Através da análise, a luz do contexto histórico, dos textos selecionados e dos documentos encontrados, pode-se concluir, de um modo geral, que San Tiago Dantas era um defensor do ideário e do projeto nacional-desenvolvimentista, tendo, no entanto, elaborado certas interpretações que atestam sua originalidade dentre os intelectuais e
statemakers do período.
Dantas adota em seu pensamento a divisão entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos desde o principio dos textos aqui analisados, como ele expressa na afirmação da existência de claros antagonismos de interesses e necessidades entre os países latino-americanos e os Estados Unidos. O autor também defende constantemente a necessidade de modernização da economia nacional através da industrialização e da sustentação de um elevado crescimento econômico. Para ele, o país não poderia se contentar indefinidamente em ser um país exportador de matérias-primas, devendo, no entanto, direcionar os recursos que aquelas exportações lhe davam para avançar em seu processo de industrialização. Em sua concepção, desenvolvimento econômico pressupunha três componentes principais: expansão do mercado interno, diversificação da produção e melhoria da produtividade técnica (melhor aproveitamento dos fatores de produção – trabalho e capital).
Dantas não pode ser identificado como um nacionalista, pelo menos não no sentido de como eram entendidos aqueles políticos que participavam da Frente Parlamentar Nacionalista. Inclusive, Dantas era visto com desconfiança pelos setores de esquerda, devido às suas ligações com firmas estrangeiras e sua defesa da necessidade
119 de investimentos estrangeiros. Contudo, seria exagerado identificar o autor como um “entreguista”. Para ele, existiam dois tipos de nacionalismo: um esclarecido, pragmático e construtivo, que aceitava a cooperação externa se ela se subordinasse às decisões tomadas no país, e outro, rechaçado por ele, que seria xenófobo, irracional e prejudicial. Sobretudo, para Dantas, o nacionalismo deveria ser encarado como um importante instrumento de mobilização política em prol do desenvolvimento autônomo do país.
Pode-se identificar Dantas como ocupando uma posição intermediária entre os representantes do “desenvolvimentismo do setor público não-nacionalista” e os do “desenvolvimentismo do setor público nacionalista”, de acordo com as categorias de Ricardo Bielschowsky (1998). Segundo esse autor, havia quatro diferenças principais entre as correntes nacionalistas e não-nacionalistas do desenvolvimentismo do setor público.
A primeira é a defesa dos nacionalistas da necessidade de o processo decisório sobre a locação de recursos estar localizada nas mãos de agentes nacionais, enquanto os não-nacionalistas achavam que a sede decisória pudesse estar fora do país. Dantas frequentemente defendeu a necessidade do investimento privado externo em um país subcapitalizado como o Brasil. Ele não acreditava que o Brasil sozinho tivesse condições de realizar o grande volume de investimentos de que necessitava para tornar- se uma moderna economia industrializada. Contudo, Dantas defende um sistema de liberdade ponderada para os capitais estrangeiros privados: eles deveriam, através de incentivos e regras claras, estarem vinculados a um plano maior de desenvolvimento nacional elaborado dentro do Brasil. Além disso, o autor expressa claramente a opinião de que “não consente em ver sair do nosso território o centro de decisão e orientação dos nossos próprios problemas”, no texto 9 (Significação do 11 de novembro). Em relação aos investimentos públicos estrangeiros, é contínua a defesa que o autor faz da necessidade de obter financiamentos desse tipo dos Estados Unidos e de suas agências de fomento, como numa espécie de Plano Marshall para o Brasil.
A segunda diferença diz respeito à oposição entre desenvolvimentismo e inflação. Os nacionalistas não pensavam que as políticas de desenvolvimento deveriam ser contidas devido ao aumento da inflação, enquanto os não-nacionalistas recomendavam maior austeridade monetária e fiscal. Dantas se aproximava mais da posição não-nacionalista, embora não de maneira radical. Em diversos momentos, principalmente em seus textos de análise de conjuntura na seção “Várias” do “Jornal do Commercio”, o autor via com grande preocupação a escalada inflacionária, sobretudo
120 durante o governo de JK. Em sua opinião, a inflação era prejudicial especialmente às massas trabalhadoras, que tinham o valor de seus salários corroído, e à sustentação do próprio processo de desenvolvimento. O autor acreditava que o combate à inflação, o saneamento da situação monetária e a estabilidade e clareza das regras criadas pelo governo teriam a capacidade de criar um ambiente favorável para o investimento.
