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Podemos identificar, na obra de Augusto dos Anjos, como elementos característicos de sua lírica, alguns sintomas da lírica moderna e contemporânea, principalmente da lírica intelectualizada, apresentada por Hugo Friedrich (1966) em

Problemas atuais e suas fontes, Estrutura da lírica moderna.

Friedrich distingue o complexo poético do século XX na polaridade expressa como lírica formalmente livre e lírica intelectualizada que foram iniciadas por Rimbaud e Mallarmé. A primeira, trata-se de uma lírica de forma livre e alógica e, a segunda, de uma lírica da intelectualidade e da severidade das formas.

Formuladas de forma pragmática, em 1929, diferentemente da lírica hodierna, eram contrastantes e não permitiam qualquer aproximação. A primeira, formulada por Valéry, deveria ser a “festa do intelecto” (p.143). A outra, nascida como protesto pelo autor surrealista A. Breton, se afirmava como “a derrocada do intelecto” (p.143).

Atualmente essa é a polaridade geral de toda a poesia moderna; a tensão existente em quase todo lírico entre forças cerebrais e forças arcaicas que, juntas,formam uma unidade estrutural acima das frações a que elas mesmas pertencem.

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Toda a obra poética de Augusto dos Anjos publicada se insere entre os anos de 1900 e 1914. Encontro, ao longo desta produção, elementos que o prendem ao estilo literário de sua época como, por exemplo, a formalidade em sua poesia e, ao mesmo tempo, elementos inovadores que o põem adiante de seu tempo.

Ao lançar o seu livro de poesias intitulado EU, a comunicação esperada entre leitor e autor não aconteceu como de costume em outras obras literárias da época. Em 1912, enquanto alguns críticos literários falavam de Augusto como artista incomparável, Nazareth Meneses publicava no dia 14 de junho, na Gazeta de Notícias, uma das muitas críticas que circulavam na época: “Nota-se em todas as páginas deste volume a preocupação constante da tecnologia. Os versos do Sr. Augusto dos Anjos perdem, por isso, grande parte do encanto que a forma lhes empresta” (NAZARETH, 1978, apud MAGALHÃES, p.256), e concluía: “Ora, isso, possivelmente, é um amontoado de palavras difíceis e nada mais” (MAGALHÃES, 1978, p.256).

Em 13 de junho, Euricles de Matos, em A Tribuna, já adivinhara uma das muitas interpretações a que estava exposta o EU:

Estou a ver já certo dos nossos faiseurs da crítica, condenando o poeta, simplesmente porque este em vez de babar-se ordinariamente por todo seu livro num pieguismo irritante de amor escreveu sabiamente, entre outros, o ‘Deus Verme’ e ‘Mater originalis. (MAGALHÃES, 1978, p. 256).

Lendo as críticas da época, é possível ter a dimensão de como a leitura do Eu não foi de fácil compreensão para os leitores e até mesmo para alguns críticos literários que viam a beleza dos versos somente na forma e não no conteúdo, ou nos temas. Aliás, na lírica moderna, a única ponte entre leitor e texto acontece no efeito sugestivo da poesia, ou seja, “uma união com o leitor não mais se realiza. A sugestão não oferece a um possível leitor nada mais que uma possibilidade de experimentar junto uma vibração qualquer”. (FRIEDRICH; 1978, p.122).

Mallarmé levou essa questão a uma forma mais aguçada. Ele escreve para não ser compreendido. Devemos aqui entender, em sua lírica, o conceito usual de compreensão como infinita possibilidade de sugestão, excitando o leitor a continuar o ato que está inconcluido na poesia.

Não excluo o fato de que o leitor reconheça, nos versos do EU, os temas fundamentais que são, à primeira vista, decifráveis e que possa segui-los até que se percam no

que não pode ser interpretável; mas, o que fica claro, é que esta cognição não acontece mais de maneira forçada ou mesmo previsível.

Muitas críticas taxaram a poesia de Augusto como hermética, não na forma italiana da poésie purê, mas na qualidade do que é difícil de entender e interpretar e que se tornou, na lírica moderna, um traço essencial de sua lírica, também aceita pela crítica.

