• Aucun résultat trouvé

Enfatizamos que estudar a memória institucional nos levou ao levantamento de uma série de informações, as quais foram armazenadas durante uma trajetória, em acervos que muitas vezes só são lembrados em algumas datas comemorativas, como é feito a cada biênio pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Tais fatos/memórias podem influenciar e até direcionar a nossa forma de pensar, ver e agir.

A memória é única e pertence individualmente a cada sujeito ou instituição. Sabemos que somos constituintes de uma sociedade e que vivemos cercados e nos relacionamos

diariamente com pessoas, mas os significados e percepções sobre o cotidiano se constroem distintamente em cada sujeito que faz parte de uma sociedade.

O uso da memória coletiva/institucional na construção da história tem tido grande relevância, tendo em vista que a história positivista privilegiava a memória registrada em documento oficial, contendo a memória somente dos heróis, que em geral registra as trajetórias e experiências dos segmentos sociais hegemônicos, o que deixa, muitas vezes, esquecida a memória coletiva e individual do sujeito/instituição.

Nesse sentido, a perspectiva teórica e metodológica do estudo realizado foi dar visibilidade às relações entre a memória do sujeito/institucional que participou das ações sociais da Igreja Assembleia de Deus, da cidade de Cruzeiro do Sul, sujeitos simples, com a vida marcada pela vulnerabilidade, cujas experiências raramente seriam registradas e divulgadas pelos espaços institucionais oficiais de memória.

Sob essa ótica, ressaltamos que segundo Le Goff (1996, p.24) a memória é a fonte de alimento para a história: a memória, onde cresce a história, que por sua vez alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro.

Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva/institucional sirva para a libertação e não para a servidão dos homens. Percebe-se que a memória da Igreja Evangélica Assembleia de Deus teve grande relevância na compreensão da Ação Vida Nova, projeto desenvolvido por essa instituição.

A Ação Vida Nova é um projeto social que tem como visão a prevenção, proteção e recuperação, para adolescentes (feminino) em situação de drogadição, vítimas de violência sexual, exploração sexual e violência intrafamiliar, que vem sendo desenvolvido há dois anos no município de Cruzeiro do Sul.

A violência contra a criança e adolescentes, vivenciada em Cruzeiro do Sul, tem no Brasil crescido de forma assustadora. Dados apresentados pelo disque-denúncia colocam o estado do Acre em segundo lugar no país no ranking de denúncias:

“Dados do Disque Direitos Humanos (Disk 100), referentes à violência sexual contra crianças e adolescentes, colocam o Acre em segundo lugar no ranking de denúncias por grupo de 100 mil habitantes. Para aumentar o índice de denúncias e ao mesmo tempo coibir esse tipo de crime, o Ministério Público do Estado do Acre (MP/AC), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AC) e o Governo do Estado lançam, nesta terça-feira (3), a campanha ‘Em casa ou no mundo a violência é real”.

Essa violência tem alcançado o município de Cruzeiro do Sul, aumentando os mais diversos tipos de violência contra a criança e adolescentes, conforme dados apresentados pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente:

“Em Cruzeiro do Sul, por exemplo, a Promotoria de Justiça e o Conselho Tutelar receberam 132 denúncias, de 2008 a 2012. A campanha é protagonizada pela cantora Ivete Sangalo e tem o intuito de despertar, mobilizar, sensibilizar, informar e convocar toda a sociedade acreana para combater a violência sexual tanto no ambiente doméstico como no virtual. O procurador e coordenador da Infância e Juventude Carlos Roberto da Silva Maia diz que sensibilizar a sociedade acreana é o principal motivo dessa campanha. “A proposta de lançar a campanha na Expoacre Juruá é sensibilizar toda a sociedade de Cruzeiro do Sul e demais municípios que compõem a regional para o enfrentamento das diversas formas de violência contra crianças e adolescentes, notadamente quanto ao direito ao desenvolvimento do exercício de uma sexualidade segura e saudável, livre do abuso e da exploração sexual, seja em casa ou no mundo virtual”. (portal Amazônia.com, 03 de setembro de 2012).

