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Os depoimentos póstumos de amigos, admiradores e de inimigos políticos oferecem uma série de indícios que permitem analisar aspectos de sua pessoa e personalidade tanto pu- blica quanto privada. Cada um desses discursos se alinha a alguma instituição o que deixa a mostra as ligações entre elas e determinadas correntes políticas, ou um uso político do passado

10 Entre os textos que compõe essa historiografia sobre o período final da republica velha História de

uma campanha (2008) de Edgar Barboza; O caso da República Velha no Rio grande do Norte (1992) de Adauto da Câmara; como exerci meu governo (1934) de Dioclécio Duarte.

através da construção de uma figura monumental. Encontramos esses nos livros Juvenal La-

martine de Faria 1874/1956 (1994) publicado pala Fundação José Augusto em homenagem ao

centenário de Lamartine e Do sindicato ao catete (1966) publicado pela editora José Olímpio. Um dos discursos contrários a Lamartine é o livro de memórias intitulado Do sin-

dicato ao catete (1966) de João Café Filho que relata as duras perseguições que sofreu por parte

dos partidários do governador Lamartine em mais de uma ocasião. Ele conta como em 1928 ao tentar eleger-se vereador por Natal enfrentou duras sanções por parte do governador.

Em 1928, tentei de novo, a sorte nas urnas, apresentando-me, com Pedro Dias Guimarães e outros, candidato a vereador em Natal. No dia da eleição, funci- onou, como sempre, o regime de distribuição de cédulas por funcionários do governo. Um dos meus eleitores recusou a cédula dos candidatos do oficia- lismo.

–– Ah! você vai votar com a oposição? –– São meus amigos – explicou o eleitor.

–– Pois tome cuidado. Amanhã mandarei cortar a luz na sua padaria... O funcionário encarregado de controlar o eleitorado, era um dos dirigentes da empresa de energia elétrica, e irmão de Juvenal Lamartine, então Governador do estado.

[...] Mesmo sob esse sistema de coação, vencemos o pleito. A oposição elegeu a maioria da Câmara Municipal, O Governo do estado, em represália pela der- rota sofrida, mandou queimar as atas eleitorais. O atentado foi executado pelo chefe político local, partindo as instruções dos chefes da oligarquia. (CAFÉ FILHO, 1966, p.51).

Antes, durante e após a deflagração da “Revolução de 1930”, a qual Café Filho era um apoiador, relata que sofreu diversos atentados da “policia” de Lamartine no intento de lhe tirar a vida. Tais narrativas buscam construir sobre Lamartine a imagem de um político impla- cável, acostumado a utilizar-se da violência para o controle do ambiente político. Ele é assim pensado como exemplo claro de político do que, para Café Filho, só poderia ser chamada de República Velha.

Essa narrativa é publicada pela Livraria José Olympio Editora na coleção dos do- cumentos brasileiros. Para Franzini (2006) essa coleção foi tida em sua época como um veículo de difusão de novas visões sobre o Brasil contando com autores das mais variadas orientações teóricas. Ela seria ainda fundamental para a ampliação do conhecimento histórico para além dos círculos do IHGB e das incipientes Faculdades de Filosofia. Olympio Pereira Filho, o idealizador da coleção, foi um homem que tinha boas relações tanto com os escritores quanto

com figuras de poder da época como Filinto Müller11, Lourival Fontes12 e o próprio presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954). Deste modo é possível pensar que a escolha dessa narrativa de Café Filho sobre o período faça parte de um processo de construção discursiva sobre a realidade na qual os vencedores de 1930 contam como se deram os fatos.

Em um tom totalmente oposto Nilo Pereira, ao receber Veríssimo de Melo na Aca- demia Norte-rio-grandense de Letras, em 1956, esboça a face de pioneiro de Juvenal destacando suas contribuições para o desenvolvimento das tecnologias que fizeram de Natal uma cidade a frente de seu tempo, para os parâmetros de modernidade da época.

