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Vigotski se utiliza do método dialético de Marx para tentar desenvolver uma nova psicologia, na qual tenta localizar uma célula, uma microestrutura que, analisada, pode fornecer um quadro geral da macroestrutura.

O Capital está escrito de acordo com o seguinte método: Marx analisa uma única “célula” viva da sociedade capitalista – por exemplo, a natureza do valor. Dentro dessa célula ele descobre a estrutura de todo o sistema e de todas as suas instituições econômicas. Ele diz que, para um leigo, essa análise poderia parecer não mais do que um obscuro emaranhado de detalhes sutis. De fato, pode até ser que haja esses detalhes sutis; no entanto, eles são exatamente aqueles absolutamente necessários à “microanatomia”. Alguém que pudesse descobrir qual é a célula “psicológica — o mecanismo produtor de uma única resposta que seja — teria, portanto, encontrado a chave para a psicologia como um todo” (VYGOTSKY apud COLE; SCRIBNER, 2003, p.10).

No estudo de Marx sobre a sociedade capitalista, essa célula foi o capital. Vigotski buscava criar essa célula de estudo na psicologia, tanto como unidade de análise como referência teórica e metodológica. De acordo com Elhammoumi (2002, p.90), o conceito marxista de “relações sociais de produção” seria essa célula. Esta noção não é esclarecida diretamente nos textos de Vigotski, mas permeia sua fala, principalmente ao falar

da influência da produção econômica e das classes sociais na formação da psiquê humana, como na afirmação:

O processo de produção assume na sociedade humana um caráter social extremamente amplo, que atualmente abrange o mundo inteiro. Em função disso surgem formas sumamente complexas de organização social das pessoas, com as quais a criança depara antes de chocar-se imediatamente com a natureza. Por isso o caráter da educação do homem é totalmente determinado pelo meio social em que ele cresce e se desenvolve. O meio nem sempre influência o homem direta e imediatamente mas de forma indireta, através de sua ideologia. Chamamos de ideologia todos os estímulos sociais que se estabeleceram no processo de desenvolvimento histórico que se consolidaram sob a forma de normas jurídicas, regras morais, gostos estéticos, etc. As normas são perspassadas inteiramente pela estrutura de classe da sociedade que as gerou e servem à organização de classe da produção. Elas condicionam todo o comportamento do homem e, neste sentido, é legítimo falar de comportamento de classe do homem (VIGOTSKI, 2004b, p.284- 285) (grifo nosso).

Muitas das atuais discussões sobre a teoria de Vigotski exploram o desenvolvimento humano como a conversão de relações sociais em funções mentais, investigando principalmente o modo como ocorrem essas mediações. O problema começa quando não se analisam as questões da mediação de modo dialético ou partindo de uma perspectiva semelhante a do materialismo histórico. Muitos psicólogos e educadores utilizam o modelo de Vigotski, mas não a filosofia e a dialética marxistas em suas análises (ELHAMMOUMI, 2002, p.90).

De fato, a versão dominante da teoria de Vigotski nos EUA e no oeste europeu, com algumas exceções, é a de uma psicologia em crise, uma vez que são ignoradas sua dialética e consciência (ELHAMMOUMI, 2002, p.93).

Ainda de acordo com Elhammoumi (2002, p.95), os psicólogos histórico- culturais têm tentado reapresentar Vigotski em uma forma compatível com as principais correntes psicológicas. Por mais paradoxal que pareça, a versão dominante de psicologia vigotskiana na América do Norte é baseada na filosofia empiricista britânica e no dualismo cartesiano francês. Os psicólogos histórico-culturais tendem a separar indivíduo e sociedade em duas unidades ontológicas distintas, além de apresentarem diversas definições de ontologia e de visão epistemológica. Uma solução seria um retorno aos escritos de Marx, visto que Vigotski buscava na metodologia desse pensador construir o “capital” da psicologia. “A psicologia precisa de seu o capital – seus conceitos de classe, base, valor, etc., com os quais possa expressar, descrever e estudar seu objeto”(VIGOTSKI, 2004a, p.393).

A atual explosão de publicações e de avaliações dos escritos de Vigotski não tem levado em consideração elementos cruciais de sua teoria, como relações sociais de produção, trabalho ou atividade, classe social, consciência da história e alienação, entre outros. Por este motivo devemos passar dos livros sobre Vigotski para as obras do próprio autor, que incluem sua coleção de obras traduzidas e monografias. Além disso é hora de ir além dos livros já familiares, como Formação Social da Mente e Pensamento e Linguagem (ELHAMMOUMI, 2002, p.98), não apenas para buscar as idéias originais do autor, mas porque a teoria de Vigotski ainda não é completamente explorada e o seu potencial não é utilizado para a explicação de diversos fenômenos.

Portanto, estudar Vigotski hoje parece enfrentar dois problemas: romper com a censura burguesa, referente à sua formação marxista e ao seu compromisso com a sociedade comunista, e com a censura comunista de suas próprias obras, operada a partir da década de 30 pelo stalinismo (TULESKI, 2000, p.4).

Não quero afirmar com estas colocações que é necessária uma perspectiva sociohistórica para estudar Vigotski. No entanto, o pesquisador deve ter clareza do contexto e das implicações desta teoria, a qual deve operacionalizar de maneira coerente a partir de sua visão de mundo.

Anunciou-se recentemente, em uma lista de discussão sobre a teoria de Vigotski35, o lançamento de uma coleção de suas obras completas na Rússia, em ordem cronológica de produção e com a inclusão de material recém-descoberto. A tradução deste material para o português pode demorar alguns anos, se chegar a ser publicado. Entretanto, é uma oportunidade de aprofundamento das discussões sobre a obra desse autor.

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