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Programmation de systèmes temps réel critiques

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No âmbito do projecto CELGA – Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada da Universidade de Coimbra foram realizadas pesquisas relativas aos MDs. Os trabalhos a que tivemos acesso incidem sobre o papel semântico-pragmático de estruturação textual dos MDs.

Parece-nos que o artigo “Então: elementos para uma análise semântica e pragmática” de Ana Cristina Macário Lopes constitui o primeiro esforço de sistematização dos MDs, em Portugal. Neste artigo, esta autora afirma que o seu trabalho se insere num «projecto de investigação mais amplo, centrado na caracterização semântico-pragmática de alguns itens da Língua Portuguesa cuja classificação gramatical tem suscitado perplexidade ao longo do tempo, dado o seu funcionamento / comportamento não homogéneo» (Lopes, 1997: 177).

Com efeito, seguindo o plano semântico e pragmático e uma perspectiva textual- discursiva, Ana Cristina Macário Lopes publicou posteriormente capítulos de livros e artigos sobre os MDs agora, já, embora, de facto, bem, enquanto, ainda, logo, desde que,

enfim, afinal, assim, portanto, antes e depois, sempre. Dos trabalhos publicados,

referiremos, para efeitos da nossa pesquisa, os MDs então, agora e já/ já agora.

No que diz respeito ao MD “então”, Lopes (1997) afirma que este articulador assume os valores temporais, argumentativos e o valor de marcador de estruturação conversacional.

De acordo com Lopes (ibidem: 187), os valores temporais e argumentativos de “então” podem articular-se a partir da noção de anáfora: «Então pode retomar anaforicamente um referente temporal estabelecido no cotexto, mas pode também sinalizar proximidade (cognitiva) de argumentos / premissas que viabilizam uma conclusão». Segundo esta autora, “então” temporal implica proximidade discursiva e retoma de um antecedente, conhecido. No que diz respeito a “então” argumentativo, Lopes afirma que «o falante sinaliza de algum modo que há informação cognitivamente saliente que legitima a conclusão expressa». Para esta autora, “então” argumentativo introduz um enunciado que deve ser interpretado como uma conclusão. No que diz respeito a “então” marcador de estruturação conversacional, Lopes (1997: 188) aventa a hipótese de se tratar de uma

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«réplica, ao nível estritamente pragmático-enunciativo, pelo então temporal e argumentativo».

Quanto ao MD “agora”, Lopes (1998: 365) afirma que este assume com frequência o valor tradicional de advérbio de tempo, embora também possa ser usado, como MD. Ao analisar este item, Lopes (ibidem: 365-366) afirma que “agora” pode assumir o «valor temporal deíctico típico», como na frase «São agora exactamente 3h», em que constitui um advérbio de localização temporal, parafraseável por «neste momento em que eu falo»; pode igualmente referir-se a um presente de enquadramento, parafraseável por «hoje em dia» ou «actualmente», como em «A situação económica está agora melhor do que há seis meses» e «Agora, os jovens atingem a maioridade aos 16 anos»; «Agora, trata-se de sobreviver numa épica de crescimento lento».

Considerando estes exemplos, Lopes (1998) afirma que

“Agora” pode assumir um valor temporal deíctico estrito, quando introduz no universo do discurso um referente temporal que coincide com o intervalo de tempo da enunciação, mas pode também assumir um valor temporal deíctico lato, quando expressa um intervalo que engloba e transcende o tempo da enunciação. (Lopes, 1998: 366)

De acordo com Lopes (1998: 369), quando “agora” faz referência ao intervalo de tempo da esfera do passado, e não ao tempo de enunciação, implica o seu uso «não estritamente deíctico». Por exemplo: «A Maria tinha sido muito infeliz em casa dos tios. Mas agora, na sua própria casa, sentia-se bem»; «Às 8 horas, o João entrou em casa, cansado. Tinha passado um dia complicado; agora estava calmo».

Na condição de MD, Lopes (1998) afirma que “agora”

Nunca ocorre em início absoluto de texto, na medida em que funciona como conector entre enunciados; ocorre sempre no início de um novo acto discursivo, no interior da intervenção do mesmo locutor, o que não caracteriza o funcionamento do “agora” temporal. Este último pode co- ocorrer precedido por só e até, o que não acontece nunca com o marcador discursivo. (Lopes, 1998: 373)

Noutro desenvolvimento, a autora afirma que na condição de MD “agora” ocorre principalmente em contextos argumentativos e comparativos, «onde o tempo não funciona

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como tópico discursivo central…o falante assinala a sua progressão discursiva através de uma série de unidades sequenciais». Para Lopes (1998: 375), nesta situação, “agora” é um estruturador do discurso monológico.

