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Fale de um pensamento, escreva sobre um achado, invente algo “ainda” não visto e você estará fazendo isso de um lugar, de uma posição, a partir da singularidade por você vivida, “capturado” e/ou “inspirado” por uma ideologia que ronda o universo ao qual pertence, porque, “o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz” (ORLANDI, 2015, p. 42).

Dizemos isso para apresentar as duas evoluções que modificaram o modo de produção, reprodução e difusão da linguagem escrita: a tecnologia da imprensa de Gutenberg e as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC).

Voltando ao passado, podemos analisar as condições de produção da escrita. Os suportes de escrita influenciaram sobremaneira a sua circulação. Inicialmente, utilizando-se de materiais pouco práticos como a pedra e as pranchas de argila, era difícil carregar o que se escrevia. Os egípcios inventaram o papiro, material mais prático para tanto.

Por volta do século X d.C., a organização dos documentos escritos ganhou maior funcionalidade com a invenção dos pergaminhos, base material de suma importância para a preservação de importantes textos da Antiguidade, como a Bíblia Sagrada e os escritos de alguns pensadores do mundo clássico.

A concepção de livro encadernado, em sequência de páginas, começa nessa época, por meio dos códices feitos com madeira ou pergaminhos dispostos em sequência da escrita e costurados. O conceito de códice facilitou a locomoção e manuseio dos textos.

No período medieval, o acesso ao mundo letrado ficou praticamente restrito aos clérigos. Os monges copistas desenvolveram a arte de produção de livros nos mosteiros, onde mantinham importantes bibliotecas de livros manuscritos.

Foi, no entanto, em 1454, que o processo de fabricação e divulgação dos livros sofreu um salto gigantesco com a invenção da prensa com tipos móveis, desenvolvida por Johannes Gutenberg, propulsando o motor da multiplicação da palavra escrita.

Como dissemos no início desta seção, é condição primeira conhecer o inventor, para então interpretar a invenção.

Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg nasceu na Alemanha, não se conhece a data exata, o “Gutenberg-Museum Mainz” informa que ele nasceu em 1400 e morreu em 3 de fevereiro de 1468.

Viveu em regiões de cultivo de uvas e produção de vinho e, portanto, conhecia bem o processo das prensas utilizadas na fabricação de vinhos, que influenciou na invenção de sua prensa de tipos móveis. Segundo Lindoso (2016, s/p.), “a impressora foi construída a partir de modelos de prensas de vinho [e] o processo de ‘invenção’ da tipografia foi extremamente complicado. Gutenberg foi o primeiro – e aí está a raiz de tudo – a conceber um processo viável e simples de fundição de tipos”.

Gutenberg trabalhou também como ourives e as habilidades trazidas dessa profissão da mesma forma influenciaram na construção de sua prensa de tipos móveis. Lindoso (2016, s/p.) afirma que: “ele inventou uma espécie de portador dos moldes que permitiu a fabricação rápida dos tipos de impressão a partir de uma matriz (escultura das letras em punções com instrumentos de ourives). Essas punções eram aplicadas em uma barra de cobre, criando as matrizes”. Ou seja, o tipo móvel era uma espécie de carimbo de metal que permitia imprimir letras sobre o papel.

Assim, a possibilidade de ensinar por meio das páginas dos livros, impressos agora em quantidades, nasceu das mãos de Gutenberg.

“O primeiro impresso atribuído a Gutenberg, em Estrasburgo, é um trecho intitulado Fragmento do Weltgerich. Mas os primeiros livros, já impressos em Mainz [...] foram os chamados Donatus. Eram simplesmente livros didáticos, um manual escolar de latim” (LINDOSO, 2016, s/p.).

Figura 11 – Imagem ilustrativa da prensa de tipos móveis de Gutenberg

Fonte: Internet19

O principal livro impresso por Gutenberg foi a Bíblia em Latim, imprimiu 180 exemplares entre 1452 e 1455.

Considerado um dos livros mais belos do mundo, segundo o Gutenberg-Museum Mainz, a Bíblia de 42 linhas por página (B42), possuía 2 volumes com um total de 1.282 páginas.

As iniciais coloridas e os sinais foram adicionados mais tarde por um iluminador e um colunista. Das 180 cópias, presume-se que 150 foram impressas em papel, enquanto as 30 restantes foram impressas em pergaminho requintado.

