O interesse pelo estudo da linguagem, por parte do ser humano, existe há muito tempo, o que pode ser verificado na literatura, em poesias, nas religiões ou em letras de músicas que tratam do assunto. Desde a hermenêutica (ex. interpretação da bíblia), procedimentos grafológicos, até análises de sonhos por Freud (1856 — 1939), a análise de conteúdo estava presente na psicologia como uma técnica de absorção genuína dos discursos, utilizando-se de diferentes enfoques para análise e comparação de textos. Atualmente, a análise de conteúdo tem sido muito utilizada na análise de comunicações nas ciências humanas e sociais, especialmente por Bardin (1979).
Na técnica de tratamento de dados desta pesquisa, foi adotada a Análise de Conteúdo Temático da fala definida segundo Bardin (1977, p.38), como:
[...]um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. A intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou eventualmente de recepção), inferência esta que recorre a indicadores quantitativos ou não.
A análise de conteúdo não se limita a descrever o conteúdo das mensagens segundo procedimentos sistemáticos e objetivos. Além de descrever, a análise de conteúdo analisa significados contidos nas mensagens. O interesse não reside na descrição de conteúdos, mas sim no que estes nos poderão ensinar após serem tratados (por classificação, por exemplo)(BARDIN, 1977).
A técnica da análise temática ou categorial, de acordo com Bardin (1977), baseia-se em operações de desmembramento do texto em unidades, ou seja, descobrir os diferentes núcleos de sentido que constituem a comunicação, e posteriormente, realizar o seu reagrupamento em classes ou categorias.
A organização dos dados obtidos nas entrevistas e a análise de seus conteúdos foram efetuadas da seguinte maneira: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
Segundo Bardin (1977), a fase de organização corresponde a um período de intuições, mas tem por objetivo tornar operacionais e
sistematizar as idéias iniciais. Esta primeira fase geralmente possui três missões: a escolha dos documentos a serem submetidos à análise, a formulação das hipóteses e dos objetivos e a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final. A pré-análise tem por objetivo essa organização. Durante a fase de pré-análise, foi realizada a leitura flutuante das transcrições das entrevistas assim como a leitura dos registros das observações no diário de campo a qual favoreceu a análise dos discursos segundo o referencial teórico. Essa primeira etapa foi propícia à aproximação com os textos, num primeiro momento de forma intuitiva, sendo que, aos poucos, a leitura foi ficando mais clara, e os conteúdos dos documentos analisados foram sendo relacionados aos objetivos da pesquisa e ao referencial teórico que sustenta o estudo. Segundo Bardin (1977), a leitura flutuante tem por finalidade estabelecer contato com os documentos, analisar e conhecer o texto deixando-se invadir por impressões e orientações (em direção aos objetivos e em conformidade com o referencial teórico). Pouco a pouco a leitura foi se tornando mais precisa em função das hipóteses emergentes e da projeção de teorias adequadas sobre o material.
De acordo com Bardin (1977), unidade de registro (UR), apesar de dimensão variável, é o menor recorte de ordem semântica que se liberta do texto, podendo ser uma palavra-chave, um tema, objetos, personagens, etc. Já unidade de contexto (UC), em síntese, deve fazer compreender a unidade de registro, tal qual a frase para a palavra.
Enfim, na fase pré-analítica determinou-se a unidade de registro (palavra-chave ou frase que tem em seu significado o foco no objeto de estudo); a unidade de contexto (a delimitação do contexto de compreensão da unidade de registro, ou seja, as respostas para os objetivos do estudo); os recortes (seleção das falas alinhadas aos propósitos do estudo); a forma de categorização ( determinação e denominação das categorias e subcategorias cujas temáticas respondam aos objetos do estudo) ; a modalidade de codificação e os conceitos teóricos mais gerais que orientaram a análise.
Na fase de exploração do material, ocorreram novas leituras e as falas importantes começam a ser assinaladas, sendo observados significados implícitos e explícitos nas falas dos sujeitos da pesquisa, das quais foram realizados os recortes. Estes recortes foram agregados em categorias as quais puderam ser intituladas. Essas categorias foram emergindo e definidas a partir da leitura das falas; entretanto parte delas pôde ser pré-concebidas a priori em conformidade com o objetivo e referencial teórico da pesquisa. Bardin (1977) refere-se à hipótese como
uma afirmação provisória que nos propomos a verificar, recorrendo a procedimentos de análise.