De fato, se ignorar o cotidiano em sua indagação poética e sem uma leitura atenta veremos na obra do EU uma complicada retórica:

Um verbalismo de um adolescente doentio que leu demais Schopenhauer, Spencer e Haeckel e perde-se precisamente o que define a poesia de Augusto como a mais patética indagação já feita na poesia brasileira acerca da existência do mundo e do sentido da vida humana. (GULLAR, 2011, p.47).

Este aspecto negativo que a crítica impõe à terminologia científica e filosófica deve ser vista mais detidamente, já que é fator constitutivo em sua poesia e instrumento de suas inquietações e perplexidades que se explicam no contexto de sua linguagem poética como a realidade terrível que a Ciência põe diante dos olhos do poeta:

“Pressinto o fim da orgânica batalha:” “Olhos que o húmus necrófago estraçalha” “Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...” “Carne, feixe de mônadas bastardas,

Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas” “Na bruta ardência orgânica da sede”.

Também a terminologia filosófica deixa de ser um elemento meramente negativo da poesia para tornar-se expressão profunda de sua problemática, como se pode observar nos poemas analisados:

A pirâmide real do meu orgulho Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou. (Vozes de um túmulo)

Transpõe a vida do seu corpo inerme,

E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda!

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(Eterna Mágoa)

A Consciência humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! (O morcego)

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro A mão que afaga é a mesma que apedreja. (Versos íntimos)

Essas estrofes não fazem parte apenas de uma alegoria grotesca e negativa. Nessas estrofes estão as mais profundas questões da existência humana. Não importa aqui concordar ou não com a visão filosófica do autor, e sim, “verificar que nele esses problemas não são meros pretextos literários para cometer sonetos e poemas - são problemas vitais - e que a necessidade de resolvê-los conduziu-o a viver uma experiência poética de densidade rara em nossa literatura”. (GULLAR, 2011, p. 47).

A sugestão em sua poesia parte, geralmente, em face da realidade, embora não mantém uma linearidade. Não se elaboram abstratamente. Os elementos objetivos e subjetivos se misturam no desenvolvimento do processo poético e na transformação dos conceitos, como os poemas, que, em sua maioria, começam calmos, para depois de uma situação concreta, desenvolver suas tensões e indagações. O poema “Eterna mágoa” inicia assim:

O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do mundo, o homem que é triste.

“O morcego” assim:

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Às vezes é a ação concreta que serve como ponto de partida como em “Vozes de um túmulo”:

Morri! E a Terra- a mãe comum- o brilho. E também em “Apóstrofe a carne”: Quando eu pego nas carnes do meu rosto.

Como Manuel Bandeira já tinha observado, a maioria dos poemas iniciam calmos e depois “endoidam”. O que acontece depois é um desenvolvimento dialético marcado por sucessivos retornos ao ponto de partida, à realidade objetiva. (Gullar, 2011, p.61) E a cada

retorno ao ponto de partida o conceito já não é mais o mesmo ou é intensificado como o efeito labirinto produzido em Eterna mágoa.

A relação que a lírica mantém com a realidade objetiva, no século XX, apresenta múltiplos aspectos, porém, o resultado é sempre o mesmo; a desvalorização do mundo real, e isso se dá através de fenômenos isolados, que são colocados em lugar de um todo, quando há referência de uma idealidade qualquer. Assim aparecem designações de total indeterminação ou símbolos de puro mistério. Para Friedrich (1978, p.196):

A objetividade se busca, de preferência, no banal e no inferior, pois seu peso atua aqui de forma ainda mais oprimente, tornando o homem ainda mais isolado [...] O tom estático suave, o ecoar da transcendência indeterminada, o lusco-fusco do significado e tudo agora no condensamento de imagens da fealdade que é algo completamente diverso de um oposto ao belo: nestas características se reconhece o lírico moderno.

Esta objetividade se apresenta em Augusto dos Anjos quando, rompendo com as conveniências verbais e sociais da poesia, ele trás como poético toda a putrefação dos cemitérios e as vulgaridades possíveis, complementando com o uso de um vocabulário científico que juntos “formam uma conjunção de fatores que o obrigam a romper com a linguagem (com a visão) poética em voga”. (GULLAR, 2011)

Nos poemas analisados, encontramos expressões que formam o conhecido poetar obscuro de Augusto dos Anjos e que pode ser observado em quase toda extensão de sua obra:

Morte/ cemitério/ assombração/ entulho/ praga/ tristeza/ pesar/ chaga/ verme/ inerme/ morcego/ feio/ parto/ húmus/ necrófago/ diafragma/ podridão/ mágoa/ horrenda/ quimera/ lama/ miserável/ escarro/ cuspe.

