DES DEVELOPPEURS ET INTEGRATEURS
3.4. Production Timetable
Neste tópico irei me deter aos aspectos diversos da pesquisa que ainda não foram contemplados até este momento na dissertação, tal como: o espaço enquanto marcador social. Apresentarei logo após uma imagem que representa o banheiro feminino e os signos que o permeiam:
Fonte: Arquivo pessoal.
As observações possibilitaram encontrar frases como a apresentada na imagem anterior, como também símbolos de facções criminosas nas colunas que compõem a estrutura física da escola. É importante frisar que essas nuances fazem parte do cotidiano dos(as) discentes e há uma reprodução das práticas e/ou vivências no ambiente escolar, conforme apresentada na imagem.
Nesse sentido, quando os(as) jovens foram indagados(as) se existem espaços na escola que são mais frequentados por meninos ou meninas, 33,43% responderam que sim, pontuando os seguintes espaços:
Quadra de esportes da escola e pátio são mais frequentados por meninos;
Biblioteca e banheiro são mais frequentados por meninas.
Além disso, é possível identificar que nesses espaços aglomeram-se vários grupos juvenis, com características e normas específicas. Nos corredores da escola me deparei com um cartaz34 que versava sobre músicas que abordam a construção de gênero elaborado por discentes da 1ª série do ensino médio.
Fonte: Arquivo pessoal.
34Trecho da música Buceta da Banda Velhas Virgens: “Elas falam demais. Mas têm o que a gente quer.E elas torram a nossa grana. Mas tem o que a gente quer”; Trecho da música Mulher indigesta de Noel Rosa: “Mas que mulher indigesta!(Indigesta!) Merece um tijolo na testa”; Trecho traduzido da música Look At Me! da Banda XXXTentacion: “Eu levei uma vadia branca no Starbucks. Essa putinha teve a garganta fodida. [...] Tô com, tipo, três vadias, sou mórmon. Gozei na testa da sua mina. Eu não quero tua buceta, eu só quero um boquete”.
Durante a realização da entrevista indaguei ao Coordenador da Escola Maria Guacira se os professores realizam discussões em sala de aula sobre relações de gênero, tendo em vista o cartaz encontrado exposto nos corredores desta escola, e obtive a seguinte resposta:
Muitos não se sentem à vontade e nem com propriedade para fazer isso, pois é uma questão muito complexa falar sobre isso, até mesmo os professores que são escolhidos como PDT’s ficam um pouco temerosos. Teve uma situação que a gente teve aqui, foi realizada uma palestra sobre violência sexual que disparou muitos gatilhos. A gente teve vários casos que a partir daí muitas meninas foram procurar os PDT’s e relataram que sofriam abuso em casa do pai, do padrasto, teve um dois ou três casos. Mas não é uma palestra que acontece com frequência e nesse caso foi um profissional que foi convidado. O professor mesmo não se sente a vontade (COORDENADOR PEDAGÓGICO DA ESCOLA MARIA GUACIRA, 2020).
Já a Coordenadora Pedagógica da Escola Francisco Bourdieu ressaltou que,
Alguns realizam. [...] A gente tem trabalhos de professores, não do coletivo. Muita gente das humanas. Não consigo lembrar de ninguém da natureza, nem da matemática. Inclusive a maioria dessas falas mais preconceituosas são identificadas nos professores da área de exatas. Não que isso tenha alguma relação direta, mas quando eu penso nos nomes, todos os que eu lembro agora são da exatas (COORDENADORA PEDAGÓGICA DA ESCOLA FRANCISCO BOURDIEU, 2020).
Por esses motivos, evidencia-se a importância de abordar a temática baseado no conhecimento científico, nos dados oficiais, como também na realidade vivenciada no espaço escolar. Além disso, o Coordenador Pedagógico da Escola Maria Guacira (2020) enfatizou que “eu acho que falta a gente ter uma organização maior de encontros da Sociologia, pois eu acho ainda a academia muito distante da escola. São demandas muito diferentes”. Diante desse relato, o PROFSOCIO tem sua importância explicitada, tendo em vista a possibilidade de unir conhecimentos acadêmicos com a realidade vivenciada pelas licenciaturas no espaço escolar. O(a) professor(a) de Sociologia é peça central nas discussões sobre práticas sexistas, relações de gênero, pluralidades, problemáticas sociais, dentre outras, pois a sua formação traz uma abordagem direcionada para discutir tais questões a partir de eixos das seguintes áreas: Sociologia, Antropologia e Ciência Política.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Refletir sobre relações de gênero no ambiente escolar é permitir-se desconstruir valores e analisar, a partir de um distanciamento, o envolvimento da pesquisadora nessa instituição mutável.
