O motorista de Zé Vieira era motorista dele, da família e do Jornal. A rotina do jornalista começava sempre – e sempre incluía domingos e feriados, às seis horas. Às seis e meia era hora de levar os filhos mais velhos ao colégio – uma ao colégio das irmãs; outros dois ao Diocesano. Às sete e meia, Dona Eunice ao IPASE. O restante da manhã, conduzir Zevieira pelas secretarias de Estado e a outros clientes. Ao meio dia levar zé Vieira para casa, onde almoçava sem falta, todo dia, na companhia do filho Paulo, o motorista almoçava no mesmo horário, e na maioria das vezes levantava da mesa da cozinha e entrava no carro mastigando, porque o patrão acabava de comer, levantava da mesa da copa, pegava o chapéu de massa na sala, colocava na cabeça e andava decidido para a rural, onde sentava em silêncio e atolava o dedo na buzina, zangado, a modo de chamar o motorista de ‘lerdo’.212
Da cidade vista em Raios X,213 Teresina passa a ser visitada em seu cotidiano. A citação trata da rotina de um jornalista chefe/diretor de Redação de um dos jornais mais importantes da cidade entre 1957 a 1985. Esta cena veio a texto somando-se às instigações estimuladas a partir das charges e cartuns publicados no Jornal Retranca, por seu cartunista Paulo Moura, que retrata as cenas do viver na redação pelos jornalistas de Teresina. O cartunista deixa as marcas das cenas do trabalho, fundindo ironicamente máquinas e homens. Duas chamam a atenção: um jornalista meio homem, meio computador, outra o jornalista todo interligado a fios e estímulos elétricos ligados aos terminais de uma máquina. Cenas de um maquinismo agora impregnado
212 CHAVES, Paulo. O homem e o jornalista: José Jornal Vieira do Piauí Chaves. Teresina: Copyrigt by Paulo
Chaves, 2013. p. 57. José Vieira Chaves, nascido em 13 de fevereiro de 1913, foi destaque na História do Jornalismo no Piauí. Atuou no Jornal do Piauí entre 1957 a 1983. A sua formação escolar correspondeu ao Ensino Primário como se chamava à sua época. Autodidata, começou como marceneiro, depois funcionário público. Posteriormente como revisor de textos nas redações de jornais locais na década de 1930. Fez parte do ciclo de amizades de José Camillo da Silveira Filho, Lourival Sales Parente (engenheiro que comandou as grandes obras que simbolizaram a modernização de Teresina), A. Tito Filho, Joca Pires (ex-governador), jornalista Deoclécio Dantas, do ex-presidente do SINDJOR-PI José Lopes dos Santos, este secretário de comunicação dos governos Dirceu Arcoverde e Bona Medeiros. Faleceu em 1983.
213 Metáfora relacionada a antiga técnica usada para visualização médica de ossos do corpo humano acometidos
de uma fratura. Via-se apenas a ossatura. Tecnologia ainda eficaz, hoje usada com muita frequência, mesmo com o aparecimento da tomografia computadorizada.
da simbologia do computador que assustava gerações dos anos 1980. Cenas dignas de comparação dos maquinismos que assustavam as cidades, até mesmo simbolizadas com requintes do moderno, como São Paulo, nos frementes anos 1920 narradas por Sevcenko (Figuras 2 e 3).214
Neste momento, essas cenas circulam pela cidade, fundindo-nos à sua musculatura irrigada por veias e vasos ciliares que também nos conduzem às suas áreas epidérmicas. Procura-se evitar o movimento de seus nervos, para que a própria narrativa que se segue consiga expor esses movimentos.
Por mais que esta pulse de suas veredas, entre imagens e narrativas da cidade de Teresina, se faz necessário trazer mais interlocutores. No caso, Rezende, que proporciona um recorte temporalmente diferente do nosso, ao trazer à cena da História tensões vividas por Gilberto Freire e Joaquim Inojosa, o historiador, sem se atrelar às teses de Freire na sua
214 SEVCENKO, Nicolau. Os maquinismos de uma cenografia móvel. In: Orfeu extático na metrópole: São
Paulo sociedade e Cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 89-154. Figura 2 - Linotipo Figura 3 - Jornalista versus Computador
Fonte: Imprensa. Teresina, Retranca, ano III, n. 10, 11 a 25 jun. 1989, p. 4. Paulo Moura ilustra os tempos da linotipo em artigo publicado por A. TITO FILHO.
Fonte: Teresina, Retranca, ano III, n. 3, jan./set. 1988, p. 9.
totalidade. Assim, chama a atenção para o modernismo autônomo de Freire. Sente-se Rezende sinalizar para possíveis sentidos da História, que possam se mostrar resistentes ao que seja unanimidade. Freire se deu o direito de não se colocar integralmente aos ventos que sopravam da cidade de São Paulo, por conta dos acontecimentos da Semana de Arte Moderna realizada em 1922. — Não estaria em Gilberto Freire um traço da modernidade que tão bem caracteriza os tempos modernos e a modernidade que busca autonomia? Freire se “deixa levar” pelas veredas de uma Recife menos máquina, menos mecânica, valorizando aspectos pitorescos, no entanto sem deixar de ser moderno.