E aquele homem austero, parecendo de poucas palavras, refletindo uma tanto a fisionomia de seu Sertão, talvez mais um economista, um jurista e um so- ciólogo do que um político na expressão menos nobre da palavra, ficava entre a sisudez de Antônio de Souza e a irreverência de José Augusto, como quem, numa síntese de temperamento e de ideias, estivesse destinado a ser, como foi, o pioneiro de tanta coisa, o governante que, como já tive ocasião de dizer, adiantou-se em trinta anos nas iniciativas e n as realizações que ligou sempre seu nome. Sociologicamente, em 1930, estávamos em 1960: Dr. Lamartine avançava no tempo, abria caminhos que permitiram a Natal ser, no segundo conflito mundial, cidade do mundo, estrategicamente dotada de privilégios que ele, o estadista, soube vislumbrar. (PEREIRA, 1994, p.21).

Veríssimo de Melo é então empossado na cadeira que teve como patrono Amaro Cavalcanti e primeiro ocupante Juvenal Lamartine de Faria, a mesma seria depois repassada a seu filho Oswaldo Lamartine.

No discurso de posse da cadeira de acadêmico, Melo destaca outro aspecto da per- sonalidade de Lamartine. Ele fala que, enquanto criança presenciou os dias da “Revolução de 1930” e todo o escarnio dos vencedores para com o governador deposto com direito até a um enterro simbólico de sua pessoa. Vale aqui a lembrança de que esse assim como outros que trabalharemos aqui foi proferido em momentos de solenidade em memória de Lamartine e por- tanto é podado e guiado pela cerimonia o que não quer dizer necessariamente que as palavras

11 O Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930 (2001), aponta seu nascimento em 1900, ori-

undo de uma família tradicional mato-grossense. De carreira militar esteve envolvido nos movimentos tenentistas de 1922 e 1924. Sua participação na “Revolução de 1930” foi discreta, porém desempenhou vários cargos durante o Estado Novo (1937-1945) tais como, oficial-de-gabinete do ministro da Guerra, general Leite de Castro, secretário do interventor federal em São Paulo, João Alberto.

12 De acordo com o Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930 (2001), Lourival Fontes nasceu

em 1899, natural de Sergipe foi um jornalista partidário da Aliança Liberal movimento liderado por Getúlio Vargas. Nas eleições presidenciais de 1950 participou ativamente é após a eleição de Vargas ocupou o cargo de chefe do Gabinete Civil da Presidência da República. Após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 elegeu-se Senador.

de apreço não sejam sinceras, mas sim que elas têm um objetivo específico, que é o de construir a imagem de Lamartine como imortal em seus feitos como político e intelectual.

Eu o vejo então pela primeira vez, na Avenida Tavares de Lira, cercado de amigos e admiradores. Alto, elegante extremamente cordial para com todos que dele se aproximavam, falando baixo e tranquilamente, confesso que tive tremenda surpresa quando o comparava mentalmente com aquele outro que a minha imaginação pintara, através de informações falsas que os seus inimigos espalharam por todo Estado e até pelo País inteiro. (MELO, 1994).

Como podemos observar a Academia Norte Rio Grandense de Letras teve um papel determinante para a memória do ex-governador. Isso não é nenhuma surpresa ao lembrarmos que ele foi um dos seus sócios fundadores em 1936 e que foi eleito seu presidente em mais de uma ocasião. Ao analisarmos seu período de fundação e alguns de seus membros mais proe- minentes podemos concluir que essa instituição se constituiu tanto como um reduto para os políticos afastados em 30 quanto como um espaço no qual vão se reunir alguns dos grandes da política das décadas seguintes. No primeiro caso podemos citar, além de Juvenal, José Augusto e Câmara Cascudo que tem seu mandato de deputado caçado nessa época. Já no segundo pode- mos falar de Aluízio Alves uma das figuras mais relevantes na política da década de 50 e 60 e um colega de Juvenal (ALVEZ, 1994).

