Uma ampla discussão anda em curso no meio acadêmico com respeito ao acesso livre no ambiente da comunicação científica. O Open Access, como é denominado o movimento, articula um importante conjunto de iniciativas que cerram fileiras em torno da promoção do livre acesso à produção científica. Estas iniciativas convergem em interesses subscrevendo os esforços de organizações nacionais e internacionais, Editores, indivíduos dentre outros. (SILLÓ, 2005)
Segundo Meadows (1999), o ambiente criado pelos meios eletrônicos proporciona uma comunicação mais democrática e estimula a colaboração no meio científico. A fala do autor cristaliza-se no movimento Open Access e nos Arquivos Abertos.
Porém, enquanto o acesso livre se consolida como novo modelo para disseminação da informação científica, muitas questões não resolvidas
permanecem tais como, indexação, fatores de impacto, arquivamento e a estabilidade do novo modelo de publicação para a literatura científica, conforme aponta resultado de um estudo realizado no Reino Unido em setembro de 2008 (RCUK, 2008). O movimento do acesso livre tem experimentado grande repercussão em todo o mundo, especialmente na Europa, envolvendo comunidades acadêmicas, editoras e outras organizações de pesquisa científica. (SILLÓ, 2005; KURAMOTO, 2008)
O movimento do Acesso Livre teve como marco inicial o encontro promovido pelo Open Society Institute (OSI)38 na cidade de Budapeste, Hungria, em dezembro de 2001. O objetivo da reunião foi acelerar o progresso através de um esforço internacional para disponibilizar gratuitamente na Internet artigos de pesquisa em todas as áreas acadêmicas. Os participantes representaram muitos pontos de vista, disciplinas acadêmicas, nações, e dispunham de experiência com muitas das iniciativas já em andamento as quais compunham o movimento de acesso livre (BUDAPEST... [2001])39. Tratou-se, portanto de uma iniciativa destinada a unir esforços convergindo objetivos de iniciativas de livre acesso.
A facilidade em disponibilizar conteúdos na web, o monopólio extorsivo de grandes editores e o conseqüente elevado custo das publicações periódicas foi o fermento principal desse movimento. A literatura aponta o repositório ArXiv40, como sendo o pioneiro do acesso livre que já no ano de 1991, disponibilizava produtos acadêmicos, livre de barreiras de acesso. Segundo Peter Súber (2004) o ArXiv foi criado por Paul Ginsparg e é um dos mais antigos arquivos de acesso livre de que se tem notícia. O ArXiv disponibiliza textos nas áreas de física, matemática, ciência da computação, entre outras, de forma gratuita na rede. O sistema opera com base em protocolo de Open Archieve Initiative (OAI)41, o que possibilita a sua indexação a partir de outros mecanismos de busca.
38http://www.soros.org/
39 http://www.soros.org/openaccess 40 http://arxiv.org/
Autores como Peter Súber e Steven Harnad, que figuram como os autores mais citados na temática sobre o acesso livre à informação, transformaram seus pontos de presença na Internet em verdadeiros bunkers de onde travam luta cerrada a favor do Livre Acesso. Estes websites42, onde os interessados podem encontrar informações e documentos sobre o Open Access, se constituíram como importante biblioteca de referencia e fontes pesquisadas para a elaboração de trabalhos científicos. Dos endereços citados é possível também acessar links de iniciativas internacionais signatárias do movimento.
Súber empenhou-se em construir um registro historiográfico, arrolando eventos situados cronologicamente antes dos anos 90 que compõem os antecedentes que marcaram a criação do movimento do Acesso Livre. Entre as efemérides citadas encontra-se a própria criação da Internet, seguida de uma série de momentos relevantes que se estende até o ano de 2007.
Já Harnad construiu um repositório através de ferramenta de Blog que ele intitulou de Open Access Archivangelism com sua produção acerca do assunto. O autor inclusive faz uma contribuição conceitual ao movimento, nomeando as infovias das publicações de acesso livre que são Green Road e Golden Road (em português adotado como Via verde e Via dourada). As referidas denominações são amplamente utilizadas por diversos autores que abordam o assunto. Denomina-se de Via dourada, em linhas gerais, os periódicos de acesso livre e Via verde, os repositórios institucionais onde a prática de auto-arquivamento é predominante.
De acordo com Súber (2007), tão logo a publicação de conteúdos na Internet tornou-se possível, os primeiros esforços em promover a comunicação científica começaram a surgir. O desenvolvimento dos Open Archives enquanto estrutura tecnológica surgiu do movimento do Open Access. Um estudo elaborado por Súber intitulado “The time line of the open access movement” mostra que as primeiras publicações na Internet antecedem o próprio surgimento da Web já nos anos 60. Como
42 Peter Súber - http://www.earlham.edu/~peters/hometoc.htm Steven Harnad - http://openaccess.eprints.org/
exemplo dessas iniciativas estão o Medline em 1966, Request for Comments em 1969, The Public-Access Computer Systems Review em 1989, Psycoloquy também em 1989, dentre vários outros que foram surgindo com o passar dos anos.