Hoje, existem 49 cópias desse livro histórico. Destes, dois pertencem ao museu de Gutenberg, na Alemanha.

O desenvolvimento da arte da impressão provocou uma grande mudança no mundo da escrita.

Figura 12 – A bíblia de Gutenberg (B42)

Fonte: Internet20

A impressora de tipos móveis popularizou definitivamente a escrita, tornando-a mais acessível por meio dos livros, que reduziram os custos e puderam ser impressos em quantidade.

Uma (r)evolução que proporcionou a popularização da escrita e levou a ciência, a notícia, a política, a religião e a literatura para todo o planeta.

A rápida expansão da indústria tipográfica na Europa e no Novo Mundo deveu-se a uma conjunção de importantes fatores. A demanda pela leitura era muito maior do que as cópias manuscritas podiam suprimir. Ideias novas estavam fermentando nas cabeças privilegiadas do renascimento, ávidas por transmitir suas novas cosmovisões para quem quisesse conhecer um novo mundo que os artistas e intelectuais sonhavam para as artes e as ciências (RODRIGUES, 2012, p. 190).

Uma (r)evolução que serviu e serve como veículo ideológico dominante, e, por meio dos livros, principalmente os didáticos, “ensinam” lições a quem desejam e como desejam, mas também são instrumentos de resistência, de luta, de oposição, instrumentos que servem a opressores e oprimidos, na luta (desigual) de classes da sociedade.

Quando a imprensa, no século XV, foi inventada por Gutenberg, questionou-se a necessidade de aprender a ler e escrever. O principal argumento para tal indagação era que

saber ler e escrever não eram essenciais para a sobrevivência, além de exigirem habilidades consideradas complexas na época. Aproximadamente quinhentos anos depois, o desenvolvimento das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação faz a humanidade sentir-se diante de um desafio semelhante: as TDIC são necessárias e fundamentais para a sobrevivência na sociedade atual?

Sem dúvidas, as TDIC são outro marco da (r)evolução da linguagem escrita, que a reorganiza, reestrutura, dando nova configuração a esse tipo de linguagem. Tal (r)evolução não só chega até a escrita, mas a transcende, causando um desconforto similar ao vivido com a chegada da imprensa de Gutenberg. Naquela época não faltavam críticos ao movimento de produção em massa de livros.

Os escribas, cujo negócio era ameaçado pela nova tecnologia, deploraram desde o início a chegada da imprensa gráfica. Para os homens da Igreja, o problema básico era que os impressos permitiam aos leitores que ocupavam uma posição subalterna na hierarquia social e cultural estudar os textos religiosos por conta própria, em vez de confiar no que as autoridades eclesiásticas lhes ensinavam (RODRIGUES, 2012, p. 191).

A escrita, a tipografia e agora as TDIC são meios de ‘tecnologizar’ a palavra, e cada tecnologia enfrentou e enfrenta muitas críticas.

Estamos vivendo o limiar entre uma Era e outra. A Era Digital, a qual estamos imersos atualmente, está reestruturando ainda mais o modo de ser, de relacionar, de pensar e de viver. O meio material do texto também mudou e com ele, novos sentidos são imputados à escrita e à leitura. Hoje, a consulta ao escrito está cada vez mais disponível em materialidades não antes imagináveis e com apenas alguns toques em um “aparelho” que carregamos no bolso, temos acesso ao que antes somente pessoalmente teríamos.

A revolução do nosso presente é, com toda certeza, mais que a de Gutenberg. Ela não modifica apenas a técnica de reprodução do texto, mas também as próprias estruturas e formas do suporte que o comunica a seus leitores. O livro impresso tem sido, até hoje, o herdeiro do manuscrito: quanto à organização em cadernos, à hierarquia dos formatos, do libro da banco ao libellus; quanto, também, aos subsídios à leitura: concordâncias, índices, sumários etc. Com o monitor, que vem substituir o códice, a mudança é mais radical, posto que são os modos de organização, de estruturação, de consulta do suporte do escrito que se acham modificados (CHARTIER, 1994, p. 187).

Todas essas modificações na escrita, possibilitadas pelas TDIC, traz diferentes sentidos para o seu uso, na sociedade contemporânea. O acesso e a circulação da escrita, na

materialidade digital, nos faz pensar nas críticas que mudanças ocorridas na circulação da escrita e leitura sofreram da Era do manuscrito para a Era da Imprensa e agora para a Era Digital.

