D. Analyse
1. Progression de l’analyse
Tanto em Neemias como em Jó, as mulheres se levantam e murmuram. Suas reclamações são válidas, pois a religião estava escravizando e penhorando seus bens, seus filhos e suas vidas. Segundo Rossi364, a mulher de Jó não entra no texto sem uma intenção do autor (es), pois ela aparece para demonstrar uma parcela do povo que sofria opressão e dominação pelo Império Persa e pelos líderes religiosos de Israel. Sítis tem sido negligenciada no decorrer da história. Uma mulher que vê seus 10 filhos morrerem, seus bens indo embora e seu esposo Jó com uma doença humilhante e decadente.
Por causa dessa nova teologia monoteísta, os sacerdotes (classe alta) por trás deste modo legalista de ver a religião como a teologia oficial do Templo ( a Teologia da Retribuição), ensinavam que a relação com Deus se dava na base de relações comerciais e de troca. Aquele que cumpre a lei é recompensado por Deus, caso contrário, Deus retribuía em forma de castigos. Então, Deus abençoa o justo e piedoso e pune o ímpio, dessa forma acreditava-se que o inocente jamais cairia em desgraças. Portanto, quem sofre agora por qualquer motivo, merece o sofrimento e deve refletir sobre seus pecados conhecidos ou ocultos. E na verdade quem mais sofria com essa rigorosa aplicação da nova teologia que implantou a lei da “pureza” e do “puro e impuro” no pós-exílio foram às mulheres, que acabaram sendo excluídas pelo segundo templo365. A lei da pureza considerava agora a mulher impura pelo simples fato de ser mulher (Lv 15,19-30), por ser mãe (Lv 12,1-8), por ser esposa (Lv 15,18) e por ser filha (Lv 12,1-8). Só as mulheres, garantiam ao Templo através dos ritos de purificação uma arrecadação regular desde os doze anos até a sua menopausa.
Essas evoluções religiosas do século V e IV a.C. ganham nitidez. Em geral, os/as repatriadas ganham disputas nas questões sociais e religiosas. O culto à Deusa é eliminado através de medidas drásticas e, em grande parte, provavelmente com prejuízos para as mulheres.
Durante o exílio da Babilônia, alguns reclamaram dizendo que estavam pagando pelos pecados cometidos por seus antepassados: “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados?” (Ez 18,1). Ezequiel afirma que não: “A pessoa que peca é a
364ROSSI, Luiz Alexandre Solano. A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó . São Paulo: Paulus, 2005.p16.
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que morre! O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho: a justiça será imputada a ele, exatamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele”. As palavras de Ezequiel enfocavam o indivíduo. A partir do pós-exílio essa doutrina da retribuição é aplicada então ao indivíduo e não mais com relação à coletividade. A relação com Deus, baseada na doutrina da retribuição, se comparada à realidade dos homens não tem mais nenhum sentido.
Sítis (2,9) questiona os sacerdotes abertamente diante desse modo de pensar e explicar os sofrimentos humanos. Se Deus é bom e justo, é o autor da vida, como pode ser ao mesmo tempo o autor do mal? Se todas as desgraças são enviadas por Deus como castigo, por que muitos não conseguem conhecer a razão de sua punição? Que Deus é esse que tem prazer em ver o justo sofrendo? É melhor amaldiçoar/abençoar esse “deus” (teologia da retribuição) e morrer, pois ele é pequeno demais!
Schroer366 relata que os sacerdotes ainda passam a vigiar a fidelidade matrimonial das esposas e a realizar uma humilhante prova de ordálio já no caso de uma mera suspeita de adultério (Nm 5). Essa lei anula parcialmente a legislação social deuteronomista, por exemplo, nas leis sobre o perdão das dividas e a libertação de escravos/as (Lv 25). No entanto, a lei dirige-se, por cauxsa da nova situação, não apenas aos proprietários livres da terra, mas a todos os israelitas.
A questão persiste, quem pode ser afinal de contas essa mulher? A própria frase demonstra que é uma pessoa que enfrentou Jó e a Elohim, e propôs um veredito para ambos. Aqui nos parece que Jó, representa certo grupo de homens, e Elohim, as divindades. Então, não está perguntando, ela afirma que se deve abençoar/amaldiçoar as divindades (teologia vigente), e depois disso que esse grupo de homens morra.
Pode-se então encontrar essas mulheres (que mais nos interessam), esse grupo de homens e essas divindades, em outros textos das Escrituras para que melhor seja compreendido qual era de fato o ambiente que se encontravam.