Com o propósito de combater o alto índice de denúncias registradas pelo conselho tutelar de Cruzeiro do Sul nos anos de 2008/2012, é que a Ação Vida Nova tem como base o enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil, como referência fundamental tem o Estatuto da Criança e do Adolescente, que reafirma os princípios da proteção integral, da condição de sujeitos de direitos, da prioridade absoluta, da condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, da participação/solidariedade, da mobilização/articulação, da gestão paritária, da descentralização, da regionalização, da sustentabilidade e da responsabilização, fundamentação encontrada no artigo 5ª da ECA.

Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão aos seus direitos fundamentais.” ( Art. 5º Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA ).

A Ação Vida Nova, fundamentada no Estatuto da Criança e do Adolescente, tem como proposta o combate a esses crimes contra a criança ou adolescentes, garantindo a esses sujeitos todos os direitos já garantidos no estatuto, no artigo 5º citado acima.

A realidade que Ação Vida Nova vem atuando é no combate à violência sexual contra adolescente. Esse tipo de violência tem se tornando bem visível diante da sociedade cruzeirense, conforme destacou o procurador e coordenador da Infância e Juventude, Carlos Roberto da Silva Maia, segundo o qual,

(...) é necessário que haja uma notificação oficial para que alguma coisa seja feita. “É preciso que todos os casos de suspeita ou confirmação de violência contra crianças e adolescentes, sejam notificados, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A união do poder público e sociedade civil é fator primordial no enfrentamento desta violação aos direitos e requer a prioridade absoluta, prioridade na sua proteção, estabelecido no texto constitucional”.

Portanto, a Ação Vida Nova tem realizado investigação científica, visando compreender, analisar, subsidiar e monitorar o planejamento e a execução das ações de enfrentamento da violência sexual contra adolescentes.

Garantir o atendimento especializado aos adolescentes em situação de violência sexual ou qualquer outro tipo de violência consumada.

Promover ações de prevenção, articulação e mobilização, visando ao fim da violência sexual. Fortalecer o sistema de defesa e de responsabilização, junto com os poderes: Judiciário, Conselho Tutelar, Ministério público.

Na cidade de Cruzeiro do Sul já existiam alguns projetos sociais que eram desenvolvidos junto à sociedade, como exemplo APADEQ (Associação de Parentes e Amigos dos Dependentes Químicos), desenvolvido pela Igreja Católica.

Em Cruzeiro do Sul ainda não existia nenhum projeto social que atendesse ao alto grau de complexidade de vulnerabilidade de adolescente: violência sexual comercial, o consumo de drogas, violência intrafamiliar.

A Ação Vida Nova, em sua estrutura, conta com uma casa de acolhimento para meninas de 12 a 20 anos, vítimas de violência, abuso sexual ou uso de drogas, localizada na Estrada Velha do Aeroporto, no bairro Nova Olinda, com amplo espaço e instalações com capacidade de acolher até 20 meninas internas em tempo integral, contando com quartos, cozinha, área de lazer, sala de oficina de arte, sala de vídeos.

Quando a ação vida foi apresentada para população cruzeirense, teve uma boa receptividade, porém assumia uma grande responsabilidade de combater a vulnerabilidade social que envolve crianças e adolescentes.

A população cruzeirense demonstrou confiança na Ação Vida Nova como mecanismo ao combate aos diversos tipos de vulnerabilidade que seus sujeitos sofriam.

Na apresentação da Ação Vida Nova para a comunidade cruzeirense, algumas narrativas de pessoas da sociedade foram registradas:

Hoje é um dia de felicidade. Cruzeiro do Sul carecia de um local como esse, e o melhor é que ele é administrado por uma fundação digna. (Ildon Maximiano - promotor da Infância e Juventude).

