O roubo, as trapaças financeiras e o débito deliberado, situações traduzíveis pelo termo
calote, são atos bastante policiados pelas travestis, configurando-se como mais uma das
moralidades que regem o grupo. Além disso, o reforço sobre a prescrição proibitiva ao calote vincula-se ao receio ante as consequências punitivas pela infração de uma das sujeitas poderem reverter contra as demais colegas.
No contexto da pensão, Denise criticava Bárbara, dizendo não gostar de “bicha que
“closeira e caloteira, ainda”, uma vez que Bárbara se bombara e, fugindo da cafetina, não pagara o que devia pelo procedimento. Quando, por sua vez, fugiu de Vale das Passagens após roubar um cliente, Denise foi criticada pelas colegas. Marcela era constantemente acusada de não saldar dívidas informais, sendo que Madalena se queixava junto às demais travestis a respeito de seu constrangimento em cobrar-lhe novamente e sem sucesso os produtos cosméticos que lhe vendera, recebendo delas, como retorno, a afirmação de que Marcela era “assim mesmo”.
Cibele era lembrada, dentre outras situações, como aquela cujo marido levara, sem sequer pagar a locação, cinco filmes da locadora próxima em que Helena tinha crédito, dando a Pensão Flor-de-Lis como referência. Em volta da mesa, enquanto Salete limpava a cozinha, algumas moradoras da pensão conversavam a respeito do casal. E Natália avaliava: “caloteira
não dá, né, mona? A gente já é xingado por ser puto, trabalhar na rua e ser viado... pelo menos que pague as contas em dia, né?”. Em meio a risadas de todas as que ouviam o comentário, Natália, continuando as histórias sobre Cibele, falou da manicure no salão próximo, que teria pedido, “com todo o jeito”, que Natália falasse com Cibele, pois esta lhe devia dinheiro pelos serviços no salão. Quando avisada por Natália, Cibele, por sua vez, falava mal do estabelecimento, dizia que não fazia mais as unhas lá acusando profissionalmente a manicure, ao que Natália retrucava, dizendo que Cibele não ia lá porque estava devendo, razão pela qual esta teria ficado muito brava. Salete, que prestava atenção enquanto esfregava a pia, dizia que as pessoas ficam bravas quando se lhes dizem verdades, de modo que, diante de acusações reais, tem-se é de ficar quieta. Natália, discordando da colega, dizia que “depende”, porque “às vezes tem bicha abusada que é intrometida”, referindo-se a situações em que as travestis resolvem dar palpites inconvenientemente.
O que a avaliação de Natália sugere é que, estigmatizadas pela transgressão de gênero que efetuam ao corporificar seu desejo, cabe às travestis obedecer a certo conjunto de normas o quanto lhes seja possível, sob a pena de amenizarem o peso da “economia de discriminações” (VIANNA, 2005: 15) a que estão submetidas. Em outras palavras, às acusações pelas transgressões de gênero (feminilização) e sexuais/morais (prostituição) somam-se, mais facilmente, novas modalidades acusatórias, estas referentes a infrações em outros contextos morais – no caso, a responsabilidade moral para com dívidas de caráter financeiro.
Essa soma de discriminações ou de acusações, articulada a um campo de representações altamente estigmatizado como o que alimenta o imaginário social sobre as
travestis, acarreta-lhes implicações não individualmente, mas para o grupo – sejam tais consequências da ordem das representações, sejam elas da ordem da punição. Tomadas como um grupo homogêneo, qualquer falta moral empreendida por uma travesti recai, quase sempre, sobre todas as outras, em um processo coletivo de re-estigmatização. Além disso, é de conhecimento comum, em Vale das Passagens, que a ONG Sempre-Viva e a Pensão Flor- de-Lis constituem dois lugares, de naturezas distintas, que podem, de um modo ou de outro, “representar” as travestis que atuam na cidade, da mesma forma como é sabido que elas se distribuem, durante o tottoir, ao longo da Avenida da Saudade. Diante de qualquer adversidade em que figure uma travesti, sabe-se onde podem ser encontradas, o que as coloca em permanente risco na medida em que a punição, assim como a desqualificação moral decorrente da infração, aplica-se coletivamente, não individualmente. Como me esclareciam Glória a respeito dos clientes e Marcela sobre o assassinato de uma colega, as travestis morenas, assim como as loiras entre si, parecem aos “de fora” todas iguais, independentemente dos demais atributos, tomando-se-as, de forma “despessoalizada”, como um grupo homogêneo, formado por elementos indistintos. Dessa forma, não incomum é que a sanção contra uma infração recaia sobre uma travesti indistintamente, punindo-se exemplarmente o grupo, não a sujeita responsável pelo ato.
De outro lado, porém, a mesma prática fiscalizada moralmente entre elas é acionada por Soraia como um recurso legítimo de punição moral aos clientes. Enquanto se lembrava de épocas anteriores em que costumava efetuar roubos contra os homens que a paravam e que negociavam programas com ela, confessava-me:
Eu roubava mesmo, porque ele merece! Muitas vezes ele deixa a mulher dentro de casa, com o filho, e sai pra dar o cu sem camisinha, pegar doença e passar pra mulher dentro de casa. Então eles têm que ser roubados, eles têm que apanhar na cara. Eu não faço mais porque a minha vida não vale o que eles têm na carteira. Porque esse negócio é uma loteria. Do mesmo jeito que pode dar certo num dia, num dia pode dar errado – ele pode ter um revólver e te dar um tiro (Relato de Soraia durante entrevista realizada na Pensão Flor- de-Lis).