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O processo de projeto é uma construção social, onde interagem diversos mundos-objeto em torno de um elemento central, de um cerne que se origina no mercado e a partir do qual são estabelecidas soluções parciais de projeto oriundas por cada um dos grupos envolvidos.

A ergonomia situa-se em relação ao cerne do projeto no sentido de contribuir para a concepção de sistemas industriais de modo a contemplar o duplo objetivo de valorização da eficácia e das condições de construção da saúde.

Pode-se observar na literatura, uma dupla pretensão quanto ao papel desempenhado pelo ergonomista. Uma primeira refere-se à posição de facilitador de um processo de evidenciação do ponto de vista do trabalho, criação de espaços e confrontação de representações. A segunda remete diretamente para a sua atuação na condição de especialista e prescritor.

Quanto à questão inicial da relação entre a construção da prescrição e ocorrência de problemas ergonômicos na implantação do projeto, encontra-se na literatura um consistente construto sobre o papel desempenhado pelo ponto de vista da atividade no enriquecimento das soluções de projeto, em especial a parte relativa ao projeto do trabalho. Contudo, algumas questões ainda são pouco claras nas possibilidades de atuação

ergonômica: uma primeira questão refere-se ao grau de iteratividade das soluções e outra remete a uma limitação da possibilidade de predição de situação futura.

Quanto ao grau de iteratividade, ou seja, com maior linearidade e menor possibilidade de iteratividade e interação diminuem a possibilidade de efetiva contribuição, em processo conduzido mais em paralelo, as possibilidades de contribuição podem aumentar. O potencial de iteratividade no projeto determina fortemente a possibilidade real de contribuição dos atores envolvidos.

As contribuições da ergonomia sobre o prognóstico de atividade futura representam, atualmente, o que há de mais próximo de um modelo de ergonomia de concepção baseado no ponto de vista da atividade. Contudo, neste caso, a atuação ocorre em uma perspectiva de concepção pré-produção, o que pode representar uma restrição no modelo.

A proposição de Chatigny (2001), segundo a qual os recursos mobilizados, realmente postos em obra dentro da ação não pré-existem sem a ação, aponta para uma perspectiva que fortalece a atenção sobre a posta em marcha como situação de aprendizagem e parte integrante do projeto. E, deste modo, pode representar uma contribuição que avança sobre a abordagem de atividade futura ao indicar um novo elemento de abordagem. É provável que os contextos de aprendizagem, presentes na posta em marcha do projeto, sejam elementos que mereçam maior atenção, estudo e proposição.

3. MÉTODO

3.1 Introdução

Este estudo se deu no âmbito de um projeto de extensão mais amplo, desenvolvido pelo grupo Ergo&Ação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) junto à uma indústria aeronáutica brasileira. O projeto consistiu na implementação de um programa de ergonomia no setor de produção da referida indústria. Foram abordadas situações de trabalho de montagem estrutural de aeronaves de médio porte, especificamente de aviões a jato destinados à aviação regional.

As reflexões, abordagens e instrumentos aqui presentes são resultado do acúmulo de conhecimento histórico e coletivo, resultado da prática de ação ergonômica do grupo Ergo&Ação, que se propõe a partir de uma ação ergonômica situada, contribuir para o referencial teórico-instrumental da Análise Ergonômica do Trabalho - AET e da própria ergonomia.

O período completo de atuação do pesquisador na implementação do Programa de Ergonomia da referida empresa foi de 18 meses e foram desenvolvidas diferentes atividades como treinamento de Análise Ergonômica do Posto de Trabalho, realização de Análise Ergonômica do Posto de Trabalho, coordenação de grupo de implementação de melhoria, análise de efetividade de implementação de melhorias. A fase de campo do estudo da “posta em marcha” foi desenvolvida em 16 semanas com freqüência de dois dias por semana.

A atuação global na organização se distingue, mas não se separa da análise ergonômica objeto da demanda e do exercício acadêmico. Esta atuação global é importante por compor o entendimento do processo produtivo global, da profissão, do produto, do ambiente organizacional, e por construir uma legitimidade da condição de interlocutor ante aos sujeitos do trabalho, referendada inclusive por formas organizadas de representação como a CIPA. Esta construção do papel de interlocutor requer diversas das características da etnografia do trabalho como proposto por Ball e Ormerod (2000), e pode interferir diretamente no conteúdo dos dados, na medida em que é elemento determinante das representações apresentadas (LEPLAT, 2002).

O eixo conceitual e instrumental do presente estudo se situa no campo da Análise Ergonômica do Trabalho que será adotada como metodologia capaz de proporcionar a resposta para as questões colocadas para este estudo.

No recorte proposto, o processo de AET que segue uma demanda ergonômica, é o substrato que suporta o exercício teórico deste estudo. Assim coexistem objetivos relacionados à demanda do setor produtivo e relacionados à leitura acadêmica de um aspecto da realidade envolvida.

Considerando os aspectos relacionados à transição do projeto à manufatura, pode-se dividir a abordagem em dois recortes: no primeiro, é dada ênfase ao processo de construção da tarefa e às representações que os sujeitos da prescrição têm da demanda ergonômica. Para o segundo recorte, as representações do universo da prescrição são então confrontadas com o ponto de vista da atividade. Posto que ao elaborar estratégias para efetuar sua tarefa e atingir os objetivos que lhe foram fixados, sob condições determinadas, os trabalhadores e trabalhadoras estabelecem uma ação integradora à atividade de trabalho, que reúne suas dimensões técnica, econômica e social.

A abordagem utilizada segue características propostas por Yin (1989), que preconiza a análise intensiva de um número reduzido de situações, dando ênfase à descrição e à compreensão do relacionamento entre os diversos fatores da situação estudada, focalizando com profundidade um contexto atual e real num universo restrito.

Um aspecto importante a ser considerado é o de que segundo a metodologia adotada, os resultados de uma fase do estudo podem determinar parte dos procedimentos a serem seguidos nas fases seguintes.

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