Estamos preocupados com o grande número de adolescente gestantes. eternamente a casa de acolhimento do Projeto Vida Nova é um parceiro importante para garantir os direitos do Estatuto da Criança e do Adolescente. (Mazinho Santiago, vice- prefeito de Cruzeiro do Sul).

A Fundação Betel executa vários trabalhos, como o Abrigo Lar Novo Dia e o Projovem. O ressurgimento do Projeto Vida Nova é uma conquista muito grande e por isso parabenizamos a Petrobrás. (Flávio Felipe da Cunha, Cruzeiro Contabilidade).

As narrativas mostram que, diante de tantas violências sofridas, são muitas as expectativas da sociedade cruzeirense, depositando na Ação vida Nova um voto de confiança.

Cruzeiro do Sul carecia de um local como esse, e o melhor é que ele é administrado por uma fundação digna. A preocupação era demonstrada por todos que estavam ali presentes.

Estamos preocupados com o grande número de adolescentes gestantes. Eternamente, a casa de acolhimento do Projeto Vida Nova é um parceiro importante para garantir os direitos do Estatuto da Criança e do Adolescente.

A ação vida nova carrega sobre os seus ombros uma grande responsabilidade, de dar respostas aos anseios da sociedade, buscando promover o bem estar e a segurança das crianças e os adolescentes cruzeirenses, fechando então todas as portas para que os agentes do mal não mais consigam alcançar esses sujeitos sociais em vulnerabilidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após a realização das pesquisas de campo e de suas análises, pode-se compreender que a Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Cruzeiro do Sul, no que diz respeito a sua contribuição social através da FATEB, desenvolve práticas sociais que encontram aceitação, em especial, a Ação Vida Nova tem dado uma grande parcela de contribuição à comunidade cruzeirense.

Dessa forma, considera-se que as ações sociais de assistencialismo realizadas pelos agentes sociais evangélicos são desempenhadas com plena consciência de estarem a serviço do reino de Deus, atendendo os sujeitos sociais no corpo, alma e espírito.

Percebe-se também a preocupação demonstrada pelos lideres evangélicos para com a vulnerabilidade social: exploração sexual de adolescentes e crianças, usos de droga.

Destaca-se ainda a nova visão dos evangélicos quanto ao evangelismo e ao assistencialismo, que ambos devem andar juntos.

Nesse estudo se procurou mostrar os motivos que a igreja teve para se preocupa-se com as necessidades sociais dos seus sujeitos.

A pesquisa mostrou ainda que a fundação da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Cruzeiro do Sul não se deu por obra do acaso, mas em virtude da manifestação do Espírito Santo como orientador.

Esse estudo cumpre seu objetivo social, ao retratar aspectos da vida religiosa e sua contribuição na vida dos sujeitos, até mesmo daquelas que não faziam parte dessa instituição.

Considera-se, ainda, que este trabalho não representa a palavra final sobre o tema abordado, mas se tornou um ponto de partida para aqueles que amam a história, acredito que este trabalho servirá como fonte de pesquisa para outros trabalhos que ainda serão realizados, na área da religiosidade e suas práticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Homem (verbete). São Paulo: Martins Fontes, 2003.

ALVES, Magda. Como escrever teses e monografias. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

ARDUINI, Juvenal. Antropologia: ousar para reinventar a humanidade. São Paulo, Paulus, 2002.

BARROS, José D’ Assunção. O projeto de Pesquisa em História da escolha do tema ao

quadro teórico. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

_______. O campo da História: especialidade e abordagem – 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

BERG, Daniel. Enviado por Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 8ª edição, 2000, VINGREN. BÍBLIA, Português. Bíblia Sagrada, 36. ed. Tradução João Ferreira de Almeida. São Paulo, CPAD, 1995.

BOSI, Ecléa; Memória e Sociedade: lembranças dos velhos / Ecléa Bosi. – 3. Ed. – São Paulo : Companhia das Letras, 1994.