Ainda no âmbito do projecto CELGA, Maria da Felicidade Araújo Morais analisou o MD “já agora”, no português europeu contemporâneo. Esta autora observou a ocorrência deste marcador «na sua função de natureza eminentemente conectiva: prefacia um segmento discursivo, assinalando a sua integração na estrutura temático-informacional em desenvolvimento» (Morais, 2004: 477).

De acordo com Morais (2004), o MD “já agora” ocorre preferencialmente na posição inicial do segmento discursivo digressivo. Apesar disso, este MD também pode ocorrer na posição intermédia ou final do texto. O uso deste MD orienta o leitor/ouvinte para a construção de uma relação específica entre o segmento discursivo introduzido e o precedente, no momento da produção em curso. Segundo esta autora, “já agora” assinala a estratégia do falante, que exprime o seu comentário relativamente à estrutura tópica do texto. A função deste MD inscreve-se na articulação de tópicos discursivos, podendo assinalar a introdução «de um segmento que configura um desvio ou digressão relativamente ao tópico do co-texto anterior» (Morais, ibidem).

Para a autora (2004), o traço semântico associado ao digressivo poderá estar na origem de usos em que “já agora” assinala uma conexão conclusiva, ou ainda uma locução causal/explicativa. Assim, o uso deste MD pode revelar que o sujeito falante está implicado no seu próprio discurso:

De um modo mais global, poder-se-á afirmar que o uso de já agora implicita sempre que o falante, tendo em conta certos elementos cognitivos partilhados pelos intervenientes no acto de comunicação, considera ou avalia como pertinente a inserção do segmento digressivo. Assim, o significado de já agora veicula sobretudo uma atitude ou comentário metatextual acerca da estratégia discursiva adoptada pelo falante.

(Morais, 2004: 56)

Analisando os nexos com “já” e “agora”, Morais (ibidem) afirma que é possível encontrar nexos semânticos entre os valores de “já agora” e os valores discursivos de “já e “agora”. Para esta autora, o uso de “já” está associado ao significado temporo-aspectual

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(adjunto temporal e operador aspectual). Na condição de adjunto temporal “já” contribui para a localização de eventos relativamente ao tempo de enunciação. Como operador aspectual, “já” é um «activador pressuposicional que tem a propriedade de focalizar aspectos da proposição expressa, deixando implícita uma comparação com uma situação em que não se verificam esses aspectos – neste quadro, encontra-se associado a já um valor de contraste, possivelmente derivado do seu valor de focalização» (Morais, 2004: 57).

Outros estudos realizados em Portugal

Otília da Costa e Sousa, num artigo intitulado “Da variedade à invariância: então, um caso exemplar”, descreve o que há de comum nos diversos usos aspectuo-temporais, argumentativos, de estruturação conversacional, de estruturação narrativa do MD “então”.

Para Sousa (1998), “então” é um marcador de uma operação de retoma anafórica. Noutro desenvolvimento, a autora explica que a utilização do termo “marcador de operação” «permite sublinhar o facto de os objectos linguísticos serem perspectivados como operadores (ordens para operar, traços de operações) que reenviam a operações e não a valores estáveis» (Sousa, 1998: 326).

De acordo com Sousa (1998: 318), o MD “então” retoma a localização temporal, a localização nocional ou a localização discursiva do seu antecedente. A autora afirma ainda que a plasticidade do MD tem a ver com as características dos enunciados em que este operador ocorre, dos termos desses enunciados, das relações entre os termos e da posição de “então” no enunciado.

Para Sousa (ibidem) «Na relação de localização de que é marcador, então relaciona dois termos, por convenção, p e q: p é a variável do termo localizador (termo antecedente) e q é a variável do termo localizado (termo anafórico)».

As observações realizadas por Sousa (1998) situam-se no plano dos enunciados e das enunciações. Segundo a autora, no plano dos enunciados “então” marca a relação p

então q, sendo a relação de localização entre p e q de natureza aspectuo-temporal, nocional

e, simultaneamente, aspectuo-temporal e nocional. No plano das enunciações, “então” relaciona enunciações do tipo Ep então Eq.

