Tudo começou no auge da mineração em território goiano, e os registros levam ao ano de 1736, quando o garimpeiro Julião Cavalcante, bem como o grupo que lhe acompanhava,
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adentrou ao território à procura de novas minas de ouro, descobrindo esse metal às margens do córrego Lava Pés (Figura nº 47), localizado na Serra da Cavalhada.
Figura nº 47 – Córrego Lava Pés – Serra da Cavalhada
Fonte: Sebastião Fontenele França
Já nesse primeiro momento, o sobrenome Cavalcante passou a ser a toponímia desse lugar. No entanto foi em 1740 que se deu oficialmente a fundação do Arraial de Cavalcante. Sendo uma obra dos bandeirantes, Cavalcante apenas serviu de base temporária, em tempos alhures, para a exploração do ouro e, desta forma, recebeu contingentes de negros vindos de outras províncias. Segundo Sobrinho et al. (2016: 35), no auge da mineração do Arraial de Cavalcante, havia cerca de nove mil escravos. Toda essa gente sugando o subsolo dessa área logo o ouro foi-se exaurindo, e o que restava não compensava economicamente garimpar, o que levou a população a se ocupar em outras atividades, pois com a saída dos caçadores de metais preciosos, precisavam sobreviver e permanecer naquela área.
Sobrinho afirma ainda que:
A partir da decadência do ouro, o município passou a ter a produção agrícola como sua principal fonte de sustentação econômica, com destaque para a produção do trigo. Em 1780, existiam quatro engenhos de trigo na província de Goiás e, em 1861, Goiás exportou 777 alqueires de farinha de trigo. Destes, 66% foram
74 originários de Cavalcante, que recebeu o prêmio de primeiro lugar na Exposição Internacional de Produtos Agrícolas de Filadélfia (et al., 2016: 35).
Simultaneamente às atividades de mineração, trabalho nos engenhos e outras atividades inerentes à sustentação econômica dos “senhores”, os negros, em decorrência dos maus tratos que recebiam, e não suportando tal sofrimento, fugiam de seus locais de trabalho e se embrenhavam entre serras, colinas e vales, onde o relevo, fortemente íngreme à volta dessas unidades, lhes conferiam o estado de segurança. Karasch (apud JATOBÁ, 2002:29), concluiu
Que escravos negros fugidos do Maranhão, Bahia e Pernambuco percorreram a rota do sertão com destino ao Norte e Nordeste goiano. Os quilombolas teriam, segundo a autora, um importante fator de povoamento da região e de dinamização da economia mineradora, pois descendentes de africanos fugitivos buscavam veios auríferos [...]. No conceito adotado pela autora, os quilombos começam em Goiás no século XVII com a fuga de escravos indígenas, mas o primeiro relato oficial data de 1727 e refere-se aos negros. Os quilombos do século XVIII eram, em sua maioria, escravos garimpeiros que continuaram com seus ofícios em áreas remotas. Eles trocavam ouro pelas mercadorias de que necessitavam para o seu sustento e, provavelmente, negociavam com contrabandistas mestiços acusados pelos portugueses de contrabandear ouro para a Bahia. Também viviam da caça e da pesca, coleta e de pequenos cultivos.
É interessante resgatar pesquisas feitas por Jatobá (2002) na área dos quilombolas do Nordeste e Norte de Goiás, onde se registra a presença desses negros no Vale do Paranã, Arraias (Tocantins), Pilar e Muquém, Niquelândia, locais esses que foram palcos de levantes e capturas de escravos fugidos. Ressalta-se que, quando os negros chegaram ao Norte de Goiás, se depararam com indígenas, dentre eles os Avá Canoeiro, Acroá, Xacriabá, Capepuxi, Caiapó, Xavante e Karajá. A presença de escravos nessa região, pelos registros documentais da época, presume-se ter sido a partir de 1740. Antes de iniciar a discussão sobre o Território Kalunga, é importante apresentar algumas características desses municípios, como se deu a construção de seus territórios. Alguns registros se fazem necessários para temporizar o ordenamento da formação do que hoje é Cavalcante, dentre eles: a instituição do Julgado14 de Cavalcante, em 1755, que passou a ser vinculado à comarca e município de Goiás; em 1809 incorporado à nova comarca de São João das duas Barras, cujo território agregava os arraiais de Santa Rosa, Flores e Mato Grosso; em 11 de novembro de 1831, por Decreto, foi elevado à categoria de vila, com a denominação de Cavalcante, e como distrito sede, o que foi formalizado em novembro de 1838. Numa nova divisão administrativa à Cavalcante, em 1911, foram agregados dois distritos: Moinho e Nova Roma.
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Em 1920, com base na apuração do recenseamento geral, o município aparece constituído de cinco distritos: Cavalcante, Lajes, Nova Roma, São Domingos do Café e Veadeiros. Conforme dados do IBGE (2010), quanto ao desaparecimento do distrito de Moinho, não há registros. Nesse vai e vem, o distrito de São Domingos do Café, pelo Decreto-Lei estadual nº 557, de 30 de março de 1938, passou a denominar-se Cafelândia. Pelo Decreto-Lei nº 1233, de outubro de 1938, o distrito de Lajes foi extinto e seu território incorporado ao distrito sede do município de Cavalcante e Cafelândia. Entre os anos de 1949 e 1953, esse município passa a ser constituído pelos distritos de Cavalcante, Cafelândia, Nova Roma e Veadeiros. Seguindo essa corrida pela configuração de um novo território, o distrito de Cafelândia, pelo Decreto-Lei nº 8305, de dezembro de 1943, passou a denominar- se Araí e o Distrito de Nova Roma Guataçaba. Já no período de 1944-1948, o município de Cavalcante passa a vigorar com os seguintes distritos: Cavalcante, Araí (ex-Cafelândia), Guataçaba (ex-Nova Roma) e Veadeiros. Pela lei municipal nº 2 de janeiro de 1949, a sede do distrito de Araí foi transferida para Lajes, cuja denominação permaneceu. Pela lei estadual nº 355, de novembro de 1949, o distrito de Guataçuba voltou a denominar-se Nova Roma. Em 1950, o município é constituído de quatro distritos: Cavalcante, Lages, ex-Araí, Nova Roma, ex-Guaçatuba e Veadeiros.
Pela lei estadual nº 808, de 12 de outubro de 1953, foram desmembrados do município de Cavalcante os distritos de Veadeiros e Nova Roma, os quais formaram o novo município de Veadeiros, que atualmente é o município de Alto Paraíso, sendo que, nessa nova configuração, o município de Cavalcante passa a ter dois distritos: ele próprio e o de Lages. Esse último passou a denominar-se Colinas, por força da lei municipal nº 6, de agosto de 1955, permanecendo nessa configuração territorial até 1960. Em junho de 1968, pela lei estadual nº 7042, foi criado o distrito de Teresina de Goiás, e seus territórios incorporados ao município de Cavalcante. Em janeiro de 1979, o município de Cavalcante passa a ter três distritos, ele próprio e mais os distritos de Colinas e Teresina de Goiás. Colinas, pela lei estadual nº 10403, de dezembro de 1987, desmembra-se do município de Cavalcante e é elevado à categoria de município com a denominação de Colinas do Sul (IBGE, 2016).