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Neste tópico, são analisados os quadros Pra quem Você bate palmas? e O que está certo e o que está errado (este último inserido nos quadros Gente que é sucesso e Sorriso alegre de uma criança), exibidos no dia 5 de dezembro de 1987. Embora existam pequenas diferenças na linguagem dos quadros, as análises foram agrupadas, pois se considerou, aqui, também ser aplicável o conceito de saturação apontado por Souza (2014).

O conceito-análise é o da inserção do discurso político em programas de entretenimento, realizado por um apresentador de programas populares com interesse direto na questão em virtude de exercer mandato político e de ser proprietário de emissora de televisão. Em ambos os casos, através de intermediários. Aqui, as marcas discursivas revelam como um discurso conservador avalia e expõe seus adversários políticos publicamente. No caso do Pra quem você bate palmas?, através de um convidado pela produção. No outro exemplo, do quadro O que está certo e o que está errado, utilizando técnicas de jornalismo (matérias do tipo povo-fala) para introduzir questões políticas no programa.

O primeiro caso, Pra quem você bate palmas? (apêndice 4) se caracteriza como um discurso pedagógico, uma leitura do panorama político vigente feito pelo quadro de forma a influenciar o telespectador/eleitor. “Hoje o convidado de Prá quem você bate palmas? é um convidado especial. Ele é um convidado especial do programa e ele já foi prefeito de Natal”. (PROGRAMA CARLOS ALBERTO, 1987).

É a eleição interminável, o eterno palanque descritos por Gomes (2004). No sentido afetivo, um afago nas lideranças políticas locais alinhadas à ideologia da televisão (apresentador e convidado) e uma crítica direta aos adversários. Para dar a aparência de jogo, o apresentador (que naturalmente sabe o nome do avaliado) simula surpresa a cada negativa do convidado. Mas também pede palmas à plateia para os aprovados.

O ato falho no anúncio do candidato aponta para o esquecimento número 2, pois fica explícita uma certa hesitação na escolha das palavras. “E ele é o meu convidado ... é o convidado da produção do Pra quem você bate palmas? ... Marcos Formiga”. (PROGRAMA CARLOS ALBERTO, 1987). Conforme Lacan (1998) apud Souza (2014, p. 9), “todo ato falho é um discurso bem sucedido”.

Tudo aquilo que o sujeito deseja e não lhe é permitido realizar pelas contingências do discurso vai para o inconsciente. No inconsciente, essas pulsões recalcadas brigam para sair, para romper os filtros sociais que as contingenciaram. As pulsões escapam pelas falas da língua: os chistes, os lapsos, os atos falhos.

O quadro apresenta-se como um texto de entretenimento, de curiosidade, de comportamento, mas é a política no cotidiano. Ao longo do quadro, o apresentador repete as preferências até então reveladas do convidado, numa atualização da atração televisiva em estilo semelhante ao do rádio, sempre atento a cada novo ouvinte. “Então, Woden, você não recebe os aplausos de Marcos Formiga, ex-prefeito de Natal.” (PROGRAMA CARLOS ALBERTO, 1987).

O resultado é um discurso pedagógico, sobre em quem o telespectador pode ou não confiar no sentido político, tendo como referência a emissora (quadro 10).

Quadro 10. Resultado do quadro Prá quem você bate palmas?

Nome Cargo Aprovação Justificativa do convidado

Cassiano Arruda Jornalista NÃO Não disponível33

Garibaldi Filho Prefeito de Natal

NÃO Incompetência para administrar a cidade; falta de coerência entre discurso e ação

Geraldo Melo Governador SIM Competência como empresário e como gestor; tom conciliador na política

Vilma de Faria Deputada federal

SIM Qualidade do trabalho voluntário; garra, determinação e vontade política

33

Um salto no vídeo oculta a justificativa do convidado sobre a negativa de tirar o chapéu para o primeiro nome da lista. Cassiano Arruda, jornalista, foi titular, de 1972 a 2009, de uma coluna denominada Roda Viva, no jornal Diário de Natal.

Daladier da Cunha Lima

Reitor da UFRN

SIM Competência como profissional da medicina e capacidade como administrador

Roberto Furtado Vice-prefeito de Natal

NÃO Convidado fez elogios à pessoa, mas destacou não bater palmas para o político

Sérgio Dieb Vereador de Natal

NÃO Por ser um parlamentar de ideologia comunista; pelo incentivo às greves

Flávio Rocha Deputado Federal

SIM Pela possibilidade de geração de empregos, por despontar como nova liderança política

Woden Madruga Presidente da FJA

NÃO Ligação com os Alves, radicalismo e passionalidade, falta de isenção

Patrício Jr Secretário de Estado

NÃO Aliado dos Alves; pela perseguição política e discriminação no trato com municípios Fonte: elaborado pelo autor com base no programa analisado (2018).

