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4.5 Property definition

O Programa de Apoio Pedagógico foi concebido desde o início sob alguns princípios que nortearam todos os planejamentos e todas as ações empreendidas. Eles eram necessários para fundamentar decisões, corrigir rumos e balizar o caminho.

Os quatro princípios do Programa de Apoio Pedagógico eram: a) cuidar mais de quem mais precisa;

b) individualizar o ensino e as aprendizagens; c) buscar uma política de Apoio Pedagógico; e d) dizer não ao fatalismo.

4.2.1 Cuidar mais de quem mais precisa

Durante muito tempo, a escola foi vista como um espaço de ensino e aprendizagem de igualdade de oportunidades. A todos eram dadas as mesmas condições de ensino e iguais

Figura 4 - Homenagem dos alunos do apoio pedagógico aos professores

Figura 5 - Homenagem dos alunos do apoio pedagógico aos professores

oportunidades para que os mais esforçados, dedicados e estudiosos fossem os mais bem- sucedidos, ou seja, para que o mérito de cada um fizesse a diferença.

Olhando-se para os Colégios Militares, constatam-se grandes desigualdades sociais entre os alunos que se revelam em enormes desigualdades iniciais de aprendizagem. Dar as mesmas condições a todos os alunos é como pegar um superatleta e uma pessoa normal, dar- lhes o mesmo tempo de treinamento e as mesmas condições de preparação e esperar que ao final ambos tenham resultados semelhantes. O ponto de partida de cada um deles é bem diferente.

O CMF sempre teve “superalunos” admitidos pelo concurso de admissão e também alunos com dificuldades, por isso é importante cuidar mais de quem mais precisa por mais tempo. Aí está a importância do Apoio Pedagógico. Se a escola se preocupa com o desenvolvimento de todos os seus alunos e não apenas de alguns e sabendo que os alunos são diferentes na sua trajetória escolar, na forma e ritmo de aprendizagem, não há outro caminho senão oferecer um pouco mais de atenção a quem realmente precisa.

Todos os professores sabem, por experiência própria, que as crianças são diferentes, que não tem os mesmos interesses, que não aprendem no mesmo ritmo, que não recebem do meio do qual provêm o mesmo capital linguístico e cultural, que na mesma idade não tem o mesmo nível de desenvolvimento intelectual, que nem todas são ajudadas e apoiadas pela família. Portanto, com o mesmo ensino, não podem adquirir ao mesmo tempo as mesmas aprendizagens: para prevenir o fracasso escolar, para não agravar ainda mais as desigualdades iniciais, é preciso diferenciar o ensino, dedicar mais tempo e mais recursos para ajudar os menos favorecidos (PERRENOUD, 2001, p. 49). Diferenciar é trabalhar prioritariamente com os alunos que têm dificuldades (id. p. 45).

Não se tratava de sonhar com a possibilidade de que todos os alunos atingissem elevados índices de desempenho, mas de criar oportunidades para que todos pudessem adquirir as aprendizagens mínimas necessárias para o prosseguimento de seus estudos em anos superiores.

Especificamente no Colégio Militar, ajudar aos alunos que mais precisavam não significava deixar de lado os demais alunos, como alguns pais poderiam pensar. Os alunos que não tinham dificuldades de aprendizagem continuavam recebendo a mesma atenção e a mesma educação que os discentes que por ali já passaram, receberam. Por outro lado, era impossível dar a todos os alunos a partir de agora a mesma atenção dispensada aos alunos com dificuldades, sem que isso comprometesse o desenvolvimento dos menos capazes.

Outro aspecto que deve ser destacado é que o Sistema de Ensino dos Colégios Militares, naturalmente e sem que se perceba, já favorece os “bons” alunos. Embora no discurso oficial se diga que todos eles têm os mesmos direitos, na prática algumas oportunidades acabam sendo aproveitadas por um grupo seleto de discentes.

O Centro de Aprofundamento e Excelência5 (CAEx), as aulas de olimpíadas e a participação nelas, os alamares6, as graduações7, os elogios, a admiração dos professores e da escola “não são para os alunos com dificuldades”. A eles resta a luta pela aprovação e a permanência na escola.

4.2.2 Individualizar o ensino e as aprendizagens

O Coordenador ressaltava nas reuniões da equipe pedagógica que o trabalho pedagógico devia ser diferenciado daquele desenvolvido no turno regular, sempre que possível atendendo de modo diferenciado às necessidades individuais de cada aluno. Não bastava saber o que o aluno não sabe. Era preciso saber por que ele não sabe. Isso faria toda a diferença na proposta de intervenção do professor.

Para uma dificuldade observada, poderia haver diferentes motivos. O assunto poderia estar acima da capacidade de compreensão do aluno, ele poderia estar desmotivado e sem interesse para aprender, os enunciados poderiam ter sido mal formulados ou a metodologia não seria adequada, por exemplo.