O terceiro ponto de divergência entre os dois grupos girava em torno da distribuição de renda dos frutos do progresso técnico, sendo que essa preocupação não aparecia nos não-nacionalistas. Em diversos textos, Dantas defendeu posições contrárias a reivindicações de trabalhadores pelo aumento nominal dos salários, em situações pontuais. Também pensava que instrumentos como o imposto de renda progressivo poderia acarretar nos países subdesenvolvidos em uma baixa acumulação de capital, deprimindo os investimentos na economia. Além disso, Dantas em nenhum momento apoiou ideias de tipo socialistas que implicassem na socialização dos meios de produção. Contudo, a preocupação com uma melhor distribuição da renda nacional era constante e central em seu pensamento. Via como essencial para a existência de uma sociedade livre de instabilidades sociais a superação da pobreza e a elevação do nível de vida da população. Mais do que um imperativo moral, para Dantas a melhora da distribuição da renda e do nível de vida era primordial para gerar um mercado consumidor interno e dinamizar a sociedade brasileira.
Em quarto lugar, nacionalistas e não-nacionalista discordavam quanto à amplitude do planejamento na economia. Para os primeiros, ele deveria ser integral, trazendo uma visão de conjunto; para os segundos, ele deveria ser apenas setorial, preocupando-se em atacar pontos específicos de estrangulamento do sistema econômico. De novo, Dantas parece se localizar entre as duas posições.
Após o rompimento com o integralismo, em 1942, San Tiago apoiou em toda sua trajetória o regime democrático e a adesão aos princípios da civilização ocidental. Também sempre expressou opinião desfavorável ao comunismo. Contudo, Dantas apoiava a ascensão das massas e uma melhor distribuição de renda entre as classes sociais. Um dos pontos que conferia maior originalidade ao pensamento de San Tiago Dantas foi a elaboração de uma teoria social, influenciada principalmente pela sociologia de Arnold Toynbee, capaz de interpretar a configuração da sociedade brasileira e as profundas transformações pelas quais vinha passando. O autor pensava que a classe agrária, tradicional classe dirigente no Brasil, havia perdido sua capacidade de fornecer soluções universais para a sociedade brasileira e enxergava nas massas
121 populares a principal força que viria a ocupar essa posição de liderança. Embora possa se pensar que Dantas apenas tenha assumido essa interpretação à medida que se aproximou do PTB, a verdade é que ela já está presente em diversos textos anteriores mesmo ao período aqui analisado57.
A análise dos textos de Dantas também permitiu identificar a formação de diversos conceitos que viriam a compor a Política Externa Independente, em 1961. A defesa da descolonização, do principio de não-intervenção, do multilateralismo e da promoção da paz, por exemplo, surgem em diversos de seus textos. No entanto, a principal característica do pensamento de Dantas em relação à política internacional foi sem dúvida sua insistência na necessidade de superação das desigualdades sociais e econômicas seja entre países, seja entre classes sociais dentro de cada nação. Para o autor, essas seriam as causas fundamentais das instabilidades sociais e das ameaças à paz e, portanto, deveriam ser atacadas por políticas de desenvolvimento e cooperação dos países desenvolvidos e agências multilaterais aos países subdesenvolvidos. No caso brasileiro e dos países latino-americanos, Dantas entendia que deveria ser do interesse dos Estados Unidos promover o desenvolvimento econômico da região a fim de eliminar possíveis focos de tensão social gerados pela discrepante distribuição de renda nesses países.
57
Desde a época do magistério, Dantas defendia a importância do direito e das fórmulas jurídicas serem capazes de expressar os rumos da evolução social. Dessa forma, a emergência das massas, principal fato social nas sociedades latino-americanas, deveria ser traduzida na substituição da propriedade privada pelo trabalho como núcleo central do Direito moderno e das reformas sociais.
122 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve a intenção de investigar a influência do debate ideológico e, portanto, da luta política interna, na formulação da política externa brasileira, durante o período democrático de 1945-1964, com base na hipótese de que ela teria sido um dos principais instrumentos do projeto nacional-desenvolvimentista. Como se procurou demonstrar na Introdução, a política externa brasileira parece ter variado ao longo da história brasileira de acordo com os grupos políticos no poder e em torno de duas tendências principais: liberal ou desenvolvimentista.
No capítulo 1, verificou-se a existência de uma narrativa consolidada na área de Relações Internacionais no Brasil que tende a negar a influência da política interna na formulação da PEB e ressaltar o seu caráter de continuidade. Foram apresentados argumentos que permitem contestar essa versão e recuperar a dimensão política e ideológica da PEB. Ainda que não se negue a existência de fortes elementos de continuidade, essa narrativa parece servir à afirmação de uma cultura diplomática que confere coesão ao Ministério das Relações Exteriores e, portanto, não deveria ser assumida acriticamente pelos estudiosos da área.