A escola se apresenta como um lugar privilegiado para pesquisar jovens, do ensino médio, não apenas como um número a mais em uma sala de aula, mas sujeitos plurais que vivenciam e manifestam condutas baseados em seu cotidiano.
A pesquisa que se intitulou “Relações de gênero no ambiente escolar: Inovação ou reprodução?” objetivou verificar como as representações de papéis sociais, a partir de uma perspectiva das relações de gênero, são compreendidas pelos(as) jovens do Ensino Médio, através da percepção de estudantes de 10 escolas. Além disso, o trajeto metodológico possibilitou compreender a organização do trabalho pedagógico direcionado para a temática pesquisada em duas escolas, sendo elas a Escola Maria Guacira e a Escola Francisco Bourdieu, ambas situadas no município de Fortaleza.
O resultado da dissertação aponta para a necessidade de investimento teórico sobre a temática de relações de gênero e diversidade sexual na formação docente, contribuindo para que essa temática ganhe espaço no ambiente escolar.
Além disso, alguns outros aspectos chamaram bastante atenção, tais como: relevante interesse dos(as) jovens pesquisados(as) em discutir questões vinculadas às relações de gênero no ambiente escolar; segregação das atividades esportivas, evitando assim o amplo contato de meninos e meninas, fortalecendo a prática esportiva como algo pertencente ao masculino; Indispensabilidade das formações para docentes da rede estadual de ensino sobre gênero e diversidade sexual, dentre outros.
Mediante a demanda juvenil dos(as) discentes sobre a discussão pela temática, consolida-se a importância de ser discutido nas jornadas pedagógicas escolares. Também a importância da inserção no Projeto Pedagógico da escola, para que passe a ser algo presente no cotidiano e não apenas impulsionado por um grupo específico. Identifiquei ainda, através dos relatos dos alunos e das alunas, bem como dos(as) coordenadores(as), que existe uma demanda por maior envolvimento dos(as) docentes em relação à temática e isso requer uma
desconstrução de algumas posturas preconceituosas e homofóbicas percebidas em alguns discursos docentes.
Esta pesquisa demonstra significativa relevância, pois há um número reduzido de ações que refletem sobre o cotidiano escolar levando em consideração as relações de gênero, mesmo com as ações e estratégias que o estado do Ceará adotou nos últimos anos. Essa investigação reforça a importância da implementação da temática nas ações pedagógicas escolares. Além disso, este estudo apresenta sua análise pautada em escolas variadas, consolidando, assim, diversas realidades e problemáticas.
Considerando quase dois anos de pesquisa de campo, integrando também planejamento, escrita, análise e orientações, visando fornecer subsídios teóricos e empíricos para a conclusão desta pesquisa, ressalto que as possibilidades sobre a temática não foram esgotadas. Essa investigação corrobora para o reconhecimento da importância de abordar relações de gênero no ambiente escolar, percebendo o(a) jovem como sujeito plural e diverso, capaz de compreender e vivenciar tais relações de forma múltipla, a partir da realidade na qual está inserido(a).
Ademais, ainda é possível verificar que alguns padrões tidos como “naturais” vêm se desconstruindo, sejam impulsionados através de práticas pedagógicas que desconstroem e problematizam relações engessadas e imposições sociais direcionadas aos indivíduos baseando-se em seu gênero ou sexo, sejam mediante contextos sócio-históricos que se diferenciam do padrão hegemônico.
Destaco que a pesquisa enfrentou alguns obstáculos, como por exemplo, o não aceite de uma das escolas que fazia parte da proposta inicial, a disponibilidade de tempo para a realização dos grupos focais, que também estavam inseridos na metodologia prévia. Contudo, a investigação ganhou novo delineamento, adequando sempre o trajeto metodológico ao objetivo planejado.
Também é notório que existem outras possibilidades que podem vir a ser desenvolvidas em uma pesquisa posterior, como por exemplo, ter como sujeitos os(as) professores(as), já que nesse momento investiguei discentes, além de ter a contribuição de coordenadores(as) pedagógicos(as). É importante cruzar tais perspectivas, visando compreender o motivo que impulsiona o receio que docentes possuem em abordar a temática.
