Ao acessar o banco de dados do IBICT entre os anos de 2012 e 2017, mantendo os descritores previstos, quais sejam “Juventudes”; “Culturas Juvenis”; “Cidade”; “Urbano”; “Escola”, encontram-se quinze trabalhos cadastrados. Destes, nove tratam de temas tangenciais ou externos ao tema específico da pesquisa e quatro foram acolhidos para análise e composição do corpus da pesquisa, conforme quadro explicativo.
Quadro 2 - Trabalhos selecionados do banco de dados do IBICT
Nome Trabalho Ano Nível Universidade
MAIA, Harika Merisse
Grupos, redes e manifestações: a emergência dos agrupamentos juvenis nas periferias de São Paulo
2014 Mestrado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo MENEZES, Priscylla Karoline de
Ser jovem, ser estudante, ser do campo: a concepção de rural e urbano para jovens estudantes em escolas públicas das cidades de Goiânia e Trindade 2014 Mestrado em Geografia Universidade Federal de Goiás VASCONCELOS, Paulo Sérgio Souza
Espaços comunitários para a infância e a juventude na contemporaneidade da “terra brasilis”: o potencial na construção de cidades educadoras 2014 Mestrado em Teologia Escola Superior de Teologia (EST) ROCHA, Carolina Carneiro
O que restou da indignação? Juventude e representações sociais de cidade ideal e conflitos urbanos após as manifestações de junho de 2013. 2015 Mestrado em Psicologia Universidade Federal de Pernambuco
Fonte: Elaborado pelo autor (2017).
Saliento que nenhum dos trabalhos selecionados foi oriundo de pesquisas em Programas de Pós-Graduação em Educação, fato esse que já alerta para a necessidade da realização de tal pesquisa, no âmbito acadêmico da educação. Igualmente, todos os trabalhos selecionados são dissertações de mestrado, não
constando nenhuma tese de doutorado, o que, da mesma forma, justifica a realização de tal pesquisa em nível de doutoramento.
O primeiro trabalho corresponde à dissertação de mestrado intitulada: “Grupos, redes e manifestações: a emergência dos agrupamentos juvenis nas periferias de São Paulo”, de autoria de Harika Merisse Maia, publicado em 2014 e fruto do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). O principal objetivo do trabalho foi debater a relação entre juventude, cultura, território e política na formação de agrupamentos juvenis, em São Paulo, e nas ações que tais grupos promovem.
Após a introdução, a caracterização da pesquisa e os percursos metodológicos (etnografia e registro de narrativas), a autora monta o referencial teórico de seu trabalho, dando primordial destaque para a constituição do jovem e as políticas públicas para a juventude. Na sequência, é apresentado o histórico da ocorrência de agrupamentos e coletivos juvenis nas periferias de São Paulo. Por fim, há discussões sobre as formas de se fazer política para a juventude, as relações dos jovens sujeitos de sua pesquisa com as manifestações ocorridas em junho de 2013 no país e as considerações finais.
Para Maia (2014, p.143), a relação do jovem com sua cidade pode ser explicada como forma de contato entre o mundo juvenil e a arte, por exemplo, conforme afirma:
Ao levar à praça pública suas questões e proposições por meio da arte, produzem múltiplas e profundas consequências: a interferência na rotina local, no que já está consolidado e “acomodado” – seja pela forma ou conteúdo, a intervenção provoca a reflexão; a realização de ações culturais e apropriações de espaços públicos eram questionamentos sobre o direito de produzir e ter acesso à cultura, à arte e à cidade.
Nesse sentido, de acordo com a pesquisadora, percebe-se que o que mais se aproxima da relação jovem e cidade são as manifestações artístico-culturais as quais cada um expressa no cenário urbano. Ao mesmo tempo, a autora destaca que existe certa incapacidade de jovens pobres se inserirem na sociedade e que justamente as relações que permeiam os grupos juvenis estudados envolvem as questões de poder sobre os territórios urbanos.
Ao trabalhar com sujeitos jovens de periferia, a autora demonstra a relação de tais sujeitos consigo mesmo, com seu lugar/espaço/território e com sua cidade. Além disso, há destaque para as relações políticas dos e com os jovens: como as políticas
públicas para a juventude estão atuando e como os jovens participam da política. Nesse contexto, o recorte temporal encontrado pela autora, durante a escrita de seu trabalho, foi primordial: o momento político-social pelo qual viveu o Brasil em junho de 2013, com manifestações em todas as partes do país e uma presença juvenil importante em todas elas. Constatou-se, então, que as relações juvenis com seu espaço transcendem as noções de cidade ou território – para a autora – e, dessa forma, configuram-se como múltiplas e diversas.
