Do início do projeto aos dias atuais, não houve nenhum tipo de consulta à população a respeito da valorização da cultura alemã através da arquitetura. O ex-prefeito Vanderlei Ricken afirmou durante a entrevista que na época não consultou a população porque o ambiente político era de extrema efervescência, já que a oposição não se conformava em ter perdido a eleição. De acordo com o entrevistado, “tudo era precário e improvisado, inclusive o conceito de preservação e de estímulos a iniciativas culturais” (entrevista, 2012). Vanderlei Ricken explicou que a concepção do projeto e a responsabilidade eram dele, por isso não havia motivo para consultar a população.
O vice de Vanderlei Ricken, Nelson da Soler, também admitiu que não houve nenhum tipo de consulta a população, o que para Nelson foi um erro, porque dessa maneira as pessoas não “despertaram o gosto pelo estilo” (entrevista, 2012). O entrevistado Valmir Hobolt confirmou que na época a população não foi consultada. Segundo Valmir, a iniciativa era uma vontade política, que nasceu pelo simples fato de que o primeiro prefeito da cidade era de origem alemã (referindo-se ao Vanderlei Ricken).
O entrevistado Tadeu Vassoler explicou o motivo pelo qual a população não foi consultada. Tadeu afirma que na ocasião, o projeto foi levado primeiro ao Conselho de Engenharia e Arquitetura, o CREA, e que depois seria estendido à população. Mas, segundo o entrevistado, isso não chegou a acontecer porque o CREA se mostrou contrário ao projeto46. “Na época o Conselho achou que nós não deveríamos fazer
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É compreensível que o Conselho formado por engenheiros e arquitetos, o CREA, tenha se posicionado contra a ideia, pois construções atuais que são feitas a partir da imitação de outras épocas são normalmente criticadas pelos arquitetos. No entanto, mesmo com a opinião contrária do CREA, dentro da esfera política o projeto foi levado adiante, quando o prefeito Vanderlei Ricken e o arquiteto Tadeu Vassoler resolvem escrever um projeto de lei para incentivar construções típicas alemãs.
isso, pois não tinha sentido trabalhar só a fachada para que parecesse alemã47” (entrevista, 2012).
Segundo o arquiteto, quando apareceram na cidade as primeiras obras em estilo enxaimel, muitas pessoas diziam: “se você começar a fazer obras só em estilo alemão, quando algum prefeito italiano assumir, nós iremos pedir para demolir tudo” (entrevista, 2012). Tadeu afirma que depois disso, ao projetar a sede da prefeitura municipal de Forquilhinha, ele tentou trabalhar o lado germânico de modo mais leve, para que a ideia fosse recebida aos poucos pela população.
De acordo com o entrevistado, naquela época houve um pouco de resistência por parte dos alemães, primeiro porque estes achavam que iam gastar mais, e segundo porque estes temiam construir em estilo alemão e futuramente a obra ser tombada, impossibilitando alterações. No entanto, segundo relatos, a resistência maior foi por parte dos italianos. O depoimento de Tadeu comprova este fato:
“Em minhas obras particulares, por exemplo, se eu apresentasse aos clientes um telhado mais ‘alpino’, eles diziam que não queriam um telhado alemão, daí eu tinha que provar que era apenas um telhado com um ponto mais alto, para não haver problemas futuros com infiltração. Essa resistência na época travou bastante a nossa ideia” (Tadeu Vassoler, entrevista, 2012).
Tadeu Vassoler afirma que na prefeitura, todos tinham muito receio da rixa entre alemães e italianos.
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A Carta de Atenas, documento redigido pelo arquiteto Le Corbusier em 1933 contém preceitos de arquitetura e urbanismo que ainda norteiam muitas cidades. Nela tem um parágrafo específico sobre o emprego de estilos do passado nas cidades contemporâneas que diz que “copiar servilmente o passado é condenar- se a mentira, é erigir o falso como principio, (...) que leva ao simulacro desprovido de qualquer vida”. Esse trecho da Carta de Atenas pode justificar o posicionamento contrário dos arquitetos a respeito da prática de cópias arquitetônicas. Além disso, erigir o falso pode ser considerado um problema de ética profissional, que também é uma responsabilidade do CREA.
“Às vezes as pessoas me falavam: você Tadeu, um italiano, porque está querendo tanto resgatar a cultura alemã? E eu respondia: não é porque sou italiano que não reconheço que os alemães foram os primeiros a chegarem a Forquilhinha. Eu sempre dizia para as pessoas que era necessário dar um resgate para essa cidade, para fazer com que ela se identifique no contexto urbano, perante as outras cidades. Acho isso importante porque traz identidade” (Tadeu Vassoler, entrevista, 2012).
Tadeu Vassoler acredita que a ideia só foi posta em prática pelo fato de o primeiro prefeito ser alemão, já que, com os outros prefeitos, a ideia foi se perdendo. “Acho que qualquer outra cultura não iniciaria esse projeto e tampouco daria continuidade. Realmente, só iria pra frente se tivesse lei” (entrevista, 2012).
O entrevistado Paulo Hoepers também afirmou que não foi feito nenhum tipo de consulta pública em sua administração. Em sua concepção, levar a questão à população não funcionara.
“Isso precisa ser despertado nas pessoas. Nós temos aqui a colonização alemã que nos dá diferenciais. Mas chegar na rua e dizer: escuta, você acha que devemos estimular isso? As pessoas iriam responder que não... vão mandar a gente cuidar da saúde. O nosso público ainda é muito incipiente. Quando queremos criar uma cultura que traz riquezas, primeiros temos que plantar a ideia, e depois vamos colher” (Paulo Hoepers, entrevista, 2012).
Paulo Hoepers também mencionou a discórdia entre alemães e italianos. “No início, esta rixa causou uma forte resistência, pois na época em que Vanderlei Ricken teve a ideia, implantou-a sem consultar ninguém. Não foi uma coisa planejada, com convencimento. Foi uma coisa imposta” (entrevista, 2012) 48
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Essa afirmação é contraditória, pois Paulo Hoepers afirma que Vanderlei Ricken teve a ideia, mas não consultou a população, por isso teve bastante rejeição. No entanto, Paulo também não consultou a população porque segundo ele, não dá para sair nas ruas “perguntando sobre esses assuntos”.
De acordo com Paulo Hoepers, o município hoje não possui mais que 10% de alemães e, por isso mesmo, não há possibilidade de impor o estilo alemão em tudo. Segundo o entrevistado, essa ideia deve ser construída aos poucos, vencendo as resistências:
“Por exemplo, quando implantamos a festa, eu chamava o pessoal e dizia: colocamos o nome alemão para ganhar dinheiro. Porque para italianos temos que falar em dinheiro. Naquela época eu precisava criar uma identidade alemã sem machucar ninguém” (Paulo Hoepers, entrevista, 2012).