Essa quantidade de palavras aqui representada e de uso decorrente em sua obra, até então, permitidas só nos gêneros literários inferiores conforme definições simplistas e errôneas seriam facilmente indicadas como sinônimos de algo feio ou obscuro; porém, para que possamos compreender essa lírica, não podemos tratar mais estes conceitos como o oposto do belo, mas de um valor e uma experiência em si, em cada palavra.

A morte, em sua obra, além de ser vista como um fato concreto passa a ter caráter comercial e habitual; e o habitual passa a ter o caráter fúnebre da morte. Tomemos, a exemplo, o segundo terceto do poema Apóstrofe à carne:

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda, Em tua podridão a herança horrenda,

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Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

Além da morte ser apresentada como condição intransponível do homem, observo, nos versos acima, os carinhos maternos ou paternos que deixam definitivamente o caráter abstrato e de sentimentalismo e se objetivam em um fato real, que é a herança da morte.

Assim como em Baudelaire, a beleza em sua poesia não suporta mais o seu conceito antigo e dá lugar à beleza de um encanto agressivo. Em Augusto dos Anjos, diria, ainda repugnante:

Mais veemente do que até então, a anormalidade anuncia-se como premissa do poetar moderno, e também como uma de suas razões de ser: irritação contra o banal e o tradicional que, aos olhos de Baudelaire, está contido também na beleza do estilo antigo. A nova “beleza” que pode coincidir com o feio, adquire sua inquietude mediante a absorção do banal em simultânea deformação em bizarro, e mediante a “união do espantoso com o doido” [...]. (FRIEDRICH, 1978, p. 44, GRIFOS DO AUTOR).

Na poesia de Augusto dos Anjos os sentimentos humanos e tudo que pode ser considerado abstrato são exprimidos através dos atos e coisas banais em que eles se objetivam, assim como a putrefação pode ser caracterizada como a expressão de amor, em

Apóstrofe a carne, e nos versos a seguir:

Amo meu Pai na atômica desordem Entre bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins!

Para Ferreira Gullar (2011), Augusto faz de todos os objetos repugnantes - a putrefação da carne, a morte, os vermes - e tudo que há de horroroso nos versos, a expressão de um sentimento sublime. Ele não nega estes sentimentos em nome da delicadeza poética como muitos poetas o faziam na época, e completa: “É assim, me parece, que se deve entender a temática macabra de Augusto dos Anjos: como uma descida ao inferno a uma dimensão terrível da existência humana que o poeta, sem poder ignorar, tenta redimir pela poesia.” (p.50).

Em uma época onde o ambiente literário brasileiro imperava a futilidade dos temas, o EU imperava os cheiros, ou diria ainda, pelo fedor, fedor de podre, de úlceras, de

escarros, de lama, de putrefação, de vômito. E foi ele mesmo que fez a seguinte afirmação: “Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques” (ANJOS, 2011, apud GULLAR, p.22).

É certo que não desciam a essa futilidade poetas como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira ou Vicente de Carvalho, mas, como observou Francisco de Assis Barbosa, o EU aparece num período em que “predominava” a literatura chamada “sorriso da sociedade”. (GULLAR, 2011, p. 23, grifos do autor)

É o feio em sua poesia que provoca o sentimento natural da beleza e que, como na lírica moderna, provoca um choque entre texto e leitor. Em todos os poemas analisados, o feio, ainda que moderado em tempo, espaço e afeto, se comparado a alguns poetas modernos, existe em toda sua sensibilidade. As cenas e ações desenvolvem-se em uma sucessão de fatos, principalmente, em O morcego. Há referências de tempo em Eterna mágoa e o eu lírico responde com ações precisas: morri, me assombra, afunda, pego... Neste complexo a morte contorna seu caráter de cotidianeidade, pois, apesar da aparência obscura refere-se sempre a uma figura conhecida e provoca excitações humanas.

