A perspectiva de tratar o turismo e o lazer como fatores de desenvolvimento local não é nova. Pelo contrário, e na atual conjuntura tem como principal fator as diretrizes da globalização que possibilita novas oportunidades para os sujeitos sociais. Entretanto, devemos buscar o entendimento inicialmente a respeito do que compreendemos por turismo. Para tanto, nos apoiamos em Cooper (2001, p. 61), que fala que “O turismo é uma atividade multidimensional e multifacetada, que tem contato com muitas vidas e atividades econômicas diferentes”. Esta compreensão fortalece o entendimento a respeito das possibilidades encontradas no processo de desenvolvimento local no bairro de Itapoama, caracterizadas pela presença de sujeitos sociais que engendram a atividade turística no bairro.
Definir o fenômeno e o conceito exato da palavra turismo não é fácil, tendo em vista o fato de ser uma atividade social complexa. Mas, chegar a uma definição mais aproximada possível é de extrema importância para visualizar o Turismo dentro do âmbito social, percebendo suas relações com outros setores e a criação de valores sociais tangíveis e intangíveis gerando novas perspectivas para o indivíduo que pertence e pratica as atividades turísticas como fonte de renda e de lazer.
No final do século XIX e inicio do século XX surgiram várias descrições e conceituações sobre o fenômeno turístico. A mais antiga delas é a do economista austríaco Herman Von Schullern zu Schattenhofen, que em 1911 definia a atividade dizendo: “turismo é o conceito que compreende vários processos como o social, ambiental, cultural e, especialmente, os econômicos que se manifestam na chegada, na permanência e na saída do turista de um determinado município, pais ou estado”. (BARRETO, 2000, p.9).
J.I. Arrillaga definiu o turismo da seguinte forma
O turismo é o conjunto de deslocamentos voluntários e temporais determinados por causas alheias ao lucro; conjunto de bens, serviços e organização que determinam e tornam possíveis estes deslocamentos e as relações e fatos que entre aqueles e os viajantes tem lugar. (ARRILLAGA 1976, p.25).
O turismo na definição de Bissoli (1992) é entendido como:
O conjunto de recursos capazes de satisfazer as aspirações mais diversas, que incitam o indivíduo a deslocar-se do seu universo cotidiano, e assim caracteriza-se por ser uma atividade essencialmente ligada à utilização do tempo livre. (BISSOLI 1992 p. 116)
Porém, o entendimento da palavra turismo vai além de o individuo gastar este tempo livre em busca de um de uma foram de lazer. Existe um conjunto de fatores que agrupados formam um conglomerado de ações que resulta na atividade turística. É o que explicita Torre (2003; p 2):
O turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde se trasladam de seus lugares de residência habitual a outro, não exercendo atividade lucrativa ou remunerada e promovendo múltiplas inter-relações de caráter social, econômico e social. (TORRE, 2003, p. 2)
E, reforça:
Turismo é o conjunto de turistas, que ocasiona um complexo de relações produzidas em massa como conseqüência de suas viagens: transporte, hotéis, agências, espetáculos, guias, interpretes, organizações privadas ou publicitárias que promovem a infra- estrutura e a expansão dos serviços; campanha publicitária, centros de informação e escolas especializadas. (TORRE, 2003, p. 2)
Desta maneira podemos entender o turismo como uma atividade que reúne um conjunto de atividades que se complementam e se integram mesmo sendo totalmente independentes nas suas essências e nos seus desenvolvimentos.
Esta complementaridade vem ressaltada com a definição de Ansarah (2001: p 11) onde fala que:
A atividade turística pode ser considerada um ‘agrupamento de setores’, existindo entre eles uma complementaridade técnica. Tendo em conta sua heterogeneidade e complexidade, pode-se afirmar que o turismo, como setor econômico, é um conceito difícil de definir de maneira uniforme. Muito mais que um setor, é uma atividade que se estende de forma direta por vários setores da economia, e, de forma indireta, por todos os demais setores. (ANSARAH, 2000, p 11)
De maneira mais aparente, podemos compreender que a atividade turística é realmente formada por conjuntos de fatores que interagem de maneira inter- relacionada e que apresenta uma característica bastante diferenciada de outras atividades econômicas. O fato de que a atividade turística é transitória e intrínseca em outras atividades da economia fica mais clara nas definições colocadas por Beni (2003), em que analisa o turismo em três dimensões, sendo elas: 1) econômica – quantitativo de operações econômicas realizadas pelo turista fora da sua residência habitual, utilizando os serviços do leque oferecido pelo setor e proporcionando divisas para o local recepto; 2) social – refere-se ao processo de inclusão social que as atividades turísticas proporcionam para a população de uma dada localidade; 3) cultural – diz respeito ao processo de troca de culturas entre povos de diferentes regiões.
