Em Caruru que fui como convidada em Salvador/BA, outra observação importante, desta vez, envolvendo uma relação entre os Erês e as crianças da festa. Nesta casa, o Caruru é oferecido anualmente como uma promessa antiga de uma das mulheres mais velhas da casa e foi se tornando uma festa tradicional organizada por toda esta família (configuração bastante comum nos Carurus de Salvador/BA).
Uma comprida e alta mesa foi arrumada na sala da casa dispondo os alimentos que seriam servidos em homenagem aos Ibejis: o inhame cozido, o milho amarelo, o milho branco, o feijão preto, feijão fradinho, pipoca, farofa, galinha cozinha e preparo de quiabo, o próprio caruru. Debaixo da mesa foram sentadas sete crianças, representando, assim, o Caruru dos Sete Meninos. Estas crianças, meninos e meninas, eram pequenas, não tinham mais que 6 anos de idade. Próximo a elas, as mulheres das famílias acenderam velas e as crianças foram servidas, cada uma com seu prato contendo cada um dos alimentos em menção aos Orixás.
Rapidamente, outra senhora, aparentemente a mais idosa, tirou as crianças debaixo da mesa e as pessoas da família passaram a distribuir os pratos de Caruru a
todos/as os/as presentes. Enquanto eu aguardava ser servida, observei a chegada do Erê de uma das moças da família que oferecia o Caruru: chegou pulando de alegria! Corria de um lado para o outro ajudando na entrega dos pratos aos/às convidados/as e fazendo falas como: “- Que gostoso! Nossa, que delícia! Guarda pra eu também, eu vou comer também!”, muito à vontade, parecendo evidente ser aquele um espaço em que se sentia confortável.
Com meu Caruru, sentei-me do lado de fora da casa para comer e observei quando um menino de uns 3 anos de idade saiu correndo de dentro da casa, muito rápido e furioso. Num canto do quintal, pegou uma vassoura e, ainda correndo, pegou alguns chinelos que encontrou pelo chão e voltou correndo para dentro da casa. Algumas pessoas correram atrás do menino, umas bravas, outras às gargalhadas. Perguntei a um amigo sobre o que estava acontecendo, que me explicou:
Meu amigo: Esse Erê que está aqui é o Erê da mãe dele [do menino]. Fica bulindo com ele o tempo todo, agora ele quer é se vingar!
Eu: Ele quer bater no Erê da mãe dele?
Meu amigo: Não, bater ele não vai, mas Erê não pode nem ver chinelo e vassoura! O melhor é esconder. Eles se sentem tristes, lembram de maus tratos, que apanhavam.. Não precisa nem ameaçar, só de colocar perto faz o Erê ficar triste e querer ir embora! (Caderno de Campo, Salvador/BA, 2011).
Aqui, novamente, retoma-se a ideia apresentada por Urânia Munzanzu: da tristeza do momento de partida dos Erês. As pessoas correm para impedir que um sofrimento lhe seja causado: querem cuidar para que permaneça manifestado e feliz! Esta dimensão do cuidado remete à dimensão Oxumística da noção de infância, neste espaço afro-brasileiro. Junto disto, os Erês colocam em prática o elemento lúdico e brincalhão às festas religiosas, tornam a fé um ato mais humano e vivo, compartilhando de sentimentos de alegria, afeto e também de traquinagens e pregação de peças. Compartilham do alimento e do trabalho. São mediadores entre o mundo sublimado e o mundo da concretude dos sentidos humanos. Comunicadores e mediadores tangíveis, os Erês são a própria manifestação Exuística de infância afro-brasileira.
Cabe pontuar, também, a relação entre os Erês e as Crianças. Em mais de uma situação, além da descrita acima, os Erês aparentemente escolhem crianças presentes no terreiro como principal alvo de suas travessuras. Notei mais de uma ocasião, em espaços diferentes, que Erês não deixaram bebês dormirem, ou bastava um/a adulto/a distanciar-se para irem cutucar e acordar as crianças. Quando questionado o motivo de ter acordado um bebê e uma criança de 3 anos, mesmo tendo adultos/as presenciado seu ato, um Erê respondeu: “-Eles não queriam dormir não, eles querem brincar!” E dá-lhe criança chorando de sono!
Neste terreiro, em Salvador/BA, era necessário alguém sempre brincando com o Erê para ele deixar as crianças dormirem ou brincarem. Quando menos se imaginava, lá estava ele de novo, ou acordando as crianças, ou criando brincadeiras que poderiam causar algum desconforto nelas. Por um lado, me parece parte do aspecto brincalhão dos Erês. Por outro, uma disputa de atenção com as crianças: tendo certo aval por estarem manifestados, acabam fazendo com que os/as adultos/as tenham que correr o tempo todo para proteger as crianças (e, em alguns casos, para proteger os Erês, quando as crianças aprendem, também, a causarem-lhe desconforto)!
Os diálogos entre os Erês e as crianças não se dão apenas pela disputa. Participei, em 2015, dos preparativos do Caruru, no Ile Àṣẹ Ketu Egbe Oni (Embu das Artes-SP). Seria um Caruru com características mais domésticas, apesar de estarmos num terreiro de Candomblé. Quando a refeição estava pronta, um Erê manifestou-se. Éramos apenas adultos/as presentes naquele espaço da casa, quando o Erê chegou. Algumas filhas da casa pegaram os alimentos que haviam sido separados em primeiro lugar, para servir ao Erê. Mas ele não aceitou. Chamou uma senhora que estava presente e a fez compreender: devia chamar seu neto de 4 anos que estava brincando em outra parte da casa!
O menino veio e perguntou para a avó: “-Por que ela está assim?” – referindo- se à mulher que manifestava o Erê. A avó respondeu, sabiamente: “-É que ela agora vai ficar um pouquinho criança!”. O menino se deu por satisfeito e conversou bastante com o Erê, entendendo tudo o que ele pedia. E foi dele que o Erê aceitou receber o prato de Caruru! Enquanto o Erê comia satisfeito, o menino voltou a brincar tranquilamente.