1.4 La mod´ elisation num´ erique de la pollution photo- photo-chimiquephoto-chimiquephoto-chimique
1.4.3 Processus physico-chimiques
Antes de ir a campo, busquei compreender e fixar os dois primeiros princípios que guiam a pesquisa interpretativa: o princípio da abertura e da comunicação. Na prática, o princípio da abertura diz respeito a uma série de premissas voltadas à forma como o pesquisador inicia a pesquisa, a conduz e lida com as informações geradas no campo. Resumidamente, isso significa dizer que a pergunta de pesquisa se manteve aberta durante todo o processo investigatório, podendo ser modificada, as hipóteses da pesquisa foram sendo geradas em campo, e a amostragem teórica foi ocorrendo durante a pesquisa.
Respeitando o princípio da abertura, é preciso ter claro que os procedimentos de levantamento e análise dos dados são realizados de forma concomitante nos métodos interpretativos, isto é, cada entrevista realizada é analisada logo em seguida. É a partir desse procedimento que a amostra, aqui denominada amostragem teórica45, vai se desenvolvendo, ou seja, a escolha pelos próximos entrevistados depende das entrevistas realizadas e dos dados levantados a partir delas. Em princípio, todos os catadores de resíduos, pelo fato de configurarem o objeto de pesquisa, pertenciam à amostra, mas só aqueles que apresentaram relevância teórica no processo de pesquisa é que se tornaram alvo de análise. A decisão sobre os próximos entrevistados é feita inteiramente com base em suposições teóricas, as quais ainda se quer compreender. Esse procedimento se diferencia bastante dos métodos quantitativos, nos quais a escolha da amostra é realizada de antemão de forma a corresponder às necessidades estatísticas como frequência. Os métodos interpretativos não procedem com amostras preestabelecidas, e sim as desenvolvem no processo de pesquisa, de acordo com a sua relevância teórica.
No que corresponde à saturação teórica, ela só ocorre quando não for mais possível encontrar novos fenômenos que mudem a perspectiva teórica desenvolvida até ali, possibilitando a construção de novos tipos. Devido à dimensão de uma dissertação de mestrado, o estudo não pôde alcançar a saturação teórica. Foram analisadas três entrevistas ao total, sendo que, dessas três, duas foram reconstruídas, dando origem a dois tipos de interpretação sobre a catação.
O processo de levantamento de dados se inicia com a minha inserção no campo. Devido ao contato que continuo tendo com colegas e catadores desde o meu desligamento do Programa, decidi, por diferentes motivos, procurar esses contatos estabelecidos. Além da
45 Esse tipo de amostragem foi introduzido por Glaser e Strauss na pesquisa interpretativa. Mais informações ver Rosenthal (2014).
economia de tempo que teria por acessar o campo pelos contatos existentes, foi bastante difícil realizar o contato com os catadores na rua, uma vez que naquele momento eles estavam trabalhando, verbalizando não dispor de tempo. No segundo semestre de 2016, iniciei, portanto, minha pesquisa com uma catadora, residente de um bairro central de Porto Alegre. Eu já havia tido contato com Aline46 no Programa, lhe contatei por telefone e ela aceitou realizar a entrevista comigo. Essa foi a minha primeira entrevista. Seguindo os critérios do levantamento de dados aqui adotado, realizei anotações desde o primeiro contato com Aline, relatando nossa conversa e minhas impressões sobre ela. Essas anotações passaram depois a compor um memorando (memo), no qual ficam registradas todas as informações referentes aos contatos realizados antes da entrevista, informações do dia do encontro, dando detalhes sobre o lugar e a interação entre entrevistado e entrevistador. É no memo que se registram também a estrutura da entrevista, as primeiras impressões sobre a apresentação do entrevistado, se a entrevista serve para uma análise aprofundada e ideias sobre o próximo entrevistado ou entrevistada.
Foi assim que cheguei até meu segundo entrevistado, Antônio. Com base nos critérios de construção da amostra teórica aqui proposta, decidi que deveria buscar um catador que, diferentemente de Aline, demonstrasse e verbalizasse o desejo de manter-se na área da reciclagem. A entrevista com Aline havia, portanto, lançado uma questão a ser compreendida: quais são as experiências biográficas de um catador que deseja manter-se na reciclagem e como elas são realizadas? De que forma e a que medida essas experiências se diferenciam das de Aline? Consequentemente, a entrevista com Antônio lançou novas questões, que busquei compreender a partir da entrevista com Vanessa, a terceira entrevistada. A experiência de pesquisa que realizei com a entrevista de Vanessa foi especialmente importante, visto que ela havia sido entrevistada em outro contexto de pesquisa e por outra entrevistadora. O fato de ter um longo histórico na catação de rua, bem como ter ingressado mais tarde em uma associação de catadores, foram os principais motivos que me levaram a analisar sua biografia. Diferentemente de Antônio e de Aline, Vanessa apresenta uma trajetória de trabalho na reciclagem bastante distinta, especialmente ao construir com os demais catadores um processo de trabalho baseado em relações mais complexas do que as encontradas na catação individual ou nos pequenos coletivos.
