d’évaluation multicritère de la durabilité des décisions de gestion des risques
3.6 Contribution à la prise en compte des incertitudes dans l’évaluation des décisions de gestion des risques d’origine naturelle
3.6.2 Propagation des incertitudes dans le processus d’évaluation de la durabilité
Como sinal da mais refinada vibração do divino na terra, a música parece ter na narrativa a função de síntese da proposta humanística dos jesuítas, a despeito de toda a aculturação que tal projeto também demandou. Não teria sido por outro motivo, além desse papel simbólico de conter a essência do paraíso, o fato de Pedro Missioneiro carregar um instrumento musical, junto com um punhal, quando saiu do povoado em chamas para fundar
190 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Op. cit., p. 500-501. 191 VERISSIMO, Erico. Op. cit., p. 41.
192 Idem, p. 53. 193 Ibidem, p. 54.
um clã e uma sociedade. A chirimia de Pedro era um instrumento de sopro em madeira, precursor do oboé, fabricado pelos próprios índios sob a coordenação dos padres. Mais tarde, quando passou a conviver com a família de Ana Terra, Pedro tocou outro instrumento de sopro, uma flauta, deixando Ana arrebatada por um estranho sentimento. Era a música cumprindo seu papel de tocar o espírito humano e, de alguma forma, conectá-lo com o transcendente. “O agudo som do instrumento penetrou Ana Terra como uma agulha, e ela se sentiu ferida, trespassada. [...] Sentiu então uma tristeza enorme, um desejo amolecido de chorar.” 194 A melodia fez Ana evocar aquelas que costumava ouvir na igreja, quando morava
em Sorocaba. Naquele rancho agreste, habitado por uma família marcada pela crueza da sobrevivência e distante do afeto, a música que o índio aprendera a tocar nas missões provocou um abalo nas almas, despertou sensibilidades adormecidas pelo real. Descreve o autor: “Com a cabeça apoiada nas mãos, Maneco Terra escutava. Horácio olhava para o teto. Antônio riscava a madeira da mesa com a ponta da faca. Havia lágrimas nos olhos de D. Henriqueta.”195
Como se verá logo depois na narrativa, a flauta e a música de herança missioneira desapareceram com o sacrifício do índio Pedro após engravidar Ana Terra. Restou o punhal de prata, absolutamente mais coerente com o rumo da cultura em formação. Quase um século depois desse episódio, de uma Santa Fé já bastante povoada, o médico alemão Carl Winter parte para conhecer as ruínas das Missões, guiado por um vaqueano. Inebriado pelo ambiente ainda espetacular, Winter, também músico, questiona:
Aquelas pedras – refletiu ele – haviam sido envolvidas por melodias inventadas por compositores europeus e reproduzidas por jesuítas e indígenas em instrumentos fabricados na própria redução. Onde estavam agora as melodias do passado? Onde? Para se divertir fez em voz alta essa pergunta ao vaqueano. O rapaz mirou-o com ar sério e disse:
– Vosmecê está mangando comigo, doutor. [...] O senhor, que é doutor, deve saber. Eu sou um bagualão. 196
Winter constata a diferença cultural entre os valores humanísticos do passado, evocados pelo território arruinado das Missões, e os daquele peão rude da atualidade de então. No mesmo local, o médico já havia refletido acerca da disparidade cultural de antes, quando do florescimento missioneiro. Para ele, um viajante que tivesse chegado ali em meados do século XVIII perceberia no ambiente uma mistura de Idade Média e Renascimento, enquanto
194 Op. cit., p. 115. 195 Op. cit., p. 116.
no restante do Continente de São Pedro encontraria homens contemporâneos estabelecidos numa terra de tribos pré-históricas e vivendo numa idade híbrida. 197
Winter age como um legítimo viajante estrangeiro nas terras gaúchas. Sabemos pelas anotações hoje amparadas no Acervo Literário Erico Verissimo que, para compor seu romance histórico, o escritor pesquisou os relatos de viajantes europeus sobre o Rio Grande do Sul do século XIX. Muito do que é narrado sobre a faina cotidiana dos aldeamentos, na ótica do jesuíta Alonzo, pode ter sido retirado das descrições do padre jesuíta tirolês Antônio Sepp von Rechegg, o Padre Sepp, cujo livro Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos teve sua última edição brasileira em 1943 e constitui o mais antigo documento sobre as reduções em estudo. Padre Sepp foi fundador de aldeamentos dos Sete Povos, como o de São João Batista, em 1698, além de ter sido o promotor da cultura em massa do algodão no local e da fundição do ferro. A música ganhava destaque entre suas ações apostólicas, com resultados prodigiosos, como consta no seu relato de 1698:
Na colônia de São João Batista, recentemente fundada, há um rapaz de seus doze anos, que toca com dedo firme sonatas, alemandes, sarabandas, correntas e baletos e outras muitas peças compostas pelos mais insignes maestros europeus. [...] Prelúdios que fazem suar o organista mais hábil, devido à concentração que exigem, o meu rapazito os toca na cítara davídica ou harpa, com sorriso nos lábios. [...] Portanto, se ainda houver quem considere a estes coitados ineptos para especulações metafísicas, reconheça ao menos neles um tino prático para serviços mecânicos e, sobretudo, uma propensão rara para a música. Esta última os torna sobremaneira dóceis. Deste modo, criaturas boçais que são incapazes de compreender as cousas do espírito, entrar-lhe-ão pelo ouvido as verdades fundamentais da fé católica. 198
Mesmo com o fim dos aldeamentos e a expulsão dos jesuítas, o despertado pendor musical dos índios se manteve na região missioneira. O francês Auguste de Saint-Hilaire, em visita a São Borja em 1821, escreveu:
Fui hoje a missa durante a qual alguns meninos cantaram árias portuguesas, com voz muito boa e muita afinação. Os jesuítas, como os antigos legisladores, serviam-se da música para abrandar os costumes dos guaranis e para cativá-los. [...] Como os índios não ouviam o som dos instrumentos, pelos quais eram apaixonados, senão nas cerimônias religiosas, logo tomaram a música como parte essencial do culto divino, tornando-se afeiçoados ao ofício sacro e cristãos, tanto quanto podiam ser. Após o desaparecimento dos Jesuítas, o amor à música persistiu entre os guaranis, por assim dizer – sem mestres. E a aprendizagem da música tornou-os também soldados, como outrora fê-lo cristãos. 199
197 Idem, p. 88.
198 SEPP, Padre Antônio. Viagem às missões jesuíticas e trabalhos apostólicos. Tradução de A Reymundo
Schneider et al. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1943, p. 235-236.
199 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821. Tradução de Leonam de Azeredo