Feitas as considerações anteriores, não estaria A. Tito Filho, em “Teresina meu amor”, se dando a chance de autonomamente caminhar pelas ruas em leitos de uma modernidade de águas mais calmas? Estaria o viajante da cidade verde, também autor de “Sermões aos peixes”, se dando o direito de viajar pelos leitos, “ruelas”, veredas mais calmas da cidade verde, seguindo com mais vagar?
A. Tito Filho tem um traçado biográfico polêmico ao ser acusado de ter contemporizado com os militares, por ter transitado livremente nas administrações de governos do Regime instaurado no pós-64. Distante de Fontes Ibiapina, o romancista de Palha de Arroz, que retrata uma Teresina angustiada por seus arrabaldes, marcados pela pobreza, o foco de A. Tito Filho é se estribar nas águas mansas de uma outra cidade, como os rios Poti e Parnaíba, quando estão longe de seus períodos de cheias. As relações com a nova geração dos anos 1980 se mostram tensas; Tito Filho se nega a renovar a sua carteira de jornalista, mas nunca se negou a participar dos vários encontros de jornalistas realizados a partir dos anos 1980. Não fugia da raia do debate, razão pela qual tenha sido valorizado no próprio Retranca, ao ser chamado para ajudar na reconstituição da memória jornalística da cidade. Um desses entrevistadores pergunta-lhe, à queima roupa, por que ele havia apoiado o regime militar.
Desde a década de 1950, a imprensa nacional, através dos diários de notícias e revistas de circulação nacional como Manchete e Cruzeiro, passa a projetar bens de consumo, tais como as vespas, lambretas, os televisores com tecnologia em tubos de imagens, tais como TVs Philco e Colorado RQ. Teresina não demora muito em receber as concessionárias de automóveis, como a VEMOSA, por exemplo, esta representante dos famosos fusquinhas; e a Machado Veículos da desejada Rural. O automóvel não se constituía tão somente como “bem de necessidade”, mas confundia-se como referencial de status social. O Maverick, sonho distante dos jovens, mas viável se pertencente a uma família de classe média bem consolidada (Figuras 4, 5, 6).
Fonte: AFONSO & FEITOSA, Teresina, 2010. p. 38-39.
Os passeios de automóveis se enquadraram como sinônimo de lazer, através dos Jeeps ou das Rurais de cor azul cintilante. Os motoristas de praça, hoje taxistas, desde a implantação do taxímetro, faturavam pela corrida, por uma visita a um amigo, ou outras demandas de sociabilidades. A malha urbana uma estendida, com o surgimento dos conjuntos habitacionais de longas distâncias em relação às agências de ônibus situadas em torno da Praça Saraiva. Um redemoinho humano, bem diferente dos embarques a vapor, como narra José Auto de Abreu, pelas comemorações dos 120 anos de Teresina. Se Teresina nos anos 1920 se perdia dos grandes centros urbanos, como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, as distâncias a serem vencidas em 1972 seriam aquelas que separavam periferia / centro da cidade. A invasão das ruas pelos automóveis tornou-se inevitável. O azul cintilante das Rurais se confundiam com o céu azul da cidade. Segundo o jornalista Paulo Chaves, Zevieira possuiu uns dez destes automóveis, ao
Fonte: O Dia, Teresina, 25 fev. 1954, p. 4.
Fonte: AFONSO & FEITOSA, Teresina, 2010. p. 38-39.
moderna Figura 5 - Documentos de arquitetura moderna
longo da carreira jornalística. Na porta do veículo estava o desenho da logomarca de nome: Jornal do Piauí.
Jogos ao final das tardes de domingo nos estádios de futebol Albertão ou Lindolfo Monteiro, Tertúlias nas residências, sob os sons tocados nas vitrolas. As músicas mais tocadas faziam parte de uma cultura de massa já fortemente simbolizadas na figura de Roberto Carlos, Wanderléa, e toda a Jovem Guarda. Rádio e Televisão que se massificaram definitivamente nas tardes de sábado com o Cassino do Chacrinha, fenômeno de audiência desde os anos 1950; por isso mesmo passou a ser conhecido como Velho Guerreiro. Em meio a este fenômeno cultural de massas, começava a se formar uma geração de jornalistas, que curtia de Caetano Veloso – anos 1960 e 1970, “Sem lenço e sem documento” – a Vital Farias nos anos 1980. Não demorava a surgir a “Manga Rosa” de Alceu Valença, desejando mel de toda flor, junto de uma geração que dava sinais de que correria atrás do Trio elétrico de Morais Moreira. Já havia uma massa suficiente para se olhar a cidade de cima das antenas de TVs.
O jornalista e cartunista Albert Piauí, irritado com esta cultura de massas, tenta situar Teresina no cenário internacional, com o evento Salão “Internacional do Humor”, e o Projeto “Seis e Meia”, com nomes marcantes da MPB. O Salão de Humor conta com a presença marcante de Ziraldo e outras personalidades do humor nacional, internacional, e local, destacando-se Paulo Moura, entre outros. O Salão em suas primeiras versões chama a atenção da mídia nacional. De Cidade Verde, Teresina sai do estágio de Cidade Menina, para alçar voo rumo à cidade metrópole nas décadas de 1970 e 1980 - surge a “Região Metropolitana da Grande Teresina” aprovada por projeto de lei no Congresso Nacional.