Organisational Development Perspective
5.3 The Process - Leading the Changes
No início do século XVIII, com a interdição legal à ocupação das terras da zona tampão, que englobavam o território do Sertão da Ressaca e parte dos territórios das Capitanias dos Ilhéus, de Porto Seguro e de Minas Gerais, esta região transformou-se em refúgio para um número significativo de indígenas dos grupos Kamakã-Mongoió, Gren ou Botocudos e dos vários subgrupos Maxakali (PARAÍSO, 2002).
Os povos de diversas nações indígenas, beneficiados pelo estabelecimento da zona tampão, espalharam-se por todo o território da Ressaca. Não há o número preciso dos indivíduos existentes. O ofício do ouvidor da comarca dos Ilhéus67, Francisco Nunes da Costa, para o governador interino da Bahia, de 23 de agosto de 1783, ao tratar dos feitos da conquista por parte de João Gonçalves da Costa, aponta que este teve contato com cerca de cinco aldeias dos índios Mongoiós, contando com, aproximadamente, dois mil indivíduos (MEDEIROS, 1977). Em ofício de 6 de agosto de 1783, também encaminhado ao Governo Interino da Bahia, Francisco Nunes da Costa descreve parte do contato do Capitão-mor com os índios Mongoiós no Rio Pardo:
[...] me comunica o dito Capitão-mór João Gonçalves da Costa, os progressos e resulta da sua conquista ou entrada, que passo a pôr na prezença de VV. EEx. e Senhorias. Entrou este animoso homem pelas ásperas mattas e serras do Rio, que na Capitania dos Ilheos, he conhecido na sua foz pelo rio Patipé e depois de 2 mezes de viagem e consideráveis trabalhos, descobriu 5 aldêas de gentio, de tão bom caracter, que vive em sociedade, com plantações de bananas, batatas, inhames, toda a sorte de fava e feijão e até canna de assucar, o que constitue huma nação dócil e fácil de reduzir68.
O relato do ouvidor ressalta a agricultura das tribos indígenas e a diversidade dos gêneros alimentícios produzidos, destacando a docilidade destes povos e a facilidade com que eles poderiam ser integrados à economia agrícola regional. Segundo Souza (1999), no início
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Cf. Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1910, v. XXXII, p. 539. Ofício do Governador interino da Capitania da Bahia para Martinho de Mello e Castro, em que são dadas diversas e interessantes notícias relativas à Capitania de Ilhéus, em 23 de agosto de 1783.
68
Cf. Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1910, v. XXXII, p. 541. Ofício do Ouvidor da Comarca de Ilhéus Francisco Nunes da Costa para o Governo Interino da Bahia. Em 6 de agosto de 1783.
do processo de colonização e povoamento do Sertão da Ressaca, não ocorreram confrontos diretos entre os colonizadores e os índios, sempre que possível, os conquistadores buscavam manter uma relativa convivência de paz. De acordo com Tanajura (1992), os Camacãs estendiam-se em uma ampla faixa de terras compreendida entre os rios Pardo e das Contas, “pode-se afirmar que o território da nação Mongoió, principiava no córrego Piabinha, no município de Itambé, e se estendia pelo Sertão da Ressaca até o Rio das Contas ao Norte”.
Os Camacãs do Sertão da Ressaca habitavam palhoças quadradas, algumas com paredes de barro, recobertas de cascas de árvores. Na agricultura, o plantio e a colheita eram atribuição de todos, prevalecia o coletivismo no grupo, cultivavam mandioca, batatas, abóboras, inhames, feijões, melancias, algodão e milho, dentre outros gêneros. “Eram hábeis oleiros, fabricavam louças de barro ou de pedras pulverizadas”. Confeccionavam sacos de tecidos de algodão e de fibras de palmeiras, bolsas de caça e curtos aventais que usavam em redor dos quadris. Dentre os povos autóctones encontrados no Sertão da Ressaca, os Camacãs foram os que, mais facilmente, adaptaram-se à cultura do homem branco (TANAJURA, 1992).
Em janeiro de 1817, na região do Berruga, Maximiliano verificou a presença de famílias de Camacãs trabalhando para agricultores negros, mediante o pagamento de salários. Dois dias após, na fazenda Vereda, observou o trabalho de algumas famílias de índios. Os Camacãs ocupavam-se da derrubada das matas, das lavouras de mantimentos e da caça nas florestas. O naturalista observou que os índios, em sua maioria, eram batizados, alguns possuíam uma cruz vermelha tingida na testa. Verificou também que os nativos, mediante o consentimento do proprietário, tinham por hábito tirar das plantações o que lhes convinha69.
