teoria como na prática quando nos referimos ao mundo do trabalho e das organizações nos dias atuais, sua visibilidade mundial não evidencia uma compreensibilidade sobre seu processo de desenvolvimento. Tem- se atualmente, em larga medida, um acúmulo de conhecimentos que relacionam as dimensões e sintomas de burnout aos estressores organizacionais. Tem-se, do mesmo modo, modelos teóricos que são
capazes de predizer sob que situações, burnout pode se desenvolver. Este conjunto de conhecimentos disponíveis permitem compreender a gravidade do problema em escala mundial, evidenciando dados indispensáveis para um conhecimento objetivo sobre o problema, à medida que, o consolida como um fenômeno psicológico relacionado às organizações de trabalho nos dias atuais. No entanto, a compreensão sobre o processo de desenvolvimento de burnout, encontra-se largamente desconhecida. Neste sentido, na busca de avançar o conhecimento nesta direção, a questão que esta tese pretende responder é a seguinte: “o processo de desenvolvimento de burnout está relacionado ao fracasso do projeto de ser produzido por uma lógica organizacional paradoxal?”
Segue a esta questão de tese, quatro pressupostos de pesquisa: 1. Um primeiro pressuposto é que sentido da atividade de trabalho
seria um sentido existencial compreendido a partir da noção de projeto de ser. O entusiamo, o desempenho, a dedicação e o comprometimento profissional, desta forma, estariam relacionadas a escolha original de infância e a escolha profissional em que o sujeito jura fidelidade aos ideais da organização, à medida que, encontra nestes ideais uma possibilidade indispensável para a realização do projeto de ser desejado.
2. Um segundo pressuposto refere-se a um processo de distanciamento entre o projeto de ser e a gestão organizacional que exige do sujeito a realização de ideais de alto desempenho, ao mesmo tempo que produz a impossibilidade real de sua realização, capaz de colocar o sujeito em uma situação paradoxal. A reciprocidade que pode existir até certo ponto entre o desejo singular e as possibilidades oferecidas pela organização de trabalho, seriam substituídas neste momento, por uma captação do sujeito pela gestão organizacional. Quer dizer, estaríamos diante de um momento de alienação do desejo e do projeto individual dentro da lógica organizacional. E quanto mais o sujeito corresponde a esta lógica paradoxal, e quanto mais fortes são as exigências organizacionais, maior a captação, maior a alienação e maior é o distanciamento entre o projeto desejado e o desempenho organizacional exigido. Mais perto do esgotamento emocional, portanto, o sujeito se encontraria.
3. Um terceiro pressuposto, refere-se a existência de uma situação de crise que ganharia o sentido de um fracasso no plano do projeto de ser, capaz de produzir uma cisão psíquica. Seria um momento em que o projeto totalizador (de ser) chegaria a uma ruptura, produtora de um impasse entre o ser que o sujeito se tornou e não suporta e o ser que ele era, mas que não se reconhece mais.
4. Um quarto e último pressuposto, refere-se a burnout poder expressar um processo organizacional e social em curso, onde as possibilidades reais de realização no trabalho são cada vez mais inviabilizadas em função dos ideais de produtividade exigidos pelo novo sistema gerencial da era do capitalismo flexível. O crescimento do mal estar no trabalho e de burnout em especial, seria então significativo da força serializante deste sistema de produtividade atual, produtor da perda da reciprocidade e de uma luta antagônica por melhores postos e lugares dentro do conjunto organizacional.
