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Para que possamos averiguar a organização interna das EO produzidas pelos alunos a partir dos AOP, e discutir a adequação da produção do gênero, nos pautamos no trabalho de Dolz et al. (2004). Cabral, Peron e Queiroz (2019) destacam que, da perspectiva didática, os autores demonstram a necessidade da construção de um objeto ensinável. Para tanto, devem ser consideradas a situação de comunicação, a organização interna da exposição e as características linguísticas. No que se tange à situação de comunicação, ela se dá por meio da exposição executada em sala de aula. Assim sendo, o aluno expositor, responsável pela elaboração de uma apresentação sobre determinada tema, apropria-se do papel de professor por período determinado (partindo da ideia de que “é ensinando que se aprende”), enquanto os colegas apropriam-se do papel de ouvintes, com o objetivo de aprender a respeito do tema, aperfeiçoar

ou adquirir conhecimento (CABRAL; PERON; QUEIROZ, 2019). Os elementos envolvidos nessa situação são identificados a partir das convenções atribuídas a esse tipo de exposição.

Nesse contexto, o papel de especialista deve ficar explícito para o aluno expositor, de forma que ele tome consciência acerca deste e possa guiar o seu próprio comportamento, por meio de perguntas a si mesmo sobre a organização e a capacidade de transmitir as informações do tópico em questão. Esse trabalho envolve a diminuição da assimetria de conhecimentos entre o expositor e os ouvintes, por meio da consideração do conhecimento prévio da plateia, atenção aos sinais enviados por ela, reformulação e definição das conclusões que deseja transmitir. Para tanto, o expositor deve formular perguntas com o intuito de conseguir a atenção da plateia, se certificar de que seus objetivos estão sendo atendidos e se todos os ouvintes estão compreendendo. Deve ainda tomar consciência acerca das condições que sustentam a elocução clara e distinta ao esclarecimento de aspectos metadiscursivos da exposição, como o plano e as modificações de tema e de partes, além da legibilidade e a adequação dos documentos auxiliares empregados (DOLZ et al., 2004).

No que se refere à organização interna da exposição, Dolz et al. (2004) destacam que embora a EO seja pautada nas interações entre expositor e ouvintes, seu planejamento é realizado apenas pelo primeiro, de modo que há uma boa oportunidade para analisar as suas capacidades de planejar um texto. Tais capacidades serão analisadas nesta tese por meio de operações de retextualização, propostas por Marcuschi (2010) e dispostas no subtópico seguinte, que tratam da reformulação do texto, seleção de informações relevantes, reorganização de seus tópicos, hierarquização de ideias etc. Além disso, é importante observar a organização interna inerente a EO, conforme ilustra a Figura 3.

Figura 3– Partes e subpartes que compõem a organização interna da EO

Fonte: os autores.

Além da organização apresentada na Figura 3, a estrutura da EO pode ser evidenciada por meio da alternância entre discurso e introdução de documentos diversos. Se esta alternância for frequente e sistemática pode servir ainda de “trama” à exposição e assim, ser comunicada no plano. Por fim, em relação às características linguísticas, Cabral, Peron e Queiroz (2019) as destacam como aquelas que são apresentadas por meio de operações relacionadas aos elementos centrais do sistema textual da EO: coesão temática (articulação entre as partes temáticas); sinalização do texto (distinção entre as partes primárias e secundárias; entre as explicações e descrições; entre os desenvolvimentos de conclusões em forma de resumo e as sínteses); introdução de exemplos e reformulações (DOLZ et al., 2004).

De forma ampla, os requisitos para a apresentação de uma boa EO repousam no domínio da estrutura de um texto relativamente longo e das mudanças de níveis nesse texto. A partir disso, o plano (ou esquema) necessita de atenção específica, pois seu uso se configura como parte do modelo didático de gênero e deve ser objeto de uma elaboração a partir da reflexão, embasada na percepção das práticas sociais que sustentam a EO e nos conhecimentos práticos

Abertura

Momento de apresentação do expositor aos espectadores e de delineamento do seu papel de especialista. Pode ser realizada pela introdução por parte de uma terceira

pessoa e nem sempre recebe a atenção devida em situações de ensino.