Dias (2003) define turismo como a atividade econômica mais importante do mundo suportando segmentos importantes como o automobilismo e a eletrônica. E, como importante fator de desenvolvimento social de um país gerador de emprego e renda, fazendo aumentar as divisas do mesmo.
Para o turismólogo Luís Gonzaga Godoi Trigo (1993) no nosso contexto de sociedade o turismo se coloca em uma situação e contexto maior do lazer e entretenimento, e aponta que o turismo é uma atividade:
[...] sofisticada que movimenta bilhões de dólares por ano e atinge centenas de milhões de pessoas. Inúmeros locais transformam-se em complexos turísticos pelas mais variadas razões: belezas naturais, núcleos históricos ou artísticos, centros comerciais, de convenções ou culturais, eventos esportivos ou ligados ao show business, grandes metrópoles ou complexos industriais ou ainda centros turísticos artificiais como a Disneylândia em Los Angeles. (TRIGO, 2001, p. 60) Já a Organização Mundial do Turismo - OMT define turismo como: “[...] as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes ao seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano com finalidade de lazer, negócios ou outras”. (OMT, 2001, p. 38)
Bem, certamente, se nós colocássemos todas as definições dos teóricos neste trabalho não chegaríamos a uma definição de consenso. Mas, a ideia neste momento é caracterizar e exemplificar a complexidade do turismo, além da sua definição a sua pratica. Entendido como sistema, teremos no turismo a complementaridade dos
serviços e ao mesmo tempo a independência de todos (hotéis, agências de viagens, companhias aéreas etc) num sistema holístico.
No sentido da demonstração das representatividades dos sujeitos na atividade turística, destacamos as esferas de governo municipal, estadual e federal que fica encarregado de organizar, planejar, fomentar e elaborar a prática da atividade juntamente com o trabalho apropriado de marketing nos principais destinos.
Outro importante grupo de sujeitos identificado é o da iniciativa privada, seja ela relacionada diretamente à atividade turística ou não como é o caso de empresas de grande, médio, pequeno e micro portes, que atuam em diversas áreas, como por exemplo, o comércio (mercados, farmácias, lanchonetes), serviços (contabilidade, construção civil, beleza) e indústria (móveis, gráficas). Cabe destacar que dentro da atividade privada ligada à atividade turística, considera-se necessário incluir tanto a iniciativa privada atuante no destino, quanto aquela atuante como “representante” do destino na origem dos fluxos. Como exemplo de iniciativa privada relacionada diretamente com a atividade turística no próprio destino, pode-se citar os meios de hospedagem, as agências de viagens, as empresas de transporte (linhas aéreas, ônibus, trem, aluguel de carros, transporte urbano, táxis, entre outros.), guias de turismo, casa de câmbio, restaurantes, bares, empresas de recreação, centros de lazer, organizadores de eventos, prestadores de serviços para eventos, lojas de artesanato, imobiliárias, concessionários de infra-estruturas (aeroportos, terminais de transporte, pedágio, entre outros.), entidades financeiras, empresas de telecomunicações, etc. Quanto a exemplos de iniciativa privada “representante” do destino na origem dos fluxos, pode-se elencar os operadores de turismo, as agências de viagem, as centrais de reservas, as centrais administrativas das empresas dos destinos, os produtores de eventos, as empresas de transportes e demais agentes da prática do turismo.