De acordo com Sousa (1998), “então” pode ser marcador aspectuo-temporal, marcador nocional, marcador aspectuo-temporal/nocional e marcador discursivo:

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Nos enunciados com valor aspectuo-temporal, “então” é parafraseável por “nesse momento”, como na frase «eu estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro. Então ela contou dos patos que criara nessa primavera, das manhãs altas de sol, do pão que vira semear.» (p. 319). Segundo esta autora, “então” retoma a localização temporal de p «eu estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro» para localizar q «ela contou…». O valor aspectual de p é imperfectivo, sendo o marcador de imperfectividade o pretérito imperfeito. Neste contexto, “então” assume o papel de conector e disjuntor. Para esta autora, «quando o conector relaciona duas situações perfectivas sobressai o seu valor de conector, quando relaciona duas situações imperfectivas ou imperfectiva/perfectiva sobressai a sua função de disjuntor» (Sousa, 1998: 320).

Nos enunciados com valor nocional, “então” é parafraseável por “por isso”, “nesse caso”, como no exemplo «tive medo que o meu pai me ralhasse então menti» (p. 320). Segundo a explicação de Sousa (1998: 320), nesta frase “então” é marcador de uma operação nocional porque retoma o quadro nocional de p «ter medo» para localizar q «mentir».

De acordo com Sousa (1998), na frase «O João contou tudo à irmã. Sentiu-se, então, muito aliviado» de Lopes (1996), p é simultaneamente localizador temporal e nocional a q, porque «não possuindo q um localizador temporal, então retoma as coordenadas temporais de p para localizar q. Serve de localizador nocional, porque p fornece o quadro nocional para a validação de q» (Sousa, 1998: 321).

Para Sousa (1998), “então” assume o papel de marcador discursivo em textos orais, como introdutor de abertura a uma conversa, a uma aula, a uma declaração. (Ex.: «Então, como vai isso?» (p. 322)). Na condição de MD «então marca uma relação entre duas enunciações, entre um contexto situacional e uma enunciação ou entre um saber pré- construído e uma enunciação» (Sousa, 1998: 322).

De acordo com esta autora, como MD, “então” não aceita ser parafraseado e não veicula qualquer valor semântico. Constitui, assim «um mero operador de conexão/disjunção, marcando a construção de uma nova etapa discursiva» (Sousa, 1998: 324).

Na Gramática da Língua Portuguesa de Mário Vilela, este autor dedica uma secção sobre o que designa «marcadores da coerência/coesão discursiva». Nesta secção, o autor

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afirma que os elementos em causa tanto podem ser designados marcadores do discurso, como marcadores de relações discursivas, ordenadores da matéria discursiva, ou outros, como o de locuções conjuntivas ou conjunções discursivas. Estes elementos servem essencialmente para «ordenar, hierarquizar, ligar, tornar mais fluído o movimento fórico construtor do discurso» (Vilela, 1999: 265).

Como afirma Mário Vilela, os MDs são elementos de proveniência gramatical diversa, «de combinações várias, mas são sempre expressões que funcionam em bloco, como expressões já (total ou parcialmente) lexicalizadas» (Vilela, ibidem).

Para este autor, os MDs servem para criar balizas no discurso, orientar na interpretação, salientando, retomando, explicando determinados conteúdos ou apelando para a atenção do interlocutor para a manutenção do contacto. Segundo este autor, os MDs podem estar associados às expressões adverbiais, para a indicação do sentido da conexão. Por exemplo: «bom! indica uma aceitação, ou uma forma de tomada de vez na conversação»; «Além disso indica que algo se vai acrescentar»; «em resumo indica a conclusão de um parágrafo/texto»; «assim pois indica uma ligação ao enunciado/parágrafo». Estes elementos podem estabelecer ligação entre segmentos maiores e menores da frase.

