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FICHE 3 : LES ÉTAPES DE LA RESTAURATION HOSPITALIÈRE

2. Différentes étapes du processus : de l'achat jusqu'à la consommation finale

2.1 Production

As dimensões culturais são como lentes que podem trazer à luz informações e indicadores que nos permitem compreender como os valores e tradições colaboram para a qualidade de vida e empoderamento da população, que é o maior agente do processo de desenvolvimento local. A cultura de um povo é manifesta por meio de diversos elementos, tais como conhecimento, as crenças, os costumes, os símbolos e as produções materiais e imateriais se constituem como seus estruturantes.

Assim, o caldeirão cultural de Acaraú se assemelha ao da maioria das cidades interioranas nordestinas que possuem núcleos urbanos e rurais distantes, não só em termos geográficos, mas também em costumes e tradições, aparentando existirem dois mundos ou duas civilizações diferentes convivendo na mesma municipalidade. É o que este pesquisador observou em suas andanças e contatos com o povo das regiões rurais e do centro da cidade. Enquanto os habitantes dos distritos guardavam alguns hábitos, tais como: as reuniões e comemorações familiares nos alpendres e quintais das casas, a celebração dos reisados, a realização

da farinhada, com a produção artesanal de goma, tapioca e outros derivados da mandioca; na zona urbana respirava-se um ar de metrópole onde, às vezes, não havia a sensação de estar em uma cidade afastada da capital.

Dessa maneira, importa, aqui, nesta análise, avaliar como o desenvolvimento local pode ter descaracterizado ou desfigurado a identidade original da cidade, seja pela perda ou modificação de tradições e valores históricos do território ou pela introdução de elementos globalizantes. Nesse sentido, Paixão (2006) nos alerta que a era global veio para tentar unificar valores e crenças por meio de uma imposição cultural dos países desenvolvidos. Essa questão nos traz à tona a discussão sobre o multiculturalismo17 como “valorização das culturas locais, a partir

das pessoas, de baixo para cima, sem discriminação, imposição ou supremacia de uma cultura sobre outras” (PAIXAO, 2006, p.116).

Nessa perspectiva, começamos nossa análise pela cultura dos povos originários de Acaraú, os índios Tremembés, que tiveram suas terras na cidade reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) apenas em 2011 na localidade de Queimadas, onde habitam, aproximadamente, 200 indígenas que vivem da agricultura, caça, pesca e coleta (BRASIL, 2011). Além desse território, Acaraú conta, ainda, com uma aldeia dessa etnia no distrito de Telhas.

As principais manifestações culturais dos Tremembés se dão por meio dos objetos artesanais produzidos e pela fabricação do vinho de caju fermentado e não alcoólico que é utilizado em suas comemorações religiosas, regadas de danças como Toré e Torém. (TREMEBEDEACARAU, 2019)

Figura 6 - Seu Raimundo e Dona Zeza Tremembé (Almofala)

17 Para Hall (2003), o Multiculturalimo se refere às estratégias e políticas adotadas para governar ou administrar problemas de e multiplicidade gerados pelas sociedades multiculturais que constroem uma vida em comum, mas tentam manter algo de suas identidades originais.

Foto de Carlos Guilherme do Valle, 1991

Destaque-se que o povo Tremembé está organizado sob a forma de conselhos que procuram inserir a comunidade na economia e cultura da região. Dessa forma, de acordo com o blog “tremembedeacarau”, os indígenas participam das chamadas públicas para aquisição de alimentos da agricultura familiar local, comercializando produtos à base do caju, bolos e tapiocas, além de se fazerem presentes com frequência em instituições e eventos públicos e privados na cidade, com suas demonstrações culturais, sobretudo na multiplicação do conhecimento, nas manifestações artísticas e na alimentação típica. Importante assinalar que nem sempre os Tremembés de Acaraú se identificaram como indígenas, conforme Lima (2018):

