Quando Bendición Alvarado, mãe do ditador, estava morrendo, “tratava de revelar ao filho os segredos de família que não queria levar para o túmulo” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.127).251 Enquanto a mãe lhe tentava contar sobre seu nascimento e sua infância, ele não lhe dava atenção e “suplicava-lhe que dormisse sem remexer o passado porque para ele ficava mais cômodo acreditar que aqueles tropeços da história pátria eram delírios da febre” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.127).252
A história oficial impressa nos textos escolares dizia que Bendición Alvarado havia concebido seu filho, o patriarca, “sem o concurso de varão” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.49)253 e que havia “recebido em um sonho as chaves herméticas de seu destino messiânico” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.49).254
Quando Bendición Alvarado morre, o patriarca envia a Roma seus ministros para que consigam a canonização de sua mãe. O tirano utiliza de todos os artifícios possíveis para conseguir a comprovação de sua santidade. Ele convida o núncio apostólico para que veja o lençol em que estava envolta sua mãe e que continha sua imagem estampada, sem traços de velhice, e com a mão no coração. Ao ver o lençol, o núncio responde que “era a obra de um pintor muito hábil nas artes boas e nas más que havia abusado da grandeza de coração de sua excelência, porque aquilo não era óleo mas pintura doméstica da mais inferior” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.136),255 Ocorreu que, naquela mesma semana, turbas de fanáticos mercenários assaltaram o
250 GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p. 163-164.
251 “trataba de revelarle al hijo los secretos de familia que no quería llevarse a la tumba” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2005, p.150).
252 “le suplicaba que se durmiera sin escarbar en el pasado porque le resultaba más cómodo creer que
aquellos tropiezos de la historia patria eran delirios de la fiebre” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.150- 151).
253 “sin concurso de varón” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.57).
254 “recibido en un sueño las claves herméticas de su destino mesiánico” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005,
p.57).
255 “era la obra de un pintor muy diestro en las buenas y en las malas artes que había abusado de la
grandeza de corazón de su excelencia, porque aquello no era óleo sino pintura doméstica de la más indigna” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.161).
palácio da Nunciatura Apostólica. O núncio foi atirado nu à rua e humilhado. Após esse episódio, o patriarca manda que coloquem o núncio numa balsa e o deixem à deriva no mar. Desse modo, consegue instaurar o processo de canonização de sua mãe.
Para a canonização de Bendición Alvarado, é enviado o auditor da Sagrada Congregação dos Ritos, monsenhor Demétrio Aldous, com a missão de investigar o passado da mãe do patriarca. Naquele momento, corriam várias notícias de milagres atribuídos a Bendición Alvarado. Demétrio Aldous inicia a sua investigação ouvindo as declarações das testemunhas dos milagres na capital, e depois incursiona para o interior do país, montado em uma mula, em direção ao páramo. O padre encontra, nos arquivos do mosteiro onde haviam batizado o ditador, três folhas de registro de nascimento, “e em todas ele era três vezes diferente, três vezes concebido em três ocasiões, três vezes abortado graças aos artífices da história pátria que haviam emaranhado os fios da realidade para que ninguém pudesse decifrar o segredo de sua origem” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.143).256
No momento em que Demétrio Aldous depara-se com o mistério dos três registros distintos do nascimento do ditador da pátria, “soou o disparo imenso que continuava repercutindo nos espinhaços cinzentos e nas canhadas profundas da cordilheira e se ouviu o interminável berro de pavor da mula desbarrancada que ia caindo em uma vertigem sem fundo do cume de neves perpétuas” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.143).257
Após ser resgatado, por ordem do patriarca, apresenta a esse o relatório de sua investigação sobre Bendición Alvarado. Demétrio Aldous revela ao ditador várias verdades a respeito de sua mãe, “verdades inteiras, amargas, verdades como brasas que ficavam ardendo nas trevas do seu coração, pois tudo havia sido uma farsa” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.146).258 O religioso descobre que, para fundamentar a santidade de Bendición Alvarado, pessoas do povo tinham sido pagas para testemunharem os milagres.
256 “y en todas era él tres veces distinto, tres veces concebido en tres ocasiones distintas, tres veces parido
mal por la gracia de los artífices de la historia patria que habían embrollado los hilos de la realidad para que nadie pudiera descifrar el secreto de su origen” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p. 169).
257 “sonó el disparo inmenso que seguía repercutiendo en los espinazos grises y las cañadas profundas de
la cordillera y se oyó el interminable aullido de pavor de la mula desbarrancada que iba cayendo en un vértigo sin fondo desde la cumbre de las nieves perpetuas” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p. 169).
258 “verdades enteras, amargas, verdades como brasas que le quedaban ardiendo en las tinieblas del
Monsenhor Demétrio Aldous desvenda em suas investigações que “os milagres eram um negócio do governo” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.146).259 Nesse momento de revelações, em que o patriarca está diante de verdades sobre a vida de sua mãe no páramo e sobre a descoberta da farsa de sua santidade, suplica ao padre que “a brutal conversação daquela tarde ficasse entre nós, o senhor não me disse nada, padre, eu não sei a verdade, prometa-me” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.149).260 Roma não canonizou Bendición Alvarado por insuficiência de provas, mas o ditador, por meio de um decreto, proclamou a santidade de sua mãe e declarou estado de guerra contra as potências da Santa Sé, além de expulsar do país o arcebispo-primaz, os bispos, os padres e as monjas. Os bens da igreja passaram a fazer parte do patrimônio da santa Bendición Alvarado, “para esplendor do seu culto e grandeza de sua memória” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.151).261
O episódio de canonização da mãe do patriarca é emblemático, na obra, para se compreender como o governo forjava uma versão da história oficial e a impunha de forma inquestionável. Quando Demétrio Aldous se aproxima do mistério dos registros de nascimento do ditador, sua vida é ameaçada, pois descobre que a data de nascimento desse havia sido forjada. A farsa da santidade de Bendición Alvarado é descoberta e o ditador pede que o padre se silencie a respeito das verdades descobertas, pois a população deveria continuar acreditando na santidade e no passado virtuoso de sua mãe. Não só a santidade de Bendición Alvarado e o nascimento do ditador são forjados, mas também muitos outros episódios, criando-se uma história oficial e projetando-se uma memória oficial sobre o país, de acordo com os desígnios daquele governo.