Na sequência da viagem, semanas depois, o príncipe chega ao Arraial da Conquista e constata que as aldeias70 de Camacãs mais próximas dos estabelecimentos portugueses cultivavam o milho, o algodão e a banana. Verificou que, apesar de sedentarizados, os índios mantinham seus hábitos, ocupando-se especialmente da caça. Maximiliano averiguou que o estado havia colocado na direção dos aldeamentos portugueses incultos e despreparados. Constatou ainda que os nativos, mediante pagamentos ínfimos, eram obrigados a trabalhar nas
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Citado por WIED-NEUWIED, Maximiliano de., op.cit., p. 386-393.
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A utilização deste termo era corrente à época e servia tanto para designar as aldeias originais das tribos como também para se referir aos centros de catequização e civilização dos povos indígenas. Cf. MIGUEL, Antonieta.
Sertão da Ressaca: território do conflito. In: Edinalva Padre Aguiar. (Org.). Ymboré, Pataxó, Kamakã: A
presença indígena no Planalto de Conquista. Vitória da Conquista: Museu Regional de Vitória da Conquista- UESB, 2000b. p. 54-79.
estradas, a derrubar as matas, a levar mensagens a grandes distâncias e a combater os tapuias inimigos71.
O viajante seguiu em direção às grandes matas da Serra do Mundo Novo, também conhecida como Jiboia, distante um dia de viagem do arraial, com o fim de ter contato com tribos Camacãs em pleno estado de vida selvagem. Maximiliano relatou que, no começo do percurso, a região ainda era um pouco habitada, os campos haviam sido desmatados e cultivados, mas, logo em seguida, penetra na grande mata virgem. No Vale da Jiboia, achavam-se construídas de pau e barro as pequenas choças dos índios; estas eram cercadas por touceiras fechadas de bananeiras e tinham ao fundo gigantescas árvores da floresta. Cultivavam gêneros de subsistência, banana e algodão, mostravam-se contentes com os produtos que a natureza lhes dava72. O naturalista ainda descreve:
Fabricam panelas com argila cinzenta, e são mais industriosos que as tribos da costa oriental. Sabem, com destreza a caça; mas conhecem muito bem as vantagens que lhes assegura o cultivo das plantas úteis, e plantam, junto às suas choças, banana, milho e mandioca, cuja raiz assada eles comem, e batatas. Cultivam também pequena quantidade de algodão, e fazem com ele cordas muito bem feitas [...] A habilidade dessa gente em todos os trabalhos manuais, torna-a muito útil aos portugueses, depois que parte dela se civilizou um pouco. [...] Afora as suas armas e trabalhos de arte, esses costumam vender aos europeus velas de cera, que espalham um cheiro agradável, quando queimam. [...] Os Camacãs vendem também mel, que colhem em grandes quantidades nas florestas73.
Observa-se por meio dos relatos do príncipe Maximiliano que não foram encontrados índios na lida com a terra nas áreas de vegetação mais aberta, da caatinga, do carrasco e de cerrado, e nas áreas de campos abertos, sem a presença de matas virgens. Tal fato atesta que, mesmo “sedentarizados e civilizados”, os indígenas nunca se afastavam muito das provisões e da segurança oferecidas pelas matas e pelos rios.
A agricultura das nações indígenas que habitavam os sertões entre os rios Pardo e das Contas, apesar de bastante variada, possuía uma baixa produtividade, era basicamente de subsistência e autoconsumo. Euclides da Cunha assim descreveu suas técnicas:
Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental - o fogo. Entalhadas as árvores pelos cortantes dgis de diorito; encoivarados, depois de secos, os ramos, alastravam-lhes por cima, crepitando, as caiçaras, em bulcão de fumo, tangidas pelos ventos. Inscreviam, depois, nas cercas de troncos combustos das caiçaras, a área em cinzas onde fora a mata exuberante. Cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo na estação seguinte, até que, de todo exaurida, aquela mancha da terra fosse, imprestável, abandonada em caapuera — mato extinto [...] (CUNHA, 1984, p. 32).
71
Citado por WIED-NEUWIED, Maximiliano de., op. cit., p. 386-393.
72
Citado por WIED-NEUWIED, Maximiliano de., Ibid., p. 429.
73
Também habitavam os territórios da Ressaca os Aimorés ou Gren (Guerém), denominados de Botocudos pelos portugueses. Ocupavam uma área imensa, abrangendo boa parte da região sul da Bahia e se estendendo pelas Províncias de Minas Gerais e Espírito Santo. Pertenciam à estratificação humana mais antiga do índio brasileiro. Os Pataxós e o seu subgrupo Maxakali estavam localizados, “grosso modo”, na zona entre os rios Cachoeira e Mucuri; no território do Sertão da Ressaca, habitavam as margens do rios Catolé Grande, Pardo, Jiboia, Mangerona e Colônia. Segundo Regni (1988b, p. 324), “em muitos pontos, compartilhavam a área com seus indesejados vizinhos botocudos e, amiudamente, viam-se forçados a recorrer aos colonos para que os defendessem de seus assaltos”.
