Mesmo cientes que, de acordo com as teorias marxistas, o conceito de raça perpassa pelo viés das discussões ligadas à classe social, pois, segundo Marx (1983) ,só o socialismo poderia tornar o mundo socialmente integrado e harmonioso, no romance em análise, privilegiaremos as questões associadas à hibridização e a homossexualidade como objetos fulcrais de discussão. Remontando a história, observamos que diversas teorias “científicas” circulavam livremente no final do século XIX, tanto os compêndios ligados a cientificidade como as artes em geral tentavam se reger por este novo deus que surgia. Segundo Heidegger (2007), o humanismo entrara em crise, já que estava
tentando substituir Deus pelo homem como centro do universo. Deus, segundo ele, fora empurrado para fora de trono como mentor do universo pelo homem e sua ciência. É, justamente, baseados na questão da ciência a serviço do homem – do homem branco europeu e colonizador - e de sua causa, olhamos agora para O Barão de Lavos. Podemos divisar no romance, o ponto de vista do mundo europeu colonizador, quando o narrador nos acena preconceituosamente que o desejo homossexual de Dom Sebastião, O Barão de Lavos, é desviado do heterossexual hegemônico reprodutor por este ser fruto da miscigenação de raças através de diversas gerações. Vejamos como o narrador descreve a genealogia do barão; “o barão garfava por enxertia duplamente bastarda em duas das mais antigas e ilustres famílias de Portugal” (BL, p.23).
Para o narrador de O Barão de Lavos a hibridização é patente e, já no início do romance, este nos apresenta em prolepse a genealogia do barão, querendo nos induzir a racionalizar que todo o procedimento do personagem-título estava condicionado às questões genéticas adquiridas pela linhagem bastarda e híbrida dele. Ou seja, a mistura sanguínea com diversas pessoas de diversas categorias sociais na história da família do barão foi determinante para que nele se desenvolvessem impulsos degradantes e imorais, que o levariam compulsoriamente à degradação física e moral. O narrador, com o aval “inquestionável” da ciência, vai nos mostrando, passo a passo, que esta mistura acontecida em varias gerações na família do barão, produzia a cada nova geração seres mais debilitados.
Doutrinas imperialistas da difusão das culturas descrevem igualmente bem, a maneira pela qual as teorias baseadas na raça se espalhavam, de disciplina para disciplina, e se tornavam grandes axiomas organizadores do conhecimento em geral. A raça tornou-se o determinante fundamental da cultura e da história humanas: na realidade, é discutível afirmar que a raça tornou-se o princípio comum do saber acadêmico no século XIX. (YOUNG, 2005, p. 113)
Como o Naturalismo, enquanto escola, tentava projetar em suas obras os ditames da ciência com uma aproximação das questões do dito “não normal” aplicados aos “desvios da sexualidade”, de maneira preconceituosa, o romance O Barão de Lavos pode e deve ser considerado como sendo especular, dentro da perspectiva desta estética finissecular. A teoria racial que grassava no período estava espalhada por todas as disciplinas, logo a literatura não poderia ficar isenta de sua contaminação. A “doença” do barão, segundo este pressuposto, foi adquirida de seus antecedentes, através de sua cadeia genealógica ao longo dos séculos, de misturas de sangue decadente e bastardo entre nobres, plebeus e, mesmo com aqueles considerados como “refugos sociais Esses descaminhos existentes na árvore genealógica do barão explicariam cientificamente a predisposição mórbida deste para “certas doenças”, em direção a “sua sinistra andromania” (BL, p. 91). Assim, “a narrativa de Abel Botelho pretende explicar a fatalidade romântica da paixão em termos de hereditariedade mórbida, explicitando a atitude ambígua do narrador, que oscila entre a atração e a repulsa.” (SOUZA JÚNIOR, 2001, p. 112). Neste caso, o desejo “mórbido” do barão, em suas buscas de prazeres “inominados”, por adolescentes, estava, diretamente, ligado ao declínio biológico de sua raça, adquirido por atavismo genético bastardo. “Degenerara em andrófilo incontrastavelmente; e, sem dúvida, era Eugênio o seu Alcebíades” (BL, p.205).
