A categoria o “SELF” um grande desafio é composta pelas seguintes subcategorias: “dando significado ao viver em situação de rua” e “sentindo a discriminação, os preconceitos e a indiferença”.
Por meio dessa categoria, analisamos as manifestações do indivíduo referentes à relação com ele mesmo, ou seja, os sentimentos mais acentuados durante a permanência na rua. Os dados mostram que várias manifestações se fazem presentes, marcando e definindo o significado de estar em situação de rua e que a „convivência consigo mesmo‟ é um dos maiores desafios de quem vive essa situação.
A primeira questão que se apresenta relaciona-se ao sentimento de estar em situação de rua, o que isso significa para os participantes. As representações na rua apresentam-se a partir de elementos contraditórios: de um lado levantam aspectos negativos, como a mendicância, a falta de casa, família, comida, emprego e apoio, e, de outro, convivem com a possibilidade de bem-estar e de superação, como analisamos a partir de suas próprias falas:
“Estando do lado da minha irmã, eu sinto bem, mas eu vou te falar uma coisa de todo o meu coração, eu sinto muita falta da minha família.” (Bianca)
“É ruim, é ruim, é ruim. Que você não faz na rua pra pagar um aluguel.” (Topázio). “Nada a reclamar, se eu não gostasse eu não tava aqui.” (Valéria)
“É a maior experiência que eu posso ter. Então aqui eu vivo coisas boas e coisas ruins.” (Carioca)
“Quando eu cheguei na rua eu chorava, pois não sabia pedir, então eu passei fome, mexia no lixo, comia comida do lixo.” (Bel)
“Viver na rua é você se auto superar, é você ser auto capacitado. Sabe por quê? Porque você ta informado de tudo que se passa a sua volta.” (Pensador)
Vê-se que, com a adaptação nas ruas, esse viver vai ganhando novo significado e encontrando novas maneiras de se relacionar. Como observado por Ghirardiet al (2005), a vida na rua não significa, necessariamente, estar sem dinheiro, mas, sobretudo, significa adquirir o essencial para a sobrevivência, sem passar pelo mercado. Não significa a eliminação do trabalho, mas o abandono do compromisso constante e do cotidiano do emprego, substituído por outras formas de trabalho. Também não significa viver sozinho, mas estabelecer novos vínculos com diferentes pares. Assim, viver na rua é também transitar pela possibilidade de gerar renda como estratégia para agregar valor à própria existência.
Um dado importante acerca da percepção da situação de rua, vivida e contada por alguns, é que ela não necessariamente se faz somente por sofrimento e dor. Pode ser um momento de aprendizado e reflexão, sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o mundo. No entanto, é preciso ter respeito com a história individual de cada ser, para que, de fato, aproxime-se da realidade da situação.
Outra questão que se relaciona a esse contexto é sobre o que sentem quando sofrem discriminação, preconceito e a indiferença. Blumer (1969) desenvolveu um pressuposto de que “nós vemos a nós mesmos através da forma como os outros nos veem ou nos definem”. No entanto, a percepção negativa que a população local tem dos cidadãos em situação de rua, aparentemente, não coincide com a percepção que eles têm de si próprios.Em seus depoimentos, eles percebem e sentem os preconceitos advindos da população, porém, pelas falas, expressam uma autorrepresentação que contraria a imagem que os outros têm deles, como pode ser evidenciado abaixo:
“Ah, eu acho assim, o jeito que o outro fica olhando, entendeu, reparando, olhando com uma cara de nojo. Tem gente que sai até de perto, tem uns pessoal que nem atende.” (Flor)
“Porque, às vezes a gente chega perto da pessoa e a pessoa pode puxar uma bolsa achando que é ladrão e nem todo mundo é ladrão. Tem ladrão que não mora na rua.” (Irmandade)
“Não gosto de briga, eu não sou valente, não sou traficante, não sou maconheiro, não sou „drogueiro‟ (...) e é por isso que eu ainda tô aqui”. (Padeiro)
“Não sou ladrão, graças a Deus, não roubei de ninguém, nunca fiz mal a ninguém, nunca tirei a vida de ninguém.” (Jô)
Então às vezes eu acho muita discriminação, como muita gente discrimina homossexual, entendeu, discrimina negro, então a gente tem que ver a pessoa pelo que ela é. Não pelo que ela faz ou deixa de fazer. Então acho que as pessoas tem que ver a gente assim, o morador de rua, como se fosse uma pessoa, um ser humano como eles, isso que eu acho. (Carioca)
Vale ressaltar que, mesmo quando as pessoas não chegam a se comunicar verbalmente ou por outras atitudes, os cidadãos em situação de rua percebem o olhar inquieto e de medo. Esse olhar parece ter um efeito distintivo e faz esse cidadão se sentir incomodado. Ainda, a visão da sociedade acarreta grande influência na própria aceitação da condição. O receio do estranhamento e até mesmo da rejeição faz o individuo, estando nessa situação, esconder-se, evitar contatos e até mesmo procurar por outras opções de vida. Vemos tal fato na fala dos participantes:
“É, tipo assim, eu tento não mostrar pra sociedade o que eles querem ver. Se tiver que usar alguma coisa eu uso escondido, longe de criança, longe de idoso, longe de qualquer pessoa normal.” (Maria)
“Eu tenho vergonha, eu tenho vergonha de pedir, então não peço. É ruim, heim?” (Topázio)
“Já pensei em voltar pra minha casa, mas de mãos vazias eu não volto, tenho vergonha.” (Ayrton Senna)
Contudo, a convivência com esse grupo populacional permite perceber que, mesmo apresentando um discurso de defesa e uma forma diferente de se referirem a si mesmos, alguns internalizam essa representação negativa que os outros fazem deles. É comum, no contato rotineiro com eles, ouvi-los se denominando como fracassados, pessoas que não deram sorte na vida e pessoas que não têm mais “conserto”. Consideram-se, portanto, indignos e se responsabilizam por sua situação, julgando-a humilhante.