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11- LES PROJETS D’INTERVENTIONS ET D’AMENAGEMENTS POUR SAUVER LA VIEILLE VILLE

Dans le document Pollution et nuisances environnmentales (Page 149-155)

TRANSFORMATION ET DE DÉGRADATION DU CADRE DE VIE

II- 11- LES PROJETS D’INTERVENTIONS ET D’AMENAGEMENTS POUR SAUVER LA VIEILLE VILLE

Não é deslocando a direção do nosso olhar iludido que conseguimos torná-lo lúcido e calmo. É criando em nós um novo modo de olhar e de sentir. Fernando Pessoa

1.2.1 Formação Discursiva e Formação Ideológica

Os homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhe são dadas.

Karl Marx Foucault (1969) dirá que uma Formação Discursiva (FD) se estabelece a partir de determinadas regularidades do tipo ordem, correlação, funcionamento e transformação. Uma FD é essencialmente lacunar em função do sistema de formação de suas estratégias, podendo ser individualizadas através desse sistema. “Uma FD não é o texto ideal, contínuo e sem asperezas. É um espaço de dissensões múltiplas, um conjunto de oposições cujos níveis e papéis devem ser descritos” (FOUCAULT, 1969:192). Para ele o discurso é constituído por um conjunto de enunciados que provém de uma mesma FD (p.146).

Pêcheux e Fuchs retomam a noção de FD elaborada por Foucault e a introduzem no quadro epistêmico da AD. Para eles, as formações discursivas determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada numa conjuntura, isto é numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes (cf. PÊCHEUX e FUCHS in GADET & HAK, 1997:166-7).

Conseqüentemente, o sentido de uma manifestação discursiva é decorrente de sua relação com determinada FD. Por outro lado, uma mesma seqüência discursiva inserida em diferentes FD produzirá sentidos diversos. Tal fato explica-se porque o sentido se constitui a partir das relações que as diferentes expressões mantêm entre si, no interior de cada FD, a qual, por sua vez, está determinada pela Formação Ideológica de que provém (INDURSKY, 1997:32).

Os processos discursivos são assim uma relação de paráfrases interiores à matriz de sentido de uma FD (PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:14).

Processos discursivos assim concebidos não têm origem no sujeito, já que são determinados pela FD em que o falante se insere. (...) O sujeito do discurso é interpelado a tomar posição na FD que o determina e que corresponde ao seu lugar na formação social, responsável pelo modo de produção da sociedade em que vive. (...) Sua interpelação em sujeito relaciona-o com o imaginário e sua estruturação como sujeito faz-se através de sua relação com o simbólico (INDURSKY, 1997:32-3).

Para Courtine e Marandin (1981:24 apud LABREA, 2000) uma FD é heterogênea a si mesma, suas fronteiras são instáveis, não tendo limites definitivos, separando um exterior de um interior, mas se inscreve entre diversas FD como uma fronteira que se desloca em função dos embates da luta ideológica. É no interior de uma FD que acontece o “assujeitamento” do sujeito ideológico do discurso. A ideologia interpela os indivíduos em

sujeitos (ALTHUSSER, 1983:96), isto é, ela faz com que cada indivíduo inconscientemente seja levado a se identificar ideologicamente com grupos ou classes de uma determinada formação social. Contudo, o sujeito tem a impressão de que é senhor da própria vontade. A isto denomina-se “assujeitamento” ideológico ou sujeito assujeitado.

Para Courtine (1981:33-35 apud LABREA, 2000) as Formações Ideológicas – FI - representam posições sociais. Ele fala em Formação Ideológica para caracterizar um elemento suscetível de intervir como uma força em confronto a outras na conjuntura ideológica característica de uma formação social, em um dado momento. Assim, podemos compreender porque as mesmas palavras produzem diferentes efeitos de sentidos no momento em que se inscrevem em diferentes FI. As FI comportam necessariamente como um dos seus componentes uma ou várias FD (cf. PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:166).

Os indivíduos são interpelados em sujeitos-falantes (em sujeito de seu discurso) pelas formações discursivas que se definem pela relação que possuem com as formações ideológicas (PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:145). Isto ocorre porque a formação discursiva é constituída por um conjunto de enunciados marcados pelas mesmas regularidades, pelas mesmas regras de formação, isto é, os textos que fazem parte desta formação discursiva remetem a uma mesma formação ideológica.

