No transcorrer de sua trajetória artística, Candido Portinari realizou quase cinco mil obras, dentre as quais uma série consistente de pinturas religiosas, cujas imagens ganharam uma configuração diferente de acordo com a destinação de cada uma delas70. Na Pampulha, por exemplo, percebemos que o artista se adapta completamente à monumentalidade da obra arquitetônica, num diálogo com as arrojadas formas projetadas pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer; enquanto que, na Matriz de Batatais, compõe todo um conjunto de obras que constituem o ambiente característico de uma igreja interiorana, com o uso generoso de cores fortes. Notamos, igualmente, até que ponto Portinari foi sensibilizado pelas manifestações artísticas de diferentes períodos da história da arte, desde os mestres medievais e renascentistas até os muralistas mexicanos e o espanhol Pablo Picasso. No entanto, é possível observar uma coerência interna no conjunto de sua arte religiosa, que vai além da influência dos diferentes estilos. A personalidade do artista transpassa toda sua obra: o mesmo humanismo e empatia com o sofrimento humano pode ser observado, por exemplo, na representação das cenas do Calvário, assim como no corpo esquartejado do mártir da independência do Brasil, Tiradentes, e, também, no drama social dos nordestinos atingidos pela seca, na série Retirantes71.
Esta série é a representação mais significativa da tendência expressionista, tendo sido desenvolvida no período da Segunda Guerra Mundial. Portinari, sem testemunhar diretamente esse conflito, mas conhecendo a crueza e a miséria já experimentadas na infância, procura manifestações paralelas. Nenhum outro intérprete plástico dramatiza com maior eloquência, por meio de personagens
70“Quando pinta imagens religiosas para a família – Fuga para o Egito (1936), capelinha da Nonna
(1939), casa de Brodósqui – segue de perto a tradição mística renascentista, dando aos seus santos uma fisionomia serena, um colorido suave, uma grave sobriedade que reaparecerão nas obras para a Capela Mayrink (1945) e para a Matriz de Batatais (1953). A admiração pelos pintores religiosos do Renascimento é tão grande que sua Fuga para o Egito é uma cópia do afresco homônimo de Fra Angelico. Nas obras que executa na Capela Mayrink e para a Matriz de Batatais, Portinari adota a composição sólida, contida, em que a expressividade é dada sobretudo pela atmosfera. Portinari executa figuras de um rigor quase clássico, mas no caso da Matriz de Batatais, mais que diante de um classicismo, estamos diante de reminiscências acadêmicas, que se traduzem pelo esquematismo excessivo e pela expressividade falha das figuras. Essa mesma falta de rigor está presente na Via
Crucis que Portinari pinta em 1954 para a mesma Matriz. A estruturação geométrica lembra, de certa
forma, a dramática Via Crucis da Pampulha, mas a busca de um rigor maior e da contenção emotiva acabam por esvaziar a composição de seu conteúdo emocional. O pintor parece estar mais à vontade quando dá à pintura religiosa uma dimensão intensamente expressionista como acontece em Pampulha e no São Francisco de Assis 1944-45. Nessas composições, Portinari não se preocupa tanto com o religioso quanto em realçar o humano. (FABRIS, 1990, pp. 68-69)
esquálidas, mutiladas e famélicas, os efeitos das secas no Nordeste. (AJZENBERG, 2012, p.17)
Figura 59: Cândido Portinari - “Criança Morta” (detalhe), 1944
(óleo sobre tela, 182 x 190 cm, Museu de Arte de São Paulo)
Portinari jamais escondeu sua imensa admiração pelos mestres renascentistas, que igualmente se dedicavam à arte religiosa, e sempre quis homenageá-los em suas próprias representações religiosas. Porém não se tratava de mera citação, mas de uma profunda identificação com os propósitos e sentimentos de artistas de uma outra era e outro lugar. Mathias Grünewald, o artista alemão autor da obra Retábulo de
Issenheim (1512-1516), pela qual Portinari demonstra enorme interesse até o final da
vida, representa uma crucificação com grande dramaticidade e configuração plástica do sofrimento da paixão de Jesus Cristo que muito se aproxima das cenas criadas pelo artista paulista quando busca representar o sofrimento do povo humilde e famélico das entranhas do Brasil.
Figura 60: Mathias Grünewald - “Crucificação” - Detalhe do “Retábulo de Issenheim”, 1512-1516
(têmpera e óleo sobre tábua, 269 x 307 cm, Museu de Unterlinden de Colmar, França)
Em Grünenwald, o artista não só aprecia um recurso técnico, mas principalmente a linguagem usada na expressão da mensagem – é o conteúdo baseado na experiência vivida. Os Cristos, tanto o da Igreja da Pampulha como o da Igreja de Batatais, provocam grande impacto emocional com as imagens de morte pela tortura no decorrer dos passos (AJZENBERG, 2012, p.50).
É como se as cenas de sofrimento fossem transferidas do contexto da religiosidade medieval para o ambiente tropical brasileiro. Em versos, Portinari revela esse mesmo sentimento: “(...) Por que tanta treva/Nestes dias de sol?” (PORTINARI, 1964). A cena trágica em que uma mãe nordestina que mal se mantém em pé carrega, nos braços descarnados, seu menino morto, foi pintada por Portinari para a série
Retirantes, de 1944. Nessa tela a piedade cristã encontra o drama social. A respeito
dessa obra, Antonio Bento (2003, p.180) cita o próprio artista: “Fiz nesta composição a minha mais verdadeira Piedade. Pintei uma mãe desesperada, curvada pela dor, em sua marcha indescritível de retirante, trazendo no colo o filhinho prematuramente vitimado pela fome”. A menção a esse mesmo ícone cristão pode igualmente ser
observada em Jesus Descido da Cruz e Depositado nos Braços de sua Mãe, representado num dos painéis da Igreja da Pampulha, onde a mesma dramaticidade pode ser observada, rememorando Grünewald e o próprio Portinari da série
Retirantes.
Figura 61: Candido Portinari - “Jesus é Descido da Cruz, Passo XIII da Via Sacra”, 1945
(pintura a têmpera em madeira, 49 x 49 cm, Capela São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte, MG)
Nesta representação do sacrifício da cruz, duas personagens carregam o corpo inerte de Jesus; uma delas representa a figura da Pietà. Mas a cena é peculiar: as duas mulheres, cada uma com um único olho, estão cobertas por um idêntico véu, a ponto de deixar certa dúvida se não se trataria da mesma figura vista a partir de dois ângulos diferentes (uma de frente e a outra, de lado), conforme acontece em pinturas cubistas. Apesar da modernidade pictórica, mais uma vez, a cena que representa os membros dilacerados de Cristo não deixa também de recordar o Retábulo de Isenheim
de Grünewald.
É nesse sentido que se observam conexões entre a pintura religiosa de Portinari e seus painéis de temática social. As chagas do corpo de Cristo repetem-se na imagem de Tiradentes esquartejado; a mesma Piedade (Pietà) do Jesus Descido