A transição de uma Era a outra, permite-nos incorporar as mudanças de tecnologias em nossas vidas, conectando o conhecido com o desconhecido, em um movimento que nos leva da paráfrase à polissemia. Esse movimento não é nada fácil e ainda que tentemos ultrapassar a paráfrase do mundo digital, certamente ainda estamos presos a ela.

A história das TDIC nos ocuparia em longo texto, vamos discorrer brevemente sobre sua expansão, que teve início no século XX, período pós Segunda Guerra Mundial. É nessa época que a evolução tecnológica acontece a partir de descobertas no campo da eletrônica, como o primeiro computador programável e o transistor, fonte da microeletrônica.

Como a maioria dos inventos, digitais ou não, o computador nasceu para servir à guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial, a marinha americana, em conjunto com a Universidade de Harvard, desenvolveu o computador Harvard Mark I, projetado pelo professor Howard Aiken. O Mark I era gigante e conseguia multiplicar dois números de dez dígitos em três segundos, o que para época era um grande feito, principalmente para cálculos de estratégias de guerra.

Simultaneamente, e em completo segredo, o Exército Americano desenvolvia um projeto similar, chefiado pelos engenheiros J. Presper Eckert e John Mauchy, cujo resultado foi o primeiro computador digital eletrônico, o Eletronic Numeric Integrator And Calculator (ENIAC).

O ENIAC começou a ser desenvolvido em 1943 durante a II Guerra Mundial, mas só se tornou operacional em 1946, após o final da guerra. Também era imenso, constituído de 18.000 válvulas, fazia 500 multiplicações por segundo, muito mais que o Harvard Mark I, fora projetado com a finalidade de calcular trajetórias balísticas. Porém, tinha um alto custo de manutenção, pois centenas de válvulas queimavam a cada hora e o calor gerado por elas necessitava ser controlado por um complexo sistema de refrigeração, além dos gastos elevadíssimos de energia elétrica.

Mas, mesmo com altos custos, esse computador abriu as portas para o desenvolvimento de Tecnologia Digital e toda sorte de mudanças entrou em nossas vidas.

Na seção sobre História da Computação da Universidade de Columbia, podemos encontrar dados sobre o intrigante computador, além de algumas fotos do exército dos EUA,

dos arquivos da Biblioteca Técnica ARL, onde mostram programadores trabalhando no ENIAC.

Do ENIAC (1946) até hoje, muitos avanços ocorreram. A modernização e miniaturização dos componentes eletrônicos foram responsáveis pela façanha de transformar um quarteirão quadrado de computador, o ENIAC, em um Smartphone que carregamos no bolso, para todos os lados, e com capacidade de armazenamento de dados muito maior que nosso “dinossauro” de 1946.

Podemos nos conectar com o mundo por meio de um aparelho que cabe literalmente na palma de nossas mãos, e isso considerando o que temos em uso disseminado pelo planeta. É pouco provável que algum cientista, do início do vizinho século XX, tivesse ideia de que poderíamos, com poucos toques dispor de textos, livros, imagens, sons, vídeos, que poderíamos visitar museus, acessar notícias, gerar notícias e comunicar-se com parentes, amigos ou até mesmo desconhecidos em qualquer ponto do planeta.

Figura 13 – ENIAC – O primeiro computador digital eletrônico

Fonte: Internet21

Esta vertiginosa evolução digital levou-nos à constituição da chamada “Sociedade da Informação e do Conhecimento”, reconfigurando, em um curto espaço de tempo, o modo de

vida cotidiano em todos os continentes. Afinal, não é mais preciso ser vizinho geográfico para trocar informações, cultura ou para aprender uma tecnologia, estamos todos interligados em rede.

Castells (1999, p. 43), assinala que houve ampla difusão das novas tecnologias de informação na década de 1970, inicialmente no Vale do Silício (polo tecnológico localizado no estado da Califórnia – Estados Unidos), que acelerou seu desenvolvimento sinérgico e convergiu para um novo paradigma social. Assim sendo, as novas tecnologias corroboraram com a reestruturação socioeconômica nos anos de 1980 e para o surgimento da “sociedade em rede”, que só pode ser compreendida como afirmam Pereira e Silva (2010, p. 159), “a partir da interação entre duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas Tecnologias de Informação e a tentativa da antiga sociedade de reaparelhar-se com o uso do poder da tecnologia para servir à tecnologia do poder”.