Neste espaço é que fica determinado o que se pode e deve ser dito, a partir de um lugar social historicamente determinado. Os sentidos são construídos a partir de sua relação com determinada FD e um mesmo enunciado, inserido em diferentes FD, produzirá, necessariamente, sentidos diferentes. O sentido de cada enunciado, pois, muda de acordo com a formação discursiva em que se inscreve.

A articulação do interdiscurso (ou memória discursiva) de uma FD com uma FI produz um domínio de saber que ao mesmo tempo em que determina aquilo que deve e pode ser dito, determina também o que não pode e não deve ser dito. Neste sentido, o domínio de saber delimita o conjunto dos elementos de saber que pertencem ao interior da FD e o conjunto dos elementos que não pertencem, fixando assim o que é exterior a ela. Assim, há um constante movimento de reconfiguração provocado pelo deslocamento de suas fronteiras onde a FD incorpora novos saberes e recusa outros.

Considero que a REBEA organiza várias FD heterogêneas. Sauvé (2005) dirá em sua cartografia que existem cerca de quinze correntes de EA, a saber: naturalista, conservacionista/recursista, resolutiva, sistêmica, científica, humanista, moral/ética, holística, biorregionalista, práxica, crítica, feminista, etnográfica, ecoeducação e da sustentabilidade. Segunda ela, cada corrente tem especificidades no que concerne a concepção dominante de meio ambiente; a intenção central da EA; os enfoques

privilegiados; exemplos de estratégias ou modelos que ilustram a corrente (p.18).

No Brasil, Sorrentino (1993 apud LAYRARGUES, 2006a) dirá que existem 4 correntes: conservacionista, educação ao ar livre, economia ecológica e gestão ambiental. Layrargues atualiza essa descrição:

Surgiram, então, no Brasil e no mundo, novas nomenclaturas para a prática educativa relativa ao meio ambiente na década de 90: além da educação ambiental, fala-se agora em Educação para o Desenvolvimento Sustentável (Neal, 1995), Ecopedagogia (Gadotti, 1997), Educação para a Cidadania (Jacobi, 1997a) e, finalmente, Educação para Gestão Ambiental (Quintas e Gualda, 1995) (LAYRARGUES: 2006a:88).

Pode-se inferir que essas diferentes correntes mobilizam diferentes saberes e sentidos e que se inscrevam em diferentes FD que provém de uma mesma Formação Ideológica (FI) que regula o campo ambiental. Essas FD não são estanques, elas movimentam-se e suas fronteiras são reconfiguradas o tempo todo, pois diferentes saberes as atravessam. Em uma FD tudo é movimento e dispersão.

Entendo que o espaço discursivo que configura o que na análise denomina-se a FD da REBEA incorpore diferentes FD que o campo ambiental mobiliza. Quando refiro que essas FD provêm de uma mesma FI faço um recorte e excluo dessa FI os discursos ambientais provenientes da cooptação do mesmo pelo Mercado. Esse gesto de interpretação permite compreender que mesmo saberes antagônicos, provenientes de diferentes FD remetam à mesma FI, pois entendo que a “origem” destes saberes é a contracultura e toda a história do ambientalismo a partir da década de 60. Carvalho (2002) quando desenvolve a idéia do educador intérprete e da invenção de um sujeito ecológico vai retomar as condições de produção do discurso ambiental e dizer que “o ambiente político- cultural que caracteriza as condições de emergência do campo ambiental como configuração contemporânea pode ser pensando no âmbito do movimento contracultural do ideário emancipatório dos anos 60, no qual surgem os movimentos ecológicos” (p.39).

Para fins de análise, proponho construir um corpus discursivo, que represente os sentidos que circulam na FD da REBEA, constituindo sua memória, trazendo em si as marcas do trabalho da ideologia e do simbólico. Este corpus é constituído pelo que é dito (e repetido, tendo um sentido estabilizado) na FD da REBEA e pode ser compreendido a partir de famílias parafrásicas para estabelecer suas matrizes de sentido. Faz parte da análise remeter essas seqüências discursivas a outras noções, provenientes de outros campos do saber, para compor a interpretação dos dados.

1.2.2 Sujeito

A identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.

Mercer in Hills, 2006.

