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End Proof of Proposition 4

Dans le document  The Existence of Re (Page 28-32)

Em nossa pesquisa, como já ressaltamos anteriormente, nos respaldamos na teoria dos circuitos espaciais de produção. Esta noção enfatiza, a um só tempo: a centralidade da circulação no encadeamento das diversas etapas da produção (circuito); o espaço enquanto variável significativa da reprodução social (espacial); e o enfoque centrado em determinado ramo, numa atividade produtiva dominante (produtivo) (CASTILLO; FREDERICO; 2010).

Para estes autores, a teoria remonta à Marx (2008), quando este discorre sobre a unidade contraditória entre as diferentes etapas da produção. Trata-se de uma geografização da unidade contraditória entre as instâncias produtivas, cuja articulação, conforme elucida Moraes (1984), se dá por meio da circulação11, implicando circularidade, de onde, para o autor, surge a ideia e a noção de circuito. Isto é, a teoria visa compreender o sentido da localização (espacialidade) das atividades econômicas, no período atual, ou seja, “discutir a espacialidade da produção-distribuição-troca-consumo como movimento circular constante” (MORAES, 1984, p. 4).

Segundo Castillo e Frederico (2010), os estudos relativos ao conceito de circuito espacial produtivo são relativamente recentes na história da ciência geográfica, tendo sido inicialmente formulados, de forma sistematiza, em 1970, por Sonia Barrios no projeto “MORVEN: Metodologia para o Diagnóstico Regional”, desenvolvido pela Universidade Central da Venezuela. Destarte, interessa averiguar sucintamente o alicerce desta construção analítica, em termos de concepção, pressupostos e classes de fenômenos.

Ao analisar a metodologia utilizada no projeto realizado pelo CENDES (Centro de Estudios del Desarrollo da Universidade Central da Venezuela) para construção de um Modelo Regional, Santos (1986) observa a iniciativa de Sonia Barrios em romper com os enfoques tradicionais, cujas interpretações dos processos sociais se dão de forma fragmentária. A propósito, Barrios (1986) possui uma concepção sobre espaço geográfico que encontra algumas convergências em relação à desenvolvida por Santos (2008c), sobretudo, quanto este trata da questão da totalidade e do espaço.

11 Neste sentido, a circulação não é necessariamente uma das instâncias da produção, mas a interlocução, a imbricação, entre elas. Portanto, distribuição, troca e circulação, em que pese estarem sobrepostas, não são sinônimas.

Não se trata, todavia, em nenhum dos casos, de uma visão especulativa, tampouco tautológica.

Conceitualmente, as diversas etapas pelas quais passaria um produto, desde o começo do processo de produção até chegar ao consumo final, para Santos (2008b), caracterizam e definem os circuitos espaciais de produção. Dessa forma, eles pressupõem atentar a um conjunto de elementos distintos do encadeamento produtivo, tais como: matéria prima, mão de obra, estocagem, transportes, comercialização e consumo.

Segundo Barrios (1978 apud Santos, 1986, p. 121), “esses circuitos de produção e acumulação se estruturam a partir de uma atividade produtiva definida como primária ou inicial” compreendendo, ao mesmo tempo, “uma série de fases ou escalões correspondentes aos distintos processos de transformação por que passa o produto principal da atividade até chegar ao consumo final”. Ademais, os circuitos são diferenciados pela identificação de seus respectivos insumos principais. Neste sentido, a produção propriamente dita assume o papel de “instância reveladora”.

Esta definição guarda uma diretriz metodológica elementar. Tomemos o exemplo de nosso objeto. O insumo básico para a fabricação de qualquer que seja o produto do circuito espacial de produção de artefatos têxteis para uso doméstico é o fio de algodão. Este é produzido por meio da etapa de fiação, que por seu turno, tem como matéria-prima o algodão propriamente dito, produzido por meio do cultivo agrícola. No entanto, o circuito que investigaremos não compreenderá esta última atividade, uma vez que:

Uma atividade pertencerá a um dado circuito quando seu insumo principal provier da fase anterior do mencionado circuito; caso contrário, considera-se que a partir desse ponto se desenvolve outro circuito, que deve ser analisado separadamente (Barrios, 1978 apud Santos, 1986, p. 121-122).

