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Ainda podemos ir um pouco mais longe para tentar demonstrar os efeitos e a importância das interações para a promoção de conhecimento e inovação. Utilizando as reuniões de brainstorming83 como exemplo, Walter ISAACSON84 ressalta que as ideias surgem nesses momentos como resultado de um esforço coletivo, onde todos contribuem para o desfecho. Não há um único responsável pela ideia, ela surge como produto da ação conjunta.

Nesse sentido, os espaços de convivência tem se demonstrado significativamente importantes. Marvin KELLY, diretor dos Laboratórios Bell na década de 1950, foi um dos responsáveis por dar uma nova forma, uma nova arquitetura para o ambiente de trabalho dos centros de pesquisa da sua companhia. Ele e seus colegas, sabendo que “a criatividade surgia de encontros fortuitos”, resolveram que o ambiente criativo ideal seria formado pela interligação de todos os edifícios do complexo. Desse modo, foram construídos extensos corredores “projetados para promover encontros aleatórios de pessoas com diferentes talentos e especialidades”85.

82 ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 494.

83 Do inglês “tempestade cerebral”, designa uma determinada técnica de dinâmica de grupo onde se

"propõe que o grupo se reúna e utilize a diversidade de pensamentos e experiências para gerar soluções inovadoras, sugerindo qualquer pensamento ou ideia que vier à mente a respeito do tema tratado”. BRAINSTORMING. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2015. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php? title=Brainstorming&oldid=42609875. Acesso em: 29 jun. 2015.

84 ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 121.

85 ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 152

Passear pelos corredores dos Laboratórios Bell deveria mesmo ser bastante inspirador. Foi lá, por exemplo, onde se inventou o diodo emissor de luz (LED), as tecnologias de telefonia móvel TDMA e CDMA, entre outras importantes inovações tecnológicas86 da nossa contemporaneidade.

Todavia, em que pese todo histórico de sucesso da interação entre os saberes, alguns ambientes acadêmicos ainda parecem não ter despertado a atenção para essa importante ferramenta de inovação que é a interatividade. A arquitetura de alguns prédios universitários, por exemplo, ainda é pouco receptiva à troca e ao contato coletivo. São andares, às vezes prédios inteiros com sucessivos cubículos individuais fechados, com uma ou duas salas de estudos onde o que deve vigorar é sempre o silêncio e a introspecção. Dessa maneira, o convívio mais descontraído e efervescente acaba por surgir nos cafés e pátios das universidades.

É claro que o estudo também é feito de momentos de reflexão e concentração, invariavelmente solitários. Mas existem interessantes exemplos de lugares que apostaram em ambientes diferenciados e que deram certo. Um caso clássico de estímulo ao convívio pode ser visto no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Projetado pelo arquiteto João Villanova ARTIGAS (1915-1985), o edifício é composto por:

seis pavimentos, ligados por suaves e amplas rampas de inclinações variáveis, [que] dão a sensação de um só plano. Todos os espaços do prédio encontram-se fisicamente interligados: as divisões utilizadas para separá- los não os seccionam de fato, apenas marcam diferenças de usos e funções. Os amplos espaços abertos e a comunicação entre os diferentes setores sublinham a necessidade de convivência e o ideal de um modo de vida comunitário que a arquitetura de Artigas defende. O edifício foi pensado como a levada ao espaço das ideias de democracia, através de ambientes dignos, sem portas de entrada.87

86 Conforme informações disponibilizadas pelo site da companhia. Disponível em: https://www.bell- labs.com/about/. Acesso em: 21 jun. 2015.

87 FRACALOSSI, Igor. "Clássicos da Arquitetura: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da

Universidade de São Paulo (FAU-USP) / João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi" 07 Dez 2011. ArchDaily Brasil. Disponível em: <http://www.archdaily.com.br/12942/classicos-da-arquitetura- faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-universidade-de-sao-paulo-fau-usp-joao-vilanova-artigas-e- carlos-cascaldi>. Acesso: 29 Jun 2015.

Sendo um pouco mais sintético, o físico norte-americano Robert NOYCE (1927- 1990), co-fundador da Intel Corporation88, dizia que: “Quanto mais aberto e desestruturado um local de trabalho […], mais rápido ideias novas haveriam de surgir, difundir-se, aperfeiçoar-se e serem aplicadas”89. Enfim, a cooperação, a abertura para que novas disciplinas se interconectem parece ser, definitivamente, o caminho para que se consiga construir abordagens mais amplas e completas sobre processos complexos.

Por conseguinte é que, dentro desses processos complexos, uma área que tem apresentado interessantes possibilidades de abordagens múltiplas e integradas é a que trata do comportamento humano. Antes diluída e isolada em vários segmentos científicos, a compressão sobre o comportamento parece agora se encaminhar para uma abordagem cada vez mais colaborativa e associativa.

A Criminologia, por sua vez, precisa estar atenta e receptiva a essas novas formas de compreensão. Como teremos a oportunidade de discutir mais adiante no transcorrer do presente trabalho, o seu objeto de estudo precisa em alguma medida abarcar dimensões do comportamento humano, suas causas e consequências, dentro de uma perspectiva mais ampla, que promova a aproximação e a integração de diferentes abordagens.

88 A Intel Corporation "é uma empresa multinacional de tecnologia dos Estados Unidos, que fabrica circuitos integrados como microprocessadores e outros chipsets”. INTEL CORPORATION. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2015. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Intel_Corporation&oldid=42688525>. Acesso em: 29 jun. 2015.

89 ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 206.

2 NEUROCIÊNCIA E CRIMINOLOGIA: EM BUSCA DE UMA ABORDAGEM

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