O segundo trabalho corresponde à dissertação de mestrado intitulada: “Ser jovem, ser estudante, ser do campo: a concepção de rural e urbano para jovens estudantes em escolas públicas das cidades de Goiânia e Trindade”, de autoria de Priscylla Karoline de Menezes, publicado em 2014 e fruto do Programa de Pós- Graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG). O principal objetivo do trabalho foi como destaca Menezes (2014, p.19): “Identificar e analisar quais as concepções de campo e cidade para jovens, residentes no campo, estudantes de escolas públicas das cidades de Goiânia e Trindade e como realizam suas práticas socioespaciais”.
O trabalho apresenta capítulo introdutório, contextualizando a pesquisa e informando objetivos e recursos metodológicos (pesquisa qualitativa com estudo de caso). Na sequência, há o capítulo: “O ensino de Geografia e o lugar de vivência do Jovem escolar: uma articulação necessária à compreensão das práticas espaciais do aluno”. No capítulo, há, sem dúvida, uma maior aproximação com o campo de estudos iniciais do autor da Tese: Ensino de Geografia. Esta adesão possibilitou verificar quais conceitos-chave da Geografia a autora percorreu em sua pesquisa. Ainda há um capítulo sobre o jovem do campo, o qual é denominado como uma “faceta das juventudes contemporâneas” e, mais adiante, são feitas as discussões da pesquisa sobre a visão de rural e urbano dos jovens sujeitos da pesquisa, bem como as considerações finais.
No caso específico dessa pesquisa, a autora não trabalha com a relação direta entre o jovem e sua cidade, mas, sim, com a visão, a concepção ou as percepções de rural e urbano de jovens de duas cidades em Goiás. Uma importante conclusão de Menezes (2014, p.132) diz respeito ao fato de que:
Ser jovem na cidade, não é o mesmo que ser jovem no campo, assim como ser jovem na periferia não é o mesmo que ser jovem numa classe mais abastada. Contudo, os jovens entrevistados revelam a face de uma parcela da juventude que enfrenta dificuldades decorrentes de suas condições de vida e, também, o intenso processo de busca pela sobrevivência no espaço urbano.
A autora ainda diferencia as visões de cidade e de campo, de acordo com os sujeitos da pesquisa:
Cidade é um espaço de oportunidades de trabalho, estudo e melhores condições sociais [...]. A cidade é o espaço das grandes construções, do desenvolvimento e da tecnologia desenvolvida [...] apresentam uma cidade, enquanto lugar onde há uma grande disputa pessoal, cobrança e distância nas relações interpessoais. (MENEZES, 2014, p.135).
Dessa forma, percebem a cidade numa perspectiva de um espaço, no âmbito social, muito atrativo; no âmbito físico, muito grandioso; e no âmbito relacional, muito frio. Por um lado, esta é uma visão de cidade, pode-se dizer padrão ou que está dentro do senso comum, na medida em que é a cidade noticiada pela mídia e muitas vezes apresentada por filmes, documentários e produções de televisão. Obviamente, o principal questionamento a ser feito é sobre a reflexão a partir de seu espaço proximal, ou seja, como o sujeito jovem percebe sua própria cidade: igual, diferente ou parecida com esta visão claramente percebida e apresentada pelo senso comum. O terceiro trabalho corresponde à dissertação de mestrado intitulada: “Espaços comunitários para a infância e a juventude na contemporaneidade da “terra brasilis”: o potencial na construção de cidades educadoras”, de autoria de Paulo Sérgio Souza Vasconcelos, publicado em 2014 e fruto do Programa de Pós- Graduação em Teologia da Escola Superior de Teologia (EST).
O principal objetivo do trabalho foi
analisar a importância dos espaços comunitários como territórios de convivência cidadã, nos quais o coletivo social possa vir a utilizá-los como locais indutores de uma Educação para o desenvolvimento humano, tanto para a Infância quanto para a Juventude. (VASCONCELOS, 2014, p.14).
A pesquisa de mestrado, com oitenta e quatro páginas, está dividida em quatro capítulos além da introdução: “cartografias conceituais”, “espaços educativos numa cidade educadora”, “a cidade educadora como espaço teológico” e “o potencial na construção de cidades educadoras”.
No segundo capítulo, intitulado “espaços educativos numa cidade educadora”, o autor aponta que:
A cidade como conteúdo didático-pedagógico possibilita a construção de caminhos para uma educação emancipadora. Reconhece a criança e o jovem como cidadãos e, portanto, necessitam ser ouvidos, principalmente nos espaços criados para eles, como a escola, a praça, o teatro, o parque, o clube, etc.. (VASCONCELOS, 2014, p.35).