Em sua contribuição teórica, Santos (1986) propõe que este problema deva ser tratado por partes. O autor compreende que a primeira tarefa a se impor é a distinção entre aspectos, claramente, técnico-organizativos. Estes possuem uma propriedade específica se tratando individualmente de cada circuito espacial produtivo. Entretanto, considera que, tomados de modo separado ou conjunto, eles irão permanecer como

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abstrações até que se efetive a sua realização concreta em uma determinada fração do espaço total.

Como contraposição a esse dado, tratamentos individuais concernentes aos estabelecimentos ou firmas surgirão como um impasse, já que não irão abordar se não fenômenos técnicos, em sentido estrito. E no tocante os aspectos propriamente econômicos, um tratamento estratificado não permitirá isolar e identificar as manifestações reais de cada firma.

Destas apurações chegamos à conclusão de ser fundamental o conhecimento das relações técnicas, todavia elas só podem ser apreendidas “[...] a partir das relações econômicas que presidem a atividade (SANTOS, 1986, p. 126-127)” sejam elas desencadeadas por grupos econômicos multifirmas e /ou multiatividades, ou por firmas compostas por uma única família ou indivíduo.

Neste sentido, o autor sugere uma classificação dos níveis de relações econômicas correspondentes a cada atividade como parâmetro para compreendê-las. Considera, todavia, que, para a tarefa cumprir-se a contendo, as variadas atividades devem ser tratadas em conjunto, ou seja, atentando para a inter-setorialidade. São estabelecidas, assim, duas situações distintas de relações entre firmas: “1) em suas relações propriamente econômicas, dentro de cada firma e independentemente da existência de relações técnicas; 2) em suas relações técnicas, ainda que entre firmas diferentes (SANTOS, 1986, p. 127).

Logo, estaríamos diante do seguinte quadro de situações:

1) relações técnicas, que são também relações econômicas dentro de uma mesma firma; 2) relações econômicas dentro de uma mesma firma, mas que não são relações técnicas; 3) relações técnicas que criam relações econômicas entre firmas; 4) relações econômicas, mas não técnicas, entre firmas (SANTOS, 1986, p.127).

Por conseguinte, também é possível identificar um quadro dos fluxos engendrados neste contexto, seguindo, mais uma vez, níveis qualitativos. Percebemos aqui mais uma dica salutar de método, englobando a dialética entre fixos e fluxos - uma das categorias analíticas por nós utilizadas cujo intento é tecer a intermediação entre a trama do real e a delimitação metodológica empregada. Por isto a importância de estabelecer, com base no autor, um detalhamento segundo natureza e origem desses vetores. Se tratando da natureza, há de se considerar aqueles

criados por relações técnicas e relações econômicas; já em relação à origem, os fluxos transcorrem-se dentro de uma mesma firma ou entre firmas.

Segundo Santos e Silveira (2008) para entender o uso do território é necessário captar o movimento - de onde surge a referida proposta de abordagem teórica. Para os autores, como os circuitos espaciais de produção são definidos por meio da circulação de bens de produtos, oferecem uma compreensão dinâmica da maneira como os fluxos perpassam o território.

Destarte, para manter e reproduzir esse movimento são necessários abundantes conteúdos organizacionais, com importante e prévio trabalho intelectual. Ou seja, fluxos imateriais. É a interlocução destes vetores que empreende os círculos de cooperação. Para Silveira (2010b), as tessituras destes círculos cingem o território sob a forma de ordens, informações, propaganda, dinheiro e outros instrumentos financeiros.

A interpretação conjunta dessas duas noções possibilita verificar a interdependência dos espaços produtivos, compreendendo, ao mesmo tempo, a unidade e a circularidade do movimento. Em síntese, “Circuitos espaciais de produção e círculos cooperação mostram o uso diferenciado de cada território por parte das empresas, das instituições, dos indivíduos, e permitem compreender a hierarquia dos lugares” (SANTOS; SILVEIRA, 2008, p. 144).

Outrossim, os processos técnicos também nos permitem distinções analíticas, direcionando, por seu turno, às localizações. Elas se dão via reconhecimento dos diferentes ramos e sub-ramos, ou seja, especificações dentro dos próprios ramos.