CAPITULO 3
AS BASES EPISTEMOLÓGICAS DA PESQUISA
No European Congres of Work and Organizational Psychology realizado em maio de 2009, todas as sessões sobre estresse, burnout, bem-estar no trabalho e comportamento organizacional apresentaram trabalhos de natureza quantitativa, com aplicações de instrumentos de medidas e a utilização de inúmeros testes estatísticos. A própria revisão da literatura realizada nesta pesquisa evidencia, com algumas exceções, a predominância quantitativa e estatística na investigação sobre burnout. Tal tendência é reveladora de um pressuposto epistemológico, qual seja, o rigor cientifico é dado pelo grau de mensuração e, quanto mais refinado são os instrumentos de medida e as ferramentas de análises estatísticas, mais objetivo e verdadeiro é o conhecimento. A análise laboratorial dos exames na medicina é quantitativa, e a medicina não teria como estabelecer os parâmetros para a definição de uma doença se não utilizasse a medição mais precisa possível. A análise das reações químicas, da mesma forma, desde Lavoisier é essencialmente quantitativa, seguindo a lei de que numa reação química, a quantidade dos reagentes é idêntica a quantidade dos produtos. Da mesma forma, a compreensão dos fenômenos físicos com Newton, só se tornou possível com o uso do cálculo diferencial e integral. A Razão moderna tornou-se assim, analítica e quantitativa no âmbito das ciências naturais. Nada mais justo, à medida que, adapta seus métodos e formas de pensar aos objetos que interroga.
O problema epistemológico no que diz respeito às ciências sociais e ao estudo de burnout em particular, é fazer desta Razão um sinônimo de rigor científico e um modelo para estudar o homem. A questão neste aspecto, não é quantificar, mas fundamentar epistemologicamente as ciências do homem na razão analítica e quantitativa das ciências da natureza, e estabelecer o dogma positivista de que ser “objetivo é ser mensurável e matematizável” (Comte, 1907). Dentro desta perspectiva positivista, a noção de pesquisa qualitativa é apresentada por certos manuais de metodologia (Sampieri, Callado & Lucio, 1991), como investigações que trabalham como um “nível de mensuração nominal” e, portanto, com um nível de objetividade inferior em relação aos demais níveis de medida. As pesquisas qualitativas ainda dentro desta perspectiva, constitui-se num método que se afasta da positividade
cientifica, à medida que, perde em precisão e em capacidade de generalização estatística. Mantém-se, desta maneira, a reflexão sobre o conhecimento do homem no nível metodológico, sem interrogar as bases epistemológicas, esquecendo-se o fato de que um método pressupõe uma forma de abordar o objeto, e esta abordagem está fundada (explicitamente ou não) em uma filosofia sobre a ciência (epistemologia) e numa filosofia sobre homem (antropologia). Nesta tese, assume-se o pressuposto de que, refletir sobre as possibilidades de conhecimento nas ciências sociais, é partir do pressuposto de que o estudo do homem implica outra razão, adequada aos fenômenos humanos e sociais e não uma razão importada das ciências da natureza3.
Bachelard (2002) criou a noção de “obstáculo epistemológico” para se referir a certos empecilhos presentes na história das ciências da natureza que foram motivo para um atraso ou retrocesso em seu desenvolvimento histórico. Bachelard analisa, por exemplo, o obstáculo da “realidade”, que se refere à mentalidade empirista que reduz o estudo científico ao visível ou imediatamente dado aos sentidos, demonstrando que para o espírito científico, o objeto é primeiro construído teoricamente (racionalmente) para num segundo momento, ser investigado com métodos apropriados. Outro obstáculo epistemológico tratado por Bachelard é o “animismo”, que consiste em atribuir características humanas aos objetos da natureza. Na história da química é possível encontrar nos postulados alquimistas uma visão das reações químicas pressupondo paixões e lutas. O alquimista Mayow, por exemplo, pressupunha no século XVII que a transformação química em geral derivava da integração do espírito nitro-aéreo e do enxofre: “O espírito nitro-aéreo e o enxofre estão empenhados entre si em perpétuas hostilidades e é em razão dessa luta que ao encontrarem-se, e de seus diversos estados quando sucumbem alternadamente, que todas as transformações das coisas parecem originar-se” (Mason, 1964, p.191). Da mesma forma, o chamado “finalismo aristotélico” (Lucie, 1978) ao pressupor a existência de uma alma na realidade física que faria com que todo o movimento físico almejasse o repouso, está permeada pela mesma noção animista.