O discurso conservador se revela através dos esquecimentos do convidado, seja na escolha das palavras, seja por sua formação discursiva conservadora. O conservadorismo considera adversários aqueles com ideologia contrária, tem repulsa pelo direito de greve dos trabalhadores, vê como inimigas pessoas próximas aos adversários políticos. Considera passional a ideologia contrária e racional a própria ideologia.

O quadro O que está certo e o que está errado tem a linguagem do jornalismo diário, em que o repórter sai às ruas com uma pergunta pronta. O texto é jornalístico, mas o discurso é pedagógico, político. É a TV citada por Aldé (2004, p. 24) fornecendo os “atalhos (grifo da autora) para a obtenção da informação política funcionalmente necessária para o cidadão comum”. Em 1987, Carlos Alberto de Sousa era senador, mas preparava o terreno para nova eleição dali a três anos.

Portanto, era preciso manter a política em discussão diante de um público então não acostumado com assuntos políticos sendo levados à televisão. E já havia concorrência na mídia local. Em dezembro de 1987, a TV Ponta Negra já não era mais a única emissora comercial do RN, pois a Rede Globo e Rede Manchete já haviam chegado ao RN via TV Cabugi e TV Tropical, respectivamente.

Também nesse caso surge o discurso empresarial, do homem de negócios que cobra da repórter mais agilidade na resposta do entrevistado. “Ele só pode dizer o que está certo e o que está errado. Ele não pode é ficar falando muitas coisas” (GENTE QUE É SUCESSO, 1987). “A nossa reportagem, a nossa Eliane não fez o negócio certo. É preciso saber o que está certo e o que está errado. Realmente, o deputado Francisco Miranda usou um bom tempo, ficou devagando (sic) entre vários assuntos, mas não disse o que está errado e o que está certo”. (PROGRAMA CARLOS ALBERTO, 1987)

5 CONSIDERAÇÕES

O contexto do recorte desse estudo pode ser tomado como exemplo do que Katz, Gurevitch e Haas (1973) apud Wolf (1999) tratam sobre as necessidades individuais preenchidas pela mídia. “O contexto social em que o destinatário vive pode, nomeadamente, relacionar-se com o tipo de necessidades que favorecem o consumo das comunicações de massa”. (WOLF, 1999, p. 30). Assim, desde a criança que quer se transformar em estrela da televisão até o adulto com suas carências materiais compõem o público-alvo da emissora.

Esse público chamado a participar da TV Ponta Negra representa um contexto socioeconômico do estado, à época, um público não costumado ao veículo TV e, de acordo com as estatísticas (IBGE, 1991), com baixos índices de alfabetização, poder aquisitivo, num estado com baixo IDH.

O programa Carlos Alberto tem as características de programas populares que, sejam sofisticados ou de linguagem mais simples, trabalham com a promessa de informação, entretenimento, defesa dos direitos do cidadão e campanhas de solidariedade num pacote de espetacularização. Neste caso, trata-se de um modelo de comunicação em que o objetivo político do emissor (a conquista do voto), é escamoteado em estratégias solidárias e ou de entretenimento e prestação de serviço.

Partindo da pergunta-problema deste estudo, considera-se que apresentadores de programas de auditório utilizam constantemente a função fática relatada por Sodré (1977) para estabelecer um vínculo afetivo com o telespectador. No caso de Carlos Alberto de Sousa, através da constante repetição da(s) fala(s) do(s) participante(s) ou dos acontecimentos, uma característica do rádio, formação inicial do apresentador. Também é a televisão, conforme Sodré (1975, p. 33) se aproveitando do gosto pelo verbalismo da sociedade brasileira. “O discurso empolado e pedante impera ainda na televisão, especialmente na voz dos apresentadores, locutores e animadores.”

Chega-se a um panorama de afetos encenados, cuidadosamente construídos num discurso político de forma a permitir que esses telespectadores venham a se transformar em eleitores, aspecto defendido por Gomes (2004).

O discurso do programa está diretamente relacionado às formações ideológicas do apresentador, caracterizadas pelo CPDOC-FGV como conservadoras, num terreno de recepção propício, na medida em que o Rio Grande do Norte se configurava, à época, como um estado de maioria católica, com uma população de baixo poder aquisitivo, suscetível a mensagens de cunho afetivo-solidário. Carlos Alberto de Sousa se aproxima de seu público

dando as provas relatadas por Weber (2004) em relação ao líder carismático. Leva informação, entretenimento e pratica a solidariedade na televisão.