Nesse aspecto, a disciplina de Sociologia mais uma vez demonstra a sua relevância oportuna, sendo possível verificar que normalmente professores(as) que exploram a temática e impulsionam projetos que a envolvam são docentes da área de humanas, com destaque para os(as) de Sociologia.
Chega ao fim um ciclo que trouxe grandes aprendizados, levando em consideração o conhecimento adquirido sobre práticas educacionais e a reprodução de diferenciações e desigualdades no ambiente escolar, através de um olhar sob as relações de gênero.
Note-se que diante do Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional são dadas algumas possibilidades de pensar sobre produto final, tendo por base a pesquisa realizada. Neste cenário, optei por construir a dissertação e ao final elencar algumas recomendações sobre a abordagem da temática no ambiente escolar, abaixo listadas:
Estimular práticas que tratem os(as) discentes com equidade;
Possibilitar oportunidades iguais às meninas e aos meninos no que diz respeito às práticas esportivas;
Sensibilizar e estimular a participação dos(as) docentes e gestores(as) para trabalhar a Semana Maria da Penha, baseada na Lei estadual nº 16.044/2016;
Sensibilizar e estimular a participação dos(as) docentes e gestores(as) para trabalhar a Semana Janaina Dutra de respeito à diversidade sexual e de gênero, baseada na Lei estadual nº 16.481/2017;
Oferecer formação continuada aos professores e às professoras através da oferta regular de cursos de aperfeiçoamento, bem como de oficinas e palestras sobre relações de gênero, orientação sexual e diversidade35;
Fomentar a realização de oficinas e rodas de conversas sobre relações de gênero no ambiente escolar, envolvendo docentes, discentes e núcleo gestor;
Desenvolver debates sobre assédio e violência sexual com docentes e discentes;
35
O estado do Ceará possui a Coordenadoria de Formação Docente e Educação a Distância (CODED) vinculada à Secretaria da Educação do Estado do Ceará que pode ser utilizada como instrumento para garantir tal formação continuada dos/as docentes.
Oportunizar oficinas sobre planejamento familiar para jovens do ensino médio;
Promover intervenções pedagógicas tendo a pesquisa local como indutora do conhecimento;
Inserir a temática de relações de gênero, diversidade sexual e preconceito nas jornadas pedagógicas anuais;
Elaborar uma agenda das ações que envolvem as relações de gênero e suas implicações, inserindo, como por exemplo, o Dia Laranja pela eliminação da violência contra as mulheres;
Apoiar projetos que promovam o respeito às diferenças;
Incentivar ações que respeitem os(as) discentes diante de suas singularidades, tal como o direito ao uso do nome social;
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APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO APLICADO NO PRÉ-TESTE
Série Turma: Turno
Escola: Sexo: ( ) Feminino
( ) Masculino
Idade:
ORD. QUESTÕES SIM NÃO CASO SIM,
EXEMPLIFIQUE
01
Considera necessário realizar debates sobre relações de gênero no ambiente escolar?
02
De acordo com a sua percepção, meninos e meninas são avaliados da mesma forma na escola?
03
Você já pensou em desistir de estudar por causa de assédio ou preconceito na escola?
04
Para você há uma diferenciação feita pelo professor no tratamento com meninas e meninos na escola?
05 A quadra esportiva é utilizada de forma mista, unindo meninos e meninas? 06 Você pretende ingressar no Ensino
Superior?
07 Você acha que as oportunidades são iguais para homens e mulheres? 08 Em sua opinião, existe divisão sexual
do trabalho?
09
Em sua opinião, existem comportamentos, características ou coisas que são típicos de homens e outros que são típicos de mulheres? 10 Alguém já disse que você não podia
fazer algo por ser menino ou menina? 11 Você realiza algum trabalho
doméstico?
12 Você já deixou de fazer alguma coisa por medo de violência ou assédio? 13 Você já sofreu algum tipo de assédio
sexual?
14 Você já foi vítima de violência por ser menina ou menino?
15
Em sua opinião, a mulher deve ter autonomia de decisão sobre o seu corpo?
16
Em sua opinião, a mulher deve ter o direito à maternidade opcional?
PERGUNTAS DIRECIONADAS APENAS PARA MENINAS 17 Você já sofreu algum tipo de
preconceito por ser menina?
18 Você já sentiu tratamento diferenciado em casa por ser mulher?