Segundo Harrison (1991), os anos de 1980 testemunharam o início de uma revolução da comunicação científica com o crescimento da Internet, das redes locais de computadores e com o incremento da produção acadêmica. A autora relata ainda que uma forte razão para achar que a nova mídia eletrônica se consolidaria no futuro era a rapidez de resposta que o novo meio proporcionava, e ainda o fato destes representarem redução de custos e mais liberdade em relação aos editores. Tratava-se de uma alternativa viável para tornar a produção científica um bem público, assim como os recursos que fomentam a sua produção. Não fazia muito sentido conferir as editoras o lucro sobre a comercialização da produção científica uma vez que os autores forneciam seus textos gratuitamente e estes por sua vez tinham recebido financiamento de instituições públicas, tais como universidades e agências de fomento para realização de pesquisas e conseqüentemente a produção do conhecimento.
Muito embora vários cientistas advogassem na época a favor da comunicação livre e on-line, muitos autores resistiam em publicar sua produção nestes novos canais. O computador e a Internet serviam principalmente como canal informal de comunicação, onde se esboçava uma nova forma de colégio invisível, mas que à época ainda possuía restrições de alcance devido ao baixo status de credibilidade.
Naturalmente para publicar os resultados de suas pesquisas, desconfiados, os autores preferiam ainda canais formais como livros e periódicos, por estes, terem, até então, maior alcance e confiabilidade enquanto canal de comunicação científica.
Esta resistência se deu de forma diferenciada em cada área do conhecimento. Naquelas onde a obsolescência do conhecimento era mais dinâmica, exigindo, portanto, maior rapidez de comunicação, o meio eletrônico rapidamente se consolidou como ambiente de publicação. As
áreas de física e matemática são um bom exemplo deste pioneirismo com a rápida adesão ao ArXiv, logo após seu aparecimento em 1991. Nas áreas das humanidades, segundo observou Harrison (1991), por se tratar trata de uma área onde a construção do conhecimento se sedimenta de forma cumulativa e mais lenta, o processo de adesão a comunicação eletrônica se deu mais devagar.
Em muitas disciplinas das ciências sociais e humanidades a comunicação informal pode desempenhar um papel mais importante na geração de novas idéias do que a divulgação de resultados parciais de investigações em curso. Modo geral a publicação de artigos é tida como uma contribuição de valor secundário quando comparado ao livro. Neste sentido, nessas disciplinas as revistas eletrônicas nunca poderiam atingir o mesmo nível de credibilidade que o material impresso.(HARRISON, 1991)
Harrison apóiava-se em Katzen para sugerir a existência de uma tendência na qual, as funções da comunicação científica estaria, aquele momento, suscetível de ser dividida entre a mídia impressa e a mídia eletrônica. Neste caso, a revista eletrônica funcionaria apenas como veículo de divulgação do que se estava discutindo no meio científico, ao passo que o meio impresso seria realmente o que serviria como aporte teórico, digno de citação nos trabalhos acadêmicos, uma vez que seria difícil para os estudiosos das humanidades quebrarem sua fidelidade para com o impresso.
Os periódicos eletrônicos eram vistos como efêmeros desconfortáveis para leitura e os autores temiam ainda que seus textos fossem deturpados com o processo de divulgação. Por essa razão, estas revistas seriam adequadas para refletir o que é transitório no conhecimento, o que é permanente e tem autoridade deveria ser preservado para impressão.
Nos anos 90, depois de suscitar acalourado debate acerca da sua validade como de comunicação científica, a publicação eletrônica começava a se consolidar. O preço das publicações científicas praticados pelas editoras começava a se tornar verdadeiras barreiras ao acesso à produção científica (HARNAD, 2007; KURAMOTO, 2008). As bibliotecas
começavam a ter, cada vez mais, dificuldades para promover o acesso as fontes de informação periódica, especialmente aquelas veiculadas em meio eletrônico. Nesse época, para otimizar o uso de seus recursos, começam a surgir os consórcios entre bibliotecas.
Diante do impasse, da necessidade de promover o uso dos canais de informação eletrônica, de fortalecer o seu uso e aceitação pela comunidade científica, realizou-se em 1999, na cidade de Santa Fé no México, um evento que ficou conhecido como a Santa Fé Convention. Este evento foi organizado com o objetivo de discutir e deliberar sobre a criação de padrões que possibilitasse a integração das iniciativas dos e-prints. Segundo Sompel e Lagoze (2000) o protótipo testado integrava em um único sistema os seis dos principais arquivos então conhecidos:
1. arXiv.org43 (Los Alamos E-Print Archives);
2. Cognitive Sciences Eprint Archive44 (CogPrints);
3. Digital Library for the National Advisory Committee for Aeronautics45 (NACA);
4. Networked Computer Science Technical Reference Library46
(NCSTRL);
5. Networked Digital Library of Theses and Dissertations47
(NDLTD);
6. Research Papers in Economics48 (RePEc).
O protótipo acabou por originar o Open Archive e o estabelecimento do Open Archive Initiative (OAI) que nos anos seguintes constitui-se na base para promoção do movimento do acesso livre, sobre o qual discorreremos a seguir.
43 http://arxiv.org/ 44 http://cogprints.org 45 http://naca.central.cranfield.ac.uk/ 46 http://www.ncstrl.org/ 47 http://www.ndltd.org/ 48 http://repec.org/