A ciência moderna evolui, conforme Bachelard (2002) , num 3 Desde Kant a expressão “critica da razão” significa a idéia de uma delimitação dos
direitos da razão a conhecer tal ou tal objeto, ou seja, de estabelecer as condições de possibilidade de um conhecimento. É neste sentido epistemológico que se esta usando, portanto, o termo razão (Munnin, 2008).
processo sempre inacabado de superação de obstáculos epistemológicos, ou seja, à medida em que, por exemplo, a física foi superando o finalismo aristotélico, a química foi superando a alquimia ou a biologia e a medicina foram superando o empirismo. Dentro deste processo de ultrapassagem histórica de obstáculos epistemológicos, é possível entender o valor de Descartes, Galileu e Newton para o desenvolvimento da física moderna: Descartes, ao postular que a natureza é res-extensa, atribui aos fenômenos físicos outro status ontológico que o aristotélico. A realidade física passa a ser ‘coisa’, quer dizer, um objeto inerte e com dimensões físicas definidas tal como altura, comprimento, peso. De forma simular, quando Galileu (Lucie,1978) cria o método científico moderno ao estudar a queda dos corpos, supera o empirismo em direção a experimentação e matematização dos fenômenos. Ou ainda, quando Newton desenvolve o cálculo diferencial e integral, como forma de estudar a variação do movimento e da quantidade de forças, opera uma síntese entre experimentação e matematização que servirá de modelo para todo o desenvolvimento científico posterior (Mason, 1964). Todos estes momentos são exemplos de ultrapassamento de obstáculos epistemológicos no nascimento da ciência moderna ocidental e que vão constituir uma nova razão em relação à razão teológica medieval ou a razão empírica dos alquimistas. Uma razão analítica, baseada no princípio de inércia dos corpos que concebe o movimento como função de grandezas físicas mensuráveis (massa, atrito, aceleração, etc) e instruída pela matematização e pela experimentação.
Como se sabe, esta nova razão ao se tornar preponderante no processo histórico da sociedade capitalista, vai estar na raiz do pensamento epistemológico que se desenvolverá durante os séculos dezenove e vinte, o positivismo. Comte (1907) vai postular o “estado positivo” como o último estágio de evolução da humanidade, baseado no pensamento científico, para o qual, os princípios gerais para toda e qualquer ciência e mais concretamente para a ciência do homem, estariam baseados na observação criteriosa e mesurável, na matematização e no estabelecimento de leis de acordo com o princípio de inércia. Desta maneira, observar é mensurar e explicar é estabelecer as leis causais que determinam a evolução de um fenômeno. Comte, assim, transforma a razão analítica e matemática em dogma da objetividade e do progresso social. Seguindo a inspiração de Comte, o Círculo de Viena coloca-se como objetivo a análise lógica da linguagem científica associando o enfoque empírico do positivismo ao formalismo
lógico matemático (Abbagnano, 1961). Para Popper (2006), por exemplo, o modelo de ciência seria a Física, sendo a partir dela, que todas as outras ciências devem ser pensadas, apoiando desta maneira, a tese de que os fundamentos do conhecimento cientifico nas ciências sociais se encontrariam nos princípios da razão analítica e matemática desenvolvidos pelas ciências da natureza. É sintomático do espírito positivista a crítica de Popper sobre a psicanálise e o marxismo, os enquadrando como dogmas em razão de estarem fora de qualquer refutabilidade. Popper recusa o valor científico para todo tipo de conhecimento que não fora desenvolvido a partir dos padrões da razão analítica das ciências da natureza. Assim, a psicanálise com sua abordagem clínica, buscando compreender o sentido dos sintomas como expressão de uma totalidade psíquica mais ampla, ou o marxismo, que busca compreender a sociedade capitalista a partir de seu processo histórico de luta de classes, são para Popper, totalmente rejeitados do campo cientifico. Se Freud parte do princípio que os sentidos do comportamento do homem adulto precisariam ser buscados na história infantil dos pacientes com base em suas relações familiares e Marx, empreende o estudo da sociedade capitalista a partir de suas bases materiais e históricas ao amparo da dialética hegeliana, isto significa que ambos a sua maneira, abordam o estudo do homem de um ponto de vista histórico, social, dialético e significante. No entanto, embora sejam portadores de inovações epistemológicas significativas sobre estudo do homem, Popper, movido pelos princípios positivistas, descarta absolutamente ambos sistemas de conhecimento (marxismo e psicanálise) por não estarem de acordo com os princípios da razão analítica das ciências da natureza4.