A atitude da mulher de Jó é atribuída como a de “qualquer doida” (Jó 2.10a). A leitura dessa frase, sem considerar o contexto em que o livro está inserido, produz uma interpretação equivocada da intenção real do autor (es). Numa análise semântica, percebe-se que este vocábulo
‘tAlb'N>h;
(os cadáveres) que surge em Jó 2,10a, merece uma atenção, primeiro pelo motivo que nessa forma aparece uma única vez; e também numa outra formahl'b'n
>(cadáver) surge em Jó 42,8. No entanto, consideram-se também outras ocorrências em366
que ele aparece como em: Lv 7,24 – 17,15 – 22,8; Dt 14,21 – 22,21; Js 7,15; Is 9,16 – 24,4 (2x) – 32,6; Jr 29,23 e Ez 44,31.
O quadro a seguir mostra um pouco a respeito do que já estudamos fornecendo um exemplo comparativo de Jó com Gênesis:
Jó Gênesis
2,10a -
‘tAlb'N>h; tx;Ûa; rBeúd:K. h'yl,ªae rm,aYOæw:
E disse para ela como faz falar um cadáver/uma louca (uns cadáveres/loucas/loucuras)42,8d -
hl'êb'n> ‘~k,M'[i tAfÜ[] yTiúl.bil
para não fazer convosco cadáver (loucura)34,7d -
laeªr"f.yIb. hf'ä[' hl'úb'n>-yKi
Atenção! cadáver (loucura) fez em IsraelPode-se concluir que em geral nesses textos o vocábulo
hl'b'n
>(cadáver) possui uma conotação que se refere ao tema do puro e impuro. Então a fala de Jó para a sua mulher (Sitis) foi sacerdotal, para colocá-la no lugar que queriam que as mulheres ficassem: Caladas diante da opressão, pois elas eram agora “impuras” diante da teologia da retribuição e se sofriam era porque mereciam.De acordo com o Testamento de Jó, um livro apócrifo de Jó produzido no I século d.C., no capítulo 24,1-10 revela o sofrimento dessa mulher “Sitis” a ponto de revelar que ela precisou vender seu corpo a noite para ter alimento de dia para dar a seu marido Jó. Sítis chega ao fundo do poço tendo que vender seus cabelos para o padeiro (Satã) a fim de que tivesse pão para comer:
“Minha mulher se aproximou de mim e exclamou, chorando: Jó, Jó, quanto tempo ficarás, sentado no teu monturo fora da cidade? Tu te imaginas que é só por um curto tempo, aguardando a esperança de tua salvação. Quanto a mim, ando de lugar em lugar, como uma empregada vagabunda. Teu memorial foi apagado da terra, a saber, os filhos e filhas que te gerei nas dores do parto, para nada. Tu mesmo sentado dia e noite ao relento, fedorento e cheio de vermes. Quanto a mim, desgraçada, trabalhando de dia, e sofrendo de noite, para te trazer um pedaço de pão. É muito difícil conseguir pão para mim mesma, e ainda o divido contigo. Pois estimo que não esteja certo que sejas arrasado pelo sofrimento e ainda nada ter para comer. Por isso, eu engoli a minha vergonha e fui para a feira (pedir esmola). Quando o padeiro me disse: coloca aqui teu dinheiro e toma o pão. Falei-lhe de nossa pobreza, e o ouvi dizendo: Se não tens dinheiro, mulher, dá-me teu cabelo e tomará três pães. Talvez vivereis por mais três dias. Perdi coragem e disse-lhe: Pois não, corta-o. E assim fui-me embora, desonrada tendo o cabelo cortado de tesoura no mercado [...]367
Sitis precisou trocar seus cabelos por pão, pois no mundo dos pobres que vivia agora
deveria ter força para acompanhar e ajudar o seu esposo. Provavelmente Sitis precisou se
367
prostituir, pois diz o texto apócrifo: “quanto a mim, desgraçada, trabalhando de dia, e
sofrendo de noite, para te trazer um pedaço de pão”.E no texto bíblico (Jó 31,10) podemos
pensar que essa Mulher foi alvo de exploração sexual368. É bom ressaltar que os homens israelitas procuravam prostitutas (zonah/zonot), o que era muito menos perigoso do que uma relação com uma moça não-casada, uma noiva ou uma mulher casada, e no caso de Sitis, uma quase viúva. Prostitutas eram pagas com produtos alimentícios ou com dinheiro.