As marcas discursivas do apresentador coincidem com a premissa de que a efetividade desse tipo de programa está vinculada a um sentido escatológico e grotesco na cultura de massa brasileira. Na análise de Sodré (1975, p. 39), o grotesco é levado à cultura de massa, em que “o miserável, o estropiado são grotescos em face da sofisticação da sociedade de consumo, especialmente quando são apresentados como espetáculo”.

No assistencialismo praticado no programa (mais particularmente no quadro Sonho da minha vida), o participante é uma espécie de cidadão-vítima, descrito por Charaudeau (2010). Porém, nesse caso, atingido pela condição social que o expõe nesse contexto de solidariedade espetacularizada, nesse panorama de afetos encenados. A prática demonstra que candidatos eleitos com auxílio dessas estruturas político-partidárias ou midiáticas tendem a orientar sua atuação na manutenção dessa dependência do eleitor em relação a essas estratégias afetivas de auxílio material e moral. Desse modo, os candidatos do Programa Carlos Alberto são incentivados a insistirem nos pedidos à emissora em caso de negativa na primeira participação.

Uma tradição coronelista na política brasileira aponta para a manutenção desse esquema de voto, uma espécie de cabresto eletrônico com base na afetividade, servindo, grosso modo, para a alienação das camadas menos esclarecidas da população. No coronelismo das fazendas, o cidadão era preso pelas condições materiais. Na dívida no armazém do patrão, por exemplo, conforme relatado anteriormente. No coronelismo eletrônico, por meio da política assistencialista, o cidadão tem aprisionada parte de sua cidadania. Enquanto não resolve o problema, a televisão trabalha e se esforça para manter o vínculo com o necessitado. Mas depois a relação é descartada, salvo interesses que transformem o episódio em um novo espetáculo.

A carência, principalmente a material, transforma determinadas parcelas da sociedade em público-alvo desse tipo de estratégia midiática, que no fim da linha significaria uma prática não inclusiva. Assim, ao expor as necessidades físicas e materiais de uma parcela não atendida pelo Estado, através da mídia tenta-se estabelecer uma relação afetiva, não apenas como o atendido, mas também com o telespectador. Porém, o contato é superficial, intermediado pelos códigos da televisão, que se rompem tão logo apagam-se as luzes da atração exibida em forma de espetáculo.

Essa prática assistencialista também se configura no quadro que se propõe a realizar sonhos infantis (Sorriso alegre de uma criança), considerando-se que, a partir dos vídeos

exibidos, as crianças não têm a mesma carência material que os adultos (Sonho da minha vida). O que deveria ser um ambiente afetuoso transforma-se, no quadro analisado, num cenário em que se reproduz um discurso autoritário, desqualificado para o trato com as preferências midiáticas infantis.

Esse ambiente de práticas sociais é propício ao personalismo descrito por Holanda (1979) como uma espécie de herança cultural da sociedade brasileira a partir da colonização portuguesa. Essas características são descritas também por Weber (2004) em relação aos líderes carismáticos e líderes burocráticos, fenômeno com inúmeros exemplos no cenário local e regional.

São marcas registradas dos líderes populistas. “No Brasil, o populismo sempre demonstrou grande capacidade de adaptação às formas predominantes de comunicação, do palanque ao rádio, da imprensa à televisão”. (GOMES 2004, p. 81).

De modo geral, as características dos quadros do programa Carlos Alberto se encaixam nas definições de mundo real e mundo lúdico, este último com as variações apontadas por Jost (2007): Alea, Agon e Mimicry. As características do mundo ficcional são encontradas apenas nos momentos de exibição de videoclipes durante os quadros.

Os afetos presentes no discurso do programa Carlos Alberto, embora cercados de uma estrutura de produção ainda amadora, são planejados numa performance midiática, estrategicamente construídos como uma ponte para emoções como compaixão e prazer, que permitem uma espécie de troca simbólica de virtudes do apresentador-político com o telespectador. As técnicas televisivas levam a uma identificação do receptor com as situações apresentadas. No caso do entretenimento, conforme Buselmeier (1985, p. 26), o receptor se identifica “com os destinos artísticos de outros, ao se imaginar sendo o herói cheio de sucesso, por todos os lados cortejado, cujos gestos, olhares, roupa, penteado ele tenta, volta e meia, imitar diante do espelho”.

Nesse panorama assistencialista, a compaixão pode ser o motor para a solidariedade, que nesse caso pode render boas parcerias com a iniciativa privada e contribuir para a construção da imagem da emissora. E o prazer seria o resultado do entretenimento. Portanto, essa solidariedade midiática seria uma moeda de troca estrategicamente planificada nessa relação emissor/receptor/contexto que envolve entretenimento e cotidiano, tendo em vista, no final do processo, o voto.