BLOCH. Marc L. Benjamin. Apologia da História, ou O oficio de Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CONDE, Emilio. A História das Assembléia de Deus no Brasil, 2002, CPAD. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.

DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. 2ª. ed, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

FELIX, Loíva Otero. História e Memória: a problemática da pesquisa. Local: Ediupf, 1998. FERNANDES, Rubem Cesar. Novo Nascimento: os evangélicos em casa, na política e na

igreja. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

FURASTÉ,Pedro Augusto. Norma técnica para o trabalho cientifica: explicitação das normas da ABNT. 15.ed.Porto Alegre: 2011.

GONSALVES, Elisa Pereira. Conversas sobre a iniciação à pesquisa científica. 3ª. ed.- Campinas, SP: Alínea, 2003.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução: Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

Ivar. O diário do pioneiro – Gunnar Vingren. Rio de Janeiro: CPAD, 1ª edição, 1973, 222 pp;

KESSEL, Z. A construção da memória na Escola: um estudo sobre as relações entre memória, história e informação na contemporaneidade. São Paulo, 2003. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo. São Paulo.

LE GOFF, Jaques. A história nova. 2ª. ed. São Paulo: Martins, 1993. _______. História e memória. 4ª. ed. Campinas, SP: UNICAMP, 1996.

MACIEL, Essio dos Santos. Crescimento e práticas sociais das igrejas evangélicas em Rio

Branco a partir de 1990. Rio Branco: UFAC, 2010.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. 3ª. ed.São Paulo:Loyola, 1996. NASCIMENTO, E.P. Exclusão social no Brasil: as múltiplas dimensões do fenômeno. Série Sociológica, Brasília: UnB, 1993.

NEVES, Margarida. História e memória. In: MATTOS, Ilmar R. (org). Ler e Escrever para Contar: documentação, historiografia e formação do historiador. Rio de Janeiro: Access Editora, 1998.

PACKTER, Lucio; Catunda, Michael. Antropologia Filosófica. Paraná: Virtual, 2002.

PESSÔA, Enock da Silva. O Discurso Evangélico Como Expressão de Cidadania. São Paulo: 2003.

______, Enock da Silva. Trabalhadores da Floresta do Alto Juruá. 2ª. ed. Rio Branco: Edufac, 2007.

ROMAN, Joël. Cidadania e vínculo social. Caderno de Pesquisa. São Paulo, n.96, p.24-29, fev. 1996. SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do Trabalho Cientifica. 23ª. ed, São Paulo: Cortez, 2007.

SILVA, Antonio Gilberto da. Manual da Escola Dominical: um curso de treinamento para professores iniciantes e de atualização de professores veteranos. 17ª. ed., Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1998.

SOUZA, C.P. Fragmentos de histórias de vida e de formação de professoras paulistas: rupturas e acomodações.

SCHAFF, Adam. História e Verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 4ª ed. Brasília: Unb, 2009.

XAVIER, Elton Dias. A Bioética e o conceito de pessoa: a re-significação jurídica do ser enquanto pessoa. Revista Bioética, América do Norte, nº 8 3 11 2009.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

BIBLIOGRAFIA ELETRÔNICA <http://www.agencia.ac.gov.br/> <http://www.centenarioadbrasil.org.br/historia.php> http://www.cpad.com.br/movimentopentecostal/> <http://www.cruzeirodosul.ac.gov.br> <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/estudos_especiais.php> <http://www.museus.gov.br/> http://www.onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-os-direitos-humanos/ ENTREVISTAS

Entrevista com o Pastor Carlos Alberto dos Santos, pastor presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, em Cruzeiro do Sul, realizada por Deuvo Alex Sandro Barbosa do Nascimento, em 5 de maio de 2012.

Entrevista com Milca Oliveira dos Santos, Gestora e idealizadora da FATEB, realizada por Deuvo Alex Sandro Barbosa do Nascimento, em 05 de maio de 2012.

Documents relatifs