O circuito de ramo têxtil serve como um bom parâmetro para esta afirmação, uma vez que contém uma notável diversidade técnico-produtiva. Ele contempla, grosso modo, dois sub-ramos: a confecção de artigos do vestuário (vestimentas em geral) e a fabricação de artefatos têxteis voltados para o consumo consultivo, sobremaneira o doméstico (tapeçaria, roupas de cama, mesa, banho etc.), ou produtivo (linhas, fios, cordoaria etc.). Apesar de apresentarem vários nexos, estes sub-ramos preservam vetores com propriedades bem específicas. Por exemplo, dentro da fabricação de artefatos têxteis há uma série de circuitos espaciais produtivos usando o território diferentemente de acordo com as especificidades técnicas de cada produto, que são tanto da ordem da produção propriamente dita, quanto da distribuição, das trocas ou da circulação. Ou seja, nós temos dialeticamente um circuito espacial de produção têxtil, na macro escala, que se dilui com a divisão

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territorial do trabalho, subdividindo-se em uma série de outros circuitos “menores” – o circuito produtivo do Boné (LINS, 2011), das redes de dormir (CARNEIRO, 2011) etc. – e à eles se sobrepondo.

Vale atentar, todavia, que não são as localizações em si que nos dão a chave para o entendimento do uso do território, e sim a trama global do circuito espacial produtivo - cujas localizações constituem apenas uma de suas manifestações. Por isso, quando falamos em circuitos “menores”, devemos utilizar todas as aspas possíveis para que não haja confusão entre esta perspectiva e a dos arranjos produtivos locais, pois estamos nos referindo aos ramos e não aos subespaços.

Os processos de acumulação permitem distinguir, do mesmo modo, as firmas através dos seus respectivos poderes de mercado e ações territoriais. Havendo, entre esses dois processos, inúmeras superposições “cujos limites devem, em cada caso, ser examinados (SANTOS, 1986, p. 128)”. Com base nas aferições sobre as realidades de tais processos, o autor sugere considerar três categorias analíticas para o estudo dos circuitos espaciais produtivos: os circuitos de ramos de produção; os circuitos de firmas; e os circuitos territoriais.

Os circuitos de ramos possuem as relações técnicas, somadas às respectivas relações sociais, como motrizes e nos direciona para as localizações das atividades produtivas, bem como à aspectos da tipicidade ou especificidade dos lugares que as abrigam. Por outro lado, os circuitos de firmas contemplam relações econômicas nos mais variados níveis e em múltiplas escalas, englobando as relações sociais por elas provocadas e/ou controladas.

Já os circuitos territoriais, em certa medida, são uma síntese das categorias precedentes, uma vez que conjugam as modalidades de uso do território por parte dos ramos da produção e das firmas ou demais agentes envolvidos. Há de se considerar, no entanto, que:

[...] o movimento dos circuitos territoriais é relativamente independente do movimento dos circuitos de ramo e de firmas, pois o espaço não se define apenas pelas firmas e sua produção respectiva, mas também por uma série numerosa de outros fatores (SANTOS, 1986, p. 129).

Conquanto seu conteúdo global, esta categoria não nos possibilitará empreender uma resposta total sobre espaço geográfico. Uma vez que este é um produto social, sua análise deve tangenciar outros aspectos, isto é, outras instâncias

da vida social (SANTOS, 1986). Como essa nos parece uma missão demasiadamente ardilosa e, sobretudo, pretenciosa, cabe-nos coadunar ao pensamento do autor de que os circuitos espaciais produtivos nos darão uma resposta sobre “[...] a situação

relativa dos lugares, isto é, a definição, num dado momento, da respectiva fração de

espaço em função da divisão do trabalho sobre o espaço total de um país” (SANTOS, 1986, p. 130, grifo do autor).

Todos estes fatores e relações também são tributários das relações de produção pretéritas, sejam elas mantidas como relíquias ou heranças do passado, ou mesmo rejuvenescidas por vetores modernos. Todas elas, no entanto, são patentes das formas-conteúdo.

O autor nos explica que os processos de modernização possuem desdobramentos diversos sobre as estruturas pretéritas, podendo sua ação desencadear de corrosões a destruições totais destas bases. Como ele nos mostra, os circuitos de grandes firmas ou ramos, podem até mesmo, oportuna e eventualmente, apropriar-se de heranças advindas de fases produtivas remanescentes, prolongando, com isso, a existência das formas pretéritas, a despeito da natureza renovada dos conteúdos que as envolvem.