Então, a fase de exploração do material ocorreu em duas etapas: primeiramente foram realizados recortes do texto através de frases e/ou temas que através dos seus significados puderam compor as unidades de registros (UR). Na segunda etapa foram realizadas a classificação e a agregação dos dados, as quais formaram as categorias teóricas ou empíricas que puderam corroborar na especificação dos temas.
Assim, essa fase de exploração do material foi o período mais duradouro: a etapa da codificação, na qual foram feitos recortes em unidades de contexto e de registro; e a fase da categorização.
Na fase do tratamento dos resultados obtidos, inferência e interpretação os resultados brutos foram submetidos a operações de análise que permitiram colocar em relevo as informações obtidas. A partir daí foi possível propor inferências e realizar interpretações previstas para escopo teórico.
É possível perceber que esses processos foram simultâneos; ao delimitar as categorias, naturalmente foi possível estar inferindo e interpretando os conteúdos. Essa fase segundo Bardin (1977) interpreta os resultados brutos de maneira a serem significativos (falantes), dessa maneira eles podem então propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos requeridos.
Uma revisão bibliográfica nas legislações as quais norteiam as atividades do SUS sob o princípio da integralidade corroborou a pesquisa no sentido de justificar e atestar a sua efetiva incorporação aos trabalhos desempenhados pelos atores entrevistados.
5 ANÁLISE DE RESULTADOS
Através da técnica de análise categorial temática, descrita por Bardin (1977), emergiram dois eixos temáticos e suas respectivas categorias com os elementos de análise organizados de acordo com o quadro 4, a seguir.
EIXO/VERTENTE INTEGRALIDADE DA PRATICA
CATEGORIA ELEMENTOS DE ANÁLISE
PRÁTICAS BIOLÓGICAS NO CUIDADO DÀ SAÚDE
Atenção individualizada do usuário considerando suas preferências e história com percepção de suas necessidades; máximo apoio, incentivo e motivação; aconselhamento de hábitos salutares (dieta, hábitos de higiene). Organização dos serviços pela integração dos diferentes níveis de atenção do sistema: atenção básica, secundária e terciária. Visão interdisciplinar de cuidados inclusive preocupação profissional das conseqüências sistêmicas relacionadas às interações entre as doenças e/ou medicamentos, buscando integrar ações promotoras, educativas, preventivas e curativas. Responsabilidade no cuidado com especificação das ofertas, encaminhamento e acompanhamento evolutivo com comprometimento.
EIXO/VERTENTE PRATICA DA INTEGRALIDADE
CATEGORIA ELEMENTOS DE ANÁLISE
PRÁTICAS SOCIAIS NO CUIDADO DA SAÚDE
Escuta qualificada: Cuidado/Acolhimento/vínculo. Avalia e leva em consideração a história de vida. Tecnologias leves, duras e leve- duras, atenção clínica com escuta qualificada para os diferentes grupos populacionais; indivíduo como um todo, ser biológico e social. Visão multiprofissional e interdisciplinar. Preocupação na articulação intersetorial ofertando alternativas para suprir necessidades.
EIXO INTEGRALIDADE DA ATENÇÃO: FATORES LIMITANTES
CATEGORIA ELEMENTOS DE ANÁLISE
ENTRAVES NO CUIDADO INTEGRAL
Relações conflituosas da concepção individual dos processos no modelo da integralidade; o acesso à assistência; a não percepção de que as diferenças podem existir e fazer parte das relações e no modo de vida das pessoas; limitação profissional em assumir compromisso com funções que lhe são cabíveis; carência de recursos materiais e de pessoal para atividades extramuros; deficiência de iniciativa no trabalho; conflito de poderes na indefinição do papel de cada profissional nas equipes; capacitação deficiente para atividades nos processos internos; resistência em querer aprender o “algo mais”.
Quadro 4: Identificação dos eixos temáticos, suas categorias e respectivos elementos de análise.