2. Description du projet et des travaux de construction de la route PMC
11.3 Programme de consultation
Haesbaert (2010) define a desterritorialização como um processo de negação do território, devido à falta de identidade dos espaços que deveriam ser apropriados pela sociedade. Essa abstração é fruto de um processo de modernização que impõe aos espaços, modelos dominantes de ocupação.
Neles, a velocidade atroz das novas tecnologias transforma num ritmo alucinante a paisagem e incorpora áreas imensas numa mesma rede hierarquizada de fluxos, alinhavada em escalas que vão muito além dos níveis local e ‘regional’. (HAESBAERT, 2007, p. 166).
A rede de fluxos, referida pelo autor, ao mesmo tempo em que possibilita conexões em escala planetária e acelera a circulação da informação, produz segregação daqueles que não têm acesso a essa tecnologia. Para Haesbaert (2010) a rede é o elemento estruturador fundamental do território contemporâneo. Essa “nova” estrutura territorial (territórios-rede) é rizomática, não hierarquizada e móvel. Castells (2004) inclui, ainda, adaptabilidade e flexibilidade como característica dos territórios-rede. Nessa estrutura, o território não é mais definido por áreas e fronteiras, mas através de referencias espaço-simbólicos em movimento. “Assim, territorializar-se significa também, hoje, construir e/ou controlar fluxos/redes e criar referenciais simbólicos num espaço em movimento, no e pelo movimento”. (HAESBAERT, 2010, p. 280)
Essa é a lógica, segundo o autor, do território-rede, que se contrapõe aos aglomerados de exclusão, tendo como consequência a intensificação da fragmentação sócio espacial. Os aglomerados de exclusão são espaços de desterritorialização extrema “em que os indivíduos perdem seus laços com o território e passam a viver numa mobilidade e insegurança atrozes, como em muitos acampamentos de refugiados e grupos sem teto” (HAESBAERT, 2007, p. 170).
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Apoiado em Deleuze e Virilio, Haesbaert (2007, p. 166) afirma que a “tecnologia é a desterritorialização”, indicando uma das causas que possivelmente contribui para a produção/reprodução da segregação sócio espacial urbana. Isso porque, os acessos desiguais à tecnologia de informação e comunicação, em associação à velocidade das transformações socioeconômicas, conduzem a um processo de estranhamento do individuo em relação ao espaço ao seu redor. Esse estranhamento, já discutido no Capítulo 02 deste trabalho, é segundo Carlos (2001/2004), fruto do empobrecimento das relações sociais, que se desenvolvem em um tempo efêmero (da velocidade das trocas informacionais das redes tecnológicas) e em um espaço amnésico (com pouco ou nenhum traço de identidade). Ainda quanto à desterritorialização, o autor salienta que território no sentido de domínio político e território no sentido de apropriação simbólico cultural, não constituem ideias vinculadas, revelando que o processo de desterritorialização pode ocorrer de maneira não coincidente em seus aspectos formais e de uso.
Haesbaert (1993) indica que a desterritorialização é um processo ao qual estão associados a territorialização e a reterritorialização. Essa tríade indica que, constantemente, os espaços mudam de domínio, que os grupos ou indivíduos deslocam seus interesses espaciais e que os mesmos espaços podem abrigar territórios distintos no decorrer do tempo, como já indicavam Santos (1985/1996) e Leite (2006), ou até mesmo simultaneamente.
Um processo de desterritorialização, como já ressaltamos, pode ser tanto simbólico, com a destruição de símbolos, marcos históricos, identidades, quanto concreto, material – político e/ou econômico, pela destruição de antigos laços/ fronteiras econômico-políticas de integração. É muito importante também distinguir as escalas de difusão da desterritorialização, tanto espaciais quanto temporais [...], pois pode ocorrer concomitantemente desterritorialização numa escala (regional/ local) e reterritorialização em outra (nacional e mundial, por exemplo). (HAESBAERT, 2007, p. 181). Para Haesbaert, no lugar de identidades estáveis e bem definidas, histórica e geograficamente marcadas, há atualmente identidades múltiplas, instáveis e sem referenciais geográficos definidos. Sendo assim, o que outros autores chamam de desterritorialização seria uma “espécie de mito incapaz de reconhecer o caráter imanente da (multi)territorialização na vida dos indivíduos e grupos, um processo espacialmente descontínuo e complexo (HAESBAERT, 2005, s/p)”.
Os territórios então, segundo Haesbaert (2005/2007), não estariam desaparecendo, mas mudando de lugar constantemente e/ou adquirindo outros significados relacionais. Nesse sentido, Haesbaert (2005/2007) se aproxima de Santos (1985/1996), no que tange as transformações territoriais segundo elementos variáveis, em cada tempo e condição histórica. Divergindo da ideia de desterritorialização, Haesbaert (2010) identifica na
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contemporaneidade novos arranjos espaciais e possibilidades territoriais. Tal multiplicidade, segundo o autor, varia desde o território concreto (a casa, por exemplo) até territórios vinculados ao ciberespaço.
