A audiodescrição, de acordo com Jiménez Hurtado (2007a, p.59), é de natureza narrativa, de modo que se trata da descrição de uma sucessão de fatos visuais, que, no contexto da teleficção, por exemplo, são desencadeados por personagens em ação, localizados em dado espaço, ao longo de determinado tempo. Segundo Bordwell & Thompson (2008, p. 74), o formato narrativo se constitui de características peculiares que geram expectativas e inferências por parte da recepção. Os autores então exemplificam que diante de um filme “presumimos que haja personagens e ações que os envolvem; esperamos que haja uma sequência de incidentes que estejam conectados de algum modo; que conflitos e problemas surgidos ao longo da ação atinjam um estado final”16. Diante disso, o espectador de um produto audiovisual, prepara-se para compreender de maneira lógica a narrativa, identificando pistas, intuindo o que está por vir, participando, assim, na criação da forma da obra. Nesta perspectiva, o processo interpretativo de um espectador com deficiência visual deve se aproximar ao de um vidente, de modo que suas expectativas e inferências sejam comprovadas, ou não, a partir da estrutura narrativa prototípica. Para isso o audiodescritor tem como função identificar, no material audiovisual a ser traduzido, os elementos visuais mais significativos em termos narrativos na construção de um gênero, descrevendo-os por meio de palavras, mantendo uma harmonia estrutural entre a descrição e os elementos acústicos do texto de partida.
O audiodescritor, segundo Remael & Vercauteren (2007, p.78), deve instrumentalizar seu público-alvo capacitando-os a inferir elementos significativos do enredo de um filme, por exemplo, para que a pessoa com deficiência visual possa então construir, mentalmente, a totalidade da história. O produto final da audiodescrição, prosseguem os autores, será um novo filme, com descrição suficiente e relevante para que o público com deficiência construa de forma autônoma e confortável sua própria versão. O grande desafio para o tradutor é, portanto, decidir, dentro da diversidade de elementos narrativos na composição de um gênero, “o que”, “quando”, “como” e “quanto” audiodescrever.
Diante desse desafio tradutório, devido a complexidade estrutural de um material audiovisual, observamos os esforços de alguns países para estabelecerem parâmetros que sirvam como ponto de partida para a sistematização da prática da audiodescrição. Percebemos, no entanto, que tais parâmetros, inicialmente, não foram pautados em pesquisas,
16 We assume that there will be characters and some action that will involve them with one another. We expect a series of incidents that will be connected in some way. We also probably expect that the problems and conflicts arising in the course of the action will achieve some final state […]” (BORDWELL & THOMPSON, 2008, p. 74).
mas em experiências pessoais de profissionais envolvidos nessa atividade tradutória. Deste modo, verificamos que muitos aspectos propostos são apresentados de maneira superficial e ambígua, merecendo, portanto, estudos e reflexões mais consistentes como propõe o presente trabalho.
Vercauteren (2007, p. 139), ao comparar as normas para audiodescrição existentes na Europa, verifica que apenas a Espanha e a Inglaterra possuem normas oficiais, ao passo que países como a Alemanha e a Bélgica apresentam normas criadas por pessoas que atuam profissionalmente na área. O autor não identificou nenhum outro guia para AD em outros países europeus, de modo que ele aponta uma grande lacuna para a área e para a necessidade de elaboração de uma norma internacional de audiodescrição, a partir do desenvolvimento de pesquisas sobre o assunto. Dentre os benefícios de uma norma internacional para AD listados pelo autor, destacamos: (1) a possibilidade de uma formação profissional mais consistente e uniforme; (2) a construção de parâmetros concretos que viabilizem a compreensão efetiva da audiodescrição e sua função, tanto pelos produtores e distribuidores culturais, quanto pelos indivíduos com deficiência visual e (3) a instrumentalização dos acadêmicos para análises e descrições de textos audiodescritos por meio de parâmetros sistemáticos.
Apesar de compreendermos os argumentos do autor, acreditamos que a busca por uma normatização internacional ou até nacional para a AD seja inviável e improdutiva, pois ela não conseguiria contemplar todas as especificidades que envolvem os campos de aplicação17 dessa modalidade tradutória. Consideramos, no entanto, produtiva a construção de parâmetros para a AD visando, não a generalização, mas a especialização sobre categorias de produtos18. Nessa perspectiva, para o contexto televisivo, por exemplo, a partir de estudos e pesquisas, poderiam ser formulados parâmetros de AD voltados para cada categoria de programa (auditório, infantil, esportivo, teleficcional) e suas diversas subdivisões (no caso da teleficção, por exemplo, seus diferentes formatos e gêneros). Os benefícios de parâmetros voltados para a realidade de cada categoria de produto seriam semelhantes aos apontados por Vercauteren: a formação de profissionais mais consistentes e especializados; a instrumentalização dos acadêmicos com parâmetros de descrição e de análise mais
17 Quanto à diversidade de material potencialmente passível de audiodescrição, a norma espanhola UNE 153020, por exemplo, faz uma divisão em três categorias, conforme Vercauteren (2007, p. 141), a saber: (1) audiodescrição gravada para televisão, VHS/ DVDs e cinema; (2) audiodescrição ao vivo para teatro, ópera, dança e qualquer outro tipo de espetáculo ao vivo e (3) visitas guiadas em museus, exposições, edifícios e espaços públicos. Além disso, a norma Inglesa, ITC Guidance, apresenta doze categorias distintas, apenas no âmbito da televisão e do cinema, de programas de diferentes gêneros (documentários, novelas, notícias, filmes, minisséries etc) que consequentemente possuem demandas específicas de audiodescrição.
