome à obra é um parasita da terra.

Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígine de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé. Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrovinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo. (LOBATO, 2007, p.169).

Jeca não trabalha, não se cansa, pois em nada se esforça, nem em melhorar a casa que lhe faz sombra. Se não trabalha, também não estuda, sequer pensa, ainda assim vive. Seu autor o chama de “fazedor de desertos”, suas economias vêm da venda dos frutos que a natureza dá, a única lei que conhece é a do menor esforço. Sua filosofia de vida se resume a uma frase – “Não paga a pena. Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive73”. Tudo que lhe faz referência é desinteressante e feio: sua arquitetura faz rir ao João- de-barro, sua medicina é a farmacopeia de curandeiros regada à cachaça, sem cultura,

71Urupês é publicado em 1914 no jornal O Estado de São Paulo junto à Outra Praga também de autoria de

Monteiro Lobato, longe de serem obras literárias, eram antes um desabafo e crítica depreciativa do caboclo. De grande aceitação à época, os artigos Urupês e Velha Praga são lançados em 1918 compondo uma coletânea de contos intitulada Urupês.

72 MONTEIRO LOBATO, 1918, p. 147. 73 MONTEIRO LOBATO, 2007, p.171.

perspectivas ou vontades. Não necessita de ciências ou estudos, suas crendices se ocupam de resolver todas as situações da vida, dos problemas do parto ao telhado que cai.

Se algo sai errado é por obra de algum santo la de cima a castigá-lo. De seus ancestrais índios conserva o nomadismo, fica enquanto a natureza o sustenta, depois parte. Nem “árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência. Há mil razões para isso; porque não é sua a terra; porque se o ‘tocarem’ não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque.74”.

Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço - e nisto vai longe. Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquímano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido. Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas - para os hóspedes. Três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam? Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo - colher, garfo e faca a um tempo? (LOBATO, 2007, p. 169).

Alheio a todo o empenho pela disseminação dos bons costumes de higiene e saúde, proliferantes nos discursos pela erradicação de doenças no país, o caboclo preferia persistir em seus métodos herdados de outros tempos e que sempre lhe serviram.

Doenças haja que remédios não faltam. Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo... Para "quebranto de ossos", já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã; mete-se tudo numa gamela d'água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível! (LOBATO, 2007, p. 173).

Jeca Tatu é a representação literária da imagem construída para o povo. Suas formas rudes, doentias e apáticas marcam a oposição entre popular e civilizado. “Este funesto parasita da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive a beira dela na penumbra das zonas fronteiriças75”. A escolha minuciosa das palavras de Monteiro Lobato deixa claro que quem escreve não é o escritor, mas o político. A apatia da personagem diante do progresso, seu desinteresse pela arquitetura, pelo consumismo e pelas comodidades da vida urbana soam como ameaças à civilização que não consegue ganhá-lo. Urupês apresenta um confronto entre modos de vida incompatíveis. De um lado vive o povo com suas superstições, crenças, lendas, cantigas, danças, remédios caseiros, festas e

74 MONTEIRO LOBATO, 2007, p.173. 75 MONTEIRO LOBATO, 1918, p. 271.

nomadismo. De outro, Monteiro Lobato, escritor, político e fazendeiro aristocrata com seus discursos progressistas e de fixação do povo na terra pelo trabalho.

São as crenças, simpatias e costumes, de Jeca, o que mais desagrada a seu autor. “Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar lhe as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não avendo distinguir onde para uma e começa outra”. Sua cultura é comparada à dos muitos países europeus no intuito de que não reste dúvida de que o Jeca não possui cultura alguma. E “na arte? Nada.76”

Dirão: e a modinha? A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu,

rico de atavismos estéticos, borbulha d'envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro. O caboclo é soturno. (LOBATO, 2007, p.177, grifos meus)

A obra, no entanto, não é responsável pela criação do estereótipo, mas soube se encaixar em um momento histórico político que possibilitou o aparecimento de um imaginário social77 sobre o brasileiro, que vinha se infiltrando há séculos sem um paradeiro certo. No corpo, na alma e nos modos de vida do Jeca se materializou todo um pensamento que tem suas origens nos primeiros contatos entre portugueses e nativos. A fixação desse dispositivo de ditos e não ditos que compõem a personagem nacional pelo olhar do branco, sobre o índio e sua descendência, longe de ser uma demonstração de racismo gratuita é a emergência de operações atuantes desde a colonização.

A situação da personagem, todavia, sofre uma reviravolta no momento em que seu autor resolve, como Carneiro Leão, defender a educação popular no Brasil. Em uma nova versão, o Jeca passa por uma metamorfose. Monteiro Lobato revê a condição inata do caboclo, mas sem pensar nas causas da desigualdade social e sem considerar o estilo de vida interiorano como uma possibilidade a ser levada em conta.

76 MONTEIRO LOBATO, 1918, p. 176. 77 NAXARA, 1998.

Figura 1. Capa da versão original de Urupês, realizada por J. Wasth Rodrigues, em 1918.78