Se consideramos que as tecnologias mudaram significativamente o modo de se relacionar na sociedade contemporânea, é relevante respondermos à questão: o que são tecnologias?

Geralmente, a tecnologia é concebida equivocadamente apenas dentro de uma perspectiva técnico-científica, na qual ela aparece como propriedade neutra ligada à eficiência produtivista, envolvendo o uso de meios de produção para agir sobre a matéria, atribuindo à tecnologia uma identidade meramente utilitarista, compreendida apenas como uma ferramenta resultante da aplicação da ciência (MATOS, 2013, p. 54).

Não compreendemos as tecnologias como meros aparelhos utilitários, mas assim, como aponta Oliveira (2001, p. 101-102):

As tecnologias são produtos da ação humana, historicamente construídos, expressando relações sociais das quais dependem, mas que também são influenciadas por eles. Os produtos e processos tecnológicos são considerados artefatos sociais e culturais, que carregam consigo relações de poder, intenções e interesses diversos.

As tecnologias, portanto, não são neutras, sua utilização não é neutra, pelo contrário, é resultado da ação humana, em um processo histórico e se constitui de ideologia, de interesses, de poder. Todas as tecnologias assim são constituídas, inclusive as TDIC.

Winner, reforça a posição que adotamos sobre tecnologias, afirmando que “[há] por trás dos dispositivos técnicos, as circunstâncias sociais de seu desenvolvimento, emprego e uso” e complementa que, ao pensarmos os artefatos tecnológicos, “o que importa não é a

tecnologia em si, mas o sistema social ou econômico no qual ela está inserida” (WINNER, 1986/2018, s/p).

Assim, as TDIC para nós, se revelam enquanto linguagem, e como tal, sob a perspectiva discursiva, não as entendemos apenas como “um código no qual se pautaria a mensagem que seria assim transmitida de um a outro. Não há, além disso, esta transmissão: há efeitos de sentidos entre locutores. Efeitos que resultam da relação de sujeitos simbólicos que participam do discurso, dentro de circunstâncias dadas” (ORLANDI, 2015b, p.17).

Ratificamos que, ao utilizarmos o termo “tecnologias”, estamos considerando tudo aquilo que o homem produziu e produz para facilitar a execução de uma tarefa. Assim, ao fazer uma ferramenta para utilizar na caça, os homens das cavernas estavam construindo e utilizando tecnologia, a invenção da roda, da escrita, dos suportes da escrita, como a pedra, prancha de argila, a madeira, o papiro, o pergaminho, o códice, o papel. O lápis, a caneta, o rádio, o telefone, a T.V., o computador e tantas outras tecnologias foram pensadas pelo homem para otimizar a realização de tarefas.

Mas, voltamos a reafirmar que, todas essas tecnologias, esses artefatos, são constituídos de política, de ideologia, e como tal, “podem ser precisamente julgados não apenas pela sua contribuição à eficiência e produtividade e pelos seus efeitos colaterais ambientais, positivos e negativos, mas também pelos modos pelos quais eles podem incorporar formas específicas de poder e autoridade” (WINNER, 1986/2018, s/p).

O surgimento das Tecnologias Digitais trouxe consigo uma nova configuração da sociedade, novas formas de se relacionar, de se comunicar: equipamentos como smartphones, tablets, TVs digitais, máquinas fotográficas e notebooks, conversam conosco utilizando como intérpretes programas (softwares). Essas tecnologias quebraram barreiras geográficas e sociais nos ‘plugando’ ao mundo de forma nunca antes imaginável.

Sabemos que as sociedades estão em constante mudança e, ao refletir sobre elas, ao estudá-las, compreenderemos que:

[...] a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade. O saber oral e os gêneros de conhecimentos fundados sobre a escrita ainda existem, é claro, e sem dúvida irão continuar existindo sempre. Não se trata aqui, portanto, de profetizar uma catástrofe cultural causada pela informatização, mas sim de utilizar os trabalhos recentes da psicologia cognitiva e da história dos processos de inscrição para analisar precisamente a articulação entre gêneros de conhecimento e tecnologias intelectuais (LEVY, 1993/1999, p. 10).