Ao falarmos de turismo não podemos deixar de lado as dinâmicas que a sociedade global vem apresentando nas últimas décadas, principalmente através e com o contexto da globalização e da facilidade com o que os meios produtivos foram inseridos em outros mercados de países distantes, como também com as trocas culturais demandadas pelos indivíduos em suas práticas de turismo. Dessa forma, Dias (2003) nos aponta que:
O turismo transformou-se numa das mais importantes faces da globalização contribuindo para estreitar as diversas partes do globo e, ao mesmo tempo, para o aumento de uma consciência global. Diferentes povos, através da atividade turística, passam a compreender o lugar que ocupam no mundo e a ligação que possuem uns com os outros. (DIAS, 2003, p. 14)
Neste sentido, podemos entender que as práticas de turismo apresentar-se-ão de forma mais abrangente e com contextos de customização na realização da prática da atividade turística, muito em virtude das facilidades que as trocas culturais podem proporcionar nas relações de sociedades. Este pensamento reforçam as palavras de Dias (2003) que retrata que:
Por outro lado, o turista tenderá a personalizar suas viagens; em função da facilidade de informação, procurará cada vez mais fazer seu próprio planejamento, evitando a padronização, embora beneficiando- se das viagens em grupo, que permite gastos menores. Ao chegar ao local de viagem, estabelecerá seus próprios contatos e roteiros que previamente estabeleceu via internet, por exemplo. (DIAS, 2003, p. 19) Contribuindo com esta visão, observamos em OMT (2001) a importância das atividades turísticas como integrantes do processo de geração de renda e aumento de ganhos nas localidades. Percebemos esse fato na conjuntura estudada ao reportarmos dos processos econômicos e sociais ligados às atividades de turismo no bairro de Itapoama com a sua vocação para o turismo.
As possibilidades de lazer existentes no referido local remete-nos também às reflexões em torno do termo lazer que se tornou popular através das palavras de Dumazedier (1976) em que fala que lazer é:
o conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou, ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais. (DUMAZEDIER, 1976, p. 34)
Por outro lado, buscamos em Ansarah (2001) os princípios do contexto a respeito da significação do termo lazer, que nos fala que
O termo sempre foi utilizado de forma vaga por diferentes precursores, desde Aristóteles, passando por Santo Agostinho, Lafarge, Veblen, Riesman, Friedman, Caillois, mas sempre associado a outros termos como ócio, recreação, lúdico, tempo livre trazendo subjacente o valor
de bem estar, de prazer. Na verdade, até recentemente, o lazer não constituía uam noção substantiva dentro da ciência, já que ninguém tinha se dado ao trabalho de delimitá-lo como conceito. (ANSARAH, 2001, P. 236)
No contexto da idade antiga, destacamos o olhar de Aristóteles que traz uma reflexão singular a respeito do significado do lazer para aquela sociedade. Este olhar reflete a conexão que este elemento social realiza para com a dinâmica da sociedade e, neste contexto com a relação com o trabalho e com a educação, intitulando inclusive com um termo, o Scholé
Scholé significava, simultaneamente, lazer e educação de si mesmo,
um tempo que se situava entre a prática ativa do cidadão responsável pela gestão da cidade e a prática dos cultos. Essa era, na essência, o privilégio do cidadão grego: a liberação dos gestos, dos rituais, da monotonia do trabalho cotidiano (que se resumia a obrigações familiares, espirituais e políticas), para poder dedicar-se apenas ao culto do corpo e do espírito. (ANSARAH, 2001, P. 237) No entanto, Muller (2002), fala que
O lazer ainda não é uma dimensão muito valorizada e tenho a impressão de que as dificuldades de valorizá-lo vem, também, da falta de conhecimento e compreensão dos seguintes aspectos: do seu entendimento; de suas potencialidades; dos valores que carrega consigo; da importância que representa a educação para e pelo lazer; do compromisso com uma política pública ou privada deve ter com o atendimento a todos, mas com prioridade aos segmentos mais frágeis da população; desse como direito social; de como ocupar, com qualidade, o tempo livre; do lazer mercadoria; da cultura local, dentre outros conhecimento. (MULLER, 2002, P. 11)
Notadamente, entendemos que as práticas deste lazer nos contextos modernos devem ser apoiadas por uma profissionalização cada vez maior dos seus sujeitos ofertantes, pois as articulações de qualificação dos stakeholders6 propiciam uma
interação maior entre estes e os praticantes de turismo e lazer.
