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Produits chimiques

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P ARTIE E XPERIMENTALE

IV. Produits chimiques

Figura 6 – Capa 3

Fonte Revista Mundo Estranho, n. 181, jun. 2016.

A categoria ora analisada diz respeito ao conteúdo mistério. Nessa categoria, foram selecionadas quatro capas de revistas, visto que se enquadravam no enunciado, cuja recorrência temática refere-se aos fatos históricos com um aspecto

de mistério. Em termos de análise, selecionamos a capa de revista referente ao mês de junho/2016, dentre as quatro coletadas. Partindo do pressuposto teórico- metodológico, a imagem foi elaborada com o intuito de manter o dialogismo em vários níveis, uma vez que a imagem busca uma interação entre a linguagem verbal e visual a fim de informar ao seu público leitor sobre a reportagem-chave da revista.

Inicialmente, percebemos na capa dessa edição a referência a uma das organizações secretas que reverbera o culto à liberdade, à fraternidade e à igualdade entre os homens: a Maçonaria. Para isso, a organização tem princípios fundamentados na tolerância, na filantropia e na justiça. O seu caráter secreto deve- se a perseguições, à intolerância e à falta de liberdade demonstrada pelos regimes políticos da época. Hoje, com os ventos democráticos, os maçons preferem manter- se dentro de uma discreta situação, espalhando-se por todos os países do mundo.

O termo maçonaria é de origem francesa, cujo significado é construção. Em relação às origens dos maçons, não existe uma voz homogênea, pelo contrário, é bastante controversa. Alguns historiadores defendem que a origem foi no Antigo Egito, outros relatam que foi nos tempos de Salomão, e outros ainda afirmam que surgiu no período do Iluminismo.

Sendo uma sociedade secreta, seus membros são aceitos por convite expresso e integrados à irmandade universal, por uma cerimônia denominada iniciação. Os maçons trazem consigo muitas simbologias. A disposição das cadeiras, o altar, os três degraus, a rocha bruta e a rocha polida, o compasso, o esquadro e o grande “G”, são alguns símbolos relacionados à maçonaria.

Em detrimento disso, para analisar o enunciado referente à categoria de conteúdo mistério, essa análise tomou como amostra a capa de revista que aborda vários elementos da maçonaria. A imagem primária da capa traz à tona duas colunas, que representam o suporte a uma estrutura superior e dão sustentação à obra. Nos templos maçônicos, eram utilizadas tanto colunas inspiradas no templo de Salomão quanto na arquitetura Grega. Na parte superior, está o “olho que tudo vê”, mais um elemento simbólico que indica aos maçons que o criador está vigilante a todos. Normalmente, o olho maçônico, também chamado olho da providência, tem um semicírculo de luz sob o olho.

Ainda referente às colunas, observamos outros ícones de poder estampado nas colunas. Na parte superior, do lado esquerdo, temos o triângulo isósceles usado por povos da antiguidade como símbolo do divino. No lado direito, observamos a

chave como símbolo muito comum nos graus maçons, pois ela é um símbolo de inteligência, prudência e discrição.

Seguindo a descrição dos elementos não verbais, observamos que, ao lado da imagem da chave, aparece um ramo de acácia, que representa para os maçons a imortalidade da alma, um dos preceitos da ordem. Na parte inferior do lado direito, encontram-se, ainda, as seguintes imagens: o nível (cujo significado para a maçonaria é de igualdade e justiça); em seguida, o problema de Euclides (representado por três quadrados), essencial ao trabalho dos pedreiros que deram origem ao grupo maçom.

Já a imagem central, exposta na capa de revista, é a representação do compasso, articulado ao esquadro e, na ponta do compasso, a presença do círculo. Além disso, de forma destacada no meio do compasso e do esquadro, temos a letra “G”. O compasso traz em si uma forte representação para a maçonaria, pois representa o plano espiritual. Somado a ele, temos a ocorrência do círculo, centralizado, pois o círculo traçado com o compasso representa as lojas maçônicas. Outro elemento diz respeito ao esquadro, ele é um instrumento da engenharia civil, resultante da união das linhas verticais e horizontais, mas, para o grupo maçom, representa o plano terreno e também a ação do homem sobre a matéria e a ação do homem sobre si mesmo. Semanticamente, ele representa a conduta, cuja obediência deve ser guiada pela linha reta. Além disso, simboliza a moralidade, a retidão e as coisas concretas do mundo.

No tocante à letra “G”, entre o compasso e o esquadro, não existe uma definição categorica quanto a ela. Ela é a sétima letra do alfabeto, considerado o número da perfeição. No entanto, uma das teorias vigentes diz respeito à afirmação de que começou nos locais de origem anglo-saxônica, simbolizando o grande Arquiteto do universo.

Outro símbolo atrelado à maçonaria é o piso xadrez. Esse piso não era simplesmente uma peça decorativa, visto que o pavimento mosaico tem uma simbologia para os maçons, é o chão de todos os rituais de lojas maçônicas. Além desse aspecto, o xadrez representa a dualidade entre o bem e o mal.

Somados a esses elementos não verbais na capa, logo abaixo da foto principal, temos a manchete “SEGREDOS DA MAÇONARIA” em caixa alta, cujo objetivo é colocar em evidência a manchete da revista; e o resumo da notícia “Descubra o que rola entre portas fechadas na sociedade que há séculos influencia a história. Os símbolos misteriosos, os rituais, as teorias da conspiração sinistras e

muito mais!”, cujo objetivo é explicar e comentar de forma sintética a imagem ilustrativa da publicação.