Os Botocudos e os Pataxós viviam das atividades de caça, coleta e pesca. A agricultura foi incorporada aos seus hábitos por meio do contato estabelecido com os colonizadores. Sua imposição como a mais importante prática econômica relacionava-se com o fim do nomadismo, que ia de encontro com a proposta de aldear para liberar terras para a instalação de fazendas ou roças e abertura de rotas comércio (PARAÍSO, 1982).
Reportando-se mais uma vez ao ofício do governador da Bahia para o secretário de Estado da Marinha e do Ultramar, Marthinho de Mello e Castro, de 12 de agosto de 178074. O governador relata parte da trajetória de João Gonçalves da Costa no início do povoamento do Arraial da Conquista, descrevendo que famílias de índios domesticados foram sendo agregadas à povoação do Capitão-mor. Estes foram essenciais na derrubada das matas e implantação de lavouras para o autoabastecimento. Os plantios de gêneros alimentícios foram essenciais para o estabelecimento das fazendas de gado. Nesse mesmo ofício, o governador relata que o incipiente arraial já participava do abastecimento dos açougues da Villa de Jaguaribe, povoação de Nazareth e Aldêa; para tanto, os condutores de boiadas tinham de fazer um dilatado e complicado caminho.
Os Camacãs que habitavam o Sertão da Ressaca, dada a sua afinidade com a lavoura, a destreza com as atividades manuais e a facilidade com que se relacionavam com os colonizadores, quer seja no trabalho nas fazendas, ou por meio da venda de produtos florestais e de artesanatos, foram fundamentais na transmissão das técnicas de derrubada das matas, do preparo do solo e cultivo de mantimentos, na caça, na pesca e no artesanato.
A expansão e a manutenção da agricultura de abastecimento no Sertão da Ressaca não puderam estar associadas exclusivamente à força de trabalho indígena. A força de trabalho e os conhecimentos das terras e dos cultivos dos índios foram capitais nos primeiros momentos
da implantação da agricultura de alimentos do Sertão da Ressaca. No entanto, a reprodução e a ampliação desse modelo agrícola decorreram principalmente da força de trabalho dos escravos.
As relações amistosas entre os colonizadores e as nações indígenas não perduravam por muito tempo, alternavam-se momentos de conflitos e de tranquilidade. Mesmo após as pacificações impostas pelos conflitos armados, destaca-se nesse sentido o recrudescimento dos tapuias no período de 1803 a 1806, que resultou em combates sanguinários, como o “Banquete da Morte”,75
e, por meio dos aldeamentos dos capuchinhos, os conflitos entre os fazendeiros e os índios não sedentarizados adentraram boa parte do século XX.
Vários episódios de rechaço à submissão imposta pelos colonos foram desencadeados pelos nativos não sedentarizados. As reações hostis funcionavam como resposta aos atos de subordinação a que eram submetidos. As tribos hostis sabiam onde investir contra os colonos, estrategicamente, organizavam seus ataques nas estradas, nas fazendas e nos rios (OLIVEIRA, 2012). Nem sempre, essa violência era uma forma de retaliação, por vezes, os índios invadiam as propriedades em busca de alimentos, já escassos nas matas. Nesse sentido, ocorreu o episódio da fazenda de Manoel Caetano de Castro, onde “300 selvagens apropriou- se (sic) da lavoura do fazendeiro”.76
O Censo de 1872 (Quadro 1) mostrou que havia 1227 caboclos, índios civilizados77, na Imperial Vila da Vitória, representando 6,5% da população. Este resultado, já no final do terceiro quartel do século XIX, evidencia a eficiência das políticas de pacificação e sedentarização das tribos indígenas. No entanto, ressalta-se que esta população deveria ser consideravelmente maior. O evento da fazenda de Manoel Caetano, supracitado, demonstrou que um contingente significativo de índios ainda mantinha o estilo de vida selvagem. Os Botocudos e, especialmente, os Pataxós, foram muito resistentes às políticas de destribalização, com muito vagar foram acostumando à vida social.78
75
Citado por WIED-NEUWIED, Maximiliano de., p. 428-429. “João Gonçalves da Costa, depois de ordenar a seus homens que tivessem as armas prontas, convidou todos os selvagens para uma festa e, enquanto confiadamente se entregavam à alegria, foram cercados de todos os lados e quase todos mortos. Depois disso, os selvagens embrenharam-se nas matas, e o arraial conseguiu repouso e segurança”.
76
Fala recitada na abertura da Assembleia Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província, o doutor Álvaro Tibério de Moncorvo e Lima, em 14 de maio de 1856. Bahia, Typ. de Antonio Olavo da França Guerra e Comp., 1856. p. 38-39. Citado por OLIVEIRA, Renata Ferreira de. Índios Paneleiros do Planalto da Conquista: do massacre e o (quase) extermínio aos dias atuais. Dissertação (Mestrado em História) Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2012, p. 70.
77
Cf. VON WEECH, Friedrich., op. cit., p. 32.
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