Assim como Nietzsche, Ricoeur ressalta a importância de Freud na elaboração de uma exegese da cultura (cf. RICOEUR, 1990a, p. 14). O filósofo considera que a perspectiva freudiana de interpretação dos símbolos, aponta para um problema de distorção que ao mesmo tempo em que mostra, esconde o sentido latente no sentido manifesto nos símbolos. Essa característica marcante dos símbolos situa a interpretação no nível de uma nova elucidação da hermenêutica. Destaca Ricoeur:
De acordo com Ricoeur, Freud encontra a fonte do sentido latente, ou inconsciente, dos símbolos entre as distorções ramificadas e entre as expressões culturais, tal como a “arte, a moral e a religião” (RICOEUR, 1990a, p.14). Estas distorções características de todo o símbolo permitiram as idolatrias ritualísticas, bem como constituiu a “base dos comportamentos obsessivos e neuróticos” (BARASH, 2002, p. 85). Porém, a riqueza de significados dos símbolos não se restringe a uma fonte latente que origina idolatrias e comportamentos neuróticos. O símbolo é condição primeira para o efetivo elo entre o ser humano, o mundo e o seu sagrado. Mas, tal relação só é compreendida, nas formas da linguagem, pela fala e pela palavra, por meio da interpretação que lhe dá sentido.
Os símbolos podem expressar significações múltiplas na relação do ser humano com o mundo. “A mancha nunca significou literalmente uma nódoa, a impureza nunca foi literalmente a sujidade; ela mantém-se no claro-escuro de uma infecção quase física e de uma indignidade quase moral” (RICOEUR, 1990a, p. 418). Um mesmo símbolo oferece significações diversas à consciência. O símbolo da culpa, por exemplo, pode ao mesmo tempo revelar uma consciência escrupulosa que, por seu turno, “marca a entrada da consciência moral na sua própria patologia” (RICOEUR, 1990a, p. 420), designando um alto valor moral.
No livro Da interpretação: ensaio sobre Freud (1965), composto por três conferências realizadas por Ricoeur na Universidade de Yale, em 1961, apresentar a via longa hermenêutica ao público americano. De todos os seus livros, esse se institui como o mais didático de Ricoeur. Nesta obra, o filósofo desenvolve o que é a hermenêutica, o que é a interpretação e o que é o conflito de interpretações, temas estes nada fáceis de compreender e explicar, uma vez que a visão simbólica da realidade está ligada á questão do “remembramento do discurso” (RICOEUR, 1977, p. 15). Escreve Ricoeur:
É claro que o elemento comum, aquele que se encontra em toda a parte, da exegese à psicanálise, é uma certa arquitetura do sentido, a que se pode chamar duplo sentido ou múltiplo sentido, cujo papel é todas as vezes, embora de maneira diferente, mostrar escondendo (RICOEUR, 1990a, p. 14).
Tal remembramento do discurso, para Ricoeur, refere-se a uma espécie de remontagem para uma reinterpretação dos discursos pela via longa da hermenêutica. Englobar a questão do remembramento do discurso pode se constituir como o horizonte mais vasto da via longa hermenêutica. Pois, se o que existe são conflitos de interpretações, como é possível a via longa hermenêutica como remembramento do discurso diante de tantos conflitos de interpretações? Pensamos que a resposta a essa questão já está na constatação da via longa hermenêutica de revelar a existência de conflitos de interpretações entre as variadas formas do discurso humano. Segundo Ricoeur, “entre a investigação médica e a teoria da cultura” (RICOEUR, 1977, p. 16), o que torna a obra de Freud tão especial e profícua para a filosofia é a teoria da cultura, especificamente, a aproximação freudiana com a mitologia e a literatura. Explica o filósofo:
É em a Interpretação de Sonhos (1900) que se esboça a aproximação com a mitologia e com a literatura. O que a Traumdeutung propunha, desde 1900, era que o sonho é a mitologia privada daquele que dorme, que o mito é o sonho desperto dos povos, que o Édipo de Sófocles e o Hamlet de Shakespeare dependem da mesma interpretação que o sonho. Eis o que, para nós, constituirá problema (RICOUR, 1977, p. 16).