Desse modo, a revista construiu uma imagem manipulada/trabalhada com um dos símbolos da maçonaria, o compasso, com predominância da cor amarela. Esse tom ocupa a maior parte do espaço compositivo, tanto do elemento verbal (o título da revista) quanto do não verbal (imagem principal centralizada em destaque). Depreende-se que foi tratada pelo design com o objetivo de construir um sentido para o leitor. Nesse caso, a cor é mais uma fonte para a construção de sentido, pois “a cor está, de fato, impregnada de informação, e é uma das mais penetrantes experiências visuais que temos todos em comum” (DONDIS, 2007, p. 64).

Além do fato de a imagem central está vinculada à cor amarela, concebe-se que isso não é uma escolha aleatória por parte do grupo de design da revista. Esse tom de cor remete à luz e ao calor, e não somente isso, tratando-se das relações de analogia, a função da cor amarela, especificamente na imagem central da capa, é de remeter ao ouro, cujo sinônimo representa a riqueza e o dinheiro. Esses elementos estão correlacionados com a maçonaria. Nesse caso, o efeito de sentido está associado não apenas à cor mas também ao conjunto de outros elementos visuais e verbais. A analogia metafórica de riqueza é também construída no próprio título da revista, ao apresentar um tom dégradé nos tons de laranja e amarelo, cujo significado também remete à riqueza e à prosperidade.

Estabelecendo o diálogo entre os elementos verbais e não verbais presentes no enunciado, apontamos que a questão abordada neste estudo é que a revista, como produto final, seria um simulacro de um produto real. Dessa forma, para que ocorra o projeto de dizer, faz-se necessário articular os elementos verbais – como a manchete e o resumo da notícia – com os elementos não verbais, ou seja, os símbolos maçons. Nesse caso, a alternância desses elementos é que garantirá, por parte do leitor, um conhecimento compartilhado, que permite a este um posicionamento de adesão ou não em relação ao tema da capa do mês. A adesão inicial se dará na medida em que o leitor opta por comprar a revista em detrimento do interesse por essa temática.

Sabemos que as relações dialógicas delineadas por Bakhtin ultrapassam o diálogo face a face e, por isso, o diálogo não é apenas representado em um enunciado por meio da alternância entre as vozes. Pensando no nosso objeto de análise, concluímos que as relações dialógicas desenhadas na capa de revista buscam um diálogo entre diversas vozes, ou mesmo conhecimentos compartilhados capazes de

produzir no leitor a construção de sentidos. Quanto ao horizonte dialógico, procuramos entendê-lo, conforme pontua Bakhtin, quando afirma que:

A palavra do autor, que representa e emoldura o discurso do outro, cria para este uma perspectiva, distribui sombras e luz, cria a situação e todas as condições para que ele ecoe, por fim penetra nele de dentro para fora, insere nele seus acentos e suas expressões, cria para ele um campo dialogante (BAKHTIN, 2015, p. 155).

A capa de revista é considerada um gênero discursivo secundário e tem a elaboração complexa e isso torna o processo de criação um grande desafio para a equipe envolvida na elaboração dela, uma vez que a capa é constitutiva de um enunciado concreto, na perspectiva bakhtiniana, pois traz um posicionamento e uma ideologia determinada.

A imagem apresentada na capa é uma representação de uma história real, alicerçada em símbolos cuja representatividade está traçada para revelar um mundo que, para muitos, ainda está permeada de mistério: a maçonaria. Apesar disso, para que o objetivo da capa seja alcançado, pressupõe que o leitor tenha um conhecimento prévio da temática exposta, ou seja, ele precisa ter um referencial. Para isso, o leitor deverá estabelecer conexões dentro do enunciado com todos os elementos que compõem a capa de revista.

Uma única capa reúne, em seu conteúdo, uma infinidade de elementos icônicos que proporcionam diversas informações para diferentes leitores. Essa possibilidade de leitura propicia análises e interpretações múltiplas, cuja relação dialógica fica a critério do repertório cultural e da ideologia de cada leitor.

Desse modo, as imagens dos símbolos maçônicos que se apresentam de forma separada, ao ser articuladas com a manchete e com o resumo da matéria, acabam por, juntas, formar um enunciado concreto que, dependendo do leitor, terá um sucesso maior do que outro. Conforme ressalta Puzzo (2009, p. 130):

A articulação entre a linguagem verbal e a visual, além de atrair a atenção do público, despertando o desejo de compra e propiciar a apreensão imediata dos assuntos tratados na revista, exerce o poder persuasivo, levando-o a encampar as ideias subjacentes ao enunciado expresso.

Cada um dos elementos ilustrados na capa é responsável por fazer menção a um conteúdo histórico, ou seja, a um acontecimento ligado à história. Diante disso, as relações dialógicas estabelecidas para esse enunciado advêm de um conhecimento histórico compartilhado pelo leitor, no qual os aspectos verbais e não

verbais tornam-se fundamentais para a construção de sentidos. O desejo em adquirir a capa perpassa pelos diversos fios dialógicos que conduzem o leitor a uma interação com a temática exposta em cada capa de revista. Diante disso, as relações dialógicas estão intrinsecamente ligadas ao conjunto verbo-visual. Separadamente, esses elementos não dialogariam como enunciado concreto e, mais ainda, dificultariam a compreensão do leitor diante da capa de revista.

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