1.3 Modélisation mathématique et Ecologie
2.1.1 Propriété de Markov et structure de la chaîne de Markov
A radicalização de certas compreensões sobre o ser e a história já presentes em El
laberinto acaba por convergir nas reflexões sobre a condição da palavra poética presentes em El arco y la lira, publicado seis anos após a primeira obra. Ali, é possível avistar como a palavra
poética, tomada como um índice revelador de certa teoria da história de Octavio Paz, visa compreender, sobretudo, as condições de possibilidade da história e de seu engendramento. O pressuposto fundamental, nesse caso, seria que a palavra poética e a natureza humana compartilhariam uma mesma definição prévia, isto é, que “la condición dual de la palavra poética no es distinta a la de la naturaleza del hombre, ser temporal y relativo pero lanzado siempre a lo absoluto. Esse conflicto crea la historia”113.
A mencionada condição dual da palavra poética é histórica, portanto, em dois sentidos complementares, inseparáveis e contraditórios: se, por um lado, a poesia se constitui como um produto social de um dado momento histórico, reforçando sua configuração temporal e relativa, por outro, ela também é uma condição prévia à existência de toda sociedade, afinal, está sempre lançada ao absoluto, uma vez que todas as circunstâncias que fundam uma história partem de um princípio, de uma palavra que a funda e lhe dá sentido114. A mesma condição dual ainda seria a garantia de que a história não se fecharia em suas próprias condições presentes, uma vez que a experiência nunca se esgota em si mesma e traz, nas suas entranhas,
112 JAIMES, Hector. Octavio Paz: el mito y la historia en El Laberinto de la soledad. Revista Iberoamericana, v. LXVII, n. 194-195, p. 267-280, ene./jun. 2001.
113 PAZ, Octavio. El arco y la lira. Obras completas. Tomo I. México: FCE, 1994, p. 193. 114 Ibidem, p. 190.
o gérmen da experiência original. A palavra poética ocuparia tal papel mediador entre a experiência original e aquelas experiências posteriores que conformariam a história.
No interior da teoria da historicidade de Octavio Paz, é possível vislumbrar, portanto, um movimento no qual o histórico, sempre plural e multifacetado, transcende a história. Tal movimento ficara sintetizado ainda em El laberinto, quando Paz desafiava as compreensões que reduziam a história a uma parte específica do tempo e não como condição originária e existencial do humano. Concluía, assim, ainda no primeiro capítulo da obra de 1950, que “el hombre, me parece, no está en la historia: es historia”115.
Como se poderá observar, abundam, em El arco y la lira, referências a verbos heideggerianos que auxiliariam Paz na caracterização da condição temporal e histórica do ser. Não obstante, Paz não abre mão de reforçar sua interlocução mais imediata com as filosofias de Ortega y Gasset e de Sartre. De tal modo, reforçaria que “fui un lector ferviente de Ortega y Gasset y […] Sartre […]. Hay un indudable parentesco entre ellos: ambos descienden de la filosofía alemana y los dos aplicaron con talento esa filosofía […]”.116 O restante da filosofia alemã, porém, “salvo la de Schopenhauer y Nietzsche, huele a encierro de claustro universitario; las de Ortega y Sartre al aire de la calle, los cafés y las mesas de redacción de los diários”117.
Independentemente disso, El arco y la lira registra um conjunto de verbos que seriam fundamentais para a recuperação do ser autêntico heideggeriano. É possível identificar desde termos e expressões, como “proyectarse”, “despeñarse”, “transcenderse”, “lanzarse”, “arrojarse”, “conciencia de la nada”, “experiencia de la angustia” ou de “nuestra condición caída”, até trechos que são verdadeiras paráfrases do autor de Ser e tempo, segundo afirma Anthony Stanton118. São reveladoras de tal caso passagens, como: “el ser mismo del hombre es ya y desde que nace un querer ser, uma avidez permanente de ser, un continuo pre-ser-se”119, e “vida y muerte, ser o nada, no constituyen substancias o cosas separadas. Negación y afirmación, falta y plenitud, coexisten en nosotros. Son nosotros. El ser implica el no ser; y a la inversa”120.
115 PAZ, Octavio. El laberinto de la soledad. El peregrino en su patria, p. 54.
116 PAZ, Octavio. Ideas y semblanzas. Obras completas. Tomo VI. México: FCE, 1994, p. 35. 117 Idem.
118 STANTON, Anthony. Martin Heidegger, traducido por José Gaos, En El arco y la lira de Octavio Paz. In: CUERVO, Antolín Sanchez; PADILLA, Guillermo Zermeño (Orgs.). El exilio español del 39 en México. Mediaciones entre mundos, disciplinas y saberes. México: Colmex, 2014. 260p.