Em outras palavras, nós não nos expressamos de outra forma, senão por uma compreensão simbólica ou mitológica da realidade. Com efeito, a teoria ricoeuriana sobre as narrativas ficcionais, a relação entre ficção e realidade, tem sua fonte na teoria hermenêutica dos símbolos. As narrativas são pensadas como uma espécie de locus privilegiado da compreensão simbólica do existente.
Do mesmo modo que a psicanálise atingiu, antes de tudo, o símbolo como distorção de um sentido elementar que adere ao desejo, a fenomenologia da religião também atingiu o símbolo como manifestação do sagrado. Pergunta Ricoeur, “será que o mostrar e ocultar do duplo sentido é sempre uma dissimulação do que quer dizer o desejo, ou será que ele pode ser ás vezes revelação de um sagrado?” (RICOEUR, 1977, p. 18). Ricoeur explica que:
Somos precisamente esses homens que dispõem de uma lógica simbólica, de uma ciência exegética, de uma antropologia e de uma psicanálise, e que talvez, pela primeira vez, são capazes de englobar, em uma só, a questão do remembramento do discurso humano. (...) A unidade do falar humano constitui hoje problema. (RICOEUR, 1977, p. 15).
A partir dessa citação podemos observar a delimitação do campo de interpretação hermenêutico pela psicanálise. De um lado, a psicanálise se restringe a tentar explicar, através da interpretação dos sonhos, um sentido que é parte de um todo. Por outro, o campo da teoria hermenêutica se dedica a interpretar o todo de duplo sentido, procurando interpretar a forma de linguagem que é dita. Contudo, assim como Freud, Ricoeur caracteriza o campo hermenêutico como uma busca de compreensão do ser através da investigação da forma de linguagem simbólica e interpretativa, porém não se restringe ao campo do inconsciente como na psicanálise, e nem ao campo da revelação do sagrado como na fenomenologia da religião. Barash afirma que Ricoeur:
[...] admite, certamente, a produtividade da teoria freudiana, quando esta, reconduzindo os símbolos à sua fonte latente ou inconsciente, permite desvelar uma idolatria simbólica na base dos comportamentos obsessivos e neuróticos. Contudo, a plenitude de significados que o símbolo reveste, como o próprio Freud em muitas ocasiões é obrigado a confessar, não poderia ser remetida unicamente a esta fonte. Ricoeur visa restituir toda esta plenitude de que Freud, por causa de seu próprio método de interpretação, no mais das vezes deixou na sombra (BARASH, 2002, p. 85).
Embora a reflexão da psicanálise prepare todo o terreno para o livro que Ricoeur publicará posteriormente, O Conflito das Interpretações, os estudos da via longa hermenêutica presentes em Da interpretação: ensaios sobre Freud de forma alguma pretendeu fornecer a filosofia da linguagem que algumas teorias da linguagem na época de sua publicação esperavam chegar. Senão, apenas explorar certas articulações entre as disciplinas que investigam a linguagem, e as diversas formas de interpretação. Acentua o Ricoeur:
O sonho designa – pars pro toto – toda a região das expressões de duplo sentido, o problema da interpretação designa, reciprocamente, toda a inteligência do sentido especialmente ordenada às expressões equívocas. A interpretação é a inteligência do duplo sentido. Assim, na ampla esfera da linguagem, precisa-se o lugar da psicanálise: é, ao mesmo tempo, o lugar dos símbolos ou do duplo sentido e aquele em que se defrontam as diversas maneiras de interpretar. Doravante, chamaremos de “o campo hermenêutico” essa circunscrição mais vasta do que a psicanálise, embora mais estreita do que a teoria da linguagem total que lhe serve de horizonte (RICOEUR, 1977, p. 18-19).
Ambas as teorias de interpretação, a teoria psicanalítica de Freud e a fenomenologia da religião, constituíram fortes influências para a concepção e formulação dos conflitos de interpretação analisados por Ricoeur.
2.2.2 A hermenêutica amplificada dos mestres da suspeita na concepção ricoeuriana