Pierre Lévy (1993/1999), em As Tecnologias da Inteligência, faz-nos refletir sobre “o papel das tecnologias da informação na constituição das culturas e inteligência dos grupos”. Para o autor, a técnica não deve ser vista como antagonista das relações sociais, sendo que os “três tempos do espírito”: oralidade, escrita e informática não se anulam, elas convivem o tempo todo como técnicas de comunicação e de relacionamento da sociedade atual.

Considerando, portanto, a dinâmica de inovação, as TDIC são imprescindíveis para o desenvolvimento da economia mundial. Novos hábitos sociais foram adquiridos, surgiram novas formas de interação, enfim, uma nova sociedade. Castells (1999, p. 73) declara que:

A interatividade dos sistemas de inovação tecnológica e sua dependência de certos ‘ambientes’ propícios para troca de ideias, problemas e soluções são aspectos importantíssimos que podem ser entendidos da experiência da revolução passada para a atual.

Podemos seguramente afirmar que, hoje, as TDIC têm presença até o momento não alcançada por outro invento humano: nos lares, nas escolas, nas empresas, nos ambientes de lazer. Elas são consideradas uma das descobertas que mais potencializaram alterações no modo de vida das pessoas e, por essa razão, importa considerar que as TDIC são necessárias para a vida na sociedade contemporânea, assim como é a linguagem escrita. Importa compreender se/como as tecnologias digitais podem ressignificar a organização da escola.

Se analisarmos a escola do século XIX até hoje, constatamos que tanto na forma de organização, quanto na forma de relacionamento interpessoal (processo ensino- aprendizagem), não ocorreram mudanças significativas. Com raras exceções, observamos as mesmas estruturas com salas de aula organizadas com carteiras dispostas em filas, o professor transmitindo um saber pronto e acabado, o aluno absorvendo-o de forma passiva, a apresentação das informações limitadas a livros didáticos e quadro-negro, o currículo fragmentado em disciplinas estanques, um sistema de educação o qual Paulo Freire nomeou, na década de 1960, de educação bancária. Como descreve Ripper (1999, p. 57):

Há muito existe entre os educadores a percepção de que a escola, congelada há mais de um século, inibe em vez de estimular a utilização, de forma crítica e criativa, dos conhecimentos por ela transmitidos. As pressões sociais contra esse modelo não foram suficientes para de fato estimular uma mudança, em grande parte porque a formação massificada se adaptava bem ao modelo produtivo vigente, que requeria um grande número de trabalhadores para tarefas rotineiras a serem executadas sem questionamento.

Mas o constante desenvolvimento e aprimoramento das TDIC coloca em discussão, especialmente no campo educacional, o uso das mídias nos processos pedagógicos que afetam e influenciam o campo das aprendizagens. As discussões provocam, suscitam questionamentos vários e colocam o discurso em circulação, notam-se os efeitos de sentidos a partir das tomadas de posições por parte dos educadores e dos pesquisadores, entre eles há os que defendem os novos meios como suporte às práticas pedagógicas e aqueles que acreditam que eles vieram para substituir os espaços tradicionais de aprendizagem. Valente (1997, p. 20) afirma que:

[...] os sistemas computacionais apresentam hoje diversos recursos de multimídia, como cores, animação e som, possibilitando a apresentação da informação de um modo que jamais o professor tradicional poderá fazer com giz e quadro negro mesmo que ele use o giz colorido e seja um exímio comunicador.

Esse é o contexto atual em que nos encontramos, frente a uma demanda de crianças e jovens pertencentes à geração digital que clamam por novas formas de aprendizagem e diante da diversidade de possibilidades do uso de recursos digitais como apoio na educação escolar.

Partimos do pressuposto de que a utilização dos recursos tecnológicos digitais modifica a dinâmica do ensino, possibilitando o envolvimento de alunos e professores com uma aprendizagem significativa. É por meio desses novos recursos que a educação pode oportunizar uma aprendizagem que proporcione ao sujeito-estudante aprender de forma interativa e motivadora.

É utilizando a linguagem digital, por meio de suas mais variadas materialidades, que poderemos nos reaproximar dos alunos que foram adiante no curso da evolução digital, enquanto o sistema escolar permaneceu à margem, ensinando para nativos digitais com