A multiplicidade territorial, enquanto justaposição de territorialidades, ocorre em quatro modalidades, assim definidas por Haesbaert (2010):
Territorializações mais fechadas: que apresentam estruturas de poder rígidas e onde não é admitida pluralidade de identidades. Ex.: o regime talibã no Afeganistão ou alguns grupos tribais.
Territorializações tradicionais: cuja característica principal é defesa de uma homogeneidade interna. Ex.: Estado-Nação, mesmo aqueles pluriétnicos como o Brasil, nos quais a “invenção” de uma identidade nacional procura dissolver a pluralidade sociocultural.
Territorializações mais específicas: que permitem sobreposições e/ou intercalação de territórios. Ex.: parque ou campo de futebol, que permitem a apropriação simultânea ou sequencial por diversos grupos/usuários.
Territorializações efetivamente múltiplas: combinação de múltiplos territórios, que apresentam variantes culturais ou geográficas, alcançando também o ciberespaço. Com as territorializações efetivamente múltiplas, pode-se considerar que os territórios estão se multiplicando na contemporaneidade, permitindo o reconhecimento e o pertencimento do sujeito a novos territórios. Vigora então, na atualidade, uma forma de territorialização mais complexa, representada na forma de rede: a multiterritorialidade.
A multiterritorialidade como experiência concomitante de múltiplos territórios não é, segundo Haesbaert (2010), uma peculiaridade atual, visto que apropriações de mais de um território por indivíduos ou grupos, dependendo da natureza de suas necessidades, sempre existiu. O que é particular da nossa época são a diversidade de territórios, a velocidade e a facilidade de acessos a eles. A novidade consiste, então, no que denominaremos multiterritorialidade efetiva, que pode ser entendida como uma experiência concomitante de múltiplos territórios e/ou territorialidades, seja de forma sucessiva (por mobilidade física, por exemplo), seja de forma simultânea (por "mobilidade virtual" ou "cibermobilidade"). Implica em novas formas de uso e apropriação de territórios consolidados, mas principalmente em novas formas de território, destacando-se os virtuais.
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Para o autor, a realização da multiterritorialidade efetiva impõe algumas condições, que [...] incluiriam a maior diversidade territorial (daí o papel das grandes metrópoles como loci privilegiados em termos dos múltiplos territórios que comportam), uma grande disponibilidade de e/ou acessibilidade a redes- conexões [...], a natureza rizomática ou menos centralizada dessas redes e, anteriores a tudo isto, a situação socioeconômica, a liberdade (individual e coletiva) e, em parte, também, a abertura cultural para efetivamente usufruir e/ou construir essa multiterritorialidade. (HAESBAERT, 2010, p. 343). Multiterritorialidade inclui, assim, uma mudança não apenas quantitativa – pela maior diversidade de territórios disponíveis. Inclui, também, uma variação qualitativa, na medida em que temos hoje a possibilidade de combinar, de uma forma inédita, a intervenção e, de certa forma, a vivência concomitante de uma enorme gama de territórios. Na pós- modernidade, com a disponibilidade do aparato tecnológico-informacional, a multiterritorialidade se manifesta não apenas por deslocamento físico, como também por “conectividade virtual”: a capacidade de interagirmos à distância, influenciando e integrando outros territórios. Isso implica em uma reterritorialização via ciberespaço, uma compressão espaço-tempo, uma dimensão cultural simbólica cada vez mais importante nos processos de territorialização.
Portanto, mais do que sob um processo de desterritorialização, o mundo vive hoje sob o domínio de novas formas de territorialização, em territórios-rede. Neles existe a possibilidade da combinação de uma multiplicidade de territórios, que permite falar na vivência de uma multiterritorialidade: a possibilidade que sempre existiu, mas nunca nos níveis atuais, de experimentar simultânea ou sucessivamente diferentes territórios e territorialidades.
Dentre essas territorialidades, destaca-se o espaço virtual, mais especificamente a internet, uma ferramenta de interação e comunicação no espaço virtual. Para Castells (2004), no final do século XX a globalização econômica, a busca da sociedade pela liberdade individual, a comunicação aberta e os avanços da informática contribuíram para a formação de uma nova estrutura social, que se apoia nas redes.
Nestas condições, a internet, uma obscura tecnologia que tinha pouca apropriação para além do exclusivo dos cientistas da informática, dos hackers e das comunidades contra culturais, tornou-se a alavanca de transmissão para uma nova forma de sociedade: a sociedade em rede [...]. (CASTELLS, 2004, p. 16).
A partir das discussões apresentadas, considera-se que, na contemporaneidade, pode estar ocorrendo um processo de desterritorialização, identificado principalmente nos espaços livres públicos, fruto de uma desconexão simbólico-cultural e funcional entre esses espaços
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e a sociedade que deles deveria se apropriar. A desterritorialização contemporânea estaria associada, ainda, a uma reterritorialização, na qual o espaço virtual adquire notoriedade como espaço potencial do desenvolvimento de atividades sociais outrora desenvolvidas principalmente nos espaços físicos. A reterritorialização em bases virtuais é discutida a seguir.
3.2.2 Territórios virtuais: a apropriação do espaço virtual como palco possível de