Outro fator preponderante para o entendimento dos diferentes circuitos é a escala geográfica de ação. Esta, lançando mão uma vez mais das elucubrações de Santos (1986, p. 131), “constitui um princípio de organização que não pode deixar de ser considerado, mesmo que os seus efeitos não se imponham uniformemente nem sobre o todo social nem sobre o território como um todo”.

Neste caso, Moraes (1984) complementa afirmando que a ótica balizadora para a análise dos circuitos espaciais da produção deve ser a global, uma vez reconhecido e considerado o espaço mundializado do capitalismo monopolista, e as localizações particulares devem ser interpretadas em coesão com a divisão internacional do trabalho. Isto porque, segundo o autor, mesmo que o circuito do capital e das mercadorias circule no nível da escala local, ele coaduna, direta ou indiretamente, com a circularidade mundial do processo de reprodução ampliada.

Procede, todavia, que a diversidade dos circuitos de ramos e de firmas, bem como a heterogeneidade dos subespaços não respondem uniformemente à estes vetores, existindo, destarte por um lado circuitos profundamente dispersos, e por outro circuitos concentrados espacialmente de forma aguda. Nesta perspectiva, os circuitos

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espaciais produtivos são multiescalares, porém tributários, sobremaneira, da teia de interesses internacionais. Em todos os casos, portanto:

[...] devemos hoje considerar, com Milton Santos, que as sincronias funcionais locais obedecem a um tempo e a um ritmo da acumulação mundial. O circuito, claramente internacionalizado do capital financeiro aparece como um vigoroso elemento ordenador da produção nos diferentes rincões do planeta (MORAES, 1984, p. 24-25).

Cabe inquirirmos, destarte, qual o direcionamento metodológico mais adequado para responder à questão das escalas no estudo dos circuitos espaciais. Santos (1986, p 132) interpela se deveríamos “partir do espaço regional para construir ou identificar variáveis; ou das variáveis significativas para, através de outras análises, chegar depois ao ‘regional’?”. O próprio autor não acredita haver a priori uma resposta para tal questionamento, sendo a escolha do método um difícil exercício. Ele propõe, ainda assim, que, em todo caso, devam se levar em consideração o dado internacional por um lado, e as realidades históricas particulares de cada país por outro, enquanto elementos balizadores de toda a reflexão, para que assim afastemo-nos do risco de que determinados aspectos sejam colocados em relevo, em detrimento dos outros.

Concernente à dimensão metodológica da teoria, Castillo e Frederico (2010) sugerem um esquema de análise caríssimo ao desenvolvimento de nossa pesquisa. Os autores propõem que, grosso modo, a investigação dos circuitos espaciais de produção perpasse quatro parâmetros. É necessário frisar que o conteúdo apresentado a seguir trata de diretrizes, isto é, elementos extraídos da teoria, cujo objetivo é nortear a elaboração dos procedimentos operacionais, portanto, não os substituem.

Inicialmente, pelo fato da referida teoria partir de um ramo específico, e não dos agentes (caso da teoria dos circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos), deve-se identificar a atividade predominante, que no caso da nossa pesquisa é a fabricação de produtos têxteis. Outra orientação é reconhecer os principais agentes envolvidos, no circuito, e as respectivas formas de articulação. Trata-se da compreensão dos círculos de cooperação do espaço, visando identificar quem usa e quem domina.

Em seguida, além de compreender a logística, isto é, analisar as condições materiais e o ordenamento dos fluxos, o trabalho deverá culminar na explicação sobre

a organização e o uso do território pelo circuito espacial da produção. Isto é, compreender o sentido da localização desses nexos.

Outrossim, a explicação deve permear a organização interna dos subespaços; o uso seletivo dos sistemas técnicos; e a forma como são estabelecidas as relações com outros subespaços. Levando em consideração esses elementos, a pesquisa permitirá: confrontar a configuração territorial pretérita com os novos arranjos espaciais produtivos; avaliar as relações de conflito e cooperação entre os agentes; e identificar a hierarquia entre os lugares e as diversas temporalidades coexistentes.

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