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Prophètes pasteurs

Dans le document Les sujets de Dieu (Page 66-92)

No decorrer das entrevistas foram propostas às crianças quatro questões de ordem prática sobre a temática abordada, com a intenção de motivá-las e envolvê- las na discussão:

1. Muitas vezes os jornais dizem que não devemos jogar lixo nos rios. O que você acha disso?

2. A televisão nos alerta para não desperdiçarmos (não gastarmos muita) água. Você sabe por quê?

3. Por que será que se costuma dizer que não devemos destruir as florestas? 4. Ouvimos todos os dias que devemos reciclar o lixo. Você pode me explicar

por quê?

Diante dessas situações contextualizadas, percebe-se que as crianças deram explicações mais elaboradas do que as respostas às perguntas mais diretas realizadas no início da conversa; além disso, pode-se perceber que suas explicações remetiam a problemas do seu cotidiano, chegando, inclusive, a propor soluções para esses problemas.

Sobre a questão da poluição dos rios, percebe-se nitidamente que as colocações das crianças vão de respostas amplas a respostas calcadas em experiências pessoais.

Carlos – Porque se jogar, o rio fica podre e pode matar os peixes e prejudicar o

nosso planeta.

Nicolly – Porque senão enche tudo. Na Roda de Fogo [bairro onde mora a

aluna] tem um canal que todo mundo joga lixo, aí quando chove fica tudo cheio d’água e fica doente.

André – Porque o canal enche e entra na minha casa.

No que diz respeito ao desperdício de água, vê-se que uma das crianças tece considerações sobre o tema a partir do seu contrário: a economia de água. Gradativamente, através de situações concretas do cotidiano, ela vai apresentando exemplos práticos de como economizar, culminando com uma consequência econômica do desperdício: aumento da conta de água a ser paga.

Nicolly – Vou explicar. Quando for lavar roupa deve gastar pouca água, deve

pegar a água suja para botar no banheiro e lavar casa. Botar pouquinha água para tomar banho. Quando for tomar banho para se ensaboar deve desligar o chuveiro para não gastar muito. Quando for escovar os dentes molha e fecha a torneira e depois bota água na boca e fecha a torneira. Isso é bom para a vida na terra. Também se gastar muito vem uma conta alta e vai pagar muito dinheiro na conta da água.

Outra criança já demonstra certa preocupação social, ao apontar para o fato de que pode faltar água para todo mundo, indo além do seu bem-estar individual.

Thalia – Porque senão não vai ter água para todo mundo, a água vai acabar e aí

tudo vai acabar.

Uma outra criança, por sua vez, discorre sobre o tema do desperdício estabelecendo relações de causa e consequência.

Maiara – Porque senão vai acabar a água da terra e vai ficar sem água, sem

energia, com sede, sem assistir televisão e com a luz apagada a gente vai dormir todo o dia e vai morrer. Vai morrer porque a gente vai ficar com soluço e sem água para beber e vai apagar as luzes todinhas e ninguém vai ver nada. Aí a gente vai ficar na cama. E também não vai ter comida e nem água para cozinhar.

A explicação dada por Maiara revela, claramente, que ela relaciona água a energia: ‘sem água’ significará ‘sem energia’. Ela não explicita, entretanto, o que a leva a estabelecer essa relação. Qual o conhecimento de Maiara sobre a produção da energia por meio de usinas hidroelétricas? Sem dúvida, a explicitação dessa relação seria um ponto relevante a ser explorado em uma situação de ensino- aprendizagem.

Nas falas das crianças acerca do desperdício de água, é recorrente a presença de elementos de sua experiência pessoal. Até mesmo quando se referem a elementos que não fazem parte de seu universo imediato, como o “deserto”, fica claro que o conceito construído é fruto de suas interações no mundo social, cujo senso comum aponta para paisagens secas, ermas, sem vida, sempre que se faz alguma alusão a esse espaço geográfico, como se pode perceber na fala de Lucas.

Lucas – Para não acabar e tudo virar um deserto.

Ao discorrerem sobre a destruição de florestas, as crianças demonstram “consciência” ecológica misturada a elementos da fantasia – lobo, vovozinha –, sem, no entanto, deixarem de apontar conceitos fundamentais para o equilíbrio do ecossistema, como a importância das árvores, das florestas para a produção do ar que se respira. No que diz respeito aos “elementos da fantasia”, vê-se a influência dos contos de fadas e fábulas no processo de construção de conhecimento nas crianças.