A atuação de um político como proprietário de um veículo de comunicação e, ainda, sua performance de afetos encenados à frente das câmeras coloca o problema na fronteira (tênue) entre a esfera pública da comunicação política e a propaganda eleitoral, conceitos

debatidos por Gomes (2004). É o eterno palanque eletrônico, reproduzido nos comentários e nos quadros com conotação política do Programa Carlos Alberto.

É a televisão fornecendo os atalhos para a obtenção da informação política, conforme Aldé (2004). Nos dez quadros analisados neste estudo, há comentários políticos diretos ou indiretos em seis. Comentários que chegam a ocupar 4 minutos de um quadro de entretenimento direcionado ao público infantil, por exemplo. E há um quadro inteiro, travestido de jogo, de 18 minutos e 31segundos, dedicado ao cotidiano político do Rio Grande

do Norte.

Somados os períodos de Carlos Alberto de Sousa no rádio, como proprietário de jornal e como apresentador de TV, além de outros apresentadores eleitos ao longo dos últimos 40 anos no RN, chega-se uma estrutura midiática de reconhecido peso nas estruturas de poder local, na medida em que já elegeu e/ou contribuiu para a reeleição de vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e uma prefeita de Natal.

Embora este estudo não tenha se dedicado à pesquisa direta de recepção, é possível analisar uma clara identificação do receptor com o personagem midiático, o carisma do herói solidário e as diretrizes políticas emanadas do líder burocrático, embora isso não represente 100% de sucesso em todos os empreendimentos políticos do apresentador.

Nem mesmo a força de um veículo de comunicação como era a televisão ao final dos anos 1980 garantiram a Carlos Alberto de Sousa sucesso em todas as eleições. Outros atores atuaram nesse processo, quais sejam, em teoria, outros partidos políticos, outros veículos de comunicação, a Igreja, a família, a escola, como nos indica Hjarvard (2012, 2014) em seus estudos sobre a perspectiva institucional da midiatização.

A TV Ponta Negra situa-se no panorama descrito por Gomes (2004) em que a política se insere no mundo dos negócios, um veículo que exerce pressão sobre a política em cenário local de forma a obter vantagens (na arena política e de imagem, junto ao público, principalmente). Carlos Alberto de Sousa foi ativo e passivo nesse processo. Único coronel eletrônico oriundo das classes populares, ao se colocar como uma espécie de terceira via política, voltou as costas para a tradição das oligarquias regionais em controlar as novas lideranças por elas lançadas. Por isso, teria sido discriminado e também sofrido as pressões que a midiatização de Hjarvard (2012, 2014) aponta sobre a relação da mídia com outros atores sociais.

O discurso resultado dessa emissão televisiva não pode ser visto apenas na perspectiva do emissor, mas inserido num contexto em que a voz era dele, mas o discurso fruto de um compartilhamento de significados. Desse modo, o discurso que ora se apresenta

discrepante em relação aos valores humanos seria considerado normal e até divertido à época em que foi reproduzido, o que aponta para uma evolução da sociedade em relação a esses princípios de convívio social. No entanto, esses episódios ainda se reproduzem em programas populares na televisão brasileira, particularmente no programa Silvio Santos, que inspirou o programa objeto deste estudo.

Grosso modo, a TV Ponta Negra nasce com a promessa-discurso de que o telespectador de hoje pode ajudar a fazer o programa de amanhã. Uma análise discursiva com foco na ideologia (da mídia e do apresentador-político) dos quadros do programa aponta para um discurso conservador, autoritário, machista, preconceituoso e despreparado para o contraditório, até mesmo quando ele surge na mais inocente resposta de uma criança diante do desejo de um presente.

Ao contrário da solidariedade no sentido jurídico, que leva a um sentido de unidade, de parceria em determinado empreendimento ou contrato, na solidariedade midiática, no assistencialismo com fins políticos o cidadão entra apenas na parte relativa ao espetáculo. Se a televisão vem do grego τῆλε (tele) + visão, essa solidariedade midiática, esse espetáculo de bondade - a telesolidariedade citada por García-Canclini (2008) - também distancia os dois lados desse nó. É vexatória, estampada em algumas expressões de participantes do Sonho da minha vida, por exemplo. É vexatório como o assistencialismo governamental do poder central do Brasil em relação à seca no Nordeste, como analisa a cultura popular:

[...] Mas doutô uma esmola a um homem qui é são Ou lhe mata de vergonha

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