Com relação à abrangência e ao alcance que as práticas de lazer possuem e interagem com a sociedade, buscamos em Melo (2012) um outro direcionamento para acentuação de sua definição enquanto área de estudos
As atividades de lazer são praticas culturais, em seu sentido mais amplo, englobando também os diversos interesses humanos, suas diversas linguagens e manifestações. As atividades de lazer são
6 Stakeholder em uma organização é, por definição, qualquer grupo ou indivíduo que pode afetar ou ser afetado pela realização dos objetivos dessa empresa (FREEMAN, 1984)
vivenciadas no tempo livre das obrigações – profissionais, domésticas religiosas – e das necessidades físicas. As atividades de lazer são buscadas tendo em vista o prazer que podem possibilitar, embora nem sempre isso ocorra e embora o prazer não deva ser compreendido como exclusividade de tais atividades. (MELO, 2012, p. 34)
Este é um conceito em que se observa uma pluralidade de sentidos. Contudo, podemos salientar que ele não se encerra por si. Destacamos que esta temática é ampla e significativamente dinâmica por se tratar de estudo de ações realizadas pelo ser humano em determinados contextos da sociedade.
Também podemos relacionar a visão dos indivíduos de uma dada localidade a respeito do que vem a ser a prática de lazer. Tomamos como referência nesta fala as palavras de Rodrigues (2007), em que realizando uma pesquisa sobre desenvolvimento local na cidade de Gravatá/PE, identificou os diversos olhares sobre as impressões, por parte dos habitantes desta cidade, no tocante ao que eles enxergam por lazer. Como respostas a este questionamento, a autora obteve que as práticas de lazer são representadas por: descansar, ouvir o rádio, ver televisão, conversar com o vizinho, passear com a família, encontrar com os amigos.
Faz-se pertinente aproximar estes conceitos ao que se manifesta no bairro de Itapoama na cidade do Cabo de Santo Agostinho/PE. É visto que tal localidade é um território do litoral do referido estado, em que a prática de atividades de lazer e turismo representa um conjunto de ações e opções de oportunidade de desenvolvimento para os habitantes desta comunidade.
Porém, é preciso ter um olhar diferenciado para a contextualização deste lazer como estratégia para o desenvolvimento regional local. E, para isso, buscamos em Zingoni (2002), a reflexão de um modo de pensar a respeito deste assunto:
Como falar de lazer como fator desenvolvimento quando, junto a era dos parques temáticos, vivemos a era dos barracos de madeira ou de material aproveitável, da violência urbana, das crianças sem creche e sem escola formal, da população de rua e na rua e de tantos outros símbolos de exclusão, conhecidos e reconhecidos por todos nós? Como falar de lazer num sistema capitalista no qual grande parcela da população se encontra na faixa da pobreza, outra parcela significativa se encontra em situação de miséria absoluta, portanto uma população brasileira de excluídos, distribuição desigual de bens e empregos? Essas questões sinalizam novas perspectivas também para o lazer das pessoas hoje no brasil? (ZINGONI, 2002, p. 56)
Cabe aqui ressaltarmos que atualmente, devido inclusive ao dinamismo da sociedade, temos a nossa disposição inúmeros equipamentos culturais e construídos
para a prática de lazer, como é o caso dos Shoppings Center, parques temáticos, casas de show, boates, bares e restaurantes que possibilitam um acesso maior por parte dos indivíduos. Todavia, muitos desses equipamentos estão localizados em grandes centros urbanos, por isso, distante da perspectiva de uma parcela da sociedade, engendrando assim, uma problemática de acesso as práticas de lazer para uma camada da sociedade. Estas reflexões trazem à tona problemas enfrentados em toda a parte do país e, certamente encontrados na população do bairro de Itapoama. Porém, o entendimento que defendemos por parte do lazer é exatamente o que lhe sustenta como prática de desenvolvimento local, pois, este lazer em diversas partes do território nacional é responsável por construir e oferecer possibilidades de geração de renda e, consequentemente, de autonomia e empoderamento financeiro e social por parte dos sujeitos sociais que auferem seu sustento com e através dele.
CAPÍTULO IV – AS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS E A AGÊNCIA