E é esta a função da lírica moderna: impor a tarefa paradoxal de expressar e esconder um significado. A linguagem, como comunicação, deu espaço ao princípio estético dominante no hodierno poético, onde a obscuridade se mantém em um espaço que mais afasta e/ou sugere do que aproxima.

Sem dúvida, a lírica moderna é produto de uma nova época e de uma nova situação social do homem. E o traço mais marcante desta unidade estilística no plano ideológico é a desmistificação ou despersonalização da realidade e consequentemente do homem, como produto de um desenvolvimento capitalista e científico da sociedade.

Na obra Eu, com exceção dos poemas dedicados ao filho nascido morto e ao pai, Augusto dos Anjos não data suas produções, não sendo possível buscar compreender sua lírica através de dados bibliográficos. Neste sentido, a palavra lírica já não nasce da unidade de poesia e pessoa empírica e de maneira alguma pode ser entendida como expressão bibliográfica, pois já não se move dentro do círculo do que é familiar.

E é Baudelaire quem inicia a despersonalização da lírica moderna. O sentimentalismo pessoal dá lugar à capacidade de sentir da fantasia uma elaboração guiada pelo intelecto, de forma a abranger tarefas mais difíceis e que de forma mais intensa é capaz de chegar à neutralização.

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Mallarmé, certa vez, aludindo sobre o caminho que conduz o sujeito poético a uma neutralidade suprapessoal, fala que a lírica é algo consideravelmente distinto de entusiasmo e de delírio e é uma elaboração precisa das palavras que se torna a “voz que oculte tanto o poeta quanto o leitor”. (FRIEDRICH, 1956)

Assim como Baudelaire, em muitas de suas poesias, Augusto escreveu a partir do eu; entretanto, este homem, voltado para si, quando compõe poesia, não fala de seu eu empírico, mas de um sujeito lírico na medida em que se sabe vítima da modernidade.

E antes do sujeito lírico se ver vítima da modernidade, é o poeta que passa por um longo processo de reflexão sobre o lugar que o homem ocupa na multidão. No livro de Raimundo Magalhães Junior, Poesia e vida de Augusto dos Anjos, observa-se que Augusto descrevia, em cartas, os poderosos de sua terra como “enormes ídolos” de pernas obesas e “conscientes absolutos da grande massa física”. Para ele, o homem de bem “é hoje um idiota, uma figura de manicômio, coberta de achincalhos públicos, muito burlesca, fedendo a sepultura maltratada de cemitério aldeão”. E fazia forte carga contra o regime federativo: “Somos uma agremiação sinistra de membros inutilizados, uma sociedade doente de paralíticos balançando os dedos frios para sempre, com a vitalidade comprometida e os múltiplos aparelhos de sinergia moral onimodamente destruídos.” (MAGALHÂES, 1978, p.154).

E terminava seu artigo com estas tiradas veementes que marcam claramente a visão crítica com que o poeta via a sociedade.

O povo exausto, com a iniciativa morta, sem esperança de um almo renascimento superior, é equiparável àquelas vítimas brancas que os sacerdotes de Hércules imolavam outrora [...] Comeram-lhe os intestinos, em massa; cortaram-lhe brutalmente os cabelos da testa, mas, as entranhas, ficaram aí, à mostra, decompondo-se aos poucos, lambidas pelos cachorros, ao sabor furibundo da primeira língua adventícia que apetecer deflorá-las. ( Idem, ibidem, p.154)

O novo olhar com que o poeta vê a complexa trama da realidade objetiva, implica, naturalmente, na desmistificação da linguagem, no rebaixamento temático, e, principalmente, no que se refere à comunicação autor/texto/leitor.

Quando o homem aparece na poesia de Augusto dos Anjos, ele aparece como estrangeiro ou como caricaturas. Partes do corpo em desproporção com a figura geral são iluminadas de forma excessiva:

“Assim/tântalo, aos reais convivas, num festim Serviu as carnes de seu próprio filho!”

(ANJOS, Augusto dos. Eu e outros poemas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2007,

p.113) Todas as demais citações são referentes a esta edição.