Hibridização, doença e homossexualidade, segundo o narrador botelheano, estavam literalmente associados, deixando a descoberto a cumplicidade subserviente da ciência e das artes, cujo objetivo era respaldar, com o selo da legitimidade, o devastador imperialismo europeu em sua cobiça por conquistas coloniais. Deste modo vemos que “as novas teorias eram apresentadas em termos científicos, mas a teoria racial, na realidade, era sempre fundamentalmente populista em sua apresentação e no seu tom. O deliberado apelo popular da teoria racial permitiu que ela se desenvolvesse fortemente
num nível cultural” (YOUNG, 2005, p.112). Assim, em O Barão de Lavos, podemos, se seguirmos o pensamento do narrador, divisar que a imputação do patológico no personagem-título através da hibridização e da homossexualidade, tem tanto o aval da ciência como também da utilização do forte apelo popular, já que este também não deixava de ser algo manipulado engenhosamente pelos interesses do jogo colonial. Como a cultura ocidental oitocentista estava subjugada duplamente tanto pelo juízo de valor judaico-cristão de raízes popular e cultural como pelo cientificismo, o homossexualismo do barão é travestido de anomalia pelo narrador. Isto é de maneira contundente demonstrado no romance quando da condenação do homossexualismo, que nos é mostrado como metáfora, através da execração pública do barão em suas andanças em busca de satisfação dos seus desejos nefandos e nas tentativas de prostituir, em função seu poder de barganha, o “lixo social”, representado pelos garotos miseráveis que perambulavam pelo centro da Lisboa finissecular. Vejamos como o narrador descreve Eugênio, um dos garotos prostituído pelo barão e posteriormente tornado seu grande amante e algoz, em sua primeira aparição no atelier do barão: “levou-o para junto do canapé, sentou-se e meteu-o entre os joelhos, pondo-se a contemplar, a beber amorosamente, numa expansão febril de concupiscência, aquele maltrapilho adventício das ruas” (BL, p. 53). O homossexualismo associado à degeneração não deixa de ser a maneira como a cultura ocidental “inscreve o seu outro culturalmente rejeitado no interior de si mesma” (YOUNG, 2005, p.114). A intolerante rejeição da homossexualidade esta associada à constante pretensão da heteronormatividade de se estabelecer, perante seu oposto, neste eterno jogo do binarismo que tenta se auto-ajuizar como naturalidade e normalidade.
Segundo o narrador, a hibridização que houve na genealogia do barão levou este último rebento de ilustre casa portuguesa a uma prática sexual desviante, ou seja,
fora dos padrões heteronormativos. Este ponto de vista do narrador nos remete à fobia contra estas práticas sexuais heterodoxas, defendida pelo colonizador e culturalmente aceita como verdadeira pelas classes populares, manipuladas pelas classes dos patamares dominantes. Desta, emerge o raciocínio, que grassava ao final do século XIX: a civilização seria levada à derrocada total se a hibridização não fosse ceifada no nascedouro, já que esta quebraria a cadeia de nascimentos ao tornar os futuros humanos inférteis. O barão de Lavos era a amostra do que poderia acontecer com as gerações vindouras, pois seus ascendentes provindos de raças misturadas tornariam a última geração desta “ilustre família portuguesa” portadora de todos os vícios e patologias, inclusive a infertilidade. “Ao se colocar as questões de hereditariedade como construtora da degenerescência, os médicos oitocentistas buscavam os estigmas físicos da degeneração não para diagnosticar e tratar, mas para enquadrar os supostos anormais dentre as figuras do desvio.” (BELUCHE, 2008, p.101).
De acordo com o narrador, no barão concentrava-se, devido a processos de hibridização em sua genealogia, a civilização e a barbárie. Justamente aí ocorre algo contraditório nas afirmações do narrador, pois uma das bases do princípio criador na história seria justamente o choque entre dois opostos gerados pela resistência. Segundo o pensamento de Canclini (2003), a hibridização, ao fundir estruturas e práticas sociais, torna-se capaz de erigir novas estruturas e novas práticas neste jogo de oposições. Contudo, o narrador, ao seguir cegamente os parâmetros impostos pela ciência do século XIX, sem questioná-la, nos mostra, através de metáforas, que na genealogia híbrida do barão podemos ver um resumo dos efeitos nefastos que a mestiçagem da nobreza portuguesa trouxe à nação lusitana. O espírito de aventuras inerente às conquistas coloniais portuguesas foi ceifado devido à perda do espírito destemido e conquistador, herança dos velhos portugueses. Segundo o narrador, o ímpeto