Por falar em Câmara Cascudo, ele igualmente renderá suas homenagens a Lamar- tine descrevendo-o como um causeur que segundo o dicionário da língua francesa é aquele que desenvolve conversa brilhante, sedutora. Cascudo foi uma presença constante na casa de La- martine, tanto na juventude quanto na vida adulta. Ele esteve junto a Lamartine na ocasião de fundação da Academia Norte Rio Grandense de Letras em 1936 e posteriormente se constituiu como um mestre para seu filho Oswaldo em sua trajetória de escritor apresentada no livro De

Cascudo para Oswaldo (2005). Em suas palavras ele descreve alguns aspectos de Juvenal:

A voz impostava as modalidades e sobre tudo os gestos. Aquela figura angu- losa. A gesticulação. A mimica das mãos eloquentes. O sublinhado do olhar malicioso. Os casos pitorescos, vivos eram constantes e são hoje, ai de mim, uma presença na minha saudade (CASCUDO, 1994, p.12).

Antes de concluirmos essa etapa não podemos esquecer de falar da visão que o próprio Lamartine construiu a cerca de si mesmo, afinal a representação é também um processo individual no qual projetamos a imagem de nós mesmos para o mundo, que está em constante mutação no decorrer de nossas vidas.

Assim, como já mencionamos anteriormente, Lamartine publicou em 1933, um li- vro chamado Meu Governo no qual irá se defender de muitas das acusações que foram feitas a seu nome após a subida ao poder de Irineu Joffily13. Ele começa seu livro com a seguinte afir- mativa:

As páginas que se vão ler, sob o título “O Meu Governo”, não tem a pretensão de um livro – são um relatório honesto e consciencioso, certamente incom- pleto, de dois anos e nove meses de uma administração, interrompida pela revolução de outubro de 1930. Valem como uma prestação de contas ao povo do Rio Grande do Norte. (LAMARTINE DE FARIA, 1933, p.3).

O texto que se segue é um compilado de informações e dados que dão conta espe- cialmente das questões financeiras do estado na época em que Lamartine assumiu seu governo sobretudo o problema do empréstimo contraído de bancos franceses em 1910. Esta primeira parte refere-se às acusações de inadimplência que recebeu após a grave crise em que o estado se encontrava em 1930. Em outro capitulo ele dedica-se a se defender das acusações de nepo- tismo, repressão policial entre outras. Para todas elas, Lamartine dá basicamente a mesma res- posta, estava fazendo o que era preciso, ou seja, ele admite muitos desses problemas, mas os considera como necessários no momento. Podemos citar, o caso do nepotismo:

Escolhi meus auxiliares entre a mocidade estudiosa e inteligente do meu Es- tado. Procurei me cercar de valores novos, cheios de ardor para o trabalho e com a mentalidade aberta as ideias da administração e política contemporânea. Isso mesmo declarei no discurso que pronunciei, recebendo o governo das mãos do meu ilustre antecessor. (LAMARTINE DE FARIA, 1933, p.89). Desta forma vemos quatro narrativas se desenrolando sobre sua figura. A aborda- gem de Café Filho tenta nos convencer de que Lamartine se tratava de um “animal político” usando a violência como fardamenta para combater seus inimigos. Já aos olhos de Pereira, Ju- venal Lamartine foi um homem à frente de seu tempo, um entusiasta de novas tecnologias que teria avançado a cidade de Natal anos adiante do resto do país. Para Cascudo o que aflora é a da saudade emotiva dos amigos e familiares que conviveram com ele. E por fim sua própria

13 No Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930 (2001) Irineu Joffily nasceu em Campina

Grande no ano de 1886 e foi um jornalista, político e intelectual e magistrado que teve expressiva atua- ção durante o a “Revolução de 1930” sendo delegado como primeiro interventor do governo provisório de Getúlio Vargas para o Rio Grande do Norte. Sua postura moralizante que promoveu uma varredura no aparato público do estado, foi muito mal vista por certas personalidades do cenário político local tais como Adauto Câmara (1992) como uma forma de ataque desnecessário a figuras já derrotadas.

imagem onde se mostra como um governante cumpridor de seus deveres e fiel a suas convic- ções.

A seleção destas quatro abordagens nos permite pensar o jogo de representações que se forma em torno de Juvenal Lamartine e como seu filho Oswaldo entrará nesse jogo construindo sua própria versão sobre seu pai. A seguir veremos como ele articula essa visão.

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