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A ética que resulta de uma teologia mecanicista de causa e efeito, em que a realidade da vida é pensada de forma esquemática, privilegia os que tiveram sorte na vida e despreza os desafortunados. É uma ética classista porque não contempla a pessoa humana na sua mais ampla complexidade; não resulta do ethos, masvem pronta, pré-fabricada; não conta com o imprevisível, porque tem que dar respostas calculadas e adequadas ao status quo daqueles que controlam o saber.

Os amigos de Jó, em nome da sabedoria, discursavam fundamentados em uma ética de cartilha, aprendida e decorada na escola tradicional da ortodoxia, enquanto Jó procurava respostas em meio ao sofrimento que havia se juntado ao da sua dor física: o do conflito gerado entre sua fé, sua ética e Iahweh. Da experiência, Jó aprende uma nova ética, a da gratuidade, e sua fé é provada e aprovada até poder contemplar Iahweh diretamente: “(..) mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5). Seus amigos teólogos não vivem nenhuma experiência, nada aprendem, apenas trazem consigo uma teologia acadêmica, uma teologia de gabinete. Eles, que se percebiam superiores, capazes da dar respostas a qualquer situação, arrogantes, foram desmascarados, humilhados e socorridos pela oração de Jó (cf. Jó 42.7-9). Os amigos realmente falam sobre Iahweh e sua justiça, mas sabem quase nada a respeito do

282 Cf. GUTIERREZ, G., Falar de Deus. op.cit. p. 119. 283

Cf. Ibid.

284

viver com Iahweh e do agir de seu Deus, e poucos dizem ou parecem saber sobre o ser humano e suas carências. Configuram um discurso ético capenga, unilateral e injusto. Não fosse a fala da sua mulher (2.9) com suas inquirições e coragem para contestar, não prevaleceria finalmente a ética na qual a solidariedade, o amor a Deus e a dignidade humana tornam-se os fundamentos para se ter algo a dizer que faça sentido para o justo sofredor.

De fato, a Teologia da Retribuição tem uma lógica no seu método e pensar, quando vista em seu aspecto de consequência possível, não, porém, no sentido de uma verdade absoluta285.

Mesmo a conhecida afirmação do apóstolo Paulo, de que “(...) aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7), não se remete a uma lei rígida de causa e efeito. Senão, como explicar suas prisões, açoites, apedrejamentos, naufrágio, fome, sede, nudez, etc (cf 2Co 11.16-33)? Seriam tais acontecimentos de sua vida consequências de algum pecado não confessado? Certamente, não. O próprio apóstolo entende tudo isso como fraquezas, através das quais Deus aperfeiçoa nele o seu poder, e conclui: “(...) Porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza [...] Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12. 9,10). A graça de Deus era o seu alento (v.9).

Há um detalhe no princípio da semeadura286 que não pode ser esquecido quando aplicado à distribuição da justiça: o que se planta será colhido de volta pela força da natureza da semente plantada. Mas, não é verdade que tudo o que se colhe foi plantado um dia. Principalmente, quando se entra no âmbito das relações humanas, não se pode aplicar cegamente a lei de causa e feito, como peso e medida pré-estabelecidos, a fim de fazer a distribuição da justiça; nem através dela tirar certas conclusões, partindo do que se observa nas experiências dos outros. É preciso considerar cada caso no seu contexto e perceber o ser humano em seu contexto histórico, social, psicológico e religioso específico. Coisa que os amigos de Jó não fizeram.

Devido ao fato de que a Teologia da Retribuição não pondera suas reflexões a partir do ser humano e em seu contexto de vida, mas, sim, a partir de um esquema teológico já pronto, chegou-se à cristalização de uma concepção mecanicista de causa e efeito. Isso contribuiu para a construção de uma teologia maniqueísta, porque trata de um Deus previsível, cujas ações estão condicionadas por dois princípios que se digladiam: o bem e o

285 Comparar Gl 6.6-10 com Ez 18; Jo 9.2,3. 286

O apóstolo Paulo usa o Princípio da Semeadura em seus ensinamentos para transmitir a idéia de investimento e retorno no reino de Deus (cf. 1 Co 9.11; 15.42; 2 Co 9.6,10 e Gl 6.7).

mal; de uma antropologia simoníaca (um ser humano que pode controlar Deus) e de uma ética mecanicista (um agir humano a partir de uma lei causal rigorosa).

Este tripé – o Deus previsível, o ser humano todo-poderoso e lei causal rigorosa – sobre o qual a Teologia da Retribuição desenvolveu sua doutrina, foi combatido pelas mulheres no pós-exílio. É o que se pretende abordar no próximo capítulo.

Capítulo 3 -A mulher no pós-exilio e o grito da mulher de Jó contra a

Teologia da Retribuição

Neste último capítulo será apresentado o resultado dessa pesquisa afirmando que a mulher no pós-exilio realmente gritou contra a Teologia da Retribuição. Será analisada também a vida social da mulher no pós-exílio, a vida da mulher na sociedade de Judá, a influência das Deusas, a vida da mulher do pós-exílio na comunidade de Elefantina, sua religiosidade, tempo e lugar, as mulheres de Jó, o paralelo com as mulheres em Gênesis e o grito contra a Teologia da Retribuição.