Pêcheux concebe que a AD deve ter ancoragem em uma teoria do sujeito (PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:9), concebido não como um indivíduo, mas como uma posição entre outras. Assim, o sujeito é um efeito ideológico, pois qualquer pessoa é interpelada a ocupar um lugar determinado no sistema de produção. Althusser é a origem dessa concepção de sujeito que Pêcheux traz para o quadro teórico da AD e coloca que “nada se torna um sujeito, mas aquele que é chamado (a ocupar um lugar na formação social) é sempre já- sujeito” (cf. HENRY in GADET & HAK, 1997:30). Para Althusser o sujeito é o sujeito da ideologia, e não há outro sujeito senão este da ideologia. Essa concepção de sujeito, tomada isoladamente, é categórica demais porque Althusser não estava particularmente interessado na linguagem.

Já Pêcheux estava justamente interessado nas relações entre linguagem e ideologia, por isso mediou essa concepção do sujeito por outras, formuladas por Foucault e Lacan, mais ligadas à linguagem e ao signo lingüístico: para Foucault ser sujeito é ocupar uma posição enquanto enunciador. Os discursos são enunciados7. O sujeito de Foucault é o sujeito da "ordem do discurso" (cf. GADET & HAK, 1997:33). Lacan, por sua vez, “concebe o sujeito como aquele do inconsciente estruturado como uma linguagem. A linguagem é a condição do inconsciente, aquilo que introduz para todo ser falante uma discordância com sua própria realidade” (idem:34). A formulação de sujeito vai sair deste entremeio, pois ele é uma posição atravessada pelo inconsciente e pela ideologia.

A Análise do Discurso questiona o sujeito como ser único, central, origem e fonte do sentido, porque na sua fala outras vozes também falam, é uma construção polifônica que se constitui a partir de muitas vozes e está marcado pela ilusão de autonomia. O sujeito deixa de ser um eu marcado pela subjetividade que o situa como centro e senhor de seu discurso, e se constitui na interação deste eu com o Outro.

O sujeito se constitui no e pelo discurso, na sua relação com o Outro, na permanente

7O enunciado, para Ducrot, se distingue da frase, pois a frase é um objeto teórico, não pertencendo ao domínio

do observável, mas constitui uma invenção da gramática. Já o enunciado é a manifestação particular, a ocorrência hic et nunc de uma frase (Ducrot, 1984:164 apud INDURSKY, 1997). A realização de um enunciado é de fato um acontecimento histórico: é dada existência a alguma coisa que não existia antes de se falar e que não existirá mais depois. O enunciado para este autor é um segmento de discurso. Ele tem, pois, como o discurso, um lugar e uma data, um produtor e um ou vários ouvintes. É um fenômeno empírico, observável e não se repete (DUCROT, 1989:13 apud INDURSKY, 1997).

oposição entre interioridade e exterioridade. Não há um sujeito único, centro e origem de seu discurso, mas diversas posições-sujeito que, por sua vez, relacionam-se com determinadas formações discursivas e ideológicas. “O sujeito, pois, pensa que domina o que diz, mas, de fato, é determinado, sem se dar conta, a dizer o que seu lugar na formação social impõe que seja dito” (INDURSKY, 1998: 11). Segundo Silva:

A consciência do sujeito não se fecha sobre si mesmo, mas ao abrir- se sobre si mesmo abre-se para o mundo, comunicando suas experiências individuais com base na reciprocidade. Nestas experiências do Sujeito com o Outro é que urdimos a trama da intersubjetividade que dá sentido ao mundo vivido, pois é o campo das interações comunicativas por excelência. A intersubjetividade se opõe aos subjetivismos individualistas, porque colabora com a constituição do sentido plena da experiência humana (SILVA, 2008:28).

Os processos discursivos nesta concepção não têm origem no sujeito, pois este está determinado pela formação discursiva em que está inscrito (INDURSKY, 1997). O sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento, criando uma realidade discursiva ilusória. O sujeito se coloca como fonte e origem exclusiva do sentido do seu discurso. Por esta ilusão discursiva, o sujeito rejeita, apaga, inconscientemente, qualquer elemento que remeta ao exterior da sua formação discursiva. Ele esquece que seu conhecimento vem de outro lugar, ele pensa que é a fonte do seu dizer, mas na verdade, reproduz o que já está dito no interior da FD. O sujeito tem a ilusão de que é ele o criador de seu discurso. Na verdade, o sujeito não produz sentidos, ele se identifica com determinados sentidos que estão postos no interior de uma FD. De natureza inconsciente e ideológica – aí o ponto de articulação da linguagem com a teoria da ideologia - é uma zona inacessível ao sujeito, sendo por isso o lugar constitutivo da subjetividade (PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:177).

