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Sem nenhuma rosa dos ventos em mãos, caminhamos. Sem rotas pré-determinadas, em nossa experiência errante pelas cidades tecemos nossa própria cartografia, de modo que daí se desdobra a problemática dessa pesquisa, também integrada ao projeto de pesquisa e extensão do LIS/CNPQ – Laboratório de Imagens da Subjetividade: lugar onde propomo-nos a pensar acerca dos modos de vida no contemporâneo em meio às “Coisas que se passam sobre a pele da cidade". 74 Buscamos a partir de tal eixo investigativo criar dispositivos de encontros urbanos, pautados em princípios éticos, estéticos e políticos, em ruptura com a domesticação e o esmaecimento da vida em nosso contemporâneo, resultantes do hegemônico modelo de produção subjetiva operado pelo capital financeiro, midiático e simbólico, ou como bem nos lembra Guatarri e Rolnik, pelo Capitalismo Mundial Integrado.

Os espaços urbanos apontam-se para nós como curioso cenário onde se opera de modo intensivo a “gerência da diferença” e evidentemente, das multiplicidades próprias da vida, em detrimento dos interesses de mercado.

Marc Augé (2005) nos ajuda a pensar a Cidade Contemporânea e os modos pelos quais nela, a vida é gerida. Frente a seu crescimento associado ao aumento da circulação, da comunicação e do consumo, a cidade, hoje, configura-se em espaços cada vez mais uniformes, onde modelam-se formas de interação urbana, caracterizadas por uma contratualidade solitária e pela individualização das referências. A esses espaços

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construídos em uma sociedade globalizada, Augé designará “não-lugares”75; sítios que de certa forma nos dizem dos modos de produção das subjetividades no contemporâneo, regidos por uma temporalidade cada vez mais veloz.

Os não-lugares constituem-se em espaços que possibilitam alta mobilidade de pessoas, coisas e imagens, tendo como finalidade o consumo num mundo com dimensões planetárias: ruas, auto-estradas, hipermercados, shoppings, centros comerciais, aeroportos etc. Colocam também em jogo uma lógica funcional dos espaços físicos, mas sobretudo, a lógica relacional dos sujeitos com a Cidade, que se faz mediada por codificações textuais, imagéticas e sonoras, funcionando ora como imperativos de conduta, ora como produtores de desejo de consumo, sejam de produtos, serviços ou ideias.

Mas, na medida em que o não-lugar é o negativo do lugar, torna-se de facto necessário admitir que o desenvolvimento dos espaços da circulação, da comunicação e do consumo é um traço empírico pertinente da nossa contemporaneidade, que esses espaços são menos simbólicos do que codificados, assegurando neles toda uma sinalética e todo um conjunto de mensagens específicas (através de ecrãs, de vozes sintéticas) a circulação dos transeuntes e dos passageiros. (AUGÉ, 2006, p.115)

No prólogo dos “Não lugares”, o autor narra parte do percurso de uma viagem a trabalho de Pierre Dupont por essas zonas codificadas enfatizando a naturalização dos gestos e as interações que o interpelam no trajeto entre sua casa e o decolar do avião que enfim, o levaria ao destino final. Ainda pela manhã, Dupont entra no automóvel e dirige-se ao aeroporto tomando a auto-estrada; levanta dinheiro em um caixa multibanco; faz seu check

in, passa pelo duty-free shop, contempla as montras luxuosas e pára em uma livraria;

embarca no avião e folheia a revista da companhia aérea; ao apagar a informação “fasten

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Para Augé, os não lugares são o oposto dos lugares antropológicos, caracterizados por serem espaços portadores de dimensões identitárias, históricas e relacionais, inerentes às sociedades arcaicas. Nos espaços antropológicos, percebe-se espécie de enraizamento social, político e religioso, de modo que a identidade de um grupo manifeste-se ali. “A identidade do lugar o funda, o reúne e o une”. (AUGÉ, 2005, p.41) No entanto, Augé ainda traz a seguinte problemática: ao acompanharem a modernização ocidental, os espaços antropológicos estariam cada vez mais desaparecendo em detrimento dos “não-lugares”.

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seat belt”, coloca os auscultadores e ouve o Concerto nº1 em dó maior de Joseph Haydin.

Durante algumas horas de voo, Dupont estaria “enfim só”. (AUGÉ, 2005, p. 19)

Os não-lugares, são espaços onde se vivencia outra espécie de solidão, quase não notável frente à interação fugaz com o outro ou com as máquinas. Parece não haver diferença entre a resposta da máquina do Multibanco ao dizer “obrigado pela sua visita” e o discreto sorriso ensaiado da hospedeira da viação aérea seguido pela orientação: “Embarque na porta B às

18h”. (AUGÉ, 2005, p. 7).

Resultante da construção desses espaços de circulação e consumo, a uniformidade urbana. Torna-se cada vez mais comum a semelhança entre cidades distantes do globo. Poderíamos pensar então, em cidades déjá-vu, aos modos de Augé, onde um viajante não se reconheceria nem total estrangeiro, nem em sua casa. (AUGÉ, 2005, p.85)

Em sua uniformidade, a cidade contemporânea faz desaparecer, por fim, a noção de identidades locais fixas, e dá lugar a “identidades globalizadas flexíveis que mudam ao sabor dos movimentos do mercado e com igual velocidade”. As subjetividades, ignorando as forças que as constituem e as desestabilizam por todos os lados, insistem em sua figura moderna, organizando-se em uma representação de si, em persistência à afirmação identitária. Acabam então, por consumir identidades prontas76, fabricadas e comercializadas pelas vias de imagens e discursos do “novo”77, que veiculados nos mais diversos meios de comunicação anunciam a promessa de uma estabilidade em um mundo operado pela lei da constante mobilidade.

76 ROLNIK, 1997. 77

Através da oferta de novidades produz por natureza, a noção de que o novo é superior ao antigo e por isso a Cidade contemporânea torna-se palco da renovação imperativa, do desuso orquestrado – e, evidentemente, do crescente descarte frente aos excessos produtivos - da imagem, da solicitação espetacular. (LIPOVESTSKY, 2009, p. 182-185)

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Contudo, “quando estas são consumidas como próteses de identidade, seu efeito dura pouco, pois os indivíduos-clones que então se produzem, com seus falsos-self estereotipados, são vulneráveis a qualquer ventania de forças um pouco mais intensa”. Em uma cidade uniformizada, a oferta de novidades produz por natureza a noção de que o novo é superior ao antigo. Em uma zona de industrialização da vida, promove-se a obsolescência identitária planejada: de tempos em tempos surgem identidades prontas para vestir que rapidamente substituem modelos ultrapassados.

O corpo que daí resulta está sempre a mercê de uma ondulatória modulação, consentida pelas mais diversas transações comerciais. A Cidade contemporânea torna-se por fim palco da renovação imperativa, do desuso orquestrado – e, evidentemente, do crescente descarte frente aos excessos produtivos - da imagem e da solicitação espetacular. (LIPOVETSKY, 2009, p. 182-185)

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QUANDO CIDADE E MODA

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