Segundo esta visão, a cidade torna-se interlocutora dos anseios juvenis, ao apresentar equipamentos urbanos como a escola, a praça, entre outros, como espaços criados para as crianças e os jovens. Ainda assim, é notória a potencialidade do uso pedagógico da cidade, na medida em que esta é não apenas fonte de conteúdos curriculares nas grades formativas, mas também palco das principais cenas vividas pelos jovens urbanos: sua rotina diária.
A conclusão do trabalho está embasada no conceito de política pública, espaço e constituição cidadã. Não há especial inferência ao público das juventudes no capítulo final; entretanto, a textualidade apresentada formula situações e afirma que a cidade possui amplo potencial educativo, desde que políticas públicas sejam nela investidas.
Por fim, o quarto trabalho encontrado no banco de dados do IBICT foi a dissertação de mestrado intitulada: “O que restou da indignação? Juventude e representações sociais de cidade ideal e conflitos urbanos após as manifestações de junho de 2013”, de autoria de Carolina Carneiro Rocha, publicado em 2015 e oriundo do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
O principal objetivo do trabalho foi investigar a “articulação entre sistemas cognitivos e metassistemas sociais nas representações sociais de cidade ideal e conflitos urbanos para jovens de classe média urbana”. (ROCHA, 2015, p. 41). Nota- se que, novamente, um dos cenários espaço-temporal da pesquisa são as manifestações político-sociais ocorridas em junho de 2013 no Brasil, como já apresentado no trabalho de Maia em 2014.
O trabalho está estruturado em três partes básicas. Na primeira parte, intitulada “Um celeiro de novidades”, o tema é contextualizado e os conceitos-chave para a pesquisa são apresentados: cidade, juventude, psicologia social. Na segunda parte, denominada “Preparando o olhar”, são apresentadas as questões básicas da pesquisa: objetivos, espaço e público da pesquisa, procedimentos de coleta e
análise de dados. E, na terceira parte, com título “A árvore da indignação”, são apresentados os resultados e as discussões do trabalho.
Os sujeitos da pesquisa (jovens) apresentam os assuntos relacionados à cidade ideal: planejamento, educação, segurança pública, infraestrutura, mobilidade, respeito, participação e igualdade (ROCHA, 2015, p. 62). Afirma a autora:
O tema do uso do espaço urbano é concretizado nos diversos conflitos ocorridos na cidade de Fortaleza e em outras cidades-sede da Copa do Mundo tomadas por obras de mobilidade que dividiram opinião dos habitantes e mobilizaram diversas manifestações. O posicionamento contrário dos jovens sobre a remoção de comunidade ocupada, de aldeia indígena e de árvores para a realização de obras sugere que, nos conflitos ocorridos em 2013, a polarização da população possa ter se dado entre faixas etárias diferentes, confirmando o lugar da juventude como principal ator social nos protestos contra a Copa do Mundo. (ROCHA, 2015, p. 81).
Percebe-se, assim, uma forma de relação de jovens com sua cidade. Os sujeitos da pesquisa inferiram em assuntos relacionados a uma cidade ideal e, quando não estão de acordo com o que se está pondo em discussão em sua cidade, saem à rua para se manifestarem contrários ao cenário posto. Tal característica da juventude, de oposição à cultura dominante, é conhecida dos pesquisadores do campo e forma parte da multiplicidade encontrada com tais sujeitos.
Outros importantes temas trazidos à discussão pela autora, em seus achados de pesquisa foram: o direito à manifestação juvenil; a necessidade de democratização dos investimentos urbanos; a necessária priorização do público em detrimento do privado; a avaliação da política pelos jovens; o maior desejo de segurança pública nos espaços urbanos.
Para a autora, quatro tipos de cidade foram criados enquanto categoria de análise de seus dados de pesquisa, construídos a partir da relação com seus sujeitos de pesquisa (jovens): cidade pacífica; cidade organizada; cidade democrática e cidade ouvida. As categorias surgiram/tornaram-se perceptíveis a partir da noção de realidade e, ao mesmo tempo, do desejo de mudança dos jovens, para com sua cidade e seu espaço urbano.
Em resposta à pergunta inicial, já disposta no título da dissertação “O que restou da indignação?”, Rocha (2015, p.100-5) aponta alguns principais fatores:
a) “não se pode falar de cidades sem falar de pessoas”; b) “um dos grandes importantes temas das manifestações de 2013 é a sentida crise da democracia”; c) “a insatisfação com a administração pública e a luta com a corrupção”; e d) “a violência urbana”.
2.1.2 Banco de dados da associação nacional de pós-graduação e pesquisa