119 Apud STANTON, p. 112. 120 Ibidem, p. 113.
Além disso, a referência à imagem de Heráclito, do arco e da lira, termina por sintetizar o âmago de sua compreensão que prevê a interdependência entre ser e história. A lira, “que consagra al hombre y así de la da un puesto en el cosmos”121, aludiria à constância das criações humanas que fazem de cada instante algo autossuficiente e, portanto, histórico; o arco “que lo dispara más allá de si mismo”122 e o faz transcender às suas próprias circunstâncias. A natureza histórica do ser não pressuporia, assim, um encerramento em uma fórmula segundo a qual se é histórico é porque pode ser perfeitamente “situado” no tempo ou explicado por suas condições “contextuais”. O caráter histórico do ser, muito mais que isso, se justificaria sim pela permanente copertinência entre a transcendência e a ubiquação histórica. Assim, “quizá conciencia histórica y necesidad de trascender la historia no sean sino los nombres que ahora damos a este antiguo y perpetuo desgarramiento del ser, siempre separado de sí, siempre en busca de sí”123.
Um olhar duplo e simultâneo para El laberinto de la soledad e El arco y la lira é capaz de revelar, portanto, uma continuidade fundamental da reflexão de Octavio Paz sobre o ser e a história. Era como se o desfecho da relação íntima entre poesia e história, teoricamente pensado na obra de 1956, fosse o complemento fundamental daquilo que já se observava na obra de 1950, isto é, sua natureza poética e ensaística que via, na provocação ficcional, uma estratégia decisiva para se pensar fenômenos da história e da historicidade.
Acompanhar o conjunto de definições oferecidas por Paz acerca da natureza de um poema histórico e da sua consequente leitura é como acompanhar um exercício ainda mais amplo: a dimensão histórico-existencial que acompanharia qualquer relação com o passado, de modo a realizar uma fusão de horizontes que tem como resultado não o mostrar, mas a experiência da diferença e da natureza histórica e temporal do ser. Observando tal exercício, vê-se que:
el poeta consagra siempre una experiencia histórica, que puede ser personal, social o ambas cosas a un tiempo. Pero al hablarnos de todos esos sucesos, sentimientos, experiencias y personas, el poeta nos habla de otra cosa: de lo que está haciendo, de lo que se está siendo frente a nosotros y en nosotros. Nos habla del poema mismo, del acto de crear y nombrar. Y más: nos lleva a repetir, a recrear su poema, a nombrar aquello que nombra; y al hacerlo, nos revela lo que somos124.
121 PAZ, Octavio. El arco y la lira. Obras completas. Tomo I. México: FCE, 1994, p. 273. 122 Idem.
123 Idem.
Vê-se que a revelação final de “lo que somos” não viria, portanto, de certa substância histórico-identitária segundo a qual somos o que somos justamente por alguma natureza histórica imutável que permanece como legitimação do ser. Pelo exato oposto, a matéria histórica que comporia o ser seria exatamente aquela do estar sempre separado de si, sempre em busca de si, carente de definições históricas estáveis. A experiência histórica, ou o exercício da leitura do poema histórico, como prefere metaforizar Octavio Paz, possuía o recurso fundamental da diferença capaz de manter o ser sob um estatuto permanente da re- criação:
si la comunión poética se realiza de veras, quiero decir, si el poema guarda aún intactos sus poderes de revelación y si el lector penetra efectivamente en su ámbito eléctrico, se produce una re-creación. Como toda re-creación, el poema del lector no es el doble exacto del escrito por el poeta. Pero si no es idéntico por lo que toca al esto y aquello, sí lo es en cuanto al acto mismo de la creación: el lector recrea el instante y se crea a sí mismo125.
A centralidade cortante que Octavio Paz reserva para pensar a natureza da experiência histórica e de sua influência na composição do ser já nos obrigaria a direcionar um olhar distinto àquilo que, previamente, nos induziria a classificar como um “ensaio identitário” do ser nacional mexicano. A estrutura formal de El laberinto de la soledad e a natureza histórica da palavra poética parecem convites não negligenciáveis à percepção de que havia algo decididamente mais complexo a ser observado na sua reflexão e que pode fomentar algo que, ainda hoje, concentra as reflexões por uma teoria da história, isto é, as implicações de se compreender o ser como algo necessariamente temporal e histórico. Novamente, complexificar as dimensões que compõem uma obra histórica multifacetada parece um exercício mais interessante do que propriamente enquadrá-la em definições exageradamente esquemáticas. Isso, claro, se nossa intenção permanece aquela de tecer um diálogo produtivo com determinados horizontes históricos, ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações e determinações contextuais.