Introdução do tema Tem por objetivo despertar o interesse/atenção/curiosidade dos ouvintes

por meio da apresentação do recorte do tema adotado para a EO.

Apresentação do plano

Etapa metadicursviva que demonstra as etapas de planejamento realizadas pelo expositor. Vai além da enumeração de

ideias ou tópicos.

Desenvolvimento e encadeamento dos diferentes temas

Corresponde aos tópicos previamente enumerados na apresentação do plano.

Recapitulação e síntese

Possibilita retomar os pontos importantes da EO e representa a transição entre o desenvolvimento e as fases de finalização.

Conclusão

Conduz a uma "mensagem" final, que pode conter introdução a novos problemas gerados a partir

da EO ou iniciar um debate.

Encerramento

Se assemelha à abertura e inclui os agradecimentos ao auditório. Pode apresentar situações de interação distintas daquelas realizadas no desenvolvimento, pela intervenção do mediador, dos espectadores etc.

dos estudantes. Há uma dificuldade relacionada à estrutura devido aos diversos tipos de suportes que podem ser adotados para a elaboração da EO (ele pode conter o texto da apresentação, apresentar somente palavras-chave etc.) e que permitem diversos tipos de abordagens por parte do expositor (DOLZ et al., 2004).

Cabral, Peron e Queiroz (2019) sublinham que a esse respeito, Dolz et al. (2004) citam o trabalho de Goffman (1987), que ao tratar do gênero conferência divide as abordagens que podem ser utilizadas pelos expositores como a memorização, a leitura em voz alta e a fala espontânea. Tendo em vista que a última delas seja a desejável, é necessário que se ensine aos alunos como preparar uma EO sem utilizar o recurso da leitura e sim apoios diversos. Exemplos de apoios podem ser anotações, gráficos, citações etc., constituintes do texto-base ou não. É desejável ainda que o modelo didático valorize os aspectos associados à oralização da EO, como a capacidade de prender a atenção dos espectadores, a marcação de voz que contribui para a estruturação da apresentação, a compreensão do texto-base, a gestualidade, a entonação e dicção das palavras etc. (DOLZ et al., 2004).

A partir das ideias dispostas por Dolz et al. (2004), podemos sumariar os objetivos gerais de um modelo didático que forneça suporte à exposição oral, conforme ilustra o Quadro 4.

Quadro 4 – Objetivos que possibilitam o domínio do gênero EO

Fonte: Dolz et al., 2004, p. 226.

A partir dos objetivos traçados no Quadro 4 e dos conceitos relacionados ao ensino da EO, apresentaremos a seguir o embasamento para a análise do processo de retextualização. As suas operações se relacionam a estes objetivos, à medida que revelam o planejamento da exposição por parte dos alunos expositores. Assim, será possível observar como se dá a

Objetivos gerais para o trabalho didático com a EO

Compreensão da situação de comunicação de uma EO; da sua dimensão comunicativa que considera a finalidade, o destinatário etc.

Exame das fontes de informação; manipulação de documentos, tais como gravações, slides e gráficos.

Organização da EO; hierarquização das ideias e construção de um plano a partir de estratégias discursivas.

Promoção das capacidades de explicação, ilustração e exemplificação. Emprego da reformulação (por meio de paráfrase ou definição) como forma de antecipação das dificuldades de compreensão dos espectadores. Promoção da competência metadiscursiva, com foco nas capacidades de apresentar a estrutura da EO, delinear as mudanças de nível e de etapas no discurso.

Compreensão acerca da importância da voz, do olhar e da atitude corporal.

passagem do texto do AOP para a EO e quais recursos são utilizados pelos alunos expositores nesse contexto.