La conversion de l’énergie chimique présente dans l’hydrogène en énergie électrique :
III. Propositions de nouvelles architectures d’électrodes
Mais uma vez, Guerreiro Ramos aborda o modo sociológico comum no Brasil de se elaborar interpretações sobre as relações raciais. A ênfase dos estudos sobre o negro enquanto um tema – que ele denominou de negro-tema – se dá em consideração da perspectiva estática sobre a questão. Guerreiro Ramos considera que, salvo raras exceções, os estudos sobre relações raciais tratam o negro como se sua existência houvesse fixada no tempo.
85 Insisto que para Guerreiro Ramos, os modos de compreensão da realidade não estão limitados e condicionados pelas identidades. Assim, negros e brancos introjetaram percepções que reproduziam as hierarquias raciais e seus efeitos. Entretanto, esta consideração não implica em admitir que os efeitos e os modos de reprodução seja idênticos entre as populações em questão.
Então, ele escreveu que “o negro-tema é, entretanto, algo que não se deixa imobilizar; é despistador, protéico, multiforme, do qual, na verdade, não se pode dar versão definitiva, pois é hoje o que não era ontem e será amanhã o que não é hoje.” (RAMOS, 1957, p. 171).
Em seu entendimento, enquanto a antropologia e a sociologia no Brasil operavam com uma noção de negro como uma categoria bem delimitada, a realidade vista de dentro demonstrava que as dinâmicas sociais desmobilizaram identidades fixas. Nesse sentido, havia um modo frequente, portanto, considerado normal de se atribuir características identitárias a indivíduos negros semelhante ao que se fazia no racialismo do século XIX.
Esse modo de se conceber o(a) negro(a) e suas características faziam sentido dentro de uma perspectiva tida como normal no Brasil na medida em que era produzida pelo cânone do pensamento social brasileiro com categorias importadas. As categorias normal e patológico foram tomadas de empréstimos de Émile Durkheim em As regras do método sociológico.
Acontece que Guerreiro Ramos ressignifica a acepção durkheimiana dos termos. Visto que o normal se constitui como o que é mais frequente em uma sociedade e o patológico como o que irrompe à regra, constituindo-se em exceção, o caso brasileiro demonstra que o normal é reflexo de uma patologia.
A patologia a que Guerreiro Ramos se refere
... consiste em que, no Brasil, principalmente naquelas regiões (norte e nordeste do Brasil), as pessoas de pigmentação mais clara tendem a manifestar, em sua auto-avaliação estética, um protesto contra si próprias, contra a sua condição étnica objetiva. E é este desequilíbrio na auto-estimação, verdadeiramente coletivo no Brasil, que considero patológico. Na verdade, afeta a brasileiros escuros e claros (...)” (RAMOS, 1957, p.177).
Em termos práticos ou didáticos, a patologia de que trata Guerreiro Ramos se verifica na identificação de indivíduos brasileiros com características eurocêntricas e ocidentais, negando aspectos identitários de origens africanas, indígenas e outras consideradas de menor valor. Outro exemplar da patologia é o artigo de Gilberto Freire publicado no jornal O Globo (03 de maio de 1955) intitulado O Brasil e a mãe preta. De acordo com Guerreiro Ramos, Freyre descreve a mãe branca qualificando-a como senhora ao mesmo tempo em que destina à descrição da mãe negra características da cuidadora, trabalhadora, babá, ama-de-leite e afins. Neste sentido, “nada mais compreensível, por conseguinte, que êste brasileiro tenha sido o criador da ‘lusotropicologia’, isto é, uma apologética do colonizador português” (Idem, p. 185).
A patologia social do “branco” é colocada como oscilações de auto- estimação. Assim, coexistem percepções e práticas nas quais os sujeitos em questão supervalorizam e inferiorizam a si.
No primeiro sentido, o da supervalorização, o elemento branco brasileiro supervaloriza suas ascendências de origem europeias, o ideal de brancura, cita autores reconhecidos do pensamento ocidental (se possível nas línguas originárias), etc. No segundo, estima-se o ideal de brasilidade como carente dos primeiros caracteres e atribui demérito aos caracteres autenticamente nativos, até mesmo considerando-os atávicos.
Decorre daqui a necessidade de alterar o modo comum de fazer sociológico buscando induções que partam da realidade nacional. Mais ainda,
... esta posição de autenticidade étnica não se inclina para a legitimação de nenhum romantismo culturológico, de nenhum retôrno às formas primitivas de convivência e de cultura. A autenticidade étnica do brasileiro não implica um processo de desestruturação, no caso, de desocidentalização da sociedade nacional. Ela é possível
perfeitamente dentro das pautas nas quais tem transcorrido a evolução do país (Idem, p. 192).
Como uma aproximação da fenomenologia, visto que Guerreiro Ramos defende a suspensão de perspectivas exógenas, ela de algum modo investe na elaboração de uma sociologia em perspectiva do sujeito racializado, do sujeito negro.
De outra perspectiva, Guerreiro Ramos esteve atento aos procedimentos incompletos dos processos de colonização e colonialismo. Se faz sentido a percepção de Bhabha (1994, p.103) segundo a qual o discurso colonial cria uma imagem das populações colonizadas como estereotipadas e degeneradas, uma certa população branca no Brasil padecia em seus processos de identificação na medida em que ela se estimava como europeia, ainda que, para tanto, negasse constantemente seus pertencimentos e envolvimentos identitários e emocionais com outras formas culturais (dos povos escravizados e seus descendentes).
Para elucidar as aproximações entre o entendimento de Guerreiro Ramos e o que nos ofereceu posteriormente Homi Bhabha, a citação vale a pena:
El enfoque de Bhabha, por consiguiente, en la base del discurso racista del colonialismo está el problema del origen y de la identidad. Es justamente este elemento, con sus lógicas y dinámicas específicas, como hemos visto, lo que vuelve substancialmente inestable y ambivalente el discurso colonial. Tal ambivalencia intrínseca, agrega Bhabha, es alimentada por la impossibilidad del discurso colonial replicarse a sí mismo, de reproducirse automáticamente en la conciencia de los colonizados. (MELLINO, 2008, p. 77).