Sobre o esquecimento nº 1 Pêcheux diz:

Trata-se da defasagem entre uma e outra formação discursiva, a primeira servindo de algum modo de matéria-prima representacional para a segunda, como se a discursividade desta matéria-prima se esvanecesse aos olhos do sujeito falante. (...) É o processo pelo qual uma seqüência discursiva concreta é produzida, ou reconhecida como sendo um sentido para um sujeito, se apaga, ele próprio, aos olhos do sujeito (PÊCHEUX in GADET & HAK, 1997:168-9).

Além disso, o sujeito acredita que domina seu discurso, que escolhe livremente entre o que é dito e o que deixa de ser dito, elegendo algumas formas e seqüências que se encontram em relação de paráfrase e “esquece”, oculta outras. Essa operação dá ao sujeito a ilusão de que o discurso reflete o conhecimento que tem da realidade. Isto se passa num nível pré-consciente ou consciente na medida em que o sujeito retoma seu discurso para explicitar a si mesmo o que diz, para formulá-lo adequadamente, para aprofundar o que pensa, utilizando-se de “estratégias discursivas”. Pêcheux formula da seguinte maneira o esquecimento nº 2:

Diremos que os processos de enunciação consistem em uma série de determinações sucessivas pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e que têm por característica colocar o dito e em conseqüência rejeitar o não-dito. A enunciação equivale pois a colocar fronteiras entre o que é selecionado e tornado preciso aos poucos e o que é rejeitado. Deste modo se acha desenhado num espaço vazio o campo de "tudo que teria sido possível ao sujeito dizer (mas não o diz)" ou o campo de "tudo a que se opõe o que o sujeito disse". Essa zona do "rejeitado" pode estar mais ou menos próxima da consciência e há questões do interlocutor que o fazem reformular as fronteiras e re-investigar esta zona (idem: 1997:175-6). O sujeito na AD, ao incorporar na sua constituição a ideologia, o poder e o inconsciente é mais denso que o sujeito “ideal” e “intencional” formulado pelas Ciências Humanas em geral. A AD concebe um sujeito fragmentado em diferentes posições sociais. A leitura de Morin (2002) me indica um outro caminho: o sujeito não fragmenta-se, ele é complexo, pois sofre determinações de diferentes ordens: biológicas, históricas, ideológicas, inconscientes, imaginárias, simbólicas. É o sujeito do desejo, da contradição, da práxis, um vivo. Um ser complexo que não se deixa reduzir a um modelo e que, sempre que necessário, transforma-se em outro, na relação com o Outro.

Para ele “todo indivíduo-sujeito é um centro gerador/receptor de comunicações e toda associação entre indivíduos (celulares ou policelulares) comporta intercomunicações entre congêneres” (op. cit., p.189). O ser humano é unidade múltipla, unitas multiplex:

O homem é racional (sapiens), louco (demens), produtor, técnico, construtor, ansioso, extático, instável, erótico, destruidor, consciente, inconsciente, mágico, religioso, neurótico; goza, canta, dança, imagina, fantasia. Todos esses traços cruzam-se, dispersam-se, recompõem-se conforme os indivíduos, as sociedades, os momentos, aumentando a inacreditável diversidade humana, unitas multiplex (MORIN, 2005: 63-4). Makiuchi (2005), ao considerar a dimensão da alteridade, do Outro, busca na filosofia alemã – principalmente em Buber e Dussel – a fundamentação para distinguir entre alteridade e diferença, incorporando mais uma dimensão ao sujeito complexo. Para ela, a diferença incorpora o Outro, reduzindo-o ao Mesmo. “Este outro – o diferente - é objeto de compreensão resultado da neutralização da alteridade real perpetrada pela razão e pelo princípio do mercado. Dessa forma o diferente na verdade é o Mesmo” (op.cit., p.73).

A alteridade, ao contrário, retoma o sujeito como um sujeito complexo, incompleto, infinitamente distante do Outro, solitário (MAKIUCHI, 2005:74). A alteridade resgata a dimensão ética da subjetividade: “se o Outro não me escapar, se não puder ser imprevisível para mim, não puder me surpreender, não puder se revelar a mim na proximidade do acolhimento, estarei vivendo uma relação alienada e prisioneira, onde eu e o Outro somos o mesmo” (idem:p.74-5).

