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Cardin nos alerta que o núcleo da questão passa a ser então pensar “a engrenagem entre o sujeito e a sedimentação, entre o universal e o particular”, e Merleau-Ponty exercita essa questão, dá profundidade reflexiva a este enigma da passagem ou troca entre situação e liberdade ao pensar o regime da obra de arte como sinônimo do movimento livre, da abertura de dimensões temporais, pois o “artista em obra é livre porque retoma as condições factuais ultrapassando-as” (CARDIN, 2008, pg.78). Não por acaso também nós ousamos discursar ontologicamente sobre liberdade visando o ofício do artista, situando sua atividade de criação na atmosfera de passividade que o envolve, porque os acidentes na vida de Van Gogh, Leonardo da Vinci ou Cézanne, o peso das hereditariedades que paira sobre os ombros de qualquer homem, se podem asfixiar toda possibilidade de inovação, caso este se resigne aos hábitos cultivados, podem também verter-se no instrumento e na mola para a superação das condições de partida, caso esse corajoso homem assuma a tarefa de reinventar a humanidade.

A esquizoidia de Cézanne, sua inabilidade social, a tendência ao isolamento incorporados em hábitos aos quais a intimidade com os semelhantes fora reduzida a meia dúzia de comprimentos de entrada e de saída, condição psicossomática do pintor pós-impressionista que inúmeras vezes fora utilizada como pretexto para interpretação de sua obra, acusando-a de ser um efeito de sua doença, e que para o próprio Cézanne forjou-se como dúvida sobre o caráter de seu ofício, se os temas inumanos de suas telas, se a natureza que nascia em seus quadros ausente dos vestígios do homem cultivado não eram, afinal, só um desdobramento de um distúrbio comportamental, não determinaram todavia, os contornos de sua expressão: pelo contrário, estes acidentes foram transformados em instrumentos, metamorfoseados na resposta de Cézanne às necessidades da vida que o solicitavam.

Como disse Merleau-Ponty, aquela obra pedia aquela vida para vir a ser expressão cultural, não se pode separar a vida do artista de sua obra, nem fazer dela um efeito de seus acidentes pessoais, impossível delimitar a parte da situação e a parte da liberdade que desenha o movimento de ultrapassagem. O que é possível é justificar que jamais a expressão criativa é mera consequência factual de acidentes aleatórios, tampouco nasce de procedimentos arbitrários ou autárquicos, vive e faz viver o limiar entre o exterior e o interior da cultura, pois a abertura de

campo que realiza inspira a quem consegue atingir, suscita um fazer que se entranha no porvir ao nos estimular respirar os ares da liberdade.

A liberdade está tão próxima de nós, habita nosso corpo e se confunde com nossos gestos, todavia jamais ficamos face a face com sua substância, nunca conseguimos colocá-la numa jaula de ideias; eis a ambiguidade que vivemos.

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