[...] os Tremembé das aldeias de Telhas e Queimadas destacam que sempre souberam de suas origens indígenas, contadas por seus avós e pais, e das práticas culturais do passado que são, agora, recriadas no presente. No entanto, também enfatizam que nem sempre se identificaram como índios por medo de represálias e discriminação por parte dos outros moradores da região. As lutas por identificação e reconhecimento como indígenas foram iniciadas na década de 1990 (LIMA, 2018, p.5)

É inegável que o processo de colonização brasileiro aculturou e marginalizou boa parte dos valores, costumes, tradições, vestimentas e moradia dessas populações originárias, que acabaram se adequando ao modo de vida do homem branco. Dessa forma, embora essas comunidades ainda mantenham acesos alguns traços culturais originais, muitos deles se renderam ao cristianismo como religião, às casas de alvenaria ao invés das ocas, e as roupas da “moda” globalizadas ao invés da nudez original.

Figura 7 - Comunidades indígenas e quilombolas em Acaraú

Já os povos negros que chegaram à Acaraú estão mais espalhados e menos organizados que os Tremembés. Podemos destacar, no entanto, a comunidade quilombola da localidade do Córrego dos Iús que, segundo Lima (2018), vivem da pesca e da agricultura familiar, praticam o Cristianismo como religião predominante e realizam suas atividades culturais em uma escola quilombola da comunidade. Contudo, de acordo com LIMA (2018, p.7):

[...] os relatos apresentados por índios e quilombolas nas rodas de conversas que realizamos apontaram para práticas de desrespeito por parte de outros moradores da vizinhança que não reconhecem a diferença desses grupos ou desqualificavam suas culturas.

Nessa perspectiva, Albuquerque e Zapata (2006) defendem que a compreensão das histórias, da cultura e da identidade são essenciais ao desenvolvimento local:

O registro das histórias locais a compreensão dos elementos culturais de identidade territorial constituem uma informação fundamental para entender as relações que se cristalizam no território, sendo seu conhecimento imprescindível para qualquer estratégia de desenvolvimento local (ALBUQUERQUE E ZAPATA,2006, p.54).

Destarte, para afirmar suas identidades e lutar por seus direitos, faz-mister que as comunidades se organizem, se articulem e se façam ser ouvidas pelo Estado. Nessa perspectiva, é importante destacar que os quilombolas de Acaraú obtiveram reconhecimento do poder público por meio da Lei Municipal 1611/2015, a qual declarou a utilidade pública da associação comunitária dos remanescentes de Quilombos dos Iús, assegurando-lhes vantagens, isenções e benefícios. Embora isso não seja necessariamente garantia de respeito da sociedade local à identidade cultural deste povo, se constituiu como passo fundamental rumo à sua afirmação identitária.

Ainda no campo cultural, as festividades se constituem como uma das formas mais comuns de manifestação dos valores e tradições locais. Nesse sentido, analisamos quatro eventos importantes no calendário da cidade: o Carnaval, as Festas Juninas, o Festival Internacional do Camarão da Costa Negra e a Festa da Padroeira.

O carnaval acarauense, também chamado de Acaraú Folia, embora não seja um dos que mais atraem público no Estado de Ceará, se tornou um dos maiores

eventos da cidade, em termos de quantidade de visitantes. Além dos shows que são realizados no período noturno na praça do Centenário, o evento ainda conta com: carnaval da saudade, encontro de blocos, carnaval das crianças, carnaval na praia de Aranaú e desfile dos blocos, entre outros. Teúnes Andrade Filho, ex-vereador, nascido em 1922, era natural de Acaraú e relatou, antes de falecer em 2009, suas recordações sobre este evento da cidade:

Aos domingos e terças havia o imperdível Bloco das Bichas, momento mais democrático e irreverente de toda a festa momina. Ao assumirem momentaneamente a nem sempre tão graciosa condição de mulher, velhos e meninos, ricos e pobres se misturavam para celebrar a vida sem preconceitos de sexo ou condição social. (RIOS, 2012)

Dessa forma, percebemos que a diversificação da programação carnavalesca da cidade ainda guarda boa parte das tradições culturais dos carnavais de rua que animaram Acaraú ao longo de sua história, conforme presenciou este pesquisador enquanto morou na localidade entre 2011 e 2018. Em outras palavras, a festa é atraente para públicos de todas as cidades, unindo o moderno e novo ao antigo e tradicional.

