cleteiro e pintor de parede; eletricista e pedreiro; musicista e agrônomo). Conside ramos a(s) profissão(ões) que exerciam no trabalho informal à época da entrevista e encontram os vinte e oito profissões diferentes entre as vinte e cinco entrevistas utilizadas na análise.
Utilizam os os três conjuntos de dados (atividade de trabalho formal; profis são principal; atividade no trabalho informal) de forma comparativa, para ver se havia alguma relação entre a atividade que exercem hoje de maneira informal e outras atividades de trabalho exercidas ao longo de seu histórico ocupacional.
Comparando a profissão no último emprego (trabalho formal) com a profis são principal, vemos que para a grande maioria dos entrevistados (dois terços) a última profissão exercida no trabalho formal é a mesma que exerceram por mais tempo na sua vida profissional, ou seja, a profissão do trabalho formal é sua profissão principal. Para estes há uma equivalência entre profissão principal e a que exerceram no trabalho formal.
Quando comparamos a profissão exercida atualmente no trabalho informal e a do último emprego (trabalho formal), a grande maioria dos entrevistados (mais de dois terços) tem no trabalho informal uma profissão diferente da profissão principal. Ou seja, a profissão exercida informalmente é diferente da profissão no trabalho formal e, consequentemente, da profissão principal do seu histórico ocupacional. Ao deixarem o trabalho formal - ou ao exercerem um trabalho paralelo ao formal - deixaram também o exercício de um dado tipo de atividade ocupacional.
Do ponto de vista do histórico ocupacional, há uma descontinuidade, em alguns casos um a ruptura, entre a profissão do último trabalho formal (ou con comitante) e a profissão informal atual. Por exemplo: de jogador de futebol para artista plástico; de gerente de vendas numa empresa multinacional para musicista e/ou técnico agrícola; de pescador para marcineiro; de telegrafista para fotógrafo;
de gerente de vendas para terapeuta massagista; de balconista para lavadeiro; de técnico administrativo no setor público para músico; de administrador em um orgão público para costureiro; de professor secundarista para músico; de coordena dor de creche para esteticista; de professor primário para costureiro; de professor primário para artista plástico; de motorista para serralheiro; de garçom para pintor de parede; de auxiliar de limpeza para cabeleireiro; de porteiro de edifício para vendedor de alimentos.
Em outros casos (que são a minoria dos entrevistados), há uma conti nuidade entre a atividade de trabalho que exerciam como assalariado (ou que ainda exercem) e a que exercem no trabalho informal, sendo geralmente atividades da mesma área. Assim, como assalariado, um deles exercia cargo de destaque na área administrativa e no trabalho informal presta serviços de apoio administrativo. Outro era um técnico programador numa empresa de computação e segue exercendo essa e outras atividades no trabalho informal. Do mesmo modo, um outro era pedreiro e passa a técnico de construção; ou era gerente de vendas no trabalho formal e no informal vende produtos de beleza; era balconista em uma confeitaria e passa a produtor de alimentos.
Portanto, o que prevalece é o fato de os entrevistados terem trabalhado formalmente (ou ainda trabalharem) em atividades completamente diferentes das que exercem informalmente. Nesse sentido, há uma ruptura frente ao trabalho formal. O que fica marcante no relato desses históricos ocupacionais é a passagem de uma profissão para outra, e não a passagem da condição de assalariamento para a de estar exercendo um trabalho por própria conta de maneira informal.
Além disso, essa modificação ou ruptura significa também que a profissão exercida informalmente é algo novo para os entrevistados ? Considerando-se o histórico ocupacional do entrevistado, a informalização seria um momento de ruptura com uma dada profissão ou, pelo contrário, é uma atividade que já conhe
ciam e/ou exerciam paralelamente à profissão principal, e com o trabalho informal há um redirecionam ento, uma escolha, relacionada à profissão ?
Em outros termos, a descontinuidade profissional está na passagem do últi mo emprego (trabalho formal) para o trabalho informal, mas haveria essa des continuidade ao considerar o conjunto do histórico ocupacional ?
O que observamos é que a atividade exercida no trabalho informal é uma atividade que já era praticada pelos entrevistados (não como um trabalho), ou de que já tinham algum conhecimento. Esse aspecto é praticamente comum ao conjunto dos entrevistados. E observamos que, ao se informalizarem, deram continuidade à prática ou conhecimento que j á tinham de uma dada atividade.
Constatamos que praticamente todos os entrevistados já haviam exercido, em um período não consecutivo ao atual, a atividade que exercem no trabalho in formal. Por exemplo: um técnico em computação, desde adolescente, já utilizava conhecimentos de computação e pesquisava esse assunto; um lavador de roupa aprendeu com a mãe, e sempre exerceu em família, a atividade de lavar roupa; um pedreiro realizava essa atividade, aprendida com o pai, na residência da família; um músico já conhecia música e tocava um instrumento musical (não pro fissionalmente) etc. Ou seja, já conheciam algo da área com a qual trabalham informalmente por interesse pessoal, ou por ser parte de um hobby, ou como decorrência de alguma situação familiar.
Vale destacar que há entrevistados (um terço) que exerceram, durante boa parte de sua vida ocupacional, duas profissões em áreas de trabalho diferentes. Por exemplo: telegrafista e fotógrafo, músico e professor secundarista, garçom e pintor de parede, agricultor e pedreiro, auxiliar de limpeza e cabeleireiro, funcionário público administrativo e músico, esteticista facial e professor secundarista . Em al guns desses casos eram trabalhos feitos "paralelamente", um como assalariado e o outro de m aneira informal. E geralmente o trabalho informal tinha uma dinâmica
diferente (quanto ao número de horas dispendido, a época do ano em que era exercido, a constância), que tom ava viável o exercício de dois trabalhos diferentes, de maneiras diferentes.
Em conclusão, o trabalho informal que fazem atualmente é a continuidade de uma atividade (em alguns casos, de um trabalho) já praticado anteriormente. Se há uma descontinuidade entre a profissão do último trabalho formal, a profissão principal, frente à que exercem no trabalho atual, isso não significa que a atividade em si seja algo novo 11.
Vistas essas diferenças e continuidades quanto à profissão, trabalho formal e informal, os dados seguintes nos indicam se o exercício informal do trabalho é algo novo em seus históricos ocupacionais. O vir a trabalhar por conta própria significou uma experiência de trabalho nova para os entrevistados, visto que a experiência de assaiariamento é comum ao grupo pesquisado 12 ?
Além disso, se compararmos os períodos diferentes em que os entrevistados trabalharam como conta própria informal, permaneceria a característica apontada anteriormente, de descontinuidade profissional (entre profissão no trabalho formal, a principal, e a no trabalho informal)?
Considerando essas últimas questões, temos que dois terços dos entrevista dos já trabalharam de maneira informal anteriormente, e comparando os dois períodos distintos de trabalho informal, quanto à profissão que exerciam em am bos, destacam-se três situações :
(a) trabalharam na mesma atividade ou atividade correlata à atual ; (b) trabalharam em atividades diferentes ;
(c) trabalharam tanto na mesma atividade quanto em atividade diferente.
1 ' Como veremos no capítulo 3, este dado referente à profissão tem relação com as razões de ingresso no trabalho informal.