Um dos autores bem conceituados sobre esse período pós-exílico foi o Albertz287, que produziu um material monográfico sobre Jeremias, Salmos, Daniel e apocalíptica, além de estudos sobre o livro de Jó, do qual há maior interesse devido ao tema de pesquisa. Para a formulação de seu caminho metodológico288, ele reflete sobre um conjunto de proposições que considera importante. Segundo ele, uma história da religião de Israel: deve colocar numa perspectiva histórica, sem levar em conta nenhum princípio dogmático; deve apresentar como um processo aberto que conduz a estágios posteriores do judaísmo e cristianismo; não deve apresentar como uma mera história das idéias ou como uma história do espírito; deverá incluir além da história política, também a história social do povo; deverá apresentar a multiforme riqueza de expressões religiosas e concepções teológicas em seu contexto histórico e histórico-social, como colocá-las em mútua comunicação teológica; deverá estar orientada em uma linha de comparação religiosa e conceder ao período pós- exílico toda a importância que realmente lhe corresponde.

O período imediatamente posterior ao exílio parece ter sido, em alguns aspectos quanto à situação das mulheres, semelhante à época pré-estatal, pois o colapso da monarquia e do templo reabriu, por um breve tempo, espaços de liberdade para a mulher. E isso aconteceu até o pós-exílio onde os papéis sociais precisaram ser definidos de modo novo e diferente.

287

ALBERTZ, Rainer. Historia de la religión de Israel en tiempos del Antiguo Testamento, volumen II, Desde el exilio

hasta la época de los Macabeos. Traducción de Dionisio M ínguez. Editorial Trotta, 1999, pp. 567-588.

288

ALBERTZ, Rainer. Historia de la religión de Israel en tiempos del Antiguo Testamento, volumen I, De los comienzos

3.1 A vida social da mulher no pós-exílio

No pós-exilio, devido a grande destruição ocorrida e extradição de familias, a vida social da mulher teve mais mudanças ainda. As situações de propriedade precisaram ser ordenadas novamente; as mulheres e os homens repatriados da golah, legitimadas por genealogias (cf Ne 7), reclamaram pela sua casa e sua terra, onde há muito tempo já viviam outras famílias que haviam ficado. Novas casas precisaram ser construídas. Havia um desnível social entre as remanescentes e as israelitas da golah, que não voltaram de mãos vazias enquanto que as remanescentes estavam passando dificuldades. É possível que as descrições dramáticas de miséria e desabrigo dos/das pobres em Jó (1-2; 24,2-14 e 30,2-8) descrevam essa situação depois do exilio. A terra está sob dominação persa; as duas províncias Judá e Samaria, administradas por governadores.

Segundo Schroer289, o Trito-Isaías retoma a crítica social tradicional dos profetas. Existem no país pessoas famintas, sem teto, sem roupa (Is 58; cf Jó 1-2; 24.2-14; 30.2-8). Iahweh coloca-se ao lado dessas pessoas massacradas e humilhadas (58.15) e espera solidariedade de todos/as os/as israelitas para com seus/suas companheiros/as do povo empobrecido. A mensagem do Trito-Isaías para os empobrecidos/as está cheia de consolo. Também esses missionários e missionárias tão próximos/as do povo incluem homens e mulheres em sua linguagem religiosa e passaram a se referir a Deus como mãe (66.13) ou como pai no qual se pode confiar (63.16; 64.8). Para eles/as, a justiça social (57.1;58) é mais importante do que um novo templo (66.1), os/as miseráveis e os/as que estão de luto devem ser chamados de sacerdotes de Iahweh (61.6), o culto de Iahweh deve estar aberto aos/às estragneiros/as e todos os povos (56.7) . Está indefinido se a descrição de problemas sociais em Pv 1-9 (Por exemplo, 3.27-29) e no livro de Jó (1.1-22-2,13;24) deve ser datada justamente nesse tempo do novo começo ou num período posterior.

No fim do livro, na reabilitação de Jó, são mencionadas explicitamente e por seus nomes as filhas de Jó, que recebem uma parte da herança no meio de seus irmãos (42.13-15) que diz:

“Também teve sete filhos e três filhas. E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quéren-Hapuque. E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes

deu herança entre seus irmãos”.

289 SCHROER, Silvia, SCHOTTROFF, Luise, WACKER, Marie-Theres, Exegese Feminista. Resultados de

pesquisas bíblicas a partir da perspectiva de mulheres. Tradução de Monika Ottermann. São Leopoldo/São

Essa notícia deve ser vista em relação com as leis do Escrito Sacerdotal sobre a lei da herança em Números (27 e 36), onde é registrado que Macla, Noa e Hogla, Milca e Tirza, as filhas de Zelofeade, entregam uma reinvindicação ao Supremo Tribunal, exigindo ser reconhecidas como herdeiras, uma vez que seu pai não tivera filhos. A reinvindicação é aceita. Mas numa posterior reedição da lei acrescenta-se a limitação social de que tais mulheres com direito a herança podem casar somente com homens da própria tribo, para que não se perca a terra de herança.

As relações sociais continuam marcadas por graves injustiças. Em Neemias (5), principalmente as mulheres do campesinato pobre reclamam junto ao governador. Elas precisam penhorar seus filhos e suas filhas, roças, vinhas e casas para poder comer ou pagar os impostos. Os judaítas abastados tiram proveito da miséria e acumulam riqueza.

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