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OBJECTIFS TRANSVERSAUX

C. Propositions de mesures de gestion

No artigo “O Apetite e os Problemas Emocionais”, Winnicott (1936/2000) deixa claro sua percepção de que a presença do apetite está intimamente relacionada com a manifestação da voracidade do indivíduo. Apesar de ser uma condição inerente ao ser humano, para o autor, a voracidade jamais pode ser percebida abertamente e sem disfarces. Trata-se de algo primitivo que, para se manifestar, muitas vezes, emerge na forma de sintomas. Com frequência, a via encontrada para a sua manifestação é através de sintomas alimentares.

Para Winnicott, “em todos os tipos de casos psiquiátricos podem ser encontradas perturbações do apetite, as quais podem sempre estar entrelaçadas aos outros sintomas” (Winnicott, 1936,2000, p.110). Porém, a alimentação não é afetada somente na doença, ela também sofre influências em condições de saúde. O apetite está relacionado às defesas contra a ansiedade e depressão, na tentativa de proteger o self contra o aniquilamento. Dessa forma, independente da sua condição psíquica, o ser humano irá ter sua alimentação afetada pelos efeitos da sua voracidade. Entretanto, o modo como se dá essa afetação varia dependendo de como o indivíduo organiza a vivência da sua afetividade. Nas psicopatologias, as manifestações dos sintomas alimentares, podem ser agrupadas em um continuum, a partir da sua gravidade: “Tais casos agrupam-se em um único e grande universo: num extremo de escala estão as dificuldades de amamentação de bebês, e no outro, a melancolia, a toxicomania, a hipocondria e o suicídio” (Winnicott, 1936/2000 p. 92).

A partir do referencial winnicottiano, pode-se dizer que pacientes com TAs, nos quais se percebem prejuízos na construção da própria individualidade (Miranda, 2010), vivenciam prejuízos na constituição do self e, consequentemente, no desenvolvimento do seu potencial criativo. A literatura aponta para uma figura materna que não conseguiria propiciar ao filho um ambiente suficientemente bom para que ele manifeste sua afetividade. Winnicott (1936/2000) aponta que a inibição da alimentação, como nos casos de anorexia, seria resultado de uma experiência instintiva empobrecida, com poucos espaços para o amadurecimento emocional.

Inicialmente, quando o bebê apresenta uma dependência absoluta em relação aos cuidados do ambiente, a mãe, no estado de preocupação materna primária, consegue ter uma sensibilidade acurada para apresentar o seio no exato momento que o filho necessita ter sua fome saciada (Granato & Aillo-Vaisberg, 2005). Além disso, ela deve suportar as manifestações da voracidade, que pode, inclusive, causar-lhe incômodos - por exemplo, a criança pode machucar o seio enquanto se alimenta.

Durante a amamentação, se a mãe demonstrar altos níveis de ansiedade e não suportar a agressividade do filho, ela pode não conseguir atender às suas necessidades (Prado, 2013). Ansiosa, a mãe pode impor que o filho sugue o leite sem se atentar em quais são, de fato, suas necessidades de alimento. Ou, na tentativa de evitar a manifestação da sua agressividade contra ela, a mãe pode reduzir o alimento fornecido ao filho. Em ambos os casos, a mãe se mostra intrusiva no processo de desenvolvimento do próprio self do filho. Prado (2013) defende que, diante de uma mãe que não consegue oferecer continência à sua agressividade, o comer seletivo seria um modo de controlar o seu potencial de destrutivo.

Tanto na anorexia, como na bulimia, é possível perceber que as necessidades percebidas pela mente não coincidem com suas necessidades corporais. Dessa forma, é possível perceber uma dissociação entre corpo e mente, o que Winnicott (1964/1994) classificar os TAs como Transtornos Psicossomáticos. A partir da definição winnicottiana, esses transtornos “são alterações do corpo ou funcionamento corporal associados a estados da psique” (Winnicott, 1988, p. 44). Segundo Winnicott, esses quadros refletem a cisão psique- soma, nos quais haveria uma falta diálogo entre as necessidades do corpo e as necessidades das emoções. Dessa forma, as patologias de caráter psicossomático, como os TAs, são umas das possíveis consequências da defesa da desintegração.

Entretanto, Winnicott (1964/1994) aponta que, as doenças psicossomáticas, apesar de refletirem a dissociação entre a psique e o soma, representam uma forma de manter uma conexão entre eles, pois o indivíduo, ao invés de se defender apenas via intelectualização, busca de modo “desesperado” manter o vínculo com o corpo. O corpo passa a ser instrumento de comunicação das necessidades que ele não consegue acessar no campo das ideias.