No que diz respeito às funções dos MDs na frase, Vilela (1999) afirma:

Elementos como “além disso”, “bem pelo contrário” não desempenham qualquer função dentro da frase, não modificam qualquer elemento frásico, não podem ser núcleo de qualquer resposta a uma pergunta, constituem um grupo entoativo próprio e ocorrem, normalmente, isolados por pausas fortes, ficando à margem da oração. (Vilela, 1999: 266)

Noutro desenvolvimento, Vilela (1999: 268) afirma que há MDs que podem actuar na organização do texto ao nível do «plano interdiscursivo» (Ex.: «bom! Por uma parte, então, por certo, etc.»); ao nível do «plano de interacção enunciador - interlocutor», (Ex.: «pois, bom, não é?, etc.»), ou ao nível do «plano meramente enunciativo», (Ex.: «ora bem, por isso, quer dizer, para terminar, etc.»). Afirma ainda o autor que há conectores discursivos que podem actuar no plano directamente nocional:

− Com pendor argumentativo (mas repara, por exemplo, além disso,

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− Com valor aditivo (mais, mais ainda, e também, ainda por cima, além

disso, etc.),

− Com valor contra-argumentativo ou oposição concessiva/adversativa

(antes pelo contrário, pelo contrário, não obstante, mesmo assim, apesar de tudo, o certo é que, em qualquer caso, só que, isto não obsta a que, etc.),

− Com incidência no valor causal (por conseguinte, assim pois, daí que, de

facto, pois, então, etc.),

− Na organização temporal do discurso (antes de tudo, antes de mais, para

começar, num primeiro momento; em segundo, depois, num segundo momento, por outro lado; mais tarde, finalmente, etc.), na organização da informação textual (então, e depois, depois então, etc.). (Vilela, 1999: 268)

Vilela (1999: 269) faz referência à “reformulação”, entendida como «operação enunciativa que denota o controle da comunicação por parte do enunciador». A reformulação é realizada através de MDs como «ou seja, melhor dito, quer dizer, ou antes, por outras palavras, isto é, mais concretamente». Segundo ele, o falante usa geralmente este tipo de MDs como sinal de garantia de continuidade discursiva, explicando ou corrigindo.

Na secção intitulada «Interjeições e outros marcadores da expressividade», Vilela (1999: 269) afirma que as interjeições apresentam muitos elementos marginais à língua e dá exemplo de «pst!» e «pchiu!». Acrescenta que as interjeições não possuem nenhuma caracterização morfológica e não exercem qualquer função na frase.

Segundo o autor, «As interjeições fazem parte de um conjunto de processos que devemos designar como marcadores conversacionais. É a intervenção do componente expressivo no discurso: realçando, reforçando e intensificando de forma global o enunciado ou um dos fragmentos desse enunciado» (Vilela, 1999: 270).

SEGUNDA PARTE

A INTERACÇÃO VERBAL NAS AULAS DE PORTUGUÊS EM MOÇAMBIQUE

Esta parte é constituída por três capítulos: o capítulo primeiro é dedicado à situação linguística em Moçambique. Trata-se de uma abordagem descritiva com vista a oferecer um quadro linguístico que poderá possibilitar a percepção do discurso dos falantes na sala de aulas. O capítulo segundo é dedicado aos aspectos metodológicos da nossa pesquisa. Trata-se de uma pesquisa qualitativa. Apresentaremos dados sobre as escolas e a descrição sociolinguística dos nossos informantes. As questões da nossa investigação são formuladas com o propósito de investigar os fenómenos em toda a sua complexidade e em contexto natural, sem a operacionalização de variáveis. O capítulo terceiro é dedicado à análise de dados. A análise será realizada de uma forma indutiva exploratória, num contexto de descoberta e não de prova. Como afirmam Bogdan e Biklen (1994: 16), «ainda que se possam vir a seleccionar questões específicas à medida que se recolhem os dados, a abordagem à investigação [qualitativa] não é feita com o objectivo de responder à questões prévias ou testar hipóteses».

CAPÍTULO PRIMEIRO

SITUAÇÃO LINGUÍSTICA EM MOÇAMBIQUE

Neste Capítulo, abordaremos a situação linguística de Moçambique, procurando mostrar a convivência entre as línguas autóctones e o Português. Nesta reflexão, passaremos em revista a conjuntura social que determinou o nosso contacto com as línguas das regiões centro e sul do país. De uma forma geral, usaremos fontes documentais e a nossa experiência de vida para sustentarmos as nossas afirmações.

