Partie I : Surveillance et aide au diagnostic d’un ouvrage
I. 3.3.3.4. Problématiques et applications
Para além do focus-group a entrevista foi a outra técnica de recolha de dados utilizada no nosso estudo. A decisão do uso da entrevista justifica-se, à semelhança do referido anteriormente a propósito do uso do focus-group, pela própria natureza do fenómeno em estudo – opinião – difícil de obter por outra via que não seja a palavra dos sujeitos, no caso concreto, os estudantes (Van der Maren, 2010, 1995; Rodrigues, 2006; Anderson, 1998; Bogdan e Biklen, 1994; Ghiglione e Matalon, 1992; Estrela, 1990).
A entrevista enquanto modo particular de comunicação verbal, que se estabeleceu entre o investigador e os estudantes, com o objetivo de colher dados relativos às questões de investigação formuladas, evidenciou-se ser uma técnica de grande utilidade na medida em que nos permitiu “dar voz” aos estudantes para obter aquelas informações que a observação direta não nos possibilita aceder, pois, ou remetem para o terreno dos pensamentos, motivações, crenças, valores ou para as dimensões do já passado, já acontecido, apenas recuperável por via do relato retrospetivo na interação com alguém que provoca a sua elicitação (Rodrigues, 2006).
A entrevista permitiu-nos, assim, a desocultação dos quadros de referência que sustentam as opiniões emitidas, bem como o aprofundamento dos significados atribuídos às experiências vivenciadas na primeira pessoa pelos estudantes. Como realçam Bogdan e Biklen (1994) a “(…) entrevista é usada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito. Permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspetos do mundo”(p.134).
As entrevistas consoante os graus de estruturação e de liberdade concedida aos sujeitos inquiridos, podem ser classificadas em estruturadas, diretivas ou estandardizadas; semi- diretivas ou semi-estruturadas e não diretivas ou livres (Quivy & Campenhoudt, 2003; Tuckman, 2002; Fortin, 1999; Anderson, 1998; Ghiglione e Matalon, 1992; Estrela, 1990; Patton, 1990; Ludke & André, 1986). À semelhança do focus-group, podem constituir uma estratégia única ou então, podem aparecer associadas a outras técnicas de recolha de dados, como no caso do presente estudo.
Optou-se pela modalidade de entrevista semi-diretiva ou semi-estruturada. Porém, tal opção, não nos dispensou de previamente elaborar um guião orientador da entrevista, o qual será apresentado adiante. Subjacente à utilização do instrumento produzido, esteve sempre a ideia de que este deveria ter uma natureza maleável e flexível, funcionando tão-somente como bússola norteadora que facilitasse “(…) tanto quanto possível, ‘deixar andar’ o entrevistado para que este possa falar abertamente, com as palavras que desejar e na ordem que lhe convier” (Quivy & Campenhoudt, 1998:194). Esta decisão, possibilitou que os estudantes, de acordo as suas caraterísticas e vivências pessoais, produzissem um discurso rico em informação sobre os temas em análise, garantindo-se simultaneamente que os tópicos considerados fundamentais fossem abordados e, ainda, que fossem colocadas as mesmas questões, ou questões muito semelhantes, a todos os estudantes participantes no estudo. Com efeito, uma das vantagens da entrevista semi-estruturada apontada pela literatura, consiste em esta permitir algum grau de comparabilidade entre os vários entrevistados, permitindo-nos compreender em que medida é que diferentes sujeitos se posicionam face às mesmas questões (Bogdan e Biklen, 1994).
Em suma, as entrevistas semi-estruturadas aos estudantes permitiram identificar e reunir um conjunto de dados resultantes de um “outro olhar” sobre o objeto de estudo, vindo complementar e dar consistência aos dados obtidos pela inquirição dos professores por via da técnica do focus-group.