Entretanto, outra festa tradicional cearense e nordestina, parece ter perdido suas raízes culturais em Acaraú. Trata-se dos festejos juninos que, na localidade, são celebrados junto com o aniversário do município no final do mês de Julho. Araújo (1982) afirma que as festas de São João de Acaraú eram animadas com casamentos matutos e outras atrações caipiras. Este pesquisador, nascido nos anos 1970, observou que, outrora, esses eventos contavam com maior participação popular, envolvendo as vizinhanças que, por vezes, fechavam algumas ruas para realizarem suas quadrilhas improvisadas, pularem a fogueira e comerem alimentos típicos, tais como bolos de milho, de macaxeira, de batata, aluá, dentre outros.

No entanto, em Acaraú, além de serem realizadas fora de época, as festas em comemoração à Santo Antônio, São Pedro e São João perderam sua essência e simplicidade se rendendo à celebração de shows com bandas de forró, regadas de bebida alcóolica e algumas poucas quadrilhas, com pouca adesão da população local. Esse desvirtuamento não é fato isolado da cidade e parece ter sido fruto da globalização cultural, tendo ocorrido na maior parte do Nordeste brasileiro que, atualmente, restringe as comemorações juninas à grandes festivais que ignoram, na maioria das vezes, o seu sentido religioso original.

Outra grande celebração que se tornou parte do calendário cultural da cidade, entre 2009 e 2014, foi o Festival Internacional do Camarão da Costa Negra, também conhecido como Grand Shrimp Festival. Este evento era visto por uma parcela da população acarauense como uma festa da elite e segregadora, ainda que concedesse acesso livre a todos. Em algumas edições, inclusive, as pessoas mais simples se concentravam na praça do centenário para assistirem aos shows das bandas de forró, enquanto os eventos principais tinham lugar na fazenda Cacimbas, com maior adesão de turistas e das classes média e alta da localidade. Em outras palavras, conforme Paixão (2006), embora a economia local tenha sido impactada, não se pode dizer que esse evento tenha verdadeiramente representado um marco para o desenvolvimento cultural local.

Por outro lado, a Festa da Padroeira de Acaraú, realizada todos os anos entre a última semana de Novembro e o dia 08 de Dezembro, parece manter suas raízes culturais e religiosas. Contando com missas diárias, quermesses, compartilhamento de alimentos entre habitantes e instituições locais em prol das obras sociais da igreja católica, esse festejo, embora não seja um ícone de desenvolvimento local, conta com ampla participação popular e representa uma manifestação cultural que respeita os valores e tradições da localidade.

Em relação ao patrimônio material e cultural, Acaraú ainda mantém viva uma arquitetura antiga e parcialmente preservada em muitos prédios públicos e privados, além de casarões, os quais ajudam a narrar a história do município. Alguns estabelecimentos que vieram a se instalar na cidade na década de 2010, a exemplo das Farmácias Pague Menos, fizeram questão de manter as características principais dessas edificações históricas. Contudo, assinalamos que muitas delas foram destruídas e outras estão danificadas, exigindo-se do poder público municipal uma intervenção no sentido de tombar estes bens imóveis.

Outro ícone do desenvolvimento local com impacto cultural foi a chegada do Supermercado Pinheiro na cidade de Acaraú, o qual trouxe duas salas de cinema que deverão exibir filmes do circuito nacional como forma de incentivar a valorização da cultura e lazer locais, atendendo não somente o município, mais atraindo visitantes de cidades vizinhas.

Figura 8 - Casa de Padre Antonio Tomás, filho de Acaraú

Fonte: Cordeiro (2018)