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Somos oriundos da cidade da Beira, onde as principais línguas autóctones são o Cindau1 e o Cisena. Os nossos progenitores eram imigrantes nesta cidade, mas falantes de línguas da família linguística Shona (Citewe S.13b e Cindau S.15). O Citewe é uma das línguas autóctones da província de Manica e o Cindau é uma das línguas nativas das províncias de Sofala, Manica e Inhambane. Estas línguas são mutuamente inteligíveis. Por essa razão, os seus falantes podem comunicar entre si, sem muitas dificuldades. Tal era o caso dos nossos progenitores. Por razões que julgamos estarem relacionadas com a integração regional, a família usava o Cindau como língua corrente. Aventamos esta possibilidade porque no período colonial, os habitantes da cidade da Beira viviam, na sua maioria, divididos segundo a sua língua ou origem étnica. Por exemplo, no bairro da Massamba habitavam, sobretudo, os falantes do Xitshwa. Os bairros de Chipangara, Muchatazina, Maraze, Chota eram habitados, principalmente, por falantes do Cindau. Na Munhava Central e Matope e em quase todos os bairros da Manga encontrávamos, sobretudo, os falantes do Cisena. Nos bairros do cimento a divisão étnica não era evidente, porque eram habitados, sobretudo, por europeus e asiáticos (chineses e indianos). Apesar disso, era notória a divisão territorial segundo a raça.

Foi neste contexto que fomos socializados. Podemos afirmar que no nosso bairro (Munhava), quase todos os falantes de outras línguas usavam o Cisena como língua de comunicação corrente. O Português era usado ocasionalmente, como língua de prestígio social, por um grupo restrito de indivíduos, na sua maioria assimilados.

No caso da nossa família, podemos afirmar que ela usou diferentes línguas correntes. Inicialmente, os nossos progenitores falavam o Cindau (Chibwani), em casa. Depois, já com descendentes, passaram a falar também o Português, como língua segunda. Nesta fase, o Português era praticamente a língua de escolarização. Mais tarde, nos primórdios da década de 60, quando os nossos pais adquiriram o estatuto de assimilados, o Português tornou-se a principal língua de comunicação familiar. Provavelmente, por isso, esta língua passou a ser a LM de todos os que nasceram naquele período. Apesar disso, todos nós desenvolvemos algum tipo de bilinguismo, pois era uma questão de

      

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O Cindau possui as seguintes variantes: Cibangwe falado na cidade da Beira; Cimashanga falado no distrito de Machanga, Búzi (Sofala) e no distrito de Mambone (Inhambane). Esta variante possui subvariantes que são Cibwani e Cibahara; Cidanda falado no distrito de Machaze; Cigova, no distrito do Búzi; Cidondo no distrito do Búzi e Chibabava; Ciqwaka falado em Gorongoza; Cinayai falado na margem sul do rio Save, desde Machacame a Mambone e Cindau falado em Mussorize e Chimoio.

Situação linguística em Moçambique   93

sobrevivência, na medida em que as práticas sociais (por exemplo, as reuniões no bairro, o comércio, os jogos) eram realizadas, sobretudo, em línguas autóctones, utilizando-se o Português como alternativa, ou mesmo em sobreposição às línguas locais.

Como dizíamos, o facto de os Masenas2 constituírem a maior comunidade

linguística deve estar na origem de a nossa família e outras terem optado por falar esta língua. Assim, para além do Português e do Cindau, o Cisena tornou-se a terceira língua de comunicação em casa, tendo, inclusive, superado o Cindau. Aliás, o Cindau não era a nossa língua predilecta. Julgamos que ela prevaleceu na família por duas razões: primeiro porque era a língua que a nossa mãe usava no seu quotidiano em sobreposição ao Português; e segundo porque era a língua espiritual, usada em rituais tradicionais para a invocação dos nossos ancestrais3. Em contrapartida, o Cisena, que não é originariamente uma língua do nosso núcleo familiar, ainda hoje, tem sido usado com alguma regularidade no seio da família.

Actualmente, entraram mais línguas de comunicação corrente na família: Xironga, Cicopi e Xichangana (todas do sul de Moçambique). Estas línguas entram por via de casamentos. Contudo, o Português é a principal língua de comunicação, sendo inclusive, a LM de todos descendentes (filhos e netos), desde meados da década de 60.

Muitos moçambicanos encontram-se nesta situação linguística. Isto permite-nos observar que Moçambique é um país multilingue, onde o uso do Português co-ocorre com outras línguas autóctones, que, a nosso ver, são usadas para manter a identidade étnica ou regional. Por exemplo, nos meados da década de 70, uma briga entre dois cidadãos de etnia Sena e Chuwabo originou um conflito étnico entre estas duas etnias no bairro da

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