A técnica de entrevista narrativa biográfica aplicada aos três entrevistados foi realizada de forma aberta, permitindo que o entrevistado conduzisse e estruturasse o seu relato
de forma autônoma. Em todas as entrevistas, foi solicitado que o entrevistado falasse sobre a sua vida, tudo que quisesse compartilhar. Observei que nas entrevistas de Aline e Vanessa, eu e minha colega tendemos a formular a questão inicial um pouco mais fechada, o que não considero ter prejudicado a condução da entrevista de forma geral.47 Como esse tipo de entrevista é dividida formalmente em três partes, no primeiro momento eu pedi ao entrevistado que me falasse sobre a sua vida e de sua família, comunicando-o que não seria interrompido. Com as anotações dos temas gerados por ele durante a entrevista, busquei num segundo momento aprofundá-los de acordo com a cronologia dos acontecimentos construída pelo próprio entrevistado. Num terceiro momento, pude ainda esclarecer dúvidas sobre temas pouco debatidos ou até mesmo não mencionados. Trata-se, desse modo, de um levantamento que não está restrito apenas ao tema de pesquisa, isto é, não me interesso somente pelos fatos que envolvam meu tema, e sim pelas demais experiências biográficas, visto que entendo que o fenômeno a ser estudado possui relação direta com as experiências mais amplas realizadas pelo indivíduo no percurso de sua biografia.
De fato, essa tarefa não me pareceu fácil, pois minha tendência era tirar dúvidas durante a entrevista e sem perceber tentar lhes oferecer categorias, que me pareciam relevantes. Não é um treino fácil, mas muito válido para a experiência de pesquisador. Nesse sentido, existe uma importante diferença entre esta técnica e outros procedimentos, tanto quantitativos como qualitativos, que operam de forma dedutiva, partindo de hipóteses e categorias preestabelecidas. Esse seria o caso, por exemplo, de entrevistas estruturadas, semiestruturadas ou questionários fechados. Cada método e técnica possuem possibilidades e limitações diversas, por isso que o entendimento adequado sobre esses instrumentos é fundamental para a realização de qualquer pesquisa. Como não havia tido nenhuma experiência com técnicas abertas de pesquisa, o uso de entrevistas narrativas biográficas me permitiu desenvolver uma consciência empírica que antes eu desconhecia. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que o procedimento abdutivo, proposto por Charles Peirce e adotado pela pesquisa interpretativa, permite que a abordagem teórica ocorra em campo, através da geração e verificação de hipóteses no processo de pesquisa, assumindo para si uma lógica da descoberta. Não se parte da teoria, e sim se aprende a produzi-la em campo de forma objetiva.
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Considero que esse tipo de “equívoco”, se é que pode ser chamado dessa forma, ocorre especialmente no início dos estudos em narrativas biográficas, muitas vezes porque estamos acostumados com outro tipo de condução de entrevista, sobretudo mais fechada. Rosenthal (2015) diferencia entre três tipos de pergunta inicial: a mais aberta, a intermediária e a fechada. Todas podem ser usadas em entrevistas narrativas biográficas sem prejudicar o caráter biográfico da técnica. A diferença é que especialmente a última forma, a fechada, se restringe a uma fase ou área específica da vida. A pergunta fechada é muito usada em entrevistas com especialistas ou etnográficas. A escolha por uma ou outra depende, portanto, dos objetivos da pesquisa.
Retomando a lógica que conduz a entrevista narrativa biográfica, é importante destacar que ela se divide em três partes: no primeiro momento, o entrevistado me conta a sua história de vida, sem que eu o interrompa. Nesse relato inicial, busco somente manter o contato com o entrevistado através de mecanismos paralinguísticos, como movimentos afirmativos com a cabeça, contato visual etc., demonstrando meu interesse pelo o que ele está me relatando. Num segundo momento, lhe faço perguntas seguindo a cronologia das falas realizadas por ele. Essas perguntas devem tentar extrair narrativas, isto é, relatos mais densos que se aproximem da ação, assim como experimentada pelo indivíduo no passado. Para que isso seja possível, busco elaborar as perguntas sempre fazendo referência à primeira experiência. Depois que Aline fala, por exemplo, no seu relato inicial sobre a catação, lhe pergunto, nesse segundo momento, se ela poderia me contar sobre a sua primeira experiência na catação e assim por diante. Por fim, num terceiro momento, se necessário, posso ainda tirar dúvidas sobre temas que foram pouco abordados ou que lançaram novas questões a serem compreendidas.
Geralmente, é indicado que se realize mais de um encontro com um entrevistado, uma vez que entrevistas narrativas biográficas tendem a ser demoradas, percorrendo temas biográficos em geral muito delicados. Com Aline e Antônio, tive três encontros cada. Um desses encontros foi usado para a construção do genograma familiar, que é um instrumento utilizado, em geral, na psicologia para informar o pesquisador a respeito da estrutura familiar do indivíduo. Na pesquisa biográfica interpretativa, Rosenthal (2014) expande a sua utilização para a compreensão da presença do fenômeno social na genealogia da família, assim como para explorar informações socioeconômicas, ainda não mencionadas na entrevista e que podem ser úteis para a análise dos dados.
Além do genograma, do memo e da entrevista, busquei outras fontes de informação que pudessem servir mais tarde para a análise dos dados. No caso da minha primeira entrevista, tive a oportunidade de conversar com a assistente social que atende Aline e sua família. Em geral, textos históricos, jornalísticos, prontuários médicos, entre outros, configuram importantes fontes de informação, lembrando que são tomados a partir da perspectiva de quem fala ou redige esses textos.