Protocolo, setting e realização das entrevistas
Na preparação e realização das entrevistas procurámos ter em conta os requisitos metodológicos definidos pelos diferentes autores (Ghiglione e Matalon, 2010, 1992; Flick, 2005; Quivy & Campenhoudt, 2003; Tuckman, 2002; Anderson, 1998; Estrela, 1994; Bogdan e Biklen, 1994). Assim, definido o tema e identificados os estudantes a entrevistar, definiram-se os objetivos em função da revisão da literatura acerca do objeto de estudo e dos objetivos gizados para a investigação. A primeira etapa consistiu na conceção do guião orientador da entrevista (Anexo VII). Este foi estruturado segundo cinco blocos temáticos, cada um guiado por objetivos específicos, dos quais decorreu um formulário orientador de perguntas-tipo. As perguntas foram elaboradas de forma aberta, singular, clara e neutral, de modo a permitir aos estudantes a utilização dos seus quadros de referência, sem restrições ou imposições, no intuito de estes se expressarem de forma livre, uma vez que a resposta depende das condições da interrogação (Ghiglione e Matalon, 2010, 1992; Flick, 2005; Anderson, 1998; Bogdan e
Biklen 1994). Para além das perguntas foi também desenvolvidoum conjunto de tópicos que visavam operacionalizar as diversas dimensões consideradas pertinentes em relação às temática a abordar. Os tópicos funcionaram ainda, como recurso para a condução das entrevistas, garantindo que todos os aspetos e temas relevantes para a investigação fossem referidos no decurso da entrevista (Flick, 2005). Tal como referido anteriormente, relativamente ao focus-group, a ordem enunciada foi meramente indicativa, tendo sido adaptada, sempre que necessário, abrindo a possibilidade de os estudantes darem o seu ponto de vista não apenas acerca dos temas definidos, mas também sobre outros temas. No quadro que se segue apresentamos uma visão simplificada do guião, designadamente os objetivos de cada um dos seus blocos.
Blocos Temáticos Objetivos
Bloco I
Legitimação da Entrevista
Explicitar:
Objetivos e âmbito do estudo;
Importância da colaboração e reflexão sobre as questões lançadas;
Garantia da confidencialidade e anonimato;
Necessidade de registo (gravação video) da entrevista;
Motivação para a entrevista
Bloco II
A prática em contexto de trabalho na formação inicial
em Enfermagem
Identificar as representações dos estudantes acerca:
Da importância da prática em contexto de trabalho, enquanto dispositivo de formação inicial de enfermeiros;
Das possibilidades|limitações da prática em contexto de trabalho no que respeita aos contextos, processos e atores implicados.
Bloco III
Aquisições específicas da prática em contexto de trabalho e contributo docente
para esse efeito
Identificar as representações dos estudantes sobre:
O quê, e como se ensina e aprende na prática em contexto de trabalho;
Qual o contributo da prática em contexto de trabalho, para a construção de identidade profissional dos estudantes;
Qual o contributo docente para as aquisições efetuadas pelos estudantes durante os períodos de prática em contexto de trabalho;
Quais as caraterísticas dos professores contributivas|facilitadoras, ou não, das aprendizagens dos estudantes na prática em contexto de trabalho.
Bloco IV
Expectativas quanto à formação desejada
Perceber quais as expectativas dos estudantes acerca:
Dos modelos de formação ideais para prática em contexto de trabalho na formação inicial em Enfermagem;
Dos contextos de trabalho ideais para o desenvolvimento da componente prática da formação inicial em Enfermagem;
Do docente ideal para efetuar o acompanhamento|supervisão do estudante na prática em contexto de trabalho.
Bloco V
Informações complementares
Sintetizar
Os principais pontos de vista emergentes da discussão do grupo.
Recolher:
Elementos de caráter complementar que não tenham sido questionados|abordados e possam ser relevantes para o estudo. Quadro 3 - Síntese do Guião de Entrevista aplicado aos estudantes.