A educação ambiental, na minha leitura, incorpora a dimensão da complexidade a partir da elaboração do sujeito ecológico. Carvalho (2002:71) designa como “sujeito

ecológico o tipo ideal que opera uma matriz para outras identidades derivadas que circulam no campo (ambientalista, ativista ambiental, verde, alternativo, etc.)”. Este tipo ideal “alude simultaneamente a um perfil identitário e a uma utopia societária”(idem). Para esta autora:

Sujeito ecológico é, então, um modo de descrever um conjunto dos ideais que inspira atitudes ecologicamente orientadas. O sujeito ecológico é incorporado pelos indivíduos ou pessoas que adotam uma orientação ecológica em suas vidas, bem como, pode ter efeito sobre instituições que se definam por esta orientação. O sujeito ecológico, portanto, designa a internalização ou subjetivação de um ideário ecológico. Este mesmo processo pode ser pensado nos termos de uma incorporação por indivíduos e grupos sociais de um certo campo de crenças e valores compartilhados socialmente, que passa a ser vivida como convicção pessoal, definindo escolhas, estilos e sensibilidades éticas e estéticas (CARVALHO, 2007). Para a AD toda FD tem seus saberes regulados pela forma-sujeito ou sujeito universal. O sujeito-enunciador, a partir de uma posição, se identifica com este sujeito do saber da FD. Pêcheux (1995:157) vai dizer que cada posição-sujeito é definida nos termos de uma tomada de posição particular e diferenciada em relação à forma-sujeito. Nesse sentido, podemos pensar que o ideal do sujeito-ecológico se oferece como um “modelo ético para o estar no mundo” (CARVALHO, 2002:71) e é a partir desse ideal – entendido como a forma- sujeito que regula os saberes da FD da REBEA - que o educador ambiental organiza o seu estar no mundo.

Essa compreensão é de alguma forma reafirmada em estudos onde relaciona-se o educador ambiental ao sujeito ecológico, organizando-se redes de formulações:

O “sujeito ecológico” assemelha-se muito com um membro atuante de uma rede de EA, o qual apresenta novas formas de relacionamento consigo, com o outro e com o ambiente e luta por suas idéias, por sua autonomia e emancipação, inclusive do coletivo, a fim de um mundo mais humanitário, mais justo social e ambientalmente e com melhores condições para as gerações atuais e futuras. (LIMA, 2006:33)

Carvalho salienta, assim, o processo de estabelecimento do que chamou de um “sujeito ecológico” marcado por seu tempo, datado pelo contemporâneo, capaz de apropriar-se de uma noção clara da perspectiva espaço-temporal escolhida em seu projeto. Isto porque o educador ambiental fala para as “gerações futuras” e questiona a maneira como o espaço é utilizado pela sociedade capitalista, ele defende a criação de áreas protegidas, de unidades de conservação, que devem ser mantidas fora do alcance do modo de produção capitalista, uma contramão no mundo globalizado e neoliberal. (SANCHEZ, PEDRINI, 2007:8)

Carvalho (2001) desenvolve um mapeamento de traços constitutivos da identidade de um “sujeito ecológico”, compartilhada pelos educadores ambientais. (LIMA, 2005:159).

A EA é um colorido que possui diversas imagens, vozes e sentidos, que depende de cada sujeito ecológico num universo em movimento. (SATO, 2003:80)

Um ponto que serve de divisor de águas entre esta diversidade de interesses e orientações no campo ambiental é a presença do registro do sujeito ecológico e do educador, nas identidades sociais. Dessa forma, o sujeito ecológico não se constitui apenas como indivíduo, mas também como movimentos e grupos sociais que constroem e reconstroem constantemente identidades alternativas, na medida em que atuam politicamente no espaço coletivo. (MAKIUCHI, 2005:119).

Percebe-se um movimento de aproximar as práticas do educador ambiental ao ideal do sujeito ecológico. Ao contrário do que é sinalizado em algumas análises não entendo que o educador ambiental é ou torne-se o sujeito ecológico. Não entendo a sobreposição, mas

a relação: o educador ambiental é um sujeito ecologicamente orientado, que a partir de seu estar no mundo aproxima-se (e afasta-se) desse ideal, mas está buscando-o.

Carvalho (2006b) refere que “o sujeito ecológico demarca um campo de ideais disponíveis para a formação da identidade” do educador ambiental.

Longe de ser uma solução para as tensões apontadas, esta posição de sujeito remete a um lugar possível onde são vividas essas tensões pelos indivíduos historicamente situados. Esse sujeito, concebido enquanto um tipo ideal, traduz uma subjetividade ambientalmente orientada, que encarna os dilemas societários, éticos e estéticos configurados pela crise societária em sua tradução contracultural, tributário de um ideal de

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