Até um mesmo erro cometido por alunos diferentes poderia ter origens diversas. Um aluno que errasse um problema envolvendo frações, por exemplo, poderia não ter entendido o enunciado, não ter conseguido recuperar na memória um conceito já aprendido, ter errado na execução das operações, ter cometido uma falta de atenção ou simplesmente não sabia fazer. Cada tipo de erro iria requerer uma proposta de intervenção diferenciada. Da mesma forma que para alcançar alunos diferentes, sempre que possível, dever-se-ia propor abordagens diferentes.

Certa vez, por exemplo, a aluna P. perdeu o prazo de entrega de uma redação cuja proposta pedia que ela escrevesse uma história e, por isso, recebeu nota zero. A professora do Apoio solicitou um novo prazo à professora da manhã, mas a aluna se recusava a fazer dizendo que não tinha ideias. A professora de Língua Portuguesa do apoio pediu então que a aluna P. falasse sobre um conto conhecido. Quando ela terminou, a professora simplesmente perguntou se ela poderia escrever o que havia acabado de falar. Assim, a aluna conseguiu redigir e entregar a redação.

5Curso gratuito realizado nos turnos da tarde e da noite, disponível para todos os alunos a partir do 9º ano, com

o apoio de professores externos, destinado à preparação de concursos como IME, ITA, etc.

6O alamar é uma condecoração concedida bimestralmente aos alunos com média acima de 7,9 em todas as

disciplinas.

7As graduações são semelhantes às utilizadas no Exército e concedidas aos melhores colocados de cada turma,

Além de entender o que o aluno não sabe, era preciso observar o que o aluno já sabe para servir de ponte para novas aprendizagens. Portanto, a partir de um diagnóstico correto para cada aluno, identificando suas potencialidades e as possíveis causas de suas dificuldades, poder- se-ia propor intervenções diferenciadas e, consequentemente, ajudá-lo no processo ensino- aprendizagem.

4.2.3 Buscar uma política de Apoio Pedagógico

O Programa de Apoio Pedagógico do CMF tinha na sua gênese a proposta de ser um instrumento de ajuda aos alunos com dificuldades de aprendizagem e de enfrentamento da reprovação escolar. Este Programa não poderia prescindir de uma SAP, com uma estrutura adequada em material e pessoal, que seria o principal órgão de planejamento e assessoramento à Direção de Ensino nos assuntos relativos ao Apoio Pedagógico.

Ao mesmo tempo, o Programa também deveria incentivar a implantação de uma política de apoio pedagógico, na qual a Seção de Apoio Pedagógico estaria inserida, que incluísse uma mudança de olhar e de procedimentos de todos os agentes educacionais, em particular dos professores. São eles que planejam as sequências didáticas, definem os melhores métodos e estratégias de ensino-aprendizagem, elaboram, corrigem e tomam as decisões sobre as avaliações e, acima de tudo, são aqueles que passam a maior parte do tempo com os alunos. Portanto, qualquer iniciativa de ajuda aos alunos com dificuldades de aprendizagem não poderia prescindir dos professores do turno regular. Para que essa política fosse definitivamente consolidada, era preciso que o fazer pedagógico de todos os agentes educacionais do Colégio permeasse todas as esferas de ensino, do currículo às avaliações.

Uma política de apoio pedagógico em última instância deveria inserir também os alunos e seus responsáveis, não como corresponsáveis, mas como aqueles que indiretamente estariam participando e contribuindo de alguma forma neste grande movimento de ajuda aos alunos com dificuldades de aprendizagem.

4.2.4 Dizer não ao Fatalismo!

Os desafios do Apoio Pedagógico eram enormes e a equipe deveria estar preparada para se alegrar nas conquistas, mas também para não desanimar diante dos reveses que certamente viriam. Como disse Perrenoud (2001, p. 68),

durante um certo tempo, um professor faz de tudo para que todos os seus alunos sejam bem-sucedidos [...] No entanto, alguns meses ou anos mais tarde, decepcionado pela ausência de resultados espetaculares, esgotado pelo seu investimento em tempo, energia e criação didática, retorna a um funcionamento mais econômico e também mais fatalista.

Resultados espetaculares em um curto espaço de tempo dificilmente seriam alcançados. Problemas socioeconômicos e familiares, abismos culturais, grandes déficits de aprendizado, desmotivação, comportamentos inadequados, provavelmente seriam encontrados na diversidade de alunos que integravam as turmas do apoio pedagógico.

Os recursos materiais e humanos da escola eram limitados, ou seja, nem sempre era possível dar a um aluno a atenção e o tempo de que ele precisava, embora em nenhum outro tempo, o Apoio Pedagógico houvesse recebido tamanha prioridade. Era preciso não ignorar essa realidade, como antídoto para não desistir quando as dificuldades aparecessem.

Dizer não ao fatalismo significava continuar sempre fazendo o melhor, independente das circunstâncias desfavoráveis que insistissem em apontar para o fracasso escolar. Acreditar nos alunos até o fim. Este era um princípio a ser perseguido diariamente, que se tornou um compromisso da equipe pedagógica.