Antes da realização das entrevistas foi testado o guião concebido, no sentido de poderem ser aferidas as reações ao mesmo e efetuar eventuais modificações, pois “(…) o sucesso de uma entrevista depende da composição das perguntas, mas também, e
sobretudo, da habilidade de quem conduz a entrevista” (Quivy, 1998:183). Para tal, foram contatados três estudantes que não iriam figurar entre os participantes no estudo, que se disponibilizaram para o estudo preliminar. Feitos os respetivos ajustes e conscientes da complexidade da técnica de entrevista, demos então início formal às mesmas. As entrevistas foram marcadas segundo as disponibilidades dos estudantes participantes e, à semelhança das sessões de focus-group, decorreram no período compreendido entre dezembro de 2011 e novembro de 2012, em condições de realização idênticas ao mencionado anteriormente relativamente aos professores.
Explicitados os objetivos da entrevista, de forma a “(…) vencer a resistência natural ou a inércia dos indivíduos” (Quivy, 1998:183), foi entregue a declaração de consentimento informado e esclarecido (Anexo V), garantida a confidencialidade e o anonimato e, por fim, solicitada autorização aos estudantes para gravar as entrevistas em formato vídeo, o que foi aceite por todos. O desenvolvimento das entrevistas foi um processo gradual. Apesar de ser garantida a confidencialidade da informação (Estrela, 1994), os estudantes mostraram-se inicialmente retraídos na manifestação das suas opiniões, uma vez que esta situação implicava, por um lado, manifestarem-se e “exporem-se” acerca do tipo de relações que mantinham com a sua escola; com os seus professores; com as organizações de saúde onde realizaram os ensinos clínicos; com os orientadores|supervisores; com a equipa multidisciplinar e também com os utentes no decurso da relação de ajuda no processo de cuidar.
Procurou-se assim, do ponto de vista da conversação, manter sempre uma postura de escuta ativa, evitando dirigir as entrevistas e influenciar os entrevistados, promovendo um clima de informalidade. Fomos, sempre que possível, concedendo a palavra aos sujeitos, utilizando frequentes sinais verbais e não-verbais de reforço, estímulo, empatia e compreensão, evitando restringir a temática abordada, possibilitando o alargamento dos temas propostos e a informação espontânea sobre temas previstos no guião, mas ainda não abordados (Anderson, 1998; Bogdan e Biklen, 1994). Posto isto, foi notória uma maior “descontração” e abertura por parte dos estudantes, à medida que a conversa fluía.
Vencido o “gelo inicial”, as entrevistas decorreram num clima agradável, sendo de registar que a generalidade dos estudantes encadearam de tal forma o seu discurso e as suas reflexões que, por vezes, foi difícil gerir o fio condutor dos seus discursos e colocar as questões que tínhamos delineado no guião. No entanto, ao apercebermo-nos de que as respostas às questões constantes do mesmo iam surgindo, embora sem ser na
sequência prevista no mesmo, optámos por deixar fluir o discurso. Pontualmente, introduzíamos alguns tópicos, conscientes de que, embora correndo alguns riscos, o material que estávamos a recolher poderia ser enriquecido e corresponder melhor aos objetivos de pesquisa formulados.
Curiosamente, no final da entrevista, quando era dada a possibilidade aos entrevistados de acrescentar algo, a generalidade referia que “achava o estudo muito pertinente” e que “gostaria de ter mais oportunidades para debater algumas das questões abordadas durante a entrevista”, o que nos pareceu indiciar algum contentamento em relação à participação na entrevista e também justificar, de algum modo, a pertinência do estudo. Para todo este processo, parece ter contribuído o facto de as entrevistas terem ocorrido num clima de aparente informalidade.
Tal como no caso dos docentes, no final da entrevista, foi entregue uma pequena ficha de auto preenchimento para facilitar a recolha de alguns dados biográficos considerados relevantes para proceder à caracterização dos estudantes (Anexo VIII).
À semelhança das sessões de focus-group, também as entrevistas semi-estruturadas foram gravadas em formato vídeo (DVD) e posteriormente transcritas. A duração das sessões oscilou entre os 30 e os 60 minutos, das quais resultou, entre 40 a 120KB de verbatim. Os dados assim recolhidos foram transcritos, tendo-se constituído o corpus da análise sob a forma de protocolos (Anexo IX).
5. TÉCNICA E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS: ANÁLISE