Parece útil a partir do exposto acima, utilizar a noção de obstáculo epistemológico de Bachelard, mas no sentido inverso. Quer dizer, se para as ciências físicas o animismo se constituiu em obstáculo, à medida que atribuiu qualidades humanas para coisas inumanas, é justo afirmar, na mesma medida, que se cria um obstáculo quando se atribui o status de coisa inerte para o estudo de seres que são humanos. 4 Popper possui, em certo sentido, razão ao afirmar a existência de um dogmatismo seja no
marxismo como na psicanálise. Muitos autores durante o século vinte discutiram largamente este problema entre eles, por exemplo J.P Sartre ([1943] 1993), Lucien Goldmann (1959), Politzer (1979) e Lucien Sève (2008). A questão principal é o espírito positivista de Popper que conduz a uma eliminação total desses dois ramos do saber ao presumir que o único fundamento epistemológico para as ciências sociais estaria no modelo das ciências da natureza.
Fundamentar o estudo do homem em termos antropológicos e encontrar e desenvolver métodos apropriados para estudar os fatos sociais em termos humanos, é o caminho sustentando por esta tese, para um fundamento epistemológico para o estudo do processo de desenvolvimento de burnout. Marx (1974), em suas onze teses sobre Feuerbach, visa estabelecer certas bases epistemológicas sob as quais se deve abordar o estudo do homem em direção ao concreto, partindo da práxis histórica e de suas relações sociais. Dilthey (Bouillud, 2008), apesar de partir de outro ponto de vista relativamente a Marx, ao afirmar a necessidade de uma abordagem compreensiva que entenderia as condutas humanas a partir de seu interior, ou seja, a partir do seu sentido, mostra-se também precursor de uma visão antropológica sobre os fenômenos humanos e, da mesma forma Freud, ao propor compreender o sentido dos sintomas histéricos como resultado da história infantil. São posturas diferentes evidentemente, uma de raiz fenomenológica, outra com raiz dialética e outra na clinica, mas que possuem o esforço comum de estabelecer o conhecimento sobre o homem a partir daquilo que lhe é próprio, qual seja, a partir de seu ser histórico, social e significante. Rhéume (2007) sintetiza bem esta exigência epistemológica, quando afirma que “no domínio científico um pensamento dialético recusa uma epistemologia inspirada no modelo das ciências físicas, onde a causalidade é pensada como relação de exterioridade à ordem determinante das coisas” (p.62). É nesta direção, portanto, de um fundamento antropológico e dialético que apreenda o homem em sua complexidade social, estrutural e histórica, que se buscará embasar epistemologicamente esta investigação sobre burnout.
Destacar-se-á primeiramente, três noções presentes no pensamento dos principais estudiosos de burnout que é preciso ultrapassar: a noção de inércia, de determinismo causal (social- individual) e a noção de linearidade. Com relação a noção de inércia, é necessário partir do princípio de que “o sujeito não é uma substância mas deve ser considerado em sua capacidade sempre emergente de produzir sentido e de fazer alguma coisa para si” (Giust-Dispraries, 2009, p.65). Quer dizer que, o ser humano não tem o status ontológico de uma coisa inerte à maneira dos fenômenos físicos, mas de um sujeito, um ser para si e não em si, que existe à medida que significa e representa o mundo e a si mesmo, enquanto “temporalidade processual” (Giust-Dispraries, 2009). No mesmo sentido, o ser humano também não pode ser reduzido às leis orgânicas e fisiológicas da natureza: o
organismo humano, conforme Giust-Dispraries (2009), cria um mundo com um sentido que é essencialmente não funcional, ou seja, um sentido que ultrapassa o funcionamento fisiológico, para ganhar o status de sentido histórico. As sinapses cerebrais fornecem as bases neuro- fisiológicas para o pensamento, mas não o sentido de um pensamento. A neurologia assim, pode ser capaz de explicar as razões orgânicas de uma dor, mas não o seu sentido para o sujeito.