“E o homem- negro e heteróclito composto, Onde a alva flama psíquica trabalha”

“Carne, feixe de mônadas bastardas, Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas, A dardejar relampejantes brilhos”

O homem - que até então era imaginado nas poesias - cedeu lugar a uma expressão. Sem ele, muitas vezes, apenas expressões anatômicas e técnicas objetivam uma materialização. Tais quais encontramos em seus poemas:[olhos/ carnes/ corpo/ goela/ ventre/ mão/ boca/ rosto/ diafragma/ tato/ vista/ ouvido/ olfato/ podridão]

O homem, o sujeito, existe na lírica moderna e subsiste de um modo distinto, como linguagem criativa e fantasia.

Nenhuma das poesias de Augusto dos Anjos analisadas anteriormente, mesmo que por razões de curiosidade ou comodidade, poderiam ser interpretadas biograficamente. Nem poderíamos dizer que compreendemos totalmente o pesar que tanto se fala em sua poesia porque temos este sentimento dentro de si.

Para Friedrich (1978, p.172) essa desumanização transforma objetos e homens em categorias abstratas. Oeu lírico vê de forma impessoal as figuras puras do espaço e da luz. Sua felicidade intelectual não consegue aplacar uma dissonância assentada ao fundo. Não faz sentido perguntar à lírica moderna onde se manifesta dor e onde se manifesta alegria. Estes conteúdos sem dúvida existem; muitos oscilam, elevando-se ou retrocedendo, numa zona onde a alma fica mais longe, mais fria, mas, também, mais ousada que o homem sensível.

A desumanização acontece em diversas variantes e intensidade, mas a ela pertence uma lírica que só tem objetos como conteúdo. Em um contexto literário em que o objeto já está posto, copiado, reproduzido, sem que inclusive tenham aparecido na consciência, a lírica moderna tenta e recupera, por meio da expressão poética, a percepção da experiência viva deste objeto.

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Quanto mais fútil for o objeto, maior será o significado. Ela reconhece o que ainda pode ser poesia. Encontramos na lírica de Augusto alguns objetos: [pedestal/ pirâmide/ fósforo / cigarro/ parede/ ferrolho/ rede/ pau]

Para que esta experiência se concretize, se deflagre com o objeto, Augusto dos Anjos se utiliza de alguns recursos que caracterizam essa linguagem como: a ruptura do ritmo espontâneo da linguagem, choque de palavras, montagem de palavras e de imagens, mistura de formas verbais, coloquiais e eruditas e de palavras vulgares com palavras poéticas.

Tomemos a exemplo, versos do poema O Morcego, em que a alusão dos objetos não é meramente descritiva, ela é existencial, concreta:

“Vou mandar levantar a outra parede...” Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau, esforços faço. Chego A tocá-lo. Minha alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?!

Para Friedrich, estes objetos podem ser acolhidos com tal objetividade que:

O eu que os acolhe é fictício, é mero suporte da linguagem. Esta, sem dúvida, está muito longe de ser realística. A rigor, não deforma os objetos, mas o faz enriquecer tanto ou infunde aos objetos, rígidos por natureza, uma vida tão singular, que cria uma irrealidade sobrenatural.(FRIEDRICH, 1978, p.172).

O homem abate física e moralmente sua naturalidade; exila-se do mundo para satisfazer sua liberdade que só aqui é permitida. Para Friedrich, este é o “paradoxo singular da desumanização”.

O grande esforço da desumanização consiste em transformar a linguagem superficial em uma linguagem concreta, tendo como condutor um poeta que desenvolveu sua linguagem literária a condição prosaica. Esta mudança acontecerá justamente pela transformação do prosaico em poético, e pela habilidade em conseguir expressar, em última instância, a contradição entre sujeito e mundo.

A poesia de Augusto dos Anjos se realiza na irrealidade, diante de um mundo que é cientificamente decifrado, e para tal criação exige, justamente do poeta, a mesma exatidão e inteligência do que se quer realizar. Esse processo de transformação da linguagem passa pela fantasia elaborada e guiada pelo intelecto.

Porém, muitos acabam percebendo Augusto como um poeta afastado do cotidiano. Passam a vê-lo apenas como um simbolista ou “cientificista” sem, por meio de uma leitura atenta, observar nos objetos, utensílios, fenômenos e atos da vida de todos os dias, a revelação da experiência com o concreto.

Todos os elementos que fazem parte constituinte da lírica moderna–sugestão, despersonalização, grotesco, antipassadismo- nos fazem perceber o quanto ela está distante de

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