18 Proposta sinalizada na norma inglesa produzida a partir de uma pesquisa que avaliou, entre julho e novembro de 1994, a recepção da audiodescrição de diversos programas televisivos transmitidos pela ITV e BBC.
sistematizados; e a construção de parâmetros que viabilizem a compreensão efetiva da função da AD junto a produtores e distribuidores culturais e ao público com deficiência visual. Assim, acreditamos que o presente trabalho, contribuirá para o amadurecimento de algumas questões no campo da AD de minisséries de suspense policial.
Com relação ao processo de criação de um texto audiodescrito, Vercauteren (2007, p. 141) observou que as normas, por ele analisadas, encontram-se normalmente divididas em duas partes: (1) aquelas referentes à descrição das etapas que constituem o processo criativo de uma descrição - visualização do material a ser traduzido, elaboração do roteiro, revisão, gravação em estúdio etc - e (2) aquelas relativas aos princípios fundamentais para a escrita dos roteiros de AD. Vercauteren dedica-se à discussão dessa segunda parte, que é também o foco desta pesquisa.
Diante da estrutura narrativa complexa dos textos audiodescritivos e audiovisuais e da imprecisão de parâmetros que especifiquem “quais” elementos devem ser priorizados ao se audiodescrever, “quando”, “como” e “quanto” devem ser audiodescritos, achamos pertinente investigar, sob um viés narratológico, a complexidade da estrutura multimodal de um produto audiovisual, no caso, a teleficção seriada de curta duração e de exibição diária, e seu reflexo na criação do roteiro de audiodescrição. Embora esses aspectos estejam fortemente interligados, acreditamos que nossa ênfase será em torno “do que” e “de como” audiodescrever, tendo em vista o gênero e o formato da obra.
Com relação a “quais” elementos devem ser audiodescritos, verificamos, por meio das diretrizes europeias apontadas por Vercauteren (2007), e de análises preliminares da audiodescrição de alguns filmes (MASCARENHAS, 2008a; 2008b, 2008c, 2009), que falta consenso quanto às estratégias tradutórias para se selecionar o que audiodescrever. Ilustração desse fenômeno é a ausência, por exemplo, de uma sistematização para se audiodescreverem os créditos iniciais de um filme, parte da narrativa audiovisual com grande quantidade de informações e elementos a serem considerados, tais como: música, imagem e texto escrito (título e indicação dos profissionais envolvidos). Observamos, neste caso, que alguns audiodescritores priorizam a cena em que os créditos se sobrepõem, outros enfatizam o nome dos atores, enquanto outros tentam mesclar os dois elementos.
Numa tentativa de resumir o que sugerem as diretrizes europeias sobre a quais informações o audiodescritor deve se ater, Vercauteren (2007, p. 142) lista três aspectos: (a) imagens: descrever “o que” acontece, “quem” está envolvido e “como”, além de “onde” e “quando” os eventos ocorrem. Esse primeiro aspecto diz respeito, portanto, aos elementos fundamentais de qualquer estrutura narrativa. (b) Sons: incluir a descrição de efeitos sonoros
de difícil identificação, letras de músicas e línguas diferentes da língua original do programa. (c) Textos na tela: ler ou descrever logos, títulos, créditos iniciais, letreiros etc. Sobre os três aspectos, Vercauteren alerta que a informação audiodescrita deve ser relevante, atentando para o fato de que nem tudo pode ser descrito por limitação de tempo e que nem todos os espaços entre elementos acústicos devem ser preenchidos com descrição. Deste modo, o autor destaca duas questões que merecem maiores reflexões: o que é relevante e quanta informação deve ser fornecida no texto audiovisual audiodescrito.
Quanto ao “como” os elementos visuais devem ser audiodescritos, Vercauteren (2007) aponta para uma tentativa de padronização discursiva que se divide em dois aspectos: a linguagem/ estilo da descrição e o uso de grupos específicos de palavras. Observa-se, no entanto, que essa sistematização do discurso até então proposta pelas normas, tende a desconsiderar tanto o gênero quanto o modo de construção narrativa do audiovisual. Isso, porém, vem sendo revisto a partir de um estudo baseado em corpus19 de roteiros de AD que tem observado regularidades discursivas para recriar, por exemplo, a narrativa da câmera e aspectos de cada gênero (JIMÉNEZ HURTADO ET. AL., 2010).
Diante do que já foi apresentado, é importante destacar que essas escolhas tradutórias sobre o que é relevante audiodescrever e sobre o modo de apresentação discursiva da AD não dependem apenas do produto audiovisual, mas de todos os elementos extra-textuais (impressos ou audiovisuais) que fazem parte do seu contexto de criação/ produção, divulgação e consumo, conforme veremos neste trabalho.