É necessário ultrapassar também o determinismo causal entre indivíduo e social que não concebe estes dois polos nos termos de uma reciprocidade dialética que se produz mutuamente, mas a partir de uma postura reducionista que faz do indivíduo uma causa das determinações exteriores ou vice-versa. No primeiro caso “os comportamentos, as atitudes, as qualidades os sentimentos são disposições que explicam a maneira em que o coletivo está depositado em cada individuo” (Gaulejac, 2007, p.15), o que caracterizaria um sociologismo. No sentido inverso, as qualidades e os sentimentos encontrariam sua gênese nas próprias potencialidades individuais, fazendo das determinantes sociais meros agentes provocadores, o que por sua vez, caracterizaria um reducionismo psicológico. Ultrapassar o determinismo causal implicar em conceber que o indivíduo é um homem que se singulariza na relação com o mundo social, na mesma medida em que, o social é o homem que se universaliza através de uma infinidade de ações singulares (Sève, 2002). Portanto, de um ponto de vista dialético, existe uma unidade recíproca na qual o indivíduo como ser social se singulariza, na medida em, que nega as determinações sociais para afirma-se como ser singular, e o social é resultante de uma infinidade de ações individuais, mas que se organiza na medida em que, nega o indivíduo singular para afirmar-se como totalidade social.
Por fim, é importante ultrapassar a lógica linear, que pensa um fato como uma variável dependente (e posterior) resultante de uma variável independente (anterior). A lógica histórica fica reduzida, desta maneira, a ordem cronológica e o passado como a forma definitiva do real que determinaria o estado presente e o desenvolvimento futuro. Neste sentido, a lógica história equivaleria a lógica da evolução conforme acreditou Spencer (Mueller, 1978), criador do “evolucionismo social”, e a temporalidade humana equivaleria ao determinismo do passado sobre presente e sobre a evolução futura. No entanto, a temporalidade humana não é linear, e a lógica histórica não equivale a lógica cronológica, visto que as relações fundamentais existentes entre
passado-presente-futuro organizam-se dentro de uma lógica não-linear e de relações internas que serão desenvolvidas na sequência.
Em resumo, ultrapassar a noção de inércia, de determinação causal entre individuo-social e a lógica linear presentes nos estudos sobre burnout, em direção a um fundamento antropológico e dialético implica em superar o paradoxo, como afirma Rhéeume (2007), do realismo para quem “o real é Coisa” e do idealismo, para quem “o real é uma Ideia autônoma”: “Essas duas posturas fundamentais tem em comum o fato de operar uma ruptura em relação a uma visão dialética que religa estreitamente o laço sujeito-mundo. Nestes dois casos, o sujeito existencial é colocado fora de jogo, sob o absoluto do Real ou da lógica das Idéias” (p.60). Desta maneira, o ser humano concreto como sujeito-no-mundo, definido como temporalidade histórica em suas relações sociais, é a maneira de ultrapassar o realismo positivista em direção a uma razão dialética que faz da experiência histórica sua matéria fundamental (Goldmann, 1959 ; Sartre, 1985).
No que se refere à historicidade individual5, conforme afirmado
acima, esta implica numa lógica não-linear. A partir do momento que o indivíduo não é uma unidade substancial, indivisível e em si, mas um sujeito para-si que persegue perpetuamente sua unidade singular como um ser desejante (Barus-Michel, 2004), isto significa que a historicidade é a forma de ser do sujeito e, portanto, a reflexão sobre a dinâmica desta historicidade torna-se de fundamental importância epistemológica.
Afirmar que a lógica histórica não equivale à lógica cronológica não significa dizer que não exista a relação passado-presente como uma das dimensões históricas fundamentais. Quando Freud ([1896] 1967, III) na sua primeira etiologia da histeria, relacionava os sintomas histéricos de suas pacientes aos eventos passados traumatizantes, mostra-se atento a esta dimensão temporal na qual o passado é atuante sobre a realidade presente. No entanto, os elementos estruturantes do passado sobre a vida presente podem ser modificados não em seu ser, mas em sua função dentro de um processo histórico singular: “Esta singularidade do funcionamento psíquico é o fundamento da capacidade do homem de mudar, não a história passada, mas sua relação com esta história, quer dizer, a maneira onde ela é atuante para o sujeito e por esse meio, 5 Será tratado nesta parte da historicidade no plano singular, em função de nossos objetivos
desta tese, mas bem entendido que esta reflexão sobre a questão da historicidade e seu