Como tratamento para as doenças de origem psicossomática, Winnicott (1964/1994) declara que não se trata apenas de informar ao paciente quais são suas necessidades corporais, ou seja, unir a psique ao soma para ele, como muitos “médicos físicos” fazem. Nessas condições, o paciente não é capaz de simbolizar suas experiências corporais. É preciso oferecer um ambiente que permita que o paciente expresse suas necessidades.

Ao considerar os TAs como manifestações das dificuldades de integração entre psique e soma, acredita-se que as falhas das figuras parentais estejam associadas a momentos anteriores ao que o pai necessita assumir sua postura de interdição. Como dito anteriormente, junto com a mãe, também é função paterna oferecer holding para que a filha busque a integração das suas experiências emocionais (Fungêncio, 2007). Acredita-se que, assim como a mãe, ele também contribui para os sucessos ou insucessos do filho na constituição do seu

self verdadeiro. Porém, o papel do pai, enquanto também responsável pelo oferecimento de um ambiente suficientemente bom à criança, é pouco discutido.

Para Winnicott (1969/1994), pais que não tiveram uma experiência satisfatória pelo processo de integração dos seus conteúdos afetivos, teriam dificuldades em proporcionar suporte à díade mãe-bebê. Pode-se pensar, portanto, que as falhas sofridas pelas figuras paternas, enquanto filhos, nas suas vivências do processo de ilusão/desilusão, podem colaborar para que eles, na condição de pais, tenham dificuldades em atender às necessidades de suas filhas, podendo falhar tanto pela falta como pelo excesso de proteção.

Para Ceccarelli (1998), ser pai exige que o homem suporte a ambivalência interente à paternidade. A ambivalência se dá porque o pai que, inicialmente, constitui-se como principal fonte de proteção da dupla mãe-filho, posteriormente, ao longo da vivência dos conflitos edípicos, torna-se alvo de retaliação do filho. Portanto, ser pai exige, minimamente, suportar e colocar limites na agressividade do filho. Para oferecer continência à agressividade da criança, é preciso que esse pai tenha conseguido lidar com a sua própria agressividade. Nesse sentido, na relação entre pai e filho são reatualizadas experiências na convivência do pai com o seu próprio pai, quando ele precisou ter sua própria agressividade contida.

A partir desses dados, o presente estudo parte do princípio de que para compreender o modo como a relação pai-filha se constitui no contexto do TA, é importante dar voz à figura paterna e investigar qual são os modelos de paternidade que influenciam no modo como esse pai oferece ou não holding à sua filha. Além de investigar, como o cuidado oferecido por ele à sua filha pode colaborar no modo como ela vivencia sua relação com a comida. Acredita-se que, assim como a mãe, o pai de mulheres com TAs, apresentem dificuldades em oferecer às filhas um ambiente que lhes ajude na integração e no amadurecimento dos seus conteúdos afetivos, colaborando para que elas enfrentem prejuízos na constituição do seu verdadeiro self.

2 JUSTIFICATIVA

Segundo achados da revisão da literatura empreendida para subsidiar o presente estudo, as publicações disponíveis, referentes aos TAs, focalizam, predominantemente, a relação mãe-filha, entendida como importante fator etiológico e como elemento fundamental na manutenção da sintomatologia da AN e BN. Todavia, já se tem documentado o conhecimento de que a figura paterna tem função importante na constituição da personalidade e identidade do indivíduo desde o nascimento (Winnicott, 1971/1975; Zimerman, 1999). Nesse sentido, observa-se a necessidade de estudos que investiguem a participação paterna no desenvolvimento de sintomas alimentares na filha, bem como esse pai é afetado pelo surgimento da doença na filha.

O predomínio de artigos publicados em periódicos dos Estados Unidos e países europeus sugere que este é um tema negligenciado no âmbito nacional, o que mostra a necessidade de mais investimentos em estudos brasileiros. Ressalta-se, particularmente, a necessidade de estudos com delineamentos qualitativos, como o que propõe o presente estudo, que busquem compreender as possíveis influências e as peculiaridades da relação pai-filha no curso dos TAs.

A prática clínica no tratamento de pacientes com TAs tem mostrado que a inclusão do pai emerge como uma grande desafio, pois, quando ausente no contexto do tratamento, o modo como se dá sua relação com a filha é pouco conhecida pelos profissionais da área; quando presente, não se sabe ao certo como abordá-lo de modo que sua presença contribua para o sucesso do tratamento (Souza & Santos, 2010). Desta forma, o presente estudo pretende colocar em questão a relação pai-filha no contexto dos transtornos alimentares, quadros psicopatológicos que merecem atenção pública e exigem conhecimento especializado para o tratamento (American Psychiatry Association, 2010; Andrade & Santos, 2009).

3 OBJETIVOS