Portanto, não é saudável e justoeliminar a compreensão positiva em relação a mulher de Jó (Sitis), pois após o retorno do cativeiro na Babilônia, os judaítas viram-se empobrecidos como Jó, enfraquecidos e doentes. Foi nesse estado de total abandono e endividados pelos impostos altíssimos devidos aos conquistadores persas e a ricos comerciantes (cf. Ne 5; Jó 24), que surgiram questionamentos da parte das mulheres inclusive de Sítis. Num esforço de imaginação, pode-se mesmo ouvi-las se questionando: Valeu a pena servir a Iahweh? Onde está Iahweh nessa hora de espoliação e sofrimento? O que foi feito de suas promessas de conquistas e livramento? Afinal, qual é a verdadeira religião: a dos deuses pagãos que venceram o povo de Iahweh, ou a religião dos nossos pais Abraão, Isaque e Jacó? O que, agora enfraquecidos, podemos dizer sobre o nosso Deus? (cf. Sl 73; 79; Jr 2.5-8; Ml 2.17).
Esse era o momento em que as mulheres da terra teriam que lidar com os recém- chegados do exílio369, teriam agora que reconstruir suas vidas e refletirem sua fé a partir de uma teologia com “outro rosto”, sem aquela liberdade do passado diante das deusas, porque essa nova teologia retribuitiva não mais restauraria os seus valores e bens perdidos. Teriam que recomeçar a vida, agora, através de uma fé com “obras” para receber em troca algo desse único Deus importado pelo Templo ao povo judaita.
Dessa forma, o livro de Jó em sua moldura (1,1-22-2,13; 42.12-17) representa a tradição transmitida por um lado corrupto do sacerdotalismo pós-exílico que oprimia o povo e afirmava ser essa a vontade de Deus se utilizando de textos antigos como em Miquéias (3:11). Os filhos eram vendidos, os campos eram tomados, as fazendas eram desapropriadas, as famílias eram escravizadas e ao perguntar sobre Deus, esses sacerdotes corruptos
368
Jó 31,10 - que minha mulher gire a mó para outrem e outros se debrucem sobre ela (
!yrI)xea] !W[ïr>k.yI
h'yl,ª['w>÷ yTi_v.ai rxEåa;l. !x:åj.Ti
); LXX -avre,sai a;ra kai. h` gunh, mou e`te,rw| ta. de. nh,pia, mou tapeinwqei,h369Não se pode perder de vista que durante os anos de cativeiro, uma grande população campesina permaneceu
na terra, e, tudo leva a crer que foi desenvolvida uma sociedade de camponeses (literalmente, o povo da terra, cf. Ed 3.3). É natural supor que essa sociedade já estivesse organizada e politicamente estruturada, com sua liderança formalizada e seu sistema religioso funcionando. Além dos seus antigos ídolos, adotaram o culto do Senhor (cf. 2 Rs 17.24-41). Porém, interessa, aqui, saber quem era o povo da Golah, vindo da Babilônia.
pregavam a história de Jó, que também sofreu, mas como suportou calado e sem murmuração recebeu tudo em dobro no final, uma verdadeira manipulação religiosa!
Na primeira geração de repatriados/as atuavam grupos fortemente restaurativos em torno de Zorobabel e do sumo sacerdote Josué, para os quais a ortodoxia cultual e principalmente a reconstrução do templo são as preocupações prioritárias (Ageu, Zacarias 1- 8). Desde o inicio, os/as remanescentes, que não estavam no exílio, e as pessoas do antigo Reino do Norte (província de Samaria) são excluídos da reconstrução do templo (Ag 2.10- 14;Ed 4.3). Portanto, todas as pessoas que se levantassem contra essa reconstrução do templo e essa formatação cúltica estabelecida pelos sacerdotes seriam desprezadas, principalmente as mulheres.
É aqui que se compreende que a forma como a mulher de Jó é pintada na história fornece uma imagem que tem por objetivo difamar a mulher que protestava (Jó 24) sendo que sua atitude inicial se tornou mais evidente em Jó (2.9). Mas o Jó dos 40 capítulos restantes reflete a fala dessa mulher (2.9) que não se cala diante da opressão. Sua fala revela um líder do povo, um profeta que vê a opressão sacerdotal da classe alta e aponta os verdadeiros problemas a que se dirige o livro (Jó 24:2-11). Os verdadeiros problemas que produziam o sofrimento de Jó não eram aflições por causas naturais, mas por causa da opressão dos poderosos sobre os fracos (Jó 3:11-20). Pelo menos, essa mulher, pela tradição, tem um nome: Sitis.