No capítulo 2, procurou-se caracterizar os principais termos do debate político-ideológico que marcou o período democrático de 1945-1964. As transformações da sociedade brasileira, principalmente a partir do início do século XX, em direção a uma moderna sociedade de classes fortaleceu a elaboração de um projeto de modernização centrado na forte intervenção estatal para promover a industrialização e uma melhor distribuição da renda nacional. Tentou-se demonstrar que a política externa, sobretudo nos governos de Vargas e de Kubistchek na década de 1950, foi utilizada como instrumento desse projeto. Naquele momento, predominava a ideia de que os EUA eram nossos aliados especiais e, portanto, a grande estratégia buscada foi a de tentar obter desse país um plano de auxílio técnico e financeiro para promoção do desenvolvimento nacional intensivo. Após as decepções com os Estados Unidos mesmo com a política externa de alinhamento automático do governo Dutra, os governos de Vargas e Ku bistchek vão procurar modificar suas estratégias a fim de qualificar as relações com a potência hemisférica, no contexto da Guerra Fria. Identificou-se a elaboração, em 1951, da tese da relação entre o subdesenvolvimento e a instabilidade dos regimes, que se tornou o argumento central da política externa brasileira da década de 1950 e com a qual se
123 esperava atrair a atenção dos norte-americanos para a utilidade estratégica de promover o desenvolvimento e a eliminação de tensões sociais em nações do mundo ocidental e democrático. A tese serviu inclusive de fundamento ideológico para a importante Operação Pan-Americana, lançada em 1958, pelo governo brasileiro e com a adesão de países latino-americanos.
No capítulo 3, após extensa pesquisa no Acervo San Tiago Dantas do Arquivo Nacional, na seção “Várias Notícias” do “Jornal do Commercio” e em obras publicadas do autor, realizou-se a análise de alguns textos considerados mais representativos do pensamento de San Tiago Dantas durante a década de 1950. Alguns deles aparecem pela primeira vez em um trabalho científico sobre o autor, permitindo uma maior e mais geral compreensão de seu pensamento para além dos estudos já realizados sobre suas formulações para a política externa da década de 1960 ou suas contribuições ao trabalhismo. Textos tais como “A crise brasileira e o dever dos intelectuais” mostram conceitos e formulações desenvolvidos por Dantas que parecem permear e fundamentar todo o seu pensamento e suas propostas de intervenção na realidade, merecendo trabalhos mais aprofundados que ampliem as perspectivas buscadas nessa dissertação.
Quanto aos objetivos circunscritos a essa pesquisa, pode-se considerar que, de um modo geral, os dados encontrados e as avaliações realizadas apontam para a confirmação de sua hipótese específica, ou seja, a de que Dantas teria sido um dos principais responsáveis por traduzir o ideário nacional-desenvolvimentista para a política externa brasileira dos anos 50. Pode-se constatar, em primeiro lugar, que as ideias de Dantas encontravam grande identidade com as ideias manifestadas por teóricos e representantes do campo nacional-desenvolvimentista, se se considera esse campo como um bloco que congregava diferentes atores de diferentes matizes ideológicos, tais como Celso Furtado e Roberto Campos. Em segundo lugar, percebeu-se a enorme correspondência entre as posições assumidas pelo Brasil em sua política externa durante os anos 50, principalmente nas relações com os Estados Unidos, e as ideias defendidas por San Tiago Dantas.
Pode-se destacar como uma das principais descobertas dessa pesquisa não apenas a possibilidade de traçar um quadro mais completo sobre o pensamento desse importante intelectual, mas sobretudo a comprovação fornecida pelos vários documentos e textos analisados de que Dantas exerceu grande protagonismo na política externa brasileira durante a década de 1950, antes portanto de se tornar Ministro das
124 Relações Exteriores. Os dados encontrados indicam a influência de Dantas na elaboração e na afirmação da tese da relação entre o subdesenvolvimento e a instabilidade dos regimes, principal argumento da diplomacia varguista e de JK. Portanto, pode-se considerar que Dantas foi tanto um intelectual com contribuições importantes e originais para o pensamento político de sua época, como um homem público cuja ação excedeu em muito seu conhecido período a frente do Ministério das Relações Exteriores no governo parlamentarista de João Goulart. Mesmo antes de ser chanceler brasileiro e formular a Política Externa Independente, Dantas parece ter sido uma peça de fundamental no processo de instrumentalização da política externa brasileiro ao projeto de desenvolvimento nacional e de reformas sociais e, de um modo geral, uma figura fundamental da política brasileira do interregno democrático.
A (re)descoberta e a valorização do importante legado de San Tiago Dantas são tarefas ainda por se realizar. Espera-se que essa pesquisa, somando-se aos outros estudos já feitos, possa contribuir nesse processo que se encontra apenas no início.
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