Bianca – Porque se cair uma árvore destrói a floresta. E na floresta tem o lobo,

tem vovozinha, tem árvore e bichos. Se destruir todo mundo vai morrer porque não vão poder respirar. Porque as florestas fazem o ar.

“As florestas fazem o ar” é uma afirmação de Bianca com grande potencial para instigamentos em situações didáticas. Explorar o papel das árvores no processo de segmentação do gás carbônico em oxigênio e carbono e as transformações daí decorrentes, conduzindo até possibilidades de discussão de composição da matéria química, corresponderia a uma sequência didática que teria sido propiciada por essa afirmação genérica que já faz parte do repertório da criança. Essa afirmação encobre um conhecimento já sistematizado, mas que ainda precisa ser desvelado pela criança e recolocado em termos mais apropriados a fim de que possa fazer parte de seu saber científico. A escola tem, entre outros, esse papel: oferecer oportunidades para que o aprendiz articule informações e domine novos saberes.

Nos dois recortes seguintes, é interessante notar como as crianças constroem seus argumentos a partir do par “homem-animal”, apontando para as diferentes habitações de cada uma dessas espécies, e também revelando capacidade de síntese: a destruição de florestas como sendo prejudicial tanto para o homem como para os animais.

Brenno – Porque a floresta é casa dos animais. Veja!... A terra é a casa das

pessoas que são a gente e a floresta é onde vivem os animais.

Percebe-se ainda que muitas vezes a experiência que as crianças trazem para discorrer sobre as questões que lhe são apresentadas não é vivenciada in loco, com situações concretas do seu cotidiano, mas sim por meio das mídias eletrônicas, sobretudo a televisiva, como se vê na fala de Lisandro ao referir-se à migração de animais selvagens para as grandes cidades, em consequência do desmatamento das florestas.

Lisandro – Porque ela fica derrubada e os animais vêm morar na cidade. Outro

dia eu vi na televisão um jacaré no quintal de um homem. Vi o perigo.

Nestes dois últimos recortes sobre a destruição de florestas, são nítidas, nas falas das crianças, as relações semânticas de causa, consequência e condição/hipótese/suposição, elementos fundamentais na construção de conceitos. Mesmo que exijam certo nível de abstração, essas relações ainda são mediadas pelas experiências concretas vivenciadas pelas crianças.

Marcelo – Porque o planeta não pode morrer senão a gente morre também. Thalia – Porque se destruir as árvores elas não vão dar aquele negócio para

fazer borracha e muitas coisas: pau para fazer lápis, as folhinhas para fazer chá, e remédios para a gente ficar boa e as frutas para fazer suco.

A última questão colocada para as crianças diz respeito à reciclagem de lixo. A maioria dos alunos demonstrou, explícita ou implicitamente, a mesma dificuldade já apresentada quando da pergunta direta feita no início da entrevista. Das 18 crianças, apenas duas focaram o tema proposto e, mais uma vez, com base em suas próprias vivências.

Lisandro – É levar garrafa para fazer boneco de brinquedo e carrinho.

Nicolly – Não pode botar lixo no rio nem no mar. Tem que botar num saco

dentro do balde e esperar o homem do lixo passar e levar na carrocinha. Agora as latinhas a gente junta para vender para fazer latinha de novo.

As explicações das crianças sobre os quatro temas apresentados apontam para a necessidade de se contemplar cada vez mais as suas falas. A escuta atenta sobre o que elas dizem e expressem livremente, permite que os professores tenham acesso ao nível de conhecimento em que elas se encontram, incentivando-as a avançar para outros níveis, até atingirem a esperada construção de conceitos científicos. Esses incentivos se dão em forma de instigamentos e, vale frisar, precisam partir da recorrência a situações concretas da realidade imediata das crianças. Eles constituem a mola propulsora da passagem do conceito espontâneo para o conceito científico. Cabe ao professor estar sempre atento a isso, evitando, na medida do possível, o aprisionamento, tanto das crianças quanto do seu próprio, nos conceitos espontâneos.

Dans le document Les sujets de Dieu (Page 66-92)

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