A flexão de caso dos pronomes pessoais, na perspectiva da tradição normativa, corresponde à modificação formal dos pronomes para representar funções sintáticas distintas. O caso reto comporta as formas pronominais que atuam nas funções de sujeito e predicativo, e o caso
oblíquo, as que atuam como argumentos do verbo ou adjuntos. Para o caso oblíquo, é ainda
apresentada a subdivisão das formas quanto à tonicidade. São denominadas como formas
átonas aquelas que aparecem na oração ligada ao verbo sem o auxílio de preposição e como tônicas aquelas que se associam ao verbo com o auxílio da preposição (CUNHA; CINTRA,
2001; BECHARA, 2009). No Quadro 14, apresentamos o quadro dos pronomes pessoais na abordagem tradicional:
Quadro 14 – A flexão de caso dos pronomes pessoais na língua portuguesa sob a perspectiva da abordagem tradicional
Os pronomes pessoais na língua portuguesa
Pessoa Caso reto Caso oblíquo
Átono Tônico
Singular
1ª eu me mim, comigo
2ª tu te ti, contigo
3ª ele, ela o, a, lhe ele, ela
Plural
1ª nós nos nós, conosco
2ª vós vos convosco
3ª eles, elas os, as, lhes eles, elas
Fonte: Cunha e Cintra (2001, p. 292).
A distribuição biunívoca entre as formas dos pronomes pessoais e o caso não corresponde, no entanto, ao quadro pronominal configurado para as variedades do português do Brasil, seja em sua modalidade culta, seja em sua modalidade popular. Nessas variedades, as formas do caso
reto apresentam-se distribuídas por todas as funções sintáticas, co-ocorrendo com as formas do caso oblíquo ou, em alguns casos, substituindo-as. Os rearranjos, decorrentes dos
processos de variação e mudança no sistema pronominal brasileiro, têm sido sistematizados em quadros por diversos autores, a exemplo de Carvalho (2008) e Castilho (2010).
O estudo de Carvalho (2008) tem como objetivo descrever a estrutura interna dos pronomes pessoais a partir da subespecificação de traços. A proposta do autor reside em compreender os traços inerentes aos pronomes pessoais que justifiquem a flutuação desses pronomes pelos diferentes casos, bem como a restrição de alguns pronomes a determinados casos. O ponto de partida do autor para o cumprimento da proposta estabelecida passa pela elaboração de um quadro (Quadro 15) para demonstrar o estado atual do sistema pronominal do PB:
Quadro 15 – O quadro dos pronomes pessoais no português brasileiro por Carvalho (2008) Pronomes pessoais no português brasileiro
Nom Ac Dat Abl Gen
1sg eu me/eu me/mim/eu comigo/eu meu(s) /minha(s)
/ deu/ de mim
2sg você/tu você/tu/te/lhe lhe/você/te/ti contigo/você seu(s) /sua(s) /
teu(s) / tua(s)
3sg ele/ela ele/ela/se ele/ela/lhe ele/ela dele/dela
1pl nós/ a gente nos/nós/ a gente nos/nós/ a gente conosco/nós/ a gente de nós / da gente
2pl vocês vocês vocês vocês de vocês
3pl eles/elas eles/elas/se eles/elas/lhe eles/elas deles/delas
O Quadro 15, apresentado por Carvalho (2008), comporta, como podemos observar, aspectos não contemplados pelas gramáticas tradicionais do português brasileiro, como, por exemplo, a introdução de novas formas para representar as funções nominativas, a exemplo de você e a
gente, e a alteração na propriedade da flexão casual para todas as pessoas do discurso. Ao
observar essas reconfigurações no quadro pronominal do PB, sobretudo a redução na morfologia flexional de caso dos pronomes, Carvalho declara: “[...] os pronomes pessoais apresentam comportamento peculiar em PB. Um sincretismo generalizado aparece no paradigma pronominal desta língua: a forma nominativa é a forma predominante em todas as pessoas” (CARVALHO, 2008, p. 125). Ou seja, os pronomes do caso nominativo podem aparecer em todas as funções casuais no paradigma de todas as pessoas do discurso.
Para o autor, no que diz respeito à flutuação (ou não) dos pronomes pessoais pelos diversos casos, o quadro pronominal do PB comporta: (i) formas atuantes em todas as funções casuais, a exemplo das nominativas (você, a gente, ele); (ii) formas atuantes em mais de um caso, mas não em todos (me, te, mim, lhe); (iii) formas restritas a determinados casos (comigo, contigo,
conosco). (CARVALHO, 2008, p. 125). Compreender essa organização e/ou hierarquia é a
proposta central do estudo do autor, que não se compromete, portanto, com a correlação com os fatores externos que podem auxiliar a compreender os processos de variação e mudança do quadro pronominal.
Castilho (2010) também sistematizou um quadro dos pronomes pessoais para o português do Brasil, conforme podemos observar no Quadro 16:
Quadro 16 – O quadro dos pronomes pessoais no português brasileiro por Castilho (2010)
PB FORMAL PB INFORMAL
Sujeito Complemento Sujeito Complemento
1sg eu me, mim, comigo eu, a
gente
eu, me, mim, prep +eu,
mim
2sg tu, você, o (a)
senhor (a),
te, ti, contigo, prep./o (a) senhor (a)
você/ocê/ tu
você/ocê/te, ti, Prep. + você/ ocê (=docê, cocê)
3sg ele, ela o/a/lhe, se, si, consigo ele/ ei, ela ele, ela, lhe, prep +ele, ela
1pl nós nos, conosco a gente a gente, prep+a gente
2pl vós, os
senhores (as)
vos, convoco, prep+os (as) senhores (as)
vocês/ ocês/cês
vocês/ ocês/ cês, prep + vocês/ocês
3pl eles, elas os, as, lhes, se, si,
consigo
eles/ eis, elas
eles/ eis/ elas, prep + eles/ eis/ elas
O quadro pronominal sistematizado por Castilho (2010) coloca em evidência a oposição entre o português brasileiro formal (padrão) e o português brasileiro informal (falado). Observando a descrição proposta para o PB informal e, comparando-a àquela estabelecida no Quadro 15, observamos, sobretudo, o uso das formas subjetivas nas funções de complemento para o paradigma de todas as pessoas do discurso. Semelhante à proposta estabelecida por Carvalho (2008), o quadro elaborado por Castilho (2010) sinaliza a concorrência entre as formas flexionadas e não flexionadas dos pronomes para os paradigmas de primeira e segunda pessoa do singular.
No entanto, diferentemente da descrição apresentada no Quadro 15, Castilho (2010) aponta o pronome de primeira pessoa do plural a gente como categórico em todas as funções sintáticas, o que nos leva a concluir, que, para o autor, as formas flexionadas correspondentes nos e
conosco estão restritas ao português brasileiro formal.
As descrições sistematizadas nos Quadros 15 e 16 apresentam um quadro atualizado do português brasileiro e são significativas na medida em que demonstram a necessidade de redefinição do paradigma pronominal exibido nas práticas tradicionais de ensino. É preciso pontuar, no entanto, que os quadros elaborados por Carvalho (2008) e Castilho (2010) comportam processos de variação e mudança de três tipos: (i) aspectos comuns a todos os falantes do português brasileiro; (ii) aspectos restritos aos falantes das variedades cultas; (iii) aspectos restritos aos falantes do português popular. Da maneira como tais quadros são exibidos (retrato do português brasileiro de um modo geral), a configuração desses aspectos não fica clara e pode haver uma interpretação de que os processos de variação e mudança operados no sistema pronominal brasileiro, sobretudo a alteração na flexão casual, foram processados da mesma maneira tanto nas variedades cultas quanto populares.
Uma sistematização do quadro pronominal do PB com foco em sua realidade polarizada nos parece, portanto, muito mais elucidativa. Sob essa perspectiva, será possível compreender, por exemplo, por que nas variedades cultas a redução da flexão casual se restringe às formas de natureza nominal – você, a gente e ele –, enquanto nas variedades populares, a redução se configura de maneira mais radical, atingindo também as formas essencialmente pronominais –
eu, tu e nós. Assumimos, então, a posição de que se, em determinados aspectos, as
distinguem as normas cultas e populares, é porque o processo sócio-histórico de formação dessas normas também se configurou de maneira distinta (cf. capítulo 1).
Nesse sentido, a simplificação morfológica do sistema de flexão casual dos pronomes pessoais, que se configura de modo mais radical nas variedades populares constitui, a nosso ver, “resquícios de sua origem plurilíngue” e pode ser explicada
[...] como resultado de processos de variação e mudança induzidos pelo contato entre línguas, semelhantes aos que concorreram para a formação das línguas crioulas de base lexical portuguesa da África e Ásia, não obstante tenham operado em um nível de radicalidade menor do que estes [...]
(MENDES; LUCCHESI, 2009, p. 476).
Na seção, 3.3, apresentamos, então, uma caracterização do comportamento da flexão de caso dos pronomes pessoais nas línguas crioulas. Esperamos, desse modo, reunir elementos para compreender o fenômeno variável em estudo nas variedades populares do português brasileiro e reforçar o argumento de que o contato entre línguas está diretamente associado à simplificação morfológica de caso do sistema pronominal.
3.3 A FLEXÃO DE